domingo, 27 de maio de 2018

A Vida Secreta dos Animais (Peter Wohlleben)

Há quem diga que os animais não têm sentimentos, que todos os comportamentos se justificam pelo instinto e que coisas como a compaixão, o medo e o luto são elementos exclusivamente humanos. Mas será mesmo assim? Talvez não. Pelo menos, o que resulta deste livro - e de todos os exemplos e explicações nele contidos - é um cenário bastante diferente. Pois pode haver muito ainda por compreender, mas tudo indica que nada é tão simples quanto seria de esperar.
Conjugando explicações simples, experiências pessoais e estudos de diferentes origens, o que o autor faz neste livro não é ditar verdades absolutas - até porque não as há - mas apresentar possibilidades, algumas comprovadas, outras apenas intuídas, de uma visão bastante mais vasta do reino animal. E fá-lo de forma organizada, relativamente sucinta - os capítulos curtos dedicados a diferentes aspectos tornam mais fácil assimilar o conteúdo - e bastante completa. Diferentes tipos de comportamentos, associados a diferentes tipos de emoções, mostram que a vida dos animais é muito mais complexa do que se julga. E, desta percepção, resulta uma perspectiva bastante diferente das interacções entre humanos e animais, e também entre diferentes animais.
Além de facilitar a percepção, a divisão entre as diferentes facetas contribui para tornar mais clara a visão global - a tal visão de um sistema de relações muito mais complexo e variado do que, à primeira vista, poderia parecer. E, sendo certo que mais haveria a dizer nalguns aspectos - pois pelo menos algumas destas características parecem ter motivado vários estudos e investigações - também o é que, mais do que uma exposição exaustiva, o objectivo deste livro parece ser o de traçar uma imagem mais geral. Assim sendo, faz sentido a exposição sintética dos elementos mais teóricos, deixando aos exemplos práticos o papel de reforçar as ideias.
Não deixa de ser, até certo ponto, uma visão algo pessoal, pois, além do conhecimento geral, é às suas muitas experiências que o autor recorre para explicar os seus pontos de vista. Mas, mais do que limitar a perspectiva, esse lado pessoal tem o condão de criar uma sensação de proximidade, que facilita, de certa forma, a visualização de tudo o resto. As explicações são importantes, claro, tal como o que se sabe ou não cientificamente. Mas é o contacto do autor com os animais que torna os seus exemplos cativantes - e, mesmo que essa faceta não dê respostas definitivas, não deixa, ainda assim, de acrescentar às teorias uma base de experiência.
Tudo somado, fica a impressão de uma leitura em que se conjugam teorias, estudos científicos e experiências pessoais para realçar a verdadeira complexidade do mundo animal. Cativante e interessante, uma boa leitura.

Autor: Peter Wohlleben
Origem: Recebido para crítica

sábado, 26 de maio de 2018

A Mulher do Oficial Nazi (Edith Hahn Beer e Susan Dworkin)

Edith nasceu numa família judia em Viena e, rodeada pelo carinho da família, apaixonada e a estudar para se tornar juíza, tinha um futuro brilhante pela frente. Até ao dia em que Hitler invadiu a Áustria e, inevitavelmente, o seu mundo desmoronou. Algures entre a esperança e o desespero, teria de passar pelas provações dos campos de trabalho, de ver partir aqueles que mais amava e até de renunciar à sua identidade para sobreviver aos mais negros dos tempos. Sobreviveu, porém. E esta é a sua história.
Poder-se-á pensar, por vezes, que, sendo este período histórico tema de tantos livros de ficção e de não ficção, o assunto poderá estar, talvez, esgotado. Mas bastam algumas páginas deste livro para perceber que não é assim. Relato real de uma história específica, transporta-nos para o interior de um período aterrador e fá-lo com uma clareza tão perturbadora que é difícil não sentir o impacto das experiências vividas por Edith. E, escrito com uma fluidez que quase evoca um romance, mas com toda a nitidez de algo, sem dúvida, assustadoramente real, faz com que seja difícil ignorar os níveis de crueldade daquele tempo.
Sendo a história de uma sobrevivente, dificilmente se poderia pedir relato mais próximo. Mas há ainda um outro aspecto a marcar na história de Edith - e na forma como esta é contada. É que, no clima de medo constante vivido pela autora, é de onde menos se espera que emergem os maiores actos de bondade e as mais inexplicáveis crueldades. Não só as do regime - ainda que sejam essas, claro, a fonte de todos os males - mas a rejeição de pessoas que deveriam ser as mais chegadas e a protecção inesperada de um alegado inimigo. O lado certo não poderia ser mais fácil de identificar - e, porém, a complexidade das pessoas não se esbateu. 
Não é um romance, ainda que se leia como um, e na vida real não há finais definitivos. E, num período tão negro da história, são inevitáveis os desaparecimentos, as figuras que apenas num contacto fugaz deixaram a sua marca, para nunca mais voltarem a ser vistas. Mas a história de Edith, da inocência de uma juventude normal à calma possível depois do medo, é em si mesma o retrato de todo o contexto da época. E esse - com toda a crueldade e brutalidade dos nazis, sim, mas também com a indiferença dos que escolheram olhar para o outro lado - é algo de simplesmente assustador.
Só há uma coisa fácil neste livro: a forma como a fluidez da escrita e a expressividade com que tudo é narrado nos transporta para o interior da vida de Edith. O resto é um retrato duro e real - e, como tal, imprescindível. Vale, pois, muito a pena percorrer estas páginas, conhecer esta história. E ver o mundo tal como foi - e como não pode voltar a ser. 

Autoras: Edith Hahn Beer e Susan Dworkin
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Antes é Que Era Bom! (Michel Serres)

Provavelmente, já todos nós ouvimos dos mais velhos uma ou outra variante desta expressão: antes é que era bom! Mas será realmente assim? Quando se trabalhava de sol a sol, com poucos ou nenhuns direitos, quando os tormentos da guerra e do autoritarismo se espalhavam pelo mundo, quando comunicar com alguém levava semanas ou meses - se fosse sequer possível... Ainda assim, há quem insista: antes é que era bom. E, neste breve, mas muito certeiro, ensaio, o autor - com os seus oitenta e sete anos - vem mostrar como estão errados esses saudosistas.
Sendo um ensaio que, apesar da relativa brevidade, discorre sobre as mais distintas facetas da sociedade actual e passada, não é de esperar que seja uma análise exaustiva. Não o é, de facto. Mas, ao cingir-se ao essencial, faz com que os contrastes sejam mais vincados, as mudanças mais fáceis de detectar e a evolução bastante mais evidente. É um texto que dá voz ao saudosismo - para depois o desfazer em múltiplas facetas. E, não sendo particularmente aprofundado em nenhum dos seus aspectos, consegue, ainda assim, traçar um retrato global deveras esclarecedor.
Também muito certeiro é o sentido de humor que permeia todo o texto. Além de, claro, tornar o texto muito mais cativante, ao pôr em evidência o que não faz sentido no sempre tão presente saudosismo, realça os benefícios das diferentes formas de evolução, sem nunca perder de vista a necessária assimilação - e, claro, a forma como os pensamentos mudam gradualmente. Há, por isso, toda uma imagem global a surgir do contraste entre a Polegarzinha e o Velho Ranzinza. E uma certeza também: a de que, saudosismos à parte, o mundo continuará a evoluir. Até porque o tempo não pára...
Há ainda um último aspecto a destacar: a edição. Sendo como é um livro relativamente breve, e bastante sintético em termos de exposição de conteúdos, o aspecto visual diferente e apelativo dá ainda mais vida a um texto que já tem vida suficiente. Ao primeiro olhar, desperta curiosidade. E, ao longo da leitura, contribui também para reter na memória o essencial da sua visão.
Trata-se, portanto, de uma leitura rápida e simples, mas muito pertinente e esclarecedora. Além, é claro, de um livro bonito, o que, não sendo provavelmente o mais importante, ajuda também a tornar a leitura memorável. Cativante e muito interessante, uma boa leitura para ver com mais clareza o passado e o futuro.

Autor: Michel Serres
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Batman - Vigilante Noturno (Marie Lu)

Acabado de fazer dezoito anos - e de ganhar acesso à fortuna da família - o jovem Bruce Wayne anda à procura do seu lugar no mundo. Enquanto jovem milionário, é alvo da sempre indesejável atenção da comunicação social e, por mais que tente, nunca se conseguirá livrar dela. Mas algo está prestes a mudar na vida de Bruce. Quando se mete no caminho de uma perseguição policial, acabando por deter o criminoso, ganha também uma pena de serviço comunitário no temível Asilo Arkham, onde estão presos os mais terríveis criminosos. E é aí que vê Madeleine pela primeira vez. Enigmática e estranhamente fascinante, apesar do seu negro historial de crime, não lhe é difícil despertar a atenção - e a simpatia - de Bruce. Mas, associada aos Noturnos, um bando que ataca os ricos da cidade - e respectivos legados - o mais certo é que ela não seja que parece. Tudo o que diz deve ser visto como mentira. Mas porque é que Bruce tem a sensação de que talvez não seja bem assim?
Um dos aspectos mais cativantes deste livro - como, aliás, do anterior desta mesma série - é que, apesar de terem como protagonistas personagens sobejamente conhecidas, não é preciso saber grande coisa da sua história para apreciar este livro. Esta é a história de Bruce Wayne antes de ser Batman e, talvez por isso, de um Bruce um pouco mais inocente. E, sabendo-se pouco, muito ou nada sobre a figura de Batman, é fácil sentir empatia e proximidade para com este jovem Bruce Wayne, um pouco perdido na sua condição, mas sempre nobre e decidido a seguir o que julga estar certo.
Também particularmente marcante é a forma como as linhas aparentemente definidas entre o certo e o errado se esbatem ao longo da história. Bruce é a potencial vítima, mas é muito mais do que isso. E Madeleine... bem. A sua estadia em Arkham faz com que surja como uma criminosa. O que Bruce vai descobrindo sobre ela confere-lhe uma posição muito diferente. E a verdade, que nunca é bem uma nem outra, é algo bastante mais complexo e inesperado.
O que me leva ao elo que une todas estas facetas numa leitura intrigante, surpreendente e incrivelmente viciante. É que, a estas personagens inesperadamente complexas, junta-se o ambiente sombrio e fascinante de Gotham City e um enredo onde perigo, acção, humor, mistério e emoção surgem precisamente nas medidas certas. No início, é fácil entrar na cabeça de Bruce Wayne. E, uma vez lá dentro, difícil é não querer saber o que lhe acontece a seguir.
Não propriamente Batman, então, mas um Bruce Wayne em desenvolvimento - e um Bruce Wayne (para citar uma das personagens) irritantemente nobre. Uma figura em formação, mas que, com a força do que o faz mover e a intensidade das situações em que isso o envolve, protagoniza uma história que vale por si mesma, independentemente do seu percurso futuro. Uma história intensa, misteriosa e fascinante. Imperdível, em suma.

Autora: Marie Lu
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Somos os 99% (Marc Grañó e Gonzalo Fanjul)

Desigualdade. É uma palavra que parece estar em toda a parte, principalmente desde que a crise trouxe grandes mudanças e problemas sociais. Mas o que é a desigualdade? De que formas se manifesta e que consequências traz consigo? A resposta está neste livro que, através de cinco histórias muito distintas, ilustra as principais formas de desigualdade e o que se pode fazer para lidar com elas.
Uma boa boa palavra para caracterizar este livro será, inevitavelmente, pertinente, ou não fosse a desigualdade um elemento central - e um problema essencial - da sociedade. E um dos aspectos mais cativantes deste livro é que, apesar de construído de forma a ser acessível a leitores mais jovens, é igualmente pertinente e esclarecedor para leitores de todas as idades. Os exemplos simples, mas certeiros, acompanhados de explicações claras, mas nunca simplistas, põem em evidência as características essenciais desse grande monstro chamado desigualdade - e de que forma estes elementos se repercutem na vida das pessoas. O resultado é um livro claro, cativante e, acima de tudo, relevante, que pode - aliás, deve - ser lido por todo o tipo de leitores.
Além de esclarecedor, é também muito agradável de se ler, com a história dos seus protagonistas a dar vida e clareza a explicações que, de forma mais teórica, poderiam ter sido bem mais monótona. Além disso, os gráficos e ilustrações têm o condão de, além de tornarem o livro mais bonito, facilitarem em muito a visualização de alguns elementos importantes.
E é também um livro bastante completo. Não no sentido exaustivo - ou seja, não se perde em explicações e teorias económicas nem nada que se lhe pareça - , mas no sentido em que permite ficar com um retrato global bastante preciso das desigualdades sociais, sem se esquivar aos elementos mais sombrios, mas apresentando sempre também as possibilidade e soluções que se podem procurar.
Tudo somado, trata-se, pois, de um livro para despertar consciências, sejam elas mais ou menos jovens. Pertinente, cativante e muito agradável de ler, um muito bom livro para entender - e combater - as desigualdades sociais. Muito bom.

Título: Somos os 99%
Autores: Marc Grañó e Gonzalo Fanjul
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidades Topseller

Uma ilha bela e perigosa.
Um segredo escondido dos olhos do mundo.
Um barco naufraga nas turbulentas águas do Lago Superior, no Canadá. Entre os seus destroços são encontrados os diários do antigo faroleiro da remota e selvagem ilha de Porphyry, assim como a verdadeira história das suas filhas gémeas: Elizabeth e Emily.
Há décadas que Elizabeth, agora cega e a viver num lar de idosos, procura a chave para o seu passado. Contudo, sem poder confiar nos seus olhos para ler as páginas gastas dos diários, ela pede ajuda a Morgan, uma adolescente que cumpre serviço comunitário no lar.
Página a página, uma amizade improvável floresce, e enquanto Morgan lê, Elizabeth viaja até à sua infância, à ilha isolada e à memória da sua enigmática irmã gémea. Até que as coincidências nas histórias de vida de Elizabeth e Morgan lhes mostram que os seus destinos estão ligados à ilha de uma maneira que nunca imaginaram.
Uma história sobre promessa, identidade e lealdade.

Jean E. Pendziwol nasceu em Thunder Bay, no Canadá, e passou a sua infância a bordo do barco da sua família a explorar as ilhas e baías do mar interior.
Depois de trabalhar como escritora e fotógrafa freelance, a autora focou-se na sua família antes de publicar o seu primeiro livro infantil, No Dragons for Tea: Fire Safety for Kids (and Dragons).
O seu primeiro romance adulto, O Farol no Fim do Mundo, tornou-se um sucesso internacional, estando publicado em mais de dez línguas.

Do norte, chegam rumores.
Os mortos caminham novamente entre nós.
Será verdade?
A Rainha Vermelha está velha. Ainda assim, controla todo o poder no seu vasto império. Jalan Kendeth, o seu neto, não tem tais preocupações. A bebida, as mulheres e uma vida longe de todas as responsabilidades mantêm-no ocupado.
Por isso fica tão surpreso quando é chamado a ouvir estas histórias da boca de escravos e prisioneiros. Porque quereria a Rainha Vermelha envolvê-lo? Quando Snorri, um guerreiro nórdico, conta uma história de cadáveres devolvidos à vida e do Rei Morto, Jalan só pensa nas várias formas de o utilizar para ganhar dinheiro. São fantasias, o que conta. Mitos. Histórias de encantar.
E é por isso que Jalan fica tão frustrado quando a magia o liga a Snorri. Agora vai ter de ir ao norte desfazer o feitiço. O que será que os espera?

Mark Lawrence é um escritor britânico, nascido nos Estados Unidos, que tem vivido a sua vida entre estes dois países. Doutorado em matemática pelo Imperial College em Londres, trabalhou na América em vários projectos de investigação, nomeadamente no projecto de defesa antimísseis conhecido como «Star Wars».
Não acreditava que pudesse ser escritor, e ficou estupefacto quando uma modesta tentativa para conseguir agenciamento se transformou num contrato de representação global. Essa primeira aventura, a Trilogia dos Espinhos, está publicada na Topseller desde 2016. Com este livro, começa a segunda, A Guerra da Rainha Vermelha.

terça-feira, 22 de maio de 2018

Da Gaveta (Isabel Tallysha-Soares)

A Mãe mudou-se para a gaveta e, a partir daí, também a vida mudou. Agora, presa numa guerra que ela própria acolheu, sabe que precisa de enfrentar a sua própria mortalidade e encontrar respostas que não imagina que conhece já. Mete-se, pois, um avião e parte, sem saber que, no deserto, a aguarda algo que sempre conheceu - e uma verdade que, combatida por muitos, não deixa por isso de ser verdadeira. A descoberta é, acima de tudo, de si mesma. Mas, quando voltar, será ainda a mesma pessoa?
Provavelmente o aspecto mais fascinante deste livro - e tem-nos em abundância - é a peculiaridade da voz. Para a sua enigmática protagonista, a autora constrói um percurso de enigmas e fá-lo num registo situado algures entre a introspecção e a revelação, voltado ora para o interior, ora para o passado, ora para algo de indefinível e intemporal. E tudo é estranho, mas tudo flui com naturalidade, a um ritmo onde cada frase memorável abre caminho a novas revelações. 
Há como que uma fluidez que parece imitar os pensamentos da protagonista, partindo das recordações da infância e de uma perda profundamente sentida, para depois se abrir a um mundo mais místico, feito de fé e de mistério, de revelações que conduzem depois a um regresso mais sábio. Quotidiano e espiritualidade fundem-se num equilíbrio delicado e, quando os elementos místicos surgem de forma inesperada, parecem ainda assim estar no lugar onde pertencem. Tudo pertence, aliás, ao embalo da história - e é isso, mais que as respostas dadas ou implícitas - que fica na memória uma vez terminada a leitura.
Claro que os elementos místicos - e a forma como surgem - acrescentam também um foco de estranheza. Mas, longe de quebrar a fluidez do enredo, acrescenta-lhe uma nova envolvência, pois é colocada num ambiente estranho que a protagonista faz as maiores descobertas. Além disso, essa espécie de rito de passagem dá a tudo o resto um novo matiz, tornando a história mais vasta e mais marcante o percurso pessoal.
História de mistério e de estranheza, trata-se, pois, de um livro surpreendentemente natural, quer pelo percurso da protagonista, quer pelas revelações que esse caminho lhe traz. E, cativante pelo caminho e pela escrita, consegue surpreender sem grandes choques, mas antes numa jornada de revelação. Belo, cativante, surpreendente... muito bom.

Título: Da Gaveta
Autora: Isabel Tallysha-Soares
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Topseller

Bem-vindo ao incrível mundo do Feed!
Com apenas um pequeno chip, implantado no cérebro dos bebés ainda antes de nascerem, todos os problemas da sociedade podem ser resolvidos. Crimes violentos? Fraude? Impossível, tudo o que vemos é registado no Feed. Desaparecimentos? Faltas? Já não existem, o Feed põe-nos a todos em contacto. Esquecimentos? Distracções? Coisa do passado, o Feed não se esquece de nada.
Até ao dia em que o Feed é desligado.
Nesse dia, o Presidente dos Estados Unidos é assassinado, em directo, para todo o mundo. Pouco depois, o Feed cai. Já não há livros. Já ninguém tem computadores. Já ninguém se lembra, sequer, de como consertar as coisas mais simples. Toda a informação estava guardada no Feed. Sem ele, a civilização desaba.
E tu, quem serás sem o Feed?
Desesperados por reconstruírem alguma forma de subsistência, os grupos de sobreviventes espalham-se, desconfiados uns dos outros, paranóicos e sem rumo. Conseguirão reerguer a Humanidade?
Combinando a atmosfera distópica de Walking Dead com o potencial destrutivo da tecnologia de Black Mirror, Nick Clark Windo apresenta-nos todo um novo mundo. Ao retirar tudo às suas personagens, tira completamente o fôlego ao leitor. 

Nick Clark Windo é um escritor britânico que estudou Literatura Inglesa na Universidade de Cambridge e, mais tarde, Teatro na Royal Academy of Dramatic Arts. Para além da escrita, é produtor de cinema e coach de comunicação.
Quando a Luz Se Apaga é o seu primeiro romance, e vai ser adaptado para série pela Virgin e pela Amazon com o título original, The Feed.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Divulgação: Novidade Porto Editora

Uma história de coragem perante as adversidades e de um destino marcado pela força de uma paixão.
Nada fazia supor a Mauro Larrea que a fortuna que tinha conquistado fruto de anos de luta e perseverança se desmoronaria de um dia para o outro, graças a um inesperado revés.
Asfixiado com dívidas e afogado em incertezas, aposta os últimos recursos numa jogada temerária na esperança de se reerguer. Até que a perturbadora Soledad Montalvo, mulher dum negociante de vinhos inglês, entra na sua vida para o arrastar rumo a um futuro inesperado. 
Da jovem república mexicana à radiante Havana colonial, das Antilhas à Jerez da segunda metade do século XIX quando o comércio de vinhos com Inglaterra converteu a cidade andaluza num enclave cosmopolita e lendário, por todos estes cenários se desenrola As vinhas de La Templanza, um romance que fala de glórias e derrotas, de minas de prata, intrigas de família, vinhas e cidades fascinantes cujo esplendor se desvaneceu com o tempo.

Doutorada em Filologia Inglesa, Maria Dueñas é professora titular da Universidade de Murcia depois de ter já passado pela docência em várias universidades norte-americanas. É autora de trabalhos académicos e de muitos projetos educativos, culturais e editoriais.
Maria Dueñas nasceu em Puertollano (Ciudad Real) em 1964, é casada, tem dois filhos e reside em Cartagena.
O Tempo entre Costuras foi o seu primeiro romance, publicado pela Porto Editora, tendo sido adaptado à televisão e exibido em Portugal pela TVI.

Divulgação: Novidade Topseller

Numa noite gelada, ao regressar a casa, Neve Carey é abordada por uma mulher estranha e perturbada, na ponte sobre o rio Tamisa, que lhe entrega um envelope, lançando-se de seguida para as águas do rio.
Duas semanas mais tarde, numa altura em que a sua vida está cada vez mais caótica, Neve descobre que a mulher que se suicidou à sua frente lhe deixou de herança uma casa na Cornualha, o que parece ser a solução perfeita para os seus problemas.
Neve decide então mudar-se sozinha para a casa, mas, assim que lá chega, arrepende-se. Fica no meio de uma floresta sombria, tem um aspecto sinistro, com grades nas janelas, e coisas bizarras começam a acontecer. Em pouco tempo, a casa dos seus sonhos transforma-se no seu pior pesadelo. E a verdade é que esta esconde um segredo perverso… que mudará para sempre a vida de Neve.

Cass Green é uma autora bestseller internacional de thrillers psicológicos. Recebeu vários prémios literários como escritora de ficção para jovens adultos, assinando com o nome Caroline Green.
O seu primeiro thriller, The Woman Next Door, foi n.º 1 de vendas em e-book, e o segundo, A Casa na Floresta, foi bestseller do USA Today e do Sunday Times.
Cass Green é jornalista há mais de 20 anos, tendo colaborado com vários jornais e revistas. Vive actualmente em Londres com a família.

domingo, 20 de maio de 2018

Marcada para Morrer (Peter James)

Tudo começou com um grito ao telefone e um possível rapto que poderia ter outras explicações. Mas, desde o momento em que é chamado a tomar conta da situação, Roy Grace tem o pressentimento de que o caso é bastante mais grave do que parece. Como se não bastasse, foi descoberto um cadáver de há trinta anos numa obra e também esse caso levanta grandes suspeitas. Roy não tem mãos a medir. E, à medida que as horas passam e Logan não aparece, a gravidade da situação começa a tornar-se evidente. Principalmente quando começam a surgir indícios de que os dois casos podem estar relacionados.
Um dos primeiros aspectos que importa referir sobre este livro é que, apesar de pertencer a uma série bastante extensa, e de haver, de facto, referências a acontecimentos anteriores, é perfeitamente possível acompanhar todos os pormenores da leitura sem qualquer conhecimento dos volumes anteriores. O caso central é perfeitamente independente e, quanto aos percursos pessoais das personagens, todos os elementos do passado surgem devidamente contextualizados. O resultado é uma história que se sustenta por si mesma, conhecendo ou não as personagens de outras leituras.
Outra grande qualidade, possivelmente a principal, é o ritmo viciante do enredo. Os capítulos curtos e a oscilação entre diferentes pontos de vista, bem como a aura de mistério que parece rodear todos os acontecimentos e o clima de tensão associado à investigação tornam praticamente irresistível a vontade de ler mais um - ou vários - capítulos só para saber o que acontece a seguir. Além disso, e embora o caso seja, de facto, o centro da narrativa, os elementos pessoais, sejam eles de perdas passadas ou da simples relação de camaradagem, amizade ou amor entre diferentes personagem, acrescentam laivos de amor e de emoção que tornam tudo ainda mais intenso.
E há ainda uma outra surpresa. Sendo o mistério em si cheio de revelações, é apenas expectável que haja grandes reviravoltas no percurso - e também no que toca à imprevisibilidade este livro não desilude. Pode não ser difícil encontrar um suspeito plausível, mas a forma como as coisas evoluem é sempre surpreendente. E o final... bem, esse é completamente inesperado, não só pela forma como tudo termina, mas principalmente pelo delicado equilíbrio entre a resolução alcançada e as possibilidades futuras.
Por último, importa falar das personagens - e de Roy Grace, em particular. Investigador competente, moldado pelas experiências passadas e com uma vida pessoal que parece estar agora a desabrochar, é o tipo de personagem que desperta empatia sem se tornar demasiado perfeita. Muito pelo contrário. É também a falibilidade de Roy que o torna tão cativante, já que há no seu percurso pessoal (mais uma vez, passado e futuro) toda uma vastidão de potencial para descobrir.
Viciante será, portanto, uma boa palavra para descrever este livro, cheio de surpresa e mistério. Intenso, enigmático e tão cativante pela escrita como pelo enredo e pelas personagens que o povoam, prende desde as primeiras páginas e não deixa de surpreender até ao fim. Para devorar, em suma... e, no fim, para aguardar com expectativa o muito de bom que se poderá seguir. Recomendo.

Autor: Peter James
Origem: Recebido para crítica

sábado, 19 de maio de 2018

The Good Doctor of Warsaw (Elisabeth Gifford)


Varsóvia. O mundo está a ficar mais negro – principalmente para os judeus. Apesar de apaixonados e com a família e as suas vidas ali perto, Misha e Sophia precisam de fugir antes que seja tarde demais. Mas o caos está a espalhar-se por toda a parte e eles não tardam a descobrir que não têm alternativa a não ser regressar ao gueto. Dentro das suas paredes, há fome e medo – embora haja ainda uma centelha de esperança na forma de Janusz Korczak, com o seu refúgio para crianças. Mas os nazis têm outros planos e, ainda que ninguém no interior do gueto saiba realmente o que se passa no exterior, a verdade não tarda a tornar-se conhecida. Ninguém está a salvo, nem mesmo as crianças. E a sobrevivência – para os poucos que a conseguirem alcançar – terá um preço.
Um dos aspectos mais impressionantes deste livro é o facto de, apesar de seguir um grupo específico de personagens principais, traça um retrato global bastante preciso da situação da época. Baseado em factos verídicos e personagens reais, não conta apenas a história de Janusz Korczak e das suas crianças, ou de como Misha e Sophia sobreviveram. Conta a história do gueto, a história do medo e do desespero e do sofrimento contidos no interior das suas paredes. E ainda que, ao seguir todos estes elementos, a história se torne mais ampla – e, às vezes, um pouco mais distante, pois há inevitavelmente perguntas que ficam sem resposta – é tal o impacto das circunstâncias retratadas que a história se torna impossível de esquecer.
Outro aspecto bastante fascinante é a forma como a autora consegue pegar num momento tão negro da história e, ainda assim, para lá do medo e da brutalidade, mostrar fragmentos de amor e de decência. Korczak e a sua forma de pensar, a luz do seu refúgio no mais negro dos momentos. E as pessoas que, nas mais terríveis circunstâncias, se atrevem, ainda assim, a correr riscos para fazer o que está certo. O mundo não é a preto e branco, mesmo quando é fácil reconhecer o mal. E isso é bastante óbvio nesta história e nos seus momentos de tribulação e de esperança nos mais sombrios momentos.
Além disso, também a escrita contribui para a sensação de ver o mundo pelo olhar das personagens. Ao contar as verdades mais difíceis ao ritmo das perceções dos protagonistas, a autora transporta para os seus leitores o mesmo impacto de cada revelação. E, nos momentos mais perigosos, ou nos mais desesperados, o choque, a surpresa e o desespero sentidos aumentam ao vê-los tal como são materializados nas mentes e corações das personagens.
Não é uma leitura fácil. Não poderia, com uma tal história por base. Mas é, sim, relevante, perturbadora e, acima de tudo, impressionante no seu retrato de um dos momentos mais negros da história – e dos pequenos laivos de esperança que, mesmo em tais circunstâncias, têm ainda de existir. Uma história para recordar, portanto. Um livro para recordar.

Autora: Elisabeth Gifford
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Elmet - Vidas Desencantadas (Fiona Mozley)

Daniel vive com o pai e Cathy numa casa relativamente isolada. Foi o próprio pai que a construiu e a vida que levam está muito distante das normas e dos padrões do mundo para lá da pequena comunidade para onde se mudaram. Mas aquele é um meio peculiar, onde o poder está concentrado em poucas - e brutais - mãos e onde tudo se resolve sem recurso às autoridades. A casa, que o pai de Daniel disse que lhes pertencia, pertence afinal ao poderoso senhor Price e este tem as suas exigências para permitir que eles continuem ali. Exigências que implicam um preço incomportável...
Provavelmente o elemento mais fascinante deste livro é a forma como se entranha aos poucos, com a sua aura de mistério e de isolamento e a melancolia resignada (ou, pelo menos, até certo ponto) que parece definir o ambiente global. A história surge pelo olhar de Daniel, o mais novo dos três, mas já plenamente consciente da vida à sua volta, e assim, tudo surge com os contornos de uma relativa inocência que inevitavelmente conduz ao desencanto.
O resultado é um contraste poderoso: por um lado, há uma fase de crescimento - e de um crescimento nada fácil - em que ainda se vê o mundo como relativamente simples. Por outro, há uma descoberta gradual da brutalidade humana, dos limites da possibilidade de confronto quando os inimigos são mais e mais fortes, da percepção de que nada é seguro e tudo acaba. Às vezes, Daniel torna-se pouco mais do que um espectador impotente da sua própria vida. E esta consciência evoca uma tristeza tão forte - e expressa de modo tão impressionante - que é impossível não sentir com a personagem.
Há também como que um crescendo de intensidade na narrativa, que, partindo de uma relativa tranquilidade inicial, ainda que desde logo pautada pela omnipresente melancolia, evolui aos poucos para um cenário de maior tensão e de maior brutalidade, culminando num final que a serenidade aparente do início torna ainda mais devastador. E tudo - da calma à mais tremenda tempestade - num registo ao mesmo tempo contemplativo e revelador, em que os laivos de introspecção e de poesia contrastam vivamente com a crueldade dos actos. Com a crueldade da vida, aliás.
Não é - nem pretende ser - uma leitura viciante, pois a relativa languidez da evolução serve também o seu propósito na construção do ambiente. As coisas começam a acontecer devagar, mas, quando tudo se desencadeia, já não há forma de parar antes do fim. E é esta sensação de inevitabilidade, presente mesmo quando nada de mau parece acontecer, que torna tudo tão impressionante. Pois podemos não saber ao certo o que virá - mas virá deveras, e trará graves consequências.
Retrato de uma vida para lá das regras - ou com regras distintas - e, acima de tudo, de crueldade e isolamento no seio de uma comunidade, trata-se, pois, de um livro que cativa desde o início e que, com o seu ambiente soturno e fascinante, abre as portas de alguns dos meandros mais negros da condição humana. Recomendo.

Autora: Fiona Mozley
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Tenho de Saber (Karen Cleveland)

Vivian é uma analista da CIA e está prestes a fazer uma grande descoberta. Conseguiu acesso ao computador de um possível operacional russo e acredita que isso lhe revelará os nomes dos agentes de uma célula adormecida. Mas, quando encontra as respostas que procura, encontra também um choque: um dos agentes é o seu marido. Confrontada com a verdade, Vivian vê-se num dilema: denunciá-lo e destruir a sua família ou fazer com que a informação desapareça e correr o risco de passar o resto da vida na prisão? Por impulso e sob pressão, Vivian toma o que julga ser a decisão certa. Mas as consequências são terríveis - e agora a vida que tanto se esforçou por proteger e aqueles que ama estão inevitavelmente ameaçados.
Provavelmente o aspecto mais surpreendente deste livro é que, em vez de seguir o rumo expectável do mistério, alimentando a dúvida sobre se Matt será ou não culpado, a resposta é dada praticamente à partida. Isto permite que a história siga um rumo diferente, pois, partindo de um facto assumido, surge outro tipo de dúvidas e de possíveis manipulações. A forma como Vivian lida com a situação, associada às memórias do passado, que ganham uma nova perspectiva face à revelação presente, abre espaço a que a única certeza seja, de facto, a posição de Matt. E, assim, a esta surpresa inicial, surgem novas surpresas e possibilidades - e a dúvida, sempre a dúvida, sobre onde estão as verdadeiras lealdades das personagens.
Apesar de ser um livro de espionagem, não há propriamente grandes momentos de acção. Talvez também por Vivian ser uma analista e o seu trabalho ser feito essencialmente à secretária, mas principalmente porque a história vive mais de manipulação do que de ameaça - ainda que esta esteja também presente nos momentos necessários. Também isto é, até certo ponto, inesperado, mas faz também todo o sentido, já que a posição de Vivian pode envolver segurança nacional e informações confidenciais, mas é, acima de tudo, de protecção da sua vida pessoal. Ora, isto cria uma certa ambiguidade, porque, vistas de fora, há certas pistas que são mais evidentes para o leitor do que parecem ser para a protagonista. Ainda assim, o impacto emocional e a tensão palpável das circunstâncias talvez justifiquem esta relativa ingenuidade (para uma analista da CIA).
Ficam alguns pontos em aberto, sendo o próprio fim o maior deles, e também a impressão de alguns assuntos inacabados entre Vivian e Matt. Mas tendo em conta a tal vertente pessoal, faz algum sentido que assim seja, pois a história nunca chega a centrar-se em pleno no contexto mais global das acções de contra-espionagem. E, se fica uma certa curiosidade insatisfeita neste aspecto, fica também a sensação de que o difícil percurso pessoal de Vivian alcançou o ponto de repouso adequado.
Trata-se, pois, de uma perspectiva diferente para a clássica história de espiões russos: uma perspectiva mais privada e pessoal, mas igualmente intensa, cativante e surpreendente. No fim, ficam as emoções fortes do caminho e a sempre agradável sensação que fica depois de se ter mergulhado de cabeça numa leitura empolgante e surpreendente. Gostei.

Título: Tenho de Saber
Autora: Karen Cleveland
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 15 de maio de 2018

A Grande Recompensa (Barbara O'Connor)

A vida de Georgina não é nada fácil. Desde que o pai os deixou a todos, ela, o irmão e a mãe têm estado a viver no carro e, apesar dos seus dois empregos, a mãe de Georgina não ganha o suficiente para pagar uma renda. Por isso, Georgina decide ajudar - e tem um plano. Ao ver na rua um cartaz que oferece uma recompensa, Georgina descobre o que julga ser a solução para os seus problemas: roubar um cão, esperar que apareça um cartaz e depois devolver o cão em troca da recompensa. Só que, ainda que tudo pareça muito simples, há algo na mente de Georgina que lhe diz que tudo aquilo está errado. E, quando decide pôr em prática os seus planos, as dificuldades começam a manifestar-se.
História de escolhas erradas em circunstâncias muito difíceis, um dos principais aspectos a cativar para esta história é a forma como realça o que separa o certo do errado sem cair na tentação de simplificar as circunstâncias que, às vezes, levam a essas más escolhas. A vida de Georgina é, de facto, difícil e, embora isso não justifique as suas acções, confere-lhes uma perspectiva diferente. E, sendo este livro pensado para os mais jovens, esta capacidade de afirmar vincadamente o certo e o errado, mas também de demonstrar as dificuldades que levam a estes dilemas torna o livro muito mais pertinente e realista.
Mensagem à parte - e a mensagem bastaria - esta é também uma história muito cativante pelas aventuras e interacções que a protagonista vive em relação com as outras personagens. A vida familiar, o plano para roubar o cão, o próprio afecto que nasce para com o cão e as amizades perdidas e encontradas fazem de toda a história um pequeno poço de surpresas. Além disso, também nas personagens há uma ideia positiva: nem Georgina, nem Mookie, nem sequer a dona de Willy se enquadram nos preceitos da estrita normalidade, mas isso não lhes retira nem valor nem plenitude. Porque a diferença faz parte da vida - e aceitá-la faz parte da aprendizagem.
E depois há Willy, sempre adorável na sua presença canina, e um elemento de ternura mesmo nos momentos em que não é propriamente fácil entender os comportamentos da protagonista. E, sendo certo que há aspectos da história em que fica alguma curiosidade insatisfeita - como a história do pai de Georgina, por exemplo - a verdade é que o essencial está lá e a lição, essa, está perfeitamente clara.
Fica, então, a impressão de uma história simples, cativante e com uma mensagem bastante clara sobre o que é certo ou errado. Uma história de dificuldades e de descoberta, em que nem todas as escolhas estão certas, mas em que há sempre algo de importante a aprender. E, tudo somado, uma boa leitura.

Autora: Barbara O'Connor
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Topseller

Ninguém sabe exactamente quem é a mulher que aparece degolada numa das zonas mais mal frequentadas de Copenhaga. Quando a inspectora Louise Rick chega ao local, rapidamente percebe que se trata de uma prostituta. Na Dinamarca, no entanto, a prostituição é legal e não anda de mãos dadas com o crime. Quem estará, então, por detrás desta morte? Isso é o que a imprensa quer saber, e o caso torna-se rapidamente mediático.
Quando Louise recebe um telefonema da sua amiga jornalista Camilla Lind, pensa que ela quer informações acerca do crime. Mas o que Camilla lhe quer contar é que encontrou um bebé embrulhado numa toalha, no interior da igreja que frequenta. E o bebé não tinha um dos dedos do pé.
Estarão ambos os casos relacionados? Conseguirá Louise resolvê-los aos dois? E será que o que está a acontecer em Copenhaga tem ramificações ainda maiores?

Sara Blædel iniciou a sua carreira literária como fundadora de uma editora especializada em policiais e thrillers. Este trabalho aproximou-a do jornalismo, onde acabou por cobrir uma vasta gama de histórias policiais e julgamentos. Foi nessa altura – e enquanto esquiava na Noruega – que começou a imaginar a trama do seu primeiro romance, Green Dust, com o qual venceu o primeiro de inúmeros prémios, The Danish Crime Academy’s Debutant Award.
As Raparigas Esquecidas (Ed. Topseller, 2016) é o seu livro mais aclamado, o qual foi contemplado em 2015 com o Gyldne Laurbaer, o mais importante prémio literário da Dinamarca. Os seus livros são bestsellers internacionais e já foram publicados em 37 países.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Porto versus Lisboa (António Eça de Queiroz e António Costa Santos)

Base de uma rivalidade histórica, feita igualmente de provocações, invejas e afinidades, o inevitável duelo entre a Invicta e a Capital já despertou todo o tipo de discussões - mas nunca uma como esta. Em dezoito rounds, que percorrem aspectos tão diversos das duas cidades como o santo padroeiro, os grandes edifícios, o futebol, a gastronomia e até a história das grandes catástrofes, este é um duelo que contempla tudo o que de mais relevante Lisboa e Porto têm para dar aos seus residentes e visitantes. E fá-lo com um sentido de humor apurado, associado a uma apresentação esclarecedora e cativante destas diferentes facetas.
Sendo esta uma obra que põe frente a frente duas grandes cidades, apresentando-lhe os pontos altos além de estabelecer as inevitáveis comparações, importa começar por referir, além do texto, o aspecto visual do livro, com as várias fotografias presentes a dar mais vida a um texto já por si só cheio dela. Sendo de locais que se trata, e por mais precisas que sejam as descrições, faz sempre a diferença ter um elemento visual a acrescentar nitidez. Além, é claro, de tornar o livro mais bonito.
Mas passemos ao texto e às cidades. Aqui, há várias qualidades a destacar, começando pela variedade dos aspectos abordados, passando depois pela clareza com que tudo é descrito, num registo relativamente sucinto, mas que deixa a sensação de que tudo o que é essencial está lá e culminando numa visão global que é mais do que a simples soma das partes. No fim, fica-se com a impressão de conhecer Lisboa e Porto - na semelhança e na diferença - um pouco melhor do que antes de embarcar nesta leitura. E também a deveras agradável conclusão de que, afinal, "muito mais é o que nos une que aquilo que nos separa".
Ah, mas volto ainda um pouco atrás, para reforçar a tal questão do sentido de humor, que vive não só de certas histórias contadas, mas principalmente da saudável rivalidade que se faz sentir entre os dois autores nos diferentes textos. Há pequenos elos a unir os dois lados, deliciosas picardias e uma certa confissão final que, além de tornarem a leitura muito mais divertida, realçam a sempre importante ideia de que, diferentes à parte, as afinidades são sempre maiores e mais importantes.
Eu cá não sou do Porto nem de Lisboa. Mas, depois de ter assistido a este duelo, fiquei com a sensação de ter percorrido as ruas de ambas as cidades - e, principalmente, de as ter ficado a conhecer muito melhor. O caminho foi belo, cativante e cheio de surpresas. E isso é mais do que suficiente para que se imponha a necessária recomendação. Porque vale a pena assistir a este combate. Oh, se vale.

Autores: António Eça de Queiroz e António Costa Santos
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Porto Editora

Aos 17 anos, Molly sabe tudo o que há para saber sobre o amor não correspondido. É que a jovem já se apaixonou 27 vezes, mas sempre em segredo. E por mais que a irmã gémea, Cassie, lhe diga para ter juízo, Molly tem sempre cuidado. É melhor ter cuidado do que sofrer.
Quando Cassie se apaixona, a sua nova relação traz um novo círculo de amigos. Dele faz parte Will, que é engraçado, namoradeiro e um excelente candidato a primeiro namorado da Molly.
Mas há um problema: o colega de Molly, Reid, um cromo e fã incondicional de Tolkien, por quem ela jamais se apaixonaria… certo?
Uma história divertida e comovente sobre primeiros amores e a importância de sermos fiéis a nós mesmos.

Becky Albertalli é uma psicóloga clínica que teve o privilégio de acompanhar como terapeuta dezenas de adolescentes inteligentes, estranhos e irresistíveis. Também prestou serviço por 7 anos enquanto líder adjunta de um grupo de apoio à identificação de género, em Washington DC. Vive com a família em Atlanta

Divulgação: Novidade Suma de Letras

Aos 37 anos, a recém-divorciada Vanessa está no fundo do poço. Deprimida, a morar no apartamento da tia, sem filhos, dinheiro ou amigos verdadeiros. Richard, o seu carismático e rico marido, era tudo para ela. Mas, ao descobrir que ele está prestes a voltar a casar, algo dentro de Vanessa se rompe. A partir de agora, na sua vida, só existirá uma única obsessão: impedir esse casamento. Custe o que custar. Nellie parece uma jovem qualquer, bela e sonhadora, que chega a Manhattan para começar a sua tão sonhada vida adulta. Mas a personalidade tranquila que ostenta é apenas uma fachada. Na sua cabeça perdura um segredo que a fez fugir da sua cidade natal e que a impede de caminhar sozinha para casa. Ao conhecer Richard - bem-sucedido, protector, o homem dos seus sonhos -, Nellie finalmente começa a sentir-se segura. Ele promete protegê-la de tudo para o resto de sua vida. Mas, de repente, começa a receber chamadas misteriosas. Algumas fotografias são mudadas de lugar no seu quarto. O lenço que planeava usar no seu casamento desaparece. Alguém a está a perseguir, alguém quer o seu mal. Mas quem?

Greer Hendricks trabalha como editora de livros há mais de duas décadas. Também colabora com The New York Times e Publishers Weekly. A Mulher Entre Nós é seu primeiro romance.

Sarah Pekkanen era jornalista de investigação antes de se tornar autora de diversos best-sellers. Já escreveu para o Washington Post e o USA Today.

domingo, 13 de maio de 2018

Flora y Pomona y Otros Poemas (Erik A. Karlfeldt)

A natureza, o amor e os mitos. Contemplação, introspecção e observação. Tudo isto vive, de certa forma, neste livro, em que cada poema parece ser mais uma contemplação do mundo - ou de parte dele - do que propriamente uma expressão sentimental. Aqui, vivem os lugares, as estações e uma certa magia. E algumas histórias breves, um pouco estranhas, talvez, que dão a esta poesia um tom muito distinto do da poesia mais lírica e sentimental. 
Mais feitos de paisagem do que de sentimentos, são poemas que deixam a sensação de estar a percorrer locais - e não tanto estados de alma. Assim, é inevitável uma certa sensação de distância, como que de contemplar ao longe aquilo que o poeta observa e as histórias que tem para contar. E se, por um lado, esta distância atenua um pouco o impacto emocional (pois não há propriamente sentimentos transbordantes), por outro, parece ajustar-se perfeitamente ao ambiente remoto que apenas a passagem do tempo e das estações parece afectar.
Um outro aspecto que parece estar em perfeita harmonia com a distância das paisagens é a forma livre dos versos, que parecem fluir ao ritmo do olhar. Cada poema é uma contemplação de um cenário, ou de um momento ou experiência, e esta surge quase com a naturalidade de quem conta uma história. Com ambientes que não são propriamente familiares e sem grande espaço para demonstrações sentimentais, reforçam a sensação de estar a percorrer locais remotos - e, mais uma vez, é também por isso que o desapego emocional parece fazer um certo sentido.
É uma viagem, de certa forma, este conjunto de poemas. Uma viagem por locais desconhecidos e, acima de tudo, pela visão particular do poeta acerca desses locais. Não é a mais emotiva das leituras, é certo, mas não deixa de ser fascinante, à sua maneira. E há beleza nas palavras - e isso basta para fazer deste livro uma boa leitura.

Título: Flora y Pomona y Otros Poemas
Autor: Erik A. Karlfeldt
Origem: Aquisição pessoal

sexta-feira, 11 de maio de 2018

A Conspiração do Rei (Emílio Miranda)

Tudo começou na fatídica sexta-feira 13 em que a conspiração de Filipe, o Belo desencadeou o que viria a ser o fim da Ordem do Templo tal como até então era conhecida. Ainda assim, e apesar de todo o poder investido nesse plano, não seria assim tão simples derrubar uma ordem tão poderosa como os Templários. Parte dos segredos pode ter sido revelada - mas outros perduraram ao longo de séculos. E agora, quando uma nova investigação ameaça trazer à superfície esses segredos, há quem esteja disposto a tudo para lhes deitar as mãos - ou para evitar que sejam descobertos. No centro de tudo, está Júlio Pomar, um jovem arqueólogo fascinado pelos Templários, que, chamado à cena pelo seu antigo mentor, se vê envolvido numa delicada situação... Pois as respostas podem estar mais perto do que julga, mas não estão certamente desprotegidas.
Misturando conspirações, elementos históricos e até uns quantos laivos de poesia, este é um livro que cativa, em primeiro lugar, pela aura de mistério que parece envolver toda a narrativa. Ao percorrer diferentes pontos temporais, acompanhando também diferentes personagens, o autor traça ligações possíveis entre mistérios passados e hipóteses presentes, além de, principalmente na primeira parte, despertar algumas emoções fortes. E ao dar ao mistério a companhia do perigo faz com que os momentos mais intensos ganhem um muito maior impacto.
Por outro lado, fica uma certa ambiguidade. Se, na primeira parte, a empatia e o interesse no bem-estar de uma das personagens é quase irresistível, as mudanças sucessivas, acompanhadas do desaparecimento de algumas das figuras mais marcantes, parecem criar uma maior distância. E, ao fundir os tais elementos de vários géneros, abrindo espaço às longas divagações do protagonista, por um lado, e deixando em aberto as respostas sobre outros aspectos do enredo, surge também uma sensação de curiosidade insatisfeita, pois nas várias facetas - na investigação, no elemento histórico e nas relações pessoais - fica a ideia de que haveria mais a contar.
Há, ainda assim, muito de interessante para descobrir nesta leitura, a começar, desde logo, pelos elementos históricos e simbólicos associados aos Templários que, apresentados ao longo da narrativa, parecem definir uma presença muito forte em todo o livro. Além disso, e apesar das pontas soltas, a verdade é que não faltam momentos intensos ao enredo e as situações de perigo mantêm viva a curiosidade mesmo nos momentos em que não é propriamente fácil simpatizar com as personagens.
A impressão que fica é, pois, a de uma certa ambiguidade, face à estranheza de alguns aspectos deixados por aprofundar. Mas, principalmente, a envolvência de uma leitura cativante, agradável e com uma base histórica bastante interessante. Gostei, em suma.

Autor: Emílio Miranda
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade 4 Estações

Um romance repleto de vida que vai fazê-lo sorrir do princípio ao fim. Ferdinand Brun é um homem estranho. Não tira prazer de estar vivo, e permanece obstinadamente aborrecido. Ele passa o tempo a planear as partidas mais malvadas para aborrecer as pessoas que o rodeiam. Mas um dia as coisas mudam e a sua única amiga, Daisy, a cadela, desaparece. 

A vida de Ferdinand desmorona. 

Quando Juliete, de 10 anos e Béatrice, a mais moderna das avós, entram no seu mundo, Ferdinand dá por si a ter de aceitar todas as mudanças radicais...

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Violeta e Índigo Descobrem Almada Negreiros (Isabel Zambujal e Sebastião Peixoto)

Basta uma pincelada - e lá vão de novo o Índigo e a Violeta explorar a vida de um célebre pintor. Desta vez, o eleito é Almada Negreiros e a obra tão vasta que não faltam locais interessantes para os dois amigos visitarem. E, pelo caminho, além de conhecerem a história do pintor, visitam também outras figuras conhecidas...
Ao quarto livro lido desta colecção, a verdade é que não há nada de muito novo a acrescentar. Importa, por isso, realçar as mesmas características comuns que tornam estes livros cativantes e que, no global, formam uma colecção coesa em que cada livro se lê independentemente, mas o conjunto forma uma aventura mais vasta.
Todos os livros seguem essencialmente a mesma fórmula, oscilando entre os momentos divertidos protagonizados pelos dois amigos e uma breve síntese da vida do pintor. Isto num registo simples e cativante, em que as ilustrações cheias de cor - e aproximando-se, talvez, um pouco, ao traço do mestre retratado no livro - complementam o texto na perfeição. São livros simples, pensados para os mais pequenos - daí que a informação apresentada seja sempre bastante sucinta - mas que representam um bom ponto de partida para despertar a curiosidade e a vontade de saber mais. E são também livros com uma pequena base de interactividade, pois as actividades incluídas no fim lançam vários desafios aos pequenos leitores.
Olhando para este livro específico, sobressai a mesma impressão que dos restantes: a de um relato bastante sucinto, mas que permite conhecer o essencial sobre a vida do pintor. Relato esse que, complementado pelas ilustrações e pelas imagens de algumas obras mais conhecidas, ganha mais vida, alimentando a tal curiosidade face à descoberta da pintura e dos seus grandes nomes. 
Haverá mais a descobrir? Há sempre. Mas, sendo um livro infantil, importa que a informação essencial esteja presente, e que seja contada de forma clara, simples e divertida. E é precisamente isso que acontece. Para saber mais, há tempo e outros livros, uma vez criada a vontade de descobrir.
Não há nada de novo para dizer, mas quando os pontos comuns são bons, que importa? E este livro, tal como os outros volumes desta colecção, tem tudo para cativar os mais novos, abrindo-lhes as portas do mundo da pintura e despertando a curiosidade em saber sempre mais. Vale a pena, portanto, acompanhar as aventuras da Violeta e do Índigo.

Título: Violeta e Índigo Descobrem Almada Negreiros
Autores: Isabel Zambujal e Sebastião Peixoto
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Matar o Presidente (Sam Bourne)

Maggie Costello estava habituada às rotinas da Casa Branca e ao seu papel de conselheira próxima do presidente. Mas depois vieram as eleições e o impensável aconteceu. Agora, o novo presidente presenta tudo o que Maggie abomina e a Casa Branca tornou-se um ambiente tóxico para os poucos funcionários que transitaram da administração anterior. Mas há algo ainda mais grave a acontecer. Na sequência de uma crise que quase causou a destruição global, dois homens estão decididos a impedir o novo presidente de causar mais danos ao país e ao mundo, nem que para isso seja necessário matar o presidente. E, ao tomar conhecimento disto, Maggie é colocada perante um dilema: deixar acontecer e livrar o país de um louco, sabendo que o resultado será divisão e guerra? Ou denunciar a situação e proteger um homem que abomina?
Um dos aspectos mais interessantes deste livro, e um que se evidencia logo desde as primeiras páginas, é que, independentemente da parte conspiratória do enredo, no que diz respeito às figuras de poder, qualquer semelhança com a realidade não é pura coincidência. O presidente deste livro não tem nome, tal como o não tem a filha omnipresente, e as suas figuras mais próximas são evidentemente fictícias. Mas basta olhar para a realidade actual para reconhecer as semelhanças e, ao projectá-las para esta história, o autor confere um livro um impacto bastante maior, já que, por mais fictícias que possam ser as intrigas e conspirações, aquilo que move as figuras centrais não deixa por isso de ser algo muito real.
Isto contribui também para reforçar a intensidade da intriga, primeiro, porque certas posições das personagens despertam inevitavelmente emoções - e aversões - fortes, e principalmente porque torna mais fácil compreender o que faz mover as personagens. Maggie, em particular, está numa posição delicada, com as suas acções passadas e divisões presentes a ensombrar cada passo que dá. Mas também Kassian e Bruton, com a sua decisão impossível e a forma como precisam de lidar com as possíveis consequências das escolhas tomadas. E há também elementos pessoais que, num enredo em que todos parecem correr contra o tempo, abrem espaço a pequenos laivos de emoção que tornam tudo mais real.
Com o crescendo de intensidade da intriga, que culmina num final particularmente dramático, há alguns aspectos que parecem passar para segundo plano - nomeadamente no que diz respeito a algumas personagens secundárias. Fica, por isso, uma certa curiosidade insatisfeita quando ao que mais poderia ter acontecido a estas personagens. Entende-se, ainda assim, tendo em conta a intensidade com que tudo culmina, que certos aspectos secundários tenham de ficar para trás. E quando ao ponto em que a história acaba, entre a revelação e as possibilidades futuras... bem, tendo em conta o cenário, dificilmente poderia ser mais adequado.
Com um enredo surpreendente e um conjunto de personagens bastante fortes, trata-se, portanto, de um livro cheio de intrigas e conspirações, capaz de surpreender a cada novo desenvolvimento. Intenso, cativante e com uma muito actual dose de realidade, uma boa leitura.

Título: Matar o Presidente
Autor: Sam Bourne
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 8 de maio de 2018

Os Humanos (Matt Haig)

O professor Andrew Martin fez uma descoberta matemática revolucionária - e, no mesmo dia, foi levado por extraterrestres para impedir a revelação dessa descoberta e todos os progressos que ela traria. Agora, há um alienígena no seu lugar, alguém que tem de obter informação, descobrir a quem o professor contou sobre a sua descoberta e eliminar todas as provas e pontas soltas. Só que estudar os humanos e ser humano são coisas muito diferentes. E, à medida que começa a conhecer a família, os amigos e todas as muitas peculiaridades da espécie humana, o extraterrestre que ocupou a vida de Andrew começa a questionar a sua missão. O segredo está contido e, independentemente disso, sabe que não pode matar aquelas pessoas. Mas, se não o fizer, outro o fará por si... Que escolha lhe resta, então?
Há uma estranha magia que acontece quando percorremos as páginas de um livro e encontramos lá dentro um bocadinho de nós. Esta é uma das qualidades mais maravilhosas dos livros de Matt Haig - e este não é excepção. Basta a estranheza da perspectiva de que a história é contada - pelo olhar de um alienígena - para pôr em evidência as estranhas e fascinantes contradições da natureza humana. E, à medida que se acompanha a evolução deste peculiar protagonista, a verdadeira força subjacente a estas contradições mostra-se em toda a sua complexidade. Ser humano é acertar e errar, ter a certeza e duvidar, questionar tudo, todos, até a própria vida... e encontrar razões para continuar quando tudo parece impossível. Andrew - ou o extraterrestre em forma de Andrew - descobre tudo isto por si mesmo. E, ao fazê-lo, realça a grande maravilha em tudo contida. É mágico. É belo. É fascinante. E é o tipo de percurso que nos recorda o que realmente importa.
Matt Haig é exímio a expressar vulnerabilidade - talvez seja por isso que é tão fácil entender e sentir com as personagens. Mas também a própria escrita, das frases memoráveis à forma como, de um momento simples, nasce o máximo impacto, contribui para esta marca tão forte. É como que um dom de dizer precisamente a coisa certa com as palavras certas, algo que se grava na memória mesmo na mais bizarra das situações. E bizarria não falta neste livro, ou não fosse esta uma história de extraterrestres. Mas, acima disso, está o que a vida tem de mais importante e universal: amor, família, amizade, coração. Vida.
Mas voltando à história. Embora o protagonista seja um extraterrestre e a linha principal do enredo seja o desempenho da sua missão na Terra, um dos aspectos mais fascinantes neste livro é que, peculiaridades à parte, o novo Andrew manifesta muitas das melhores características humanas. E mais do que isso, aprende à medida que avança. Por isso, não é tanto a missão que traz consigo, mas o seu percurso de descoberta e revelação que torna tudo tão intenso e cativante. E, sendo certo que são os momentos emotivos o que mais marca (e a forma tão adequada como tudo termina), também não faltam momentos de perigo e tensão, situações caricatas e divertidas e um espaço de introspecção onde é possível encontrar muito de familiar. Equilíbrio, em suma. É essa a base deste livro. Equilíbrio e emoção.
No fim, fica esta imagem poderosa - a de um retrato cativante e particularmente certeiro do que realmente nos torna humanos, traçado sob a forma de uma história com tanto de divertido e de comovente e repleta da pura magia da descoberta. Belíssimo, cativante e brilhantemente escrito, um livro que não posso senão recomendar a todos. Mas mesmo todos. Leiam-no.

Título: Os Humanos
Autor: Matt Haig
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 7 de maio de 2018

O Bebé que... Não Gostava de Televisão (Rui Zink e Manuel João Ramos)

Não importa que seja ainda muito pequeno - além da sua já conhecida tendência para as birras, este bebé sabe muito bem o que quer e o que não quer. E o que não quer é... ver televisão. Não é uma questão de programas ou de horários sequer. O bebé não gosta da televisão e não se inibe de a desligar. Porque será? Ninguém parece conseguir encontrar uma explicação... até ao dia em que a explicação os encontra a eles.
Tal como aconteceu com O Bebé que... Fez Uma Birra, um dos primeiros aspectos a cativar para este pequeno livro é a cor, já que, sendo um livro infantil e uma história com um bebé como protagonista, faz todo o sentido que a imagem conte tanto como as palavras. E talvez seja por isso que a harmonia é tão óbvia, pois texto e ilustrações conjugam-se num todo bonito, cativante e eficaz. Afinal, não são assim tantas páginas e, no entanto, contêm uma história capaz de cativar os mais pequenos - e de despertar sensações de empatia nos... menos pequenos. As imagens coloridas prendem a atenção - e depois a história faz o resto.
E o que faz a história, afinal? Bem, primeiro intriga, naturalmente, pois a perplexidade do caso, associada às muitas tentativas de encontrar uma resposta, fazem desta pequena história um mistério em poucas páginas. E depois surpreende, enternece e arranca até um sorriso, pois as respostas são, ao mesmo tempo, as mais simples e as mais inesperadas. Tudo muito sucinto, muito directo - e, principalmente, muito eficaz.
É um livro infantil, naturalmente. Mas não deixa de ser curioso notar a proximidade e reconhecimento que uma história tão breve consegue despertar em leitores adultos. Aliás, aquela última página contém todo um outro significado escondido - e uma verdade deveras actual. E até a... relação do bebé com a televisão parece ter uma mensagem interessante sobre as coisas que realmente importam. 
Muito simples, muito breve e, principalmente, muito divertido, eis, portanto, mais uma boa história protagonizada pelo bebé mais decidido do mundo. Uma boa história, em suma, para miúdos e menos miúdos.

Autores: Rui Zink e Manuel João Ramos
Origem: Recebido para crítica

domingo, 6 de maio de 2018

A Minha Avó Pede Desculpa (Fredrik Backman)

Elsa tem quase oito anos e sabe que é diferente. Tem uma imaginação desenfreada e, talvez por ser um bocadinho excêntrica, não consegue enquadrar-se na escola e a única verdadeira amiga que tem é a avó. Só que a avó, que sempre a maravilhou com histórias da Terra-de-Quase-Acordar, está prestes a deixá-la e, antes de partir, deixa-lhe uma última missão. Primeiro, Elsa tem de entregar uma carta e de levar um pedido de desculpas a um dos moradores do seu prédio. Mas Elsa está longe de adivinhar que essa carta é apenas o início de uma grande descoberta - e da construção de um novo retrato da avó que sempre amou - e que sempre a amou - mas que talvez nunca tenha conhecido verdadeiramente.
Estranha (e deliciosa) mistura de inocência e de estranheza, este é um livro que assenta num delicado equilíbrio entre o real e o imaginário. Elsa vive tanto no mundo real como no mundo que a avó construiu para ela. E se, no início, tudo parece ser apenas uma sucessão de excentricidades (divertidas, é certo, mas apenas excentricidades), à medida que a narrativa evolui e as memórias, relações e histórias pessoais das várias personagens começam a vir à superfície, tudo ganha uma dimensão diferente. A história torna-se mais intensa, mais complexa - e fá-lo sem nunca perder a leveza característica de uma aventura vista pelos olhos de uma criança de sete anos. 
Há mais realidade, muito mais, do que de início poderia parecer. Mas há também um mundo imaginário vastíssimo - o tipo de imaginário que apoia, que ensina, que salva. Pois não é disso que vivem as histórias? E também isso faz parte do que marca neste livro: à medida que descobre a realidade da avó, Elsa vai também recordando as muitas fascinantes histórias da Terra-de-Quase-Acordar. E, quando os paralelismos se tornam claros, a imagem global é algo de brilhante. No fim, nenhuma personagem é exactamente como era no início. Elsa cresceu mentalmente, e não foi a única. E acompanhar esse crescimento, essa descoberta, com este tão peculiar grupo de personagens é algo de mágico a acontecer.
E há uma estranha beleza na forma como isto acontece, beleza que se estende desde a forma como a história é contada às muitas facetas da história em si. O crescimento das personagens, os momentos emotivos em contraste com as situações caricatas e divertidas, a forma, até, como as verdades do mundo começam a abrir-se para uma protagonista ainda tão inocente. Tudo isto é cativante e enternecedor e igualmente capaz de arrancar lágrimas e gargalhadas. É o tipo de história - o tipo de personagem - que abre caminho para o coração de quem a descobre. E também isso é magia, de certa forma.
É toda uma lição, esta aventura. Uma lição de perda e de descoberta, de aceitação, de perdão e de amor. E é, acima de tudo, uma aventura: uma aventura pelos caminhos da realidade, numa história toda ela povoada de gente estranha, de emoções fortes e de infinita imaginação. Estranho, sim, mas estranhamente enternecedor, cativa tanto pelas pequenas irritações iniciais como pela subsequente revelação de corações maiores. E tudo - mas mesmo tudo - converge, no fim, para todo um reino de doçura. Descubram a Elsa. Vai valer a pena. Muito.

Autor: Fredrik Backman
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 4 de maio de 2018

O Que Perdemos (Zinzi Clemmons)

Thandi cresceu entre dois mundos e, talvez por isso, sente que não pertence a nenhum. Criada na Pensilvânia, mas com raízes familiares na África do Sul, parece mover-se nos intervalos que as divisões raciais criaram e, por isso, não consegue deixar de se sentir diferente. E, quando a doença se abate sobre a mãe, Thandi começa a ver ainda uma outra faceta do mundo: a sombra da perda, a dor, o silêncio, a certeza de que a vida continua - mas sem explicações para o como. Dividida entre quem é e o que esperam que seja, tenta construir a sua vida à sombra da perda... mas a vida nunca se faz de apenas uma perda.
Narrado em pequenos fragmentos e oscilando entre o que parecem ser diferentes fases da vida da protagonista, este é um livro que marca mais por impressões do que propriamente por acontecimentos. Há muito a acontecer, na verdade - Thandi cresce, começa a descobrir-se, alimenta relações que depois se desfazem, regressa às origens, interage com a família, perde, ressente-se, perdoa. E, no entanto, é a forma como a protagonista lida com tudo isto que realmente cativa: as suas introspecções, o caminho emocional que percorrer, até mesmo a forma como analisa (ou tenta analisar) racionalmente as realidades da vida que a rodeia... Mais que os acontecimentos em si, são estas análises e percepções emocionais que ficam na memória, moldando a imagem de uma protagonista cuja vida interior é muitíssimo mais vasta que a exterior.
É certo que, por vezes, este registo fragmentário deixa sentimentos ambíguos, pois, uma vez que os acontecimentos acabam por ficar, de certo modo, na sombra, fica também uma certa curiosidade insatisfeita sobre a vida das outras personagens para lá da sua relação com Thandi. Faz, porém, um certo sentido que assim seja, pois, sendo um relato tão profundamente pessoal - e visto da perspectiva da protagonista - é natural que o mundo as coisas sejam vistas como que em função dela. Além disso, esta distância pode esbater um pouco os contornos das outras personagens, mas não retira força às relações. Relações estas que, no seu nítido contraste com a solidão interior, vêm também realçar a complexidade da vida emocional de Thandi.
E há ainda um outro aspecto peculiar. É que, apesar de ser essencialmente uma historia de crescimento interior, há várias questões relevantes ao longo deste livro, não só no que diz respeito à mortalidade e às formas de lidar com a perda de um familiar, mas também nas questões raciais e da história da África do Sul. A visão é, claro, parcial - moldada pelas percepções da protagonista. Mas não deixa de ser bastante certeira e de despertar várias questões pertinentes.
No fim, fica a impressão de uma história profundamente pessoal, mas também de um olhar aberto ao mundo. Uma história de perda e de continuidade, em que nem todas as respostas são claras - e há também coisas que não têm respostas - mas tudo tem o seu lugar e o seu impacto no cenário global. Complexo, pertinente e com uma escrita muito cativante, uma boa leitura.

Título: O Que Perdemos
Autora: Zinzi Clemmons
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Jogos Cruéis (Angela Marsons)

Kim Stone acaba de resolver um caso que lhe mexeu particularmente com as emoções e não está plenamente convencida de que as coisas estejam tão claras como parecem. O que se segue, no entanto, parece ser bastante simples: o cadáver de um violador encontrado numa viela e a vítima que confessa o crime. Mas, mais uma vez, é tudo demasiado simples e, quando outras relações e possibilidades começam a surgir, o instinto de Kim começa também a manifestar-se. Nem o caso que todos julgavam encerrado tem já todas as respostas, nem o cadáver na viela é uma simples vingança. E, deste último caso, há nas sombras um adversário muito mais perigoso - principalmente para alguém com o passado de Kim Stone.
Uma das principais qualidades deste livro - e diga-se desde já que qualidades não lhe faltam - é a facilidade com que consegue transportar o leitor para dentro do enredo. Os capítulos curtos, a forma directa e precisa como acompanha as acções e motivações das diferentes personagens e o equilíbrio eficaz entre as várias facetas do enredo aliam-se a um núcleo de personagens fortes e cativantes para criar uma leitura simplesmente irresistível.
Num livro em que tudo converge para um equilíbrio perfeito, há, ainda assim, várias facetas a destacar. E a primeira é, naturalmente, a própria Kim Stone. Se já no livro anterior o carisma e a força das personagens era um ponto crucial para o impacto da história, este segundo livro da série eleva isso a todo um outro nível. Ao aprofundar mais o passado de Kim, revela vulnerabilidades e marcas que tornam mais fácil compreender o que a faz mover. Ao explorar as suas relações pessoais, além das profissionais, retrata uma personagem mais completa - e mais complexa - do que a simples figura de alguém que investiga um crime. E ao expandir também o universo das personagens que a rodeiam, misturando facetas pessoais e profissionais, relações de trabalho, de amizade e até... bem, mais delicadas do que isso, também o mundo por onde Kim se move se torna mais nítido e marcante.
E, sim, as personagens são a alma do livro, e isto não se aplica só a Kim, mas também (e especialmente) a Bryant, com o seu delicioso sentido de humor. Mas estas características sobressaem ainda mais por se manifestar num enredo cheio de intrigas e segredos e reviravoltas. Ambos os casos são marcantes à sua maneira. Ambos chocam. Ambos perturbam. E ambos assentam num muito eficaz crescendo de intensidade que resulta num final avassalador. Além, é claro, de abrirem uma janela para algumas das facetas mais sombrias da condição humana - o que não deixa de ser, ao mesmo tempo, fascinante e assustador.
Com um núcleo de personagens brilhantemente construídas e um enredo cheio de surpresas e de mistérios, trata-se, pois, de um livro que intriga desde as primeiras páginas e não deixa de surpreender até ao fim. Viciante, intenso, repleto de momentos marcantes e de personagens memoráveis, um livro impossível de largar. Brilhante.

Título: Jogos Cruéis
Autora: Angela Marsons
Origem: Recebido para crítica