terça-feira, 24 de abril de 2018

O Assassínio de Cinderela (Mary Higgins Clark e Alafair Burke)

Laurie Moran sabe como ninguém que o sucesso pode ser fugaz e, apesar do êxito do primeiro episódio do seu programa, Sob Suspeita, esse sucesso só durará se encontrar um novo caso à altura. E parece tê-lo encontrado. Susan Dempsey foi morta na noite em que devia ter ido a uma audição em casa de um realizador que viria a tornar-se famoso - e, vinte anos passados, o culpado nunca foi encontrado. A premissa do programa - entrevistar os possíveis suspeitos, obter nova informação, quiçá, até, contribuir para a resolução do caso - encaixa que nem uma luva naquela história. Mas a verdade é que há muitos segredos em torno da morte de Susan Dempsey - e há quem queira que eles não venham à superfície. Laurie está empenhada na descoberta da verdade - mas não está a colocar-se, bem como à sua equipa e à sua família, na mira de um assassino?
Talvez, em parte, por várias das personagens serem já figuras conhecidas (a história de Laurie vem do livro O Azul dos Teus Olhos), mas também devido à forma como a história é contada, num estilo directo e que acompanha os passos das diferentes personagens, há algo neste livro que vicia às primeiras linhas. É fácil entrar no ritmo da narrativa e, à medida que as revelações vão surgindo e os perigos se tornam mais evidentes, é irresistível a vontade de ler mais um capítulo - ou vários - só para saber o que acontece a seguir.
Basta o enredo, pois, para garantir uma leitura praticamente compulsiva, com as suas surpresas e reviravoltas e um crescendo de intensidade que culmina num final particularmente forte. Mas há ainda um outro aspecto que reforça ainda mais este impacto: a construção e o desenvolvimento das personagens. No caso das já conhecidas, cativa principalmente a evolução nas relações, o crescimento (principalmente de Timmy) e a forma como o passado parece funcionar como motivador, no caso de Laurie. Nas novas personagens, surpreende a diversidade de motivações, os segredos e mistérios e a forma como estes moldam a evolução do enredo e, principalmente, a capacidade de - tal como no programa de Laurie, aliás - revelar complexidades insuspeitas sob a imagem inicial do cliché.
Há ainda alguns elementos de contexto que, ainda que desenvolvidos apenas na medida em que servem o cenário global, acrescentam novas perspectivas à história. A existência de uma igreja com segredos a esconder, por um lado, e a de uma empresa cujas origens parecem ser um pouco dúbias, acrescentam possibilidades a um caso já cheio de mistérios. E também isto contribui para alimentar a tal necessidade de respostas que vem reforçar o impacto das revelações finais.
Trata-se, portanto, de um livro que, reconstruindo um caso do passado e trazendo de volta personagens de uma história anterior, reforça o potencial de uma série que tem tudo - mas mesmo tudo - para cativar. Intenso, surpreendente e cheio de revelações, um livro viciante e uma série para continuar a acompanhar. Recomendo.

Autoras: Mary Higgins Clark e Alafair Burke
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidades Topseller

Uma cidade a recuperar de uma tragédia.
Um pirómano anda à solta em Colmstock, na Austrália. Incendiou o tribunal da cidade, e um rapaz que ficara encurralado no interior do edifício morreu.
Uma jovem aspirante a jornalista à procura de um furo.
Rose Blakey sempre sonhou em ser jornalista, mas todas as candidaturas que envia para os meios de comunicação social são rejeitadas. Tudo o que precisa é de uma história que a faça dar o grande passo da sua vida, e essa história finalmente aparece.
Pequenas bonecas de porcelana cheias de segredos.
Algumas semanas após o incêndio no tribunal, começam a aparecer à porta de certas casas bonecas com rostos idênticos aos das crianças que aí vivem.
A população fica aterrorizada, pois suspeita-se de que um pedófilo possa estar envolvido, e a polícia desvia a sua atenção do incendiário para este caso. Rose começa a escrever artigos sobre o tema, que são publicados num jornal, ganhando uma dimensão cada vez maior à medida que vão sendo divulgadas mensagens do pedófilo. Mas numa cidade em que toda a gente guarda pequenos segredos, a verdade torna-se difícil de encontrar.

Anna Snoekstra nasceu em Camberra, na Austrália, em 1988. Estudou Escrita Criativa e Cinema na Universidade de Melbourne, frequentando posteriormente o curso de Guionismo no Instituto Real de Tecnologia de Melbourne.
Após concluir o ensino superior, Anna Snoekstra começou a escrever guiões para filmes independentes e para peças de teatro, tendo escrito também uma série de contos que foram publicados e premiados.
Actualmente, vive com o marido e o seu gato, dedicando-se à escrita a tempo inteiro.

Kit é a rapariga mais gira da escola. David é um rapaz solitário, incapaz de interagir com os colegas. Ele sabe que é pouco provável que Kit alguma vez repare nele.
Até ao dia em que Kit, cansada das conversas fúteis das amigas, decide almoçar na mesa de David. A química é imediata e os dois passam a partilhar o tempo das refeições. Fruto desta nova e inesperada amizade, David começa a aprender a relacionar-se com os outros, e Kit, ainda a recuperar da trágica e recente morte do pai, encontra o ombro de que precisava.
Kit só conseguirá reaprender a viver se descobrir a causa do acidente do pai e, sabendo disso, David decide ajudá-la. Mas nenhum dos dois está preparado para o mistério que estão prestes a desvendar, e é aí que a sua amizade é posta à prova.

Julie Buxbaum é uma autora bestseller do New York Times. Iniciou a sua carreira profissional como advogada. No entanto, a sua paixão pela escrita e pelas palavras levou-a a abandonar a advocacia para se dedicar a tempo inteiro aos livros.
O seu percurso enquanto escritora conta já com dois romances para adultos e, ainda, com o internacionalmente aclamado Conta-me Três Coisas (ed. Topseller, 2017), o seu primeiro livro para jovens adultos. Vive em Los Angeles com o marido, os dois filhos e um peixe-dourado «imortal». Quando era pequena acreditava que ia crescer e tornar-se a Mulher-Maravilha.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

A Hora Solene (Nuno Nepomuceno)

Julgavam que a Dark Star estava acabada e que tudo se encaminhava para a paz possível, mas basta meia dúzia de acontecimentos cuidadosamente planeados para revelar a dimensão do seu erro. Uma aparente entrega voluntária deixa a Cadmo completamente exposta e, além das baixas causadas, leva à perda de informação preciosa. Entretanto, um homem é deixado a morrer na rua em resultado de uma traição inexplicável. E o mistério continua. Quem são os responsáveis? De que lado estão, afinal, os que pareciam ser aliados fiéis? E, se sobreviver é apenas o início, onde termina a missão? Alguns inimigos morreram. Outros foram capturados. Mas os piores continuam à solta - e não olharão a meios para a concretização dos seus planos.
Tendo em conta o fim do livro anterior, o mínimo que se poderia esperar deste volume final seriam grandes revelações, momentos de altíssima intensidade e uma série de novas possibilidades a emergir da extensão de um percurso aparentemente quase terminado. E é exactamente isso que este livro apresenta - isso e muito mais. Tudo ganha novos contornos. A informação já conhecida ganha uma nova dimensão e cada nova possibilidade abre caminho a grandes momentos de acção, intrigas e planos complexos e meticulosos e um ritmo de intensidade praticamente irresistível. E, claro, sem perder de vista o outro lado: pois, apesar de ser um espião de topo, André Marques-Smith continua a ser uma figura profundamente humana e com uma vida pessoal bastante rica - vida pessoal essa que complementa na perfeição a teia de intrigas em que a sua profissão e natureza o envolveram.
Sobressai, portanto - além, é claro, das muitas reviravoltas sobre as quais não posso dizer muito sem revelar demasiados segredos - acima de tudo o equilíbrio. André, o espião, é eficiente, meticuloso e implacável. André, o alto funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros, é, além de competente, um apoio constante e alguém bastante agradável de se ter por perto. E André, o homem - pura e simplesmente - é um poço de complexidades e de vulnerabilidades que, a cada nova revelação, se torna um pouco mais fascinante. Todas estas facetas fazem parte da sua natureza e o equilíbrio entre as várias partes da sua vida torna o enredo mais amplo, providenciando momentos de grande tensão, mas também de humor e de emoção.
E depois há a escrita, claro, e principalmente a intensidade irresistível com que tudo é narrado, deixando sempre em aberto a tensão que faz querer devorar mais algumas - ou muitas - páginas só para saber o que acontece a seguir. Há em tudo uma muito agradável naturalidade que projecta o leitor para dentro da narrativa e isso confere ao enredo ainda mais intenso, seja nos pontos de máxima tensão, seja nos mais simples e divertidos ou ainda nos rasgos de emotividade que marcam ainda mais por serem sempre surpreendentes.
No fim, quase tudo encaixa no sítio certo. E, se alguns pequenos aspectos parecem passar para segundo plano, também é certo que faz sentido que assim seja, pois, depois de tão longa jornada, não seria realista esperar que não ficassem marcas e silêncios na vida das personagens.
Máxima intensidade e máxima vulnerabilidade: assim se poderia descrever este derradeiro volume de uma história que cativa mesmo desde o início e se abre em mil surpresas até ao fim. Intenso, viciante e cheio de momentos memoráveis, um livro - e uma trilogia - que não posso deixar de recomendar. Muito, muito bom.

Título: A Hora Solene
Autor: Nuno Nepomuceno
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidades Bertrand

Passado nos anos 70, numa cidade industrial cinzenta e chuvosa, a força policial da zona está concentrada em acabar com um persistente problema de drogas. Duncan, chefe da polícia, é um idealista e visionário, um sonho para a população e um pesadelo para os criminosos. O comércio das drogas é liderado por dois homens, um dos quais, mestre da manipulação chamado Hécate, tem ligações aos poderes mais levados. E pretende usá-las para conseguir escapar ileso.
O seu plano consiste em manipular, de forma consistente e persistente, o inspector Macbeth, um homem já de si susceptível a tendências paranoides e violentas. O que se segue é uma história irresistível de amor e culpa, de ambição política e inveja, que explora os recantos mais negros da natureza humana, assim como as aspirações da mente criminosa.

Jo Nesbø é um dos mais célebres autores de thrillers do mundo. Os seus livros são bestsellers internacionais e estão publicados em mais de 50 línguas, com cerca de 33 milhões de exemplares vendidos.
Antes de se tornar escritor, Nesbo foi jogador de futebol da primeira liga norueguesa, mas uma lesão no joelho impediu-o de prosseguir com o seu sonho. Estudou Economia e formou a banda pop Di derre, que alcançou os tops na Noruega. Mas Nesbo continuou a trabalhar como analista financeiro, apesar do seu sucesso na música. Quando uma editora lhe encomendou um livro de memórias acerca da sua vida de músico «na estrada», ele escreveu, em vez disso, o primeiro livro protagonizado por Harry Hole, O Morcego.

Num futuro próximo, a empresa LoveStar controla todos os aspectos da vida humana, incluindo o amor e a morte. Os seres humanos vivem agora «sem fios», o que dá rédea solta ao consumo, à tecnologia e à ciência. O serviço da REMORSOS permite eliminar dúvidas sobre caminhos que não foram seguidos, os mortos são lançados em foguetões para o espaço, de maneira a poderem regressar à Terra em todo o esplendor e o programa da inLove junta os casais perfeitos.
Ingriði e Sigríður não foram calculados para ficarem juntos, mas estão convictos de que se trata de uma mera formalidade. Mas quando a inLove une Sigríður a outra pessoa, a utopia que criaram começa a desmoronar-se.
Uma visão do futuro em que o marketing e a tecnologia governam o mundo, sem nunca conseguir contudo eliminar definitivamente o amor e a ânsia de viver.

Andri Snær Magnason é um dos escritores mais célebres e admirados da Islândia, autor de poesia, teatro, ficção e não ficção. LoveStar foi «Livro do Ano» dos livreiros islandeses, foi nomeado para o Prémio Literário da Islândia e recebeu o DV Literary Award. Foi ainda seleccionado para o prémio Philip K. Dick. O autor vive em Reiquiavique.

domingo, 22 de abril de 2018

Violeta e Índigo Descobrem Klimt (Isabel Zambujal e Gonçalo Viana)

O Índigo tem um dom especial. Basta uma pincelada sua que se assemelhe a um quadro famoso e, na companhia da sua amiga Violeta, é projectado para a vida do grande pintor que criou essa obra. Desta vez, a inspiração leva-os à vida e aos quadros de Klimt. E há muito para descobrir, como sempre.
Misturando uma aventura cativante, uma boa base de informação para aprender e algumas actividades divertidas, este livro vem confirmar a impressão de que esta colecção é um belo ponto de partida para incentivar os mais novos a descobrir a arte. Não é um livro extenso e, escusado será dizer que certamente a vida do autor justificaria um livro bastante maior, mas é uma boa base e abre caminho à curiosidade em saber mais. Além disso, ao acrescentar à vida do pintor a pequena aventura de Índigo e Violeta, cria-se uma agradável sensação de descoberta comum, como se quem lê estivesse a acompanhar os protagonistas na sua breve e interessante aprendizagem.
Ora, sendo um livro infantil e um livro sobre um pintor famoso, não é propriamente uma surpresa que as imagens sejam tão importantes como o texto em si. Primeiro, a cor desperta curiosidade. Depois, a mesma dualidade entre a história de Klimt e a história dos dois amigos que se manifesta no texto vê-se também nas imagens, com a presença de várias obras do pintor a contrastar com o traçado cativante que ilustra o percurso de Violeta e Índigo. Além de que, claro, as imagens complementam na perfeição o texto, tornando tudo mais nítido e mais colorido.
E depois há o outro aspecto que também parece ser característico desta colecção, que é o acrescentar à história um breve conjunto de actividades que, além de reforçarem a atenção (pois há um pequeno questionário no final do livro) criam uma maior interactividade, tornando ainda mais divertida e agradável a experiência da descoberta.
Fica, por isso, a impressão de um livro simples e agradável e de uma bela forma de despertar desde cedo o interesse pela pintura e pelos grandes pintores. Bonito, colorido e cativante, uma boa leitura.

Título: Violeta e Índigo Descobrem Klimt
Autores: Isabel Zambujal e Gonçalo Viana
Origem: Recebido para crítica

sábado, 21 de abril de 2018

A Volta ao Medo em Oitenta Dias (José Jorge Letria)

A vida de Gustavo sempre se definiu pelo medo: medo das pessoas, medo dos espíritos, medo da morte, dos conflitos, da guerra. Medo de ficar, medo de partir. Medo de tudo. Mas, nascido numa casa onde não se falava de política, Gustavo foi, apesar de tudo, interessando-se pelos subversivos e encontrando um lugar para si num país em mudança. Mas agora os anos passaram e só ficou a memória do que ficou para trás - e o medo, ainda e sempre o medo. Será, talvez, finalmente o momento de ousar?
De uma simplicidade aparente, mas abrangendo praticamente uma vida inteira, este é um livro em que, apesar do contexto delicado em que tudo decorre, é mais a vida interior do protagonista o factor dominante do que propriamente o seu percurso através de um país em mudança. Pelo caminho de Gustavo - como interveniente ou como espectador - passam muitas das grandes dificuldades do seu tempo: o medo da denúncia, o necessário secretismo acerca de certas formas de arte, a iminência de uma partida para a guerra e as possíveis consequências. E este contexto está bem presente em todo a narrativa, mas mais como pano de fundo para o que é afinal o grande problema de Gustavo: o medo constante.
Nem sempre é fácil simpatizar com as personagens, em parte talvez porque algumas delas parecem estar apenas de passagem, mas principalmente por serem vistas da perspectiva de Gustavo. E, claro, há personagens de que é simplesmente impossível gostar - mas, dada a sua posição, isso faz todo o sentido. Ainda assim, e se nem as escolhas do próprio Gustavo são sempre fáceis de entender, há algo no seu percurso - na forma como lida com o medo, fugindo ou ficando, mas raramente enfrentando - que é fácil de identificar. Nunca é fácil fazer escolhas e muito menos quando se tem algo a perder. E, num tempo como o de Gustavo, uma certa dose de medo seria provavelmente uma segurança.
Tudo é contado de forma relativamente sucinta, ficando, em alguns pontos, uma certa vontade insatisfeita de saber mais. Ainda assim, e apesar da relativa brevidade, os elementos essenciais - as emoções, o crescimento, a perspectiva pessoal de um mundo em mudança e, claro, o sempre presente medo - são muito claros e, se nem todas as opções são de molde a inspirar simpatia... bem, a verdade é que não há seres humanos perfeitos.
No fim, fica a sensação de uma viagem aparentemente simples, feita de um protagonista imperfeito, de um contexto difícil e, acima de tudo, de sentimentos fortes. Porque o medo existe, não é? E todos o conhecemos. E é esta proximidade das emoções, ainda que nem sempre das personagens, que fica na memória a guardar o espacinho desta cativante e agradável leitura.

Autor: José Jorge Letria
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 20 de abril de 2018

The Dark Sea War Chronicles - Shark-Killer (Bruno Martins Soares)

Depois de uma missão praticamente suicida, que, apesar do preço elevado, trouxe consigo informações capazes de mudar o rumo da guerra, o mais difícil parece ser agora regressar a casa. O inimigo é letal e praticamente invisível - e, quando a inferioridade numérica se torna evidente, também a sobrevivência começa a aparecer impossível. Mas, apesar de tudo aquilo por que passou, Byl ainda não está disposto a desistir da vida - muito menos agora, que recuperou o que julgava perdido. Mais uma vez, impõem-se decisões loucas e aparentemente suicidas - mas inevitáveis, se quiser ter uma hipótese de sobreviver.
Um dos aspectos mais impressionantes nesta trilogia - e, oh, se ela tem aspectos impressionantes - é a forma como o autor consegue encaixar tanto num volume relativamente breve. Em cerca de cento e cinquenta páginas, há grandes e memoráveis batalhas, decisões de vida e morte, revelações e demónios interiores, momentos de humor, rasgos de emoção e um contexto global tão vasto que quase parece inesgotável. E o melhor disto tudo é que nada parece apressado, nada parece demasiado sintético, nada de crucial é deixado de fora. Há mais para explorar nesse mundo? Com certeza. O potencial é vastíssimo. Mas esta história - a destas personagens específicas - tem tudo, mesmo tudo, na medida certa. E deixem-me que vos diga: é muito difícil parar antes do fim.
E por falar em fim (e não só, porque é algo que tem sido uma constante nesta trilogia), outro dos muitos aspectos memoráveis nesta leitura é que não há resultados - nem percursos, nem pontos de partida - fáceis. Todo o caminho é duro - pelas circunstâncias, pelo conflito, pelas dificuldades e fragilidades pessoais. A vida das personagens é dura, a crueldade está à espreita a cada novo desenvolvimento e a verdade é que ninguém é verdadeiramente poupado. O resultado é uma intensidade quase irresistível, uma proximidade para com o que nos está a ser contado que é praticamente palpável e uma sensação de estar, sentir e viver com as personagens que... bem, nos põe a alma das personagens nas mãos.
Mas falei em crueldade e crueldade não falta no caminho destas personagens - crueldade que as molda e que define as suas escolhas, pensamentos e emoções. E também isso impressiona, pois sentir pontos de vulnerabilidade, de falibilidade, reconhecer que a humanidade das personagens é precisamente aquilo que as torna tão marcantes, mesmo quando tudo à volta é conflito e discórdia e, bem, explosões... é uma estranha espécie de magia a acontecer. É belo, é fascinante. É irresistível.
Que mais dizer então sobre este livro? Que vale cada segundo da viagem, nos momentos mais belos como nos mais difíceis. Que fascina pela complexidade do cenário, mas que se grava a fogo na memória pela complexidade das personagens que o povoam. E que, abrindo as portas para um mundo vastíssimo, deixa ao mesmo tempo a sensação de uma missão mais que cumprida e esta vontade de mais. Sempre, sempre mais. Leiam, porque vale a pena. Muito, muito, muito. Muito mesmo.

Título: The Dark Sea War Chronicles - Shark-Killer
Autor: Bruno Martins Soares
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Topseller

E se a terra fosse o planeta mais absurdo do universo?
O professor Andrew Martin, génio matemático, acaba de descobrir a chave para os maiores mistérios do Universo. Ninguém sabe do salto que isto representará para a Humanidade… excepto seres evoluídos de outro planeta.
Determinados a impedir que esta revelação caia nas mãos de uma espécie tão primitiva quanto os humanos, estes seres enviam um emissário para destruir as provas. E é assim que um alien intruso, completamente alheio aos costumes, chega à Terra. Rapidamente, ele descobre que os humanos são horrendos e têm hábitos ridículos — comida dentro de embalagens, corpos dentro de roupas e indiferença por trás de sorrisos… Esta espécie não faz sentido!
Durante a sua missão, sob a pele e identidade de Andrew Martin, este alien sente-se perdido e odeia todos os terráqueos. Excepto, talvez, Newton, um cão. Contudo, quanto mais se envolve com os que o rodeiam mais fica a perceber de amor, perda, família; e de repente está contagiado: será que afinal há qualquer coisa de extraordinário na imperfeição humana?

Matt Haig foi jornalista, tendo colaborado com o Guardian, o Sunday Times e o Independent. Escreveu o seu primeiro livro em 2004 e, desde então, nunca mais parou. Autor bestseller com obras para adultos e para o público mais jovem, venceu o Blue Peter Book Award, o Smarties Book Prize e foi três vezes finalista do prémio literário Carnegie Medal.
Os seus livros estão traduzidos em mais de 30 línguas. O Guardian considerou a sua escrita «deliciosamente estranha», e o New York Times tem-no como um «escritor de grande talento» capaz de narrativas «divertidas, fascinantes e arrebatadoras».

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Diversidade - A Vida na Terra (Nicola Davies e Emily Sutton)

Quantas espécies existem no mundo? E, dessas, quantas conhecemos? E quantas terão deixado de existir devido à intervenção humana? A diversidade é uma parte fundamental do equilíbrio do planeta e entendê-la é o primeiro passo para cuidar. E esse, então, o tema deste cativante e colorido livro, que permite aprender com toda a clareza - e todo o encanto de uma nova descoberta.
À semelhança do que aconteceu em Minúsculos - O Mundo Invisível dos Micróbios também este livro tem na forma como permite assimilar ideias através da visualização e de um conjunto de explicações simples o seu grande ponto forte. Basta folhear para que a beleza das imagens prenda a atenção e, quando se começa a ler, a informação surge de forma sucinta, mas perfeitamente clara e muito cativante. Surge, pois, naturalmente a ideia sempre actual do aprender brincando - e é muito fácil aprender com este livro.
Tem também a muito relevante qualidade de não só realçar a diversidade das espécies como de apelar a uma certa consciência ecológica, realçando o papel da acção humana na extinção de algumas espécies e apelando ao tal cuidado que é sempre tão essencial. E também isto surge com naturalidade, o que nunca deixa de ser a melhor forma de assimilar ideias e informações.
Importa ainda voltar uma vez mais ao aspecto visual, pois, sendo um livro para os mais novos, a imagem é tão ou mais importante que as palavras. E o aspecto deste livro é encantador. As imagens das diferentes espécies e os cenários cheios de cor fazem deste livro uma viagem à beleza natural do mundo, o que, tendo em conta que o tema é a diversidade e a sua importância, serve também para sublinhar a importância da mensagem. 
No fim, fica uma imagem à semelhança deste livro: uma aprendizagem feita de conhecimento e de cor, de factos e de preocupações e de uma visão do mundo como algo que necessita de ser cuidado. Uma belíssima leitura, portanto, para aprender e despertar consciências desde cedo. Muito bom. 

Autoras: Nicola Davies e Emily Sutton
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 18 de abril de 2018

E Depois Chegaste Tu (Jennifer Weiner)

Jules é uma estudante universitária sem grande vida social e à procura de uma solução que lhe permita ajudar o pai a deixar para trás o vício que o arruinou. Annie ama o marido e os filhos, mas as dificuldades financeiras começam a ser demasiado difíceis de suportar. E Bettina sente-se tudo menos confortável com a nova mulher do pai, India, e com a ideia de eles virem a ter um bebé. Dificilmente poderiam ser mais diferentes mas os seus caminhos estão prestes a cruzar-se irreversivelmente: Jules doou o óvulo, Annie servirá de barriga de aluguer e India deverá ser a mãe. O plano é simples. Mas, quando menos esperam, um acontecimento dramático dá a tudo um rumo completamente diferente. E encontrar uma solução adequada poderá ser tudo menos fácil...
Alternando entre as perspectivas das diferentes personagens e, a partir daí, construindo uma cativante mistura de medos, segredos e pequenos grandes dramas familiares, este é um livro que cativa, acima de tudo, pelo facto de não haver personagens perfeitas. Todas as personagens estão a lutar com alguma espécie de problema, presente ou passado, e isso faz com que a situação que estão a viver nunca pareça demasiado fácil. Além disso, o facto de ser uma história que envolve barrigas de aluguer, mas não estritamente apenas sobre este tema, abre caminho a uma visão muito mais vasta do todo. 
Jules, Annie, India e Bettina. Qualquer uma delas justificaria por si só um romance e, por isso, é inevitável a sensação de que haveria mais história para contar: da relação amorosa de Jules, da história entre Bettina e Darren, até mesmo das relações familiares de Annie ou das mudanças operadas na vida de India. Ainda assim, há um ponto comum que as une a todas e esse ponto comum - o bebé que está para nascer - é também o fio condutor de todo o enredo. Assim, faz sentido que a história termine naquele preciso momento, e também o faz que nem tudo tenha respostas limpas. Afinal, ninguém sabe tudo na vida e nenhuma história acaba verdadeiramente na palavra fim.
Voltando ainda outra vez à imperfeição das personagens, é interessante a forma como esta imperfeição se reflecte nos acontecimentos, motivando momentos de tensão, mas também de ternura, rasgos de fúria e pequenas revelações. Há muitas coisas marcantes a acontecer e só acontecem porque nenhuma das personagens é perfeita e infalível. Porque todas têm espaço para crescer - e crescem, de facto.
No fim, fica esta imagem de evolução e de crescimento, não só de uma vida ainda por chegar, mas principalmente na vida das intervenientes no processo. Uma história bonita, cheia de momentos marcantes e com um grupo de personagens tão memorável nas forças como nas vulnerabilidades. Gostei.

Autora: Jennifer Weiner
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 17 de abril de 2018

A Mulher Culpada (Elle Croft)

Bethany Reston ama o marido, mas nunca soube bem o que queria da sua vida e, quase sem dar por isso, viu-se envolvida num caso amoroso com um cliente, o bilionário Calum Bradley. Não é algo de inconsequente e sente que ama verdadeiramente Calum. Mas também ama o marido e a situação começa a pesar-lhe. E, quando pensa que uma discussão e o consequente afastamento temporário são o maior dos seus problemas, Calum é assassinado numa estação de metro - a mesma onde Bethany se encontrou com ele poucos minutos antes. Bethany não é a responsável pelo crime, mas também não pode propriamente admitir que estava a ter um caso. Principalmente a partir do momento em que começa a receber mensagens ameaçadoras do verdadeiro assassino.
A principal qualidade deste livro é, sem dúvida alguma, a intensidade. Escrito em capítulos relativamente curtos, com um estilo directo em que a acção e a tensão predominam, e com um enredo onde suspeitas, segredos e revelações parecem ocupar um claro papel de protagonismo, é fácil entrar no ritmo da narrativa - e é difícil parar de ler antes do fim. Bethany pode ser inocente, mas tem segredos a esconder. E, quando o verdadeiro assassino entra em cena, com a sua identidade desconhecida e os seus planos de perseguir e incriminar Bethany, é impossível resistir à curiosidade de saber o que acontece a seguir.
Claro que, ao centrar a história na perspectiva de Bethany, a aura de mistério em torno dos restantes aumenta. E, se isto contribui para manter acesa a tal curiosidade em descobrir as respostas, também deixa, por vezes, a sensação de que algumas coisas acontecem demasiado depressa. Teria sido interessante saber um pouco mais sobre a história de Jason ou a posição de Alex relativamente à situação. E a fase final, com a sua derradeira revelação completamente inesperada e uma conclusão... bem, bastante invulgar para este género de livro, talvez pudessem ter ganho ainda mais intensidade se aspectos como o julgamento tivessem sido mais desenvolvidos. 
Há, ainda assim, um outro aspecto que se destaca - a capacidade de transmitir com toda a clareza as motivações das personagens. Claro que, sendo a história vista pelos olhos de Bethany, é ela quem sobressai neste aspecto e a forma como a autora transmite o seu medo, a sua apreensão e também os seus dilemas de consciência aumenta em muito a intensidade do enredo. E, ainda que de forma mais ténue (e parcial, pois surge maioritariamente da perspectiva de Bethany) também para as outras personagens é possível reconhecer forças e vulnerabilidades, traços de carácter e máscaras que se recusam a cair. 
No fim, fica a impressão de uma história que talvez pudesse alongar-se um pouco mais em alguns momentos, mas que basta, tal como é, para cativar do início ao fim. Intenso, misterioso e surpreendente, um livro para devorar de uma assentada. E uma autora a seguir.

Autora: Elle Croft
Origem: Recebido para crítica

domingo, 15 de abril de 2018

A Rapariga Alemã (Armando Lucas Correa)

1939. Apesar dos perigos e da omnipresença das bandeiras vermelhas, brancas e negras, a rua é o único refúgio onde Hannah Rosenthal, de doze anos, ainda encontra alguma alegria. Em casa, os pais mantêm conversas sussurradas e parecem fazer planos que lhe inspiram pouca confiança e só a companhia do amigo Leo, também ele na mesma situação, lhe alegra a vida. Mas os seus dias em Berlim estão contados e a única fuga possível e embarcar no St. Louis, um possante navio que os deverá levar para Cuba - se o governo de lá estiver disposto a aceitá-los. Cuba deveria ser apenas um lugar de passagem, mas, setenta anos depois, Hannah continua lá - e as suas cartas chegam às mãos da última Rosenthal, uma menina de doze anos que não conhece a história da sua família. Hannah e Anna partilham o mesmo nome e o mesmo passado. E é tempo de revelar os segredos que durante tanto tempo perduraram. 
Dividido entre dois momentos diferentes e as perspectivas das duas protagonistas, este é um livro que tem como principais qualidades dois aspectos: a capacidade de alimentar uma certa aura de mistério e um enredo onde não há caminhos fáceis. Quanto aos caminhos fáceis, nunca os poderia haver tendo em conta a época em que parte do enredo decorre e as inevitáveis perdas associadas a um tal percurso. Quanto ao mistério, vive de segredos perpetuados ao longo do tempo: alguns de grande impacto, outros apenas símbolos de uma vida que passou.
Ainda que a história se centre principalmente em Hannah e Anna, com as suas fascinantes histórias e descobertas, a história vive também muito das personagens que as rodeiam. No caso de Hannah, o pai, a mãe, Leo e Julian trazem consigo uma série de enigmas que, à medida que vão sendo desvendados, deixam a sua marca tanto na protagonista como no leitor. No caso de Anna, também o pai e a mãe, mas principalmente a descoberta da tia Hannah e da grande história que tem para contar, traçam o seu percurso de crescimento. E é este crescimento de ambas que torna tudo tão marcante: são pessoas diferentes em tempos diferentes e, no entanto, partilham da mesma inocência e da mesma perda e isso torna particularmente cativantes os seus percursos convergentes.
Claro que há um contexto global mais vasto, que começa, desde logo, na vida em Berlim em 1939 e depois se expande às mudanças graduais, à chegada da guerra, ao tratamento dado aos judeus tanto na Alemanha como a bordo do St. Louis e, depois, às mudanças ocorridas em Cuba. E, ao centrar a história nas duas protagonistas, o autor acaba por deixar alguns aspectos para segundo plano. Leo, o pai de Hannah, o marido de Esperanza, Gustavo, até mesmo Julian - também eles têm em si as bases de uma grande história, que acaba por se revelar apenas parcialmente. Fica por isso uma certa sensação de que mais haveria a dizer sobre qualquer um deles, ainda que também a impressão de que estas revelações veladas e parciais fazem um certo sentido, pois é apenas essa a informação que as protagonistas obtêm. 
Com uma cativante aura de mistério e vários momentos comoventes, no fim, fica a imagem de uma história marcante, sem respostas fáceis, mas repleta de momentos belos e angustiantes. Uma história de vidas de passagem e de um período histórico que, por tudo o que o definiu, nunca será demais voltar a abordar. Vale, pois, muito a pena descobrir este livro. E, com Anna e Hannah, viajar até ao passado.

Autor: Armando Lucas Correa
Origem: Recebido para crítica

sábado, 14 de abril de 2018

Violeta e Índigo Descobrem Michelangelo (Isabel Zambujal e Júlio Vanzeler)

Violeta e Índigo são dois amigos curiosos e sabem que o mundo das artes é uma fonte inesgotável de conhecimento novo. Basta que uma pequena brincadeira traga ao pensamento uma imagem famosa e, sem dar por isso, os dois amigos são transportados para a história da vida do criador. Neste caso, a fascinante e proveitosa vida de Michelangelo, autor de obras tão célebres como o David ou os frescos da Capela Sistina. E há tanto para aprender sobre este pintor...
Um dos aspectos mais cativantes deste pequeno livro é que, ao acrescentar à história da vida de Michelangelo as interessantes figuras de Violeta e Índigo, os autores transpõem para o presente a história passada, tornando tudo mais nítido e fácil de assimilar. Violeta e Índigo vão aprendendo sobre o pintor e as obras - e essa aprendizagem acontece ao mesmo ritmo para o leitor. Ora, a impressão que fica é então a de uma descoberta conjunta, o que, para os jovens que começam a descobrir o (às vezes tão complexo) mundo da arte, torna tudo mais simples e também mais interessante.
Trata-se também de um livro cheio de cor, em que as ilustrações das aventuras dos protagonistas são complementadas com imagens das obras do pintor referido. O que permite, em primeiro lugar, situar as imagens das obras no percurso da vida do seu autor e, em segundo, uma melhor visualização deste percurso. Sem esquecer, é claro, a divertida aventura dos mais modernos mas igualmente cativantes amigos que protagonizam esta série de livros.
E, sendo como é um livro pequeno, há ainda um pequeno espaço para complementar a história com alguns jogos divertidos, o que acrescenta à leitura um toque de interactividade que torna o livro mais interessante. Pois a história em si - e o conhecimento que contém - bastam para que a leitura valha a pena, mas, sendo um livro para os mais novos, este breve conjunto de actividades acrescenta-lhe ainda um pouco mais de encanto.
É uma visão sucinta, naturalmente, até porque as vidas dos grandes pinturas nunca se poderiam resumir em trinta páginas. Mas é, acima de tudo, um belo ponto de partida para interessar os mais novos pelo mundo da arte, mostrando as suas mais interessantes facetas numa aventura leve, cativante e divertida. Tudo somado, fica, como não podia deixar de ser, uma impressão bastante positiva - e uma agradável curiosidade em conhecer os restantes volumes.

Título: Violeta e Índigo Descobrem Michelangelo
Autores: Isabel Zambujal e Júlio Vanzeler
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidades Bizâncio

A música pode ajudar a ultrapassar conflitos?
Pode ajudar a combater a descriminação?
Para o autor de O Poder da Música, sem dúvida que sim.
Percorrendo treze países diferentes, em cinco continentes, o autor dá-nos a conhecer a história de vida de alguns dos mais espantosos músicos, em locais do mundo improváveis, que lutam contra obstáculos intransponíveis para que se instale a paz e a harmonia em lugares tão difíceis como o campo de refugiados de Shuafat, na Palestina, a Tanzânia, o México, a Irlanda, o Kosovo, entre outros.
Por mais duras e difíceis que sejam as situações é espantoso como sempre se revela, tal como Daniel Barenboim já antes provara, O Poder da Música

O livro não consegue adormecer. Está a tremer, coitadinho!
Assim inicia este livro.
O pequeno ratinho vai acalmando o livro a cada página e podemos acompanhar as alterações na cor das páginas e nas expressões do livro à medida que vai vencendo o medo.
Para crianças a partir dos dois anos de idade, este livro, cartonado, com textos de Cédric Ramadier e ilustrações de Vincent Bourgeau ajuda as crianças a lidar com uma das emoções mais comuns entre os mais pequenos: o medo.

A acção desenrola-se como uma pescaria no gelo.
O Pinguim tenta pescar no seu buraco no gelo, só que o peixe não morde!
A trupe de amigos polares vai-se juntando ao Pinguin e vai tagarelando e dando palpites, irritando-o.
Qual será o mistério?




sexta-feira, 13 de abril de 2018

Desejo Amaldiçoado (Linda Chapman)

Agora que as Amigas Estrela descobriram os seus poderes, tudo parece mais novo e interessante no seu mundo. Mas há alguém a recorrer à magia negra para espalhar tristeza e cabe às amigas impedir que isso aconteça. E, quando uma maré de azar parece abater-se sobre os elementos da equipa de ginástica, não tarda a tornar-se evidente que não é apenas uma coincidência. Maia, Sita, Ionie e Lottie terão de recorrer aos seus poderes para travar a sombra que está a causar todos aqueles problemas. Até porque Lottie é também um dos alvos...
Um dos aspectos mais cativantes dos livros dos Amigos Estrela é que, apesar de se destinar nitidamente a um público mais jovem, tem tudo para cativar todo o tipo de leitores. A história é simples, mas cheia de magia e de surpresas. As personagens têm a inocência da infância, mas também a curiosidade ilimitada e a vontade de descobrir coisas novas características de quem começa a desvendar um mundo mais vasto. E as regras subjacentes - os diferentes tipos de magia, a necessidade de guardar segredo e a interacção com os Animais Estrela - criam uma base cheia de potencial para cada uma destas aventuras. 
Aqui, surge uma ideia que não é propriamente nova: a de que é preciso ter cuidado com o que se deseja. E é a partir deste ponto que nasce uma história cheia de episódios interessantes. Claro que não é difícil adivinhar de que forma as coisas acabarão por terminar, mas a envolvência do percurso é mais do que suficiente para compensar a relativa previsibilidade do destino. Além disso, e embora as linhas entre o bem e o mal estejam claramente definidas, há pequenos aspectos na história que deixam antever perspectivas um pouco mais complexas - a começar, desde logo, pela tal necessidade de manter em segredo os assuntos do Mundo Estrela.
É também uma história de amizade, e do tipo de amizade que cresce e se desenvolve com a passagem do tempo. Neste livro em concreto, Ionie assume um papel mais preponderante, o que, além de acrescentar novas possibilidades ao enredo central, abre caminho a novas relações entre as personagens. E também nisto há uma certa magia - a magia da descoberta dos outros - a acontecer, e uma estranha ternura que transparece tanto no desenrolar da história como nas ilustrações que a acompanham. 
A impressão que fica é, pois, naturalmente positiva. Leve e cativante, uma história de magia e de amizade - principalmente de amizade - em que tudo é possível, bastando para isso acreditar na magia. Um livro bonito, em suma, e uma boa aventura... para os mais novos e não só.

Autora: Linda Chapman
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Guerra e Paz

Entre a realidade e a ficção, um romance sobre um dos maiores flagelos da humanidade – o cancro.
Durante um ano, Luís Pedro Cabral deambulou pelo coração do IPO, Instituto Português de Oncologia, cidade dentro da cidade. Ali, lutam contra a doença esses valorosos soldados, os doentes. As histórias deles entrecruzam-se com a história familiar do autor, pois também a «sua» mulher se viu forçada a travar esta luta, encontrando-se hoje no estádio IV da doença, o mais grave.
Estas são as vidas de personagens reais, de carne e osso, saídas de um sítio em que ninguém quer entrar, mas onde, apesar de tudo, a esperança ainda existe. Um carteirista que já só pensa em se reformar, um luthier cujos violinos encantaram plateias em todo o mundo, um forcado a enfrentar agora a mais vil besta, uma menina obrigada a crescer, uma mulher indomável e um médico perdido.
Que têm em comum? O cancro.

Luís Pedro Cabral. Nasceu em Lisboa, em 1969. É jornalista de formação, tendo começado a sua actividade profissional n’O Independente, praticamente desde a sua fundação, onde permaneceu 12 anos, mais coisa, menos coisa. É, há largos anos, freelancer, colaborador do Expresso e da Visão e editor da agenda cultural de Idanha-a-Nova, um dos seus oásis predilectos. Publicou reportagens em
variadíssimas partes do mundo, em inúmeros jornais e revistas nacionais e internacionais. Tem igualmente vários contos publicados na revista Egoísta. Detesta rebanhos que envolvam pessoas e tiques urbanóides em geral. São muito raras as oportunidades que perde para viajar. Tem três filhas: a Sofia, a Rosa e a Salomé.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Desaparecido (C.L. Taylor)

Passaram seis meses desde que Billy, um adolescente de quinze anos, desapareceu, mas a mãe dele não está disposta a desistir. Naquela noite, Billy saiu de casa zangado com o mundo - e nunca mais voltou a ser visto. O que aconteceu ao certo é uma incógnita. Mas agora, passados seis meses e com a família a desmoronar, a preocupação de Claire transformou-se em obsessão: precisa de respostas. Precisa de saber o que aconteceu ao filho. E, quando o trauma se torna demasiado, a memória começa também a falhar-lhe, levando-a, no entanto, rumo ao confronto do seu maior medo. Billy está vivo ou morto? É o que Claire precisa de descobrir. Mas as respostas que tem à espera no fim da linha podem ser mais duras do que consegue imaginar...
Repleto de reviravoltas e de momentos de grande tensão, este é um livro em que basta meia dúzia de páginas para mergulhar de cabeça no enredo. Os capítulos curtos, a perspectiva próxima e a intensidade de uma história onde nada nem ninguém é o que se espera prendem desde os primeiros instantes e não largam mais até ao fim. 
E, se basta a estrutura do livro para tornar cativante esta leitura, é a construção do enredo e das personagens que torna tudo altamente viciante. O mistério do desaparecimento de Billy traz consigo uma teia de revelações inesperadas e de momentos de grande tensão que, associada às complexidades das relações entre as personagens, torna avassalador todo o percurso. A busca desesperada de Claire por respostas, com as falhas de memória e a angústia resultante da dúvida quanto ao que poderá ter feito nesses períodos, associa-se a um conjunto de relações familiares muito menos sólidas do que à primeira vista seria de esperar e isto, associado ao mistério central do que aconteceu a Billy, confere ao livro uma intensidade irresistível. É preciso saber o que acontece depois. E, acima de tudo, é preciso perceber o que aconteceu.
Ora, isto torna-se ainda mais intenso à medida que as facetas escondidas das várias personagens vão sendo reveladas. Mark, Claire, Jake, Stephen, Kira e o próprio Billy, todos têm segredos que, mais tarde ou mais cedo, acabam por vir à tona. E esta teia de segredos torna-se ainda mais marcante pelo facto de não só abrir caminho a várias revelações surpreendentes como fugir às soluções simples, realçando a ambiguidade de carácter das personagens e invertendo perspectivas que, à primeira vista, surgiam como inabaláveis.
A impressão que fica é, pois, a de uma perspectiva completamente diferente para a habitual história da criança ou adolescente desaparecido. Intenso, surpreendente, viciante e cheio de momentos marcantes, um livro em que nada é o que parece e as revelações não param de surgir até ao fim. Muito bom. 

Título: Desaparecido
Autora: C.L. Taylor
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 10 de abril de 2018

A Bia Está a Crescer (Mònica Peitx e Cristina Losantos)

Crescer pode parecer uma coisa complicada, principalmente quando se chega àquela altura em que o corpo começa a mudar sem que entendamos bem porquê. Mas a verdade é que é tudo natural. Este pequeno livro explica as mudanças que ocorrem durante a puberdade no corpo das meninas e, sem alarmismos nem dramas, mostra como tudo pode ser novo sem deixar de ser normal. 
Pensado para os mais novos e com o claro objectivo de esclarecer relativamente às mudanças que o corpo sofre durante o crescimento, este livro tem na clareza a sua maior qualidade. Sendo um livro pensado para os mais novos, precisa necessariamente de uma certa simplicidade, mas, sendo um assunto tão relevante para quem está a passar por esta fase, não se pode simplificar em demasia. E é este equilíbrio entre acessibilidade e informação que este livro atinge da melhor forma: com as informações necessárias (e, acima de tudo, a ideia de naturalidade), sem se perder em demasiados pormenores, mas também sem deixar de fora nada de essencial.
Além de informativo, é também um livro bonito, com as ilustrações a facilitar a compreensão e também a dar mais vida à leitura. Pois, se é um livro sobre o crescimento, que melhor forma de assimilar o processo do que vendo a sua protagonista a crescer? A Bia das primeiras páginas é diferente da das últimas e a visualização deste crescimento torna tudo mais claro.
Claro que é um livro pensado principalmente para quem está a chegar a esta fase do crescimento, pois são estes quem tem mais dúvidas sobre o assunto. Mas não deixa de ser interessante realçar a facilidade com que tudo é assimilado a partir da breve história da Bia. Ora, isso faz deste livro uma boa forma de aprendizagem e também um bom ponto de partida para os pais que quiserem explicar aos filhos as mudanças da puberdade.
É um livro pequeno, simples, mas muito útil para quem está a crescer. E, de forma cativante e divertida, consegue transmitir a informação essencial para tornar o mais naturais possível as inevitáveis mudanças do crescimento. Muito interessante.

Autoras: Mònica Peitx e Cristina Losantos
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 9 de abril de 2018

A Herdeira dos Olhos Tristes (Karen Swan)

Cesca mudou-se para Roma para fugir a um fantasma do seu passado e aí encontrou amigos, a cidade do seu coração e a um vida que, apesar de atribulada, a preenche. Mas tudo muda no dia em que encontra uma mala cara no seu contentor do lixo. A necessidade de a devolver leva-a a conhecer Elena Damiani, uma verdadeira princesa italiana, que, fascinada pelos seus princípios, lhe decide propor que escreva a sua biografia. Mas antes de ser guia turística e blogger, Cesca havia sido advogada - e a sua ânsia pela verdade mantém-se intacta, apesar de tudo o que lhe aconteceu. Por isso, quando começa a mergulhar no fascinante passado de Elena - em tempos rica herdeira e, supostamente, a menina mais felizarda da América - também as verdades ocultas começam a vir à superfície...
Dividido entre o percurso de Cesca e o passado de Elena, este é um livro que tem na conjugação entre a leveza do presente e as tragédias do passado o seu maior ponto forte. No caminho de Cesca, há episódios caricatos, mal-entendidos, o tipo de amizade que proporciona uma série de momentos divertidos e uma sombra que, ainda que sempre presente, define também um rumo de separação. No de Elena, por outro lado, há toda uma série de enigmas, nenhum deles particularmente agradáveis, e o tipo de amor que traz consequências devastadoras. São percursos distintos, mas convergentes, e o equilíbrio entre ambos - com a intensidade das grandes revelações e dos momentos comoventes a contrastar com a leveza das pequenas discussões e das relações confortáveis - torna a história simplesmente fascinante.
Sendo certo que a leveza nunca se perde, há um crescendo de intensidade a surgir com a evolução do enredo, não só porque os mistérios que vão sendo desvendados conferem a tudo um maior impacto, mas também porque a verdadeira complexidade das personagens vem à tona. De início, nem sempre é fácil entender as personagens e é o choque de temperamentos que parece dominar. Mas, à medida que as relações se aprofundam e as verdades difíceis começam a vir ao de cima, tudo começa a ganhar outro sentido e até o que parecia um pouco despropositado passa a encaixar no cenário global.
E depois há o mistério em si e a forma como cada revelação traz consigo grandes reviravoltas. O que no início parece ser apenas uma espécie de capricho - a biografia de uma celebridade - ganha novos contornos à medida que a ténue linha que separa a verdade da mentira se vai tornando mais nítida. E a história de Elena - tanto no que conta a Cesca como no que esta descobre pelos seus próprios meios - está cheia de mistérios e de surpresas, a maior das quais fica guardada mesmo para o fim.
Tudo isto faz uma viagem marcante por uma história cheia de segredos e de descobertas - sendo que a mais importante é sempre a da felicidade. Cativante, misterioso e com um equilíbrio brilhante entre a leveza dos momentos divertidos e o impacto das grandes verdades descobertas, uma leitura que prende desde o início e surpreende até ao fim. Muito bom.

Autora: Karen Swan
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Alfaguara

Enquanto jovem mulher, Else, uma menina mimada da burguesia de Berlim, fez duas promessas a si mesma: viver a vida intensamente e ter um filho de todos os homens que amasse.
Tu não és como as outras mães é a história real dessa vida intensa, extravagante, inconformista que foi a de Else Kirschner, uma mulher verdadeiramente livre, e uma mãe diferente de todas as outras. Nascida na conservadora burguesia judia de Berlim, Else estava prometida para casar com um bom partido. Mas os encantos de um artista cristão - «o maior amor e pior partido da sua vida» - foram o trampolim que procurava para renunciar ao conforto da casa paterna e ser dona do seu destino num mundo cheio de promessa.
Corriam os loucos anos vinte, dias efervescentes numa Berlim que parecia a capital do mundo, um tempo irrepetível de cultura, esplendor e liberdade. Else vivia no centro dessa boémia, incapaz de suspeitar que uma ameaça arrepiante cercava inexoravelmente a sua família. Quando as sombras do Nacional Socialismo tingiram a Europa de negro, Else, judia, teve de fugir com a família da cidade que tanto amava. No exílio, na Bulgária, tudo é miserável, tudo é muito pouco quando comparado com a primeira vida. Nessa segunda vida, Else arrepender-se-á de não ter protegido a família da calamidade, que se revela trágica para alguns.
Esta é a história de uma vida maior que a vida, um retalho de História extraordinário. Quem nos conta a história é Angelika Schrobsdorff, importante escritora de origem alemã. Era filha de Else e demorou quinze anos a pôr no papel a história da mãe, sem sentimentalismo mas com o amor e a admiração inevitáveis, criando um pedaço de grande literatura, um clássico do nosso tempo.

Angelika Schrobsdorff nasceu em Freiburg, na Alemanha, em 1927. Emigrou para a Bulgária em 1939 com a mãe e regressou à Alemanha em 1947, terminada a Segunda Guerra Mundial. Casou-se, em 1971, com o cineasta francês Claude Lanzmann, realizador do célebre documentário Shoah, com quem se mudou para Israel em 1983, depois de uma década a viver entre Paris e Munique. Viveu em Israel até 2006. Morreu em 2016, em Berlim, meses antes de cumprir noventa anos.
Converteu-se numa figura mítica na Alemanha, sobretudo graças ao romance autobiográfico que temos nas mãos, mas também graças à publicação do seu primeiro romance – Die Herren – que causou um escândalo na Alemanha e a celebrizou de imediato. É autora de dez romances e dois livros de contos que marcaram a história do romance da segunda metade do século XX.
Tu não és como as outras mães teve uma forte repercussão na Alemanha, conquistando mais de 500 mil leitores e inspirando um filme. Em Espanha arrebatou a crítica e os leitores e arrecadou o prémio de melhor livro do ano atribuído pelos livreiros de Madrid.

domingo, 8 de abril de 2018

Infinite Rooms (David John Griffin)

A mente de Donald Clement é um labirinto de salas infinitas, cuidadosamente imaginadas para conter as barreiras com que esconde os mais sombrios momentos da sua realidade. Aí, fala com o seu psiquiatra e mostra-lhe os poderes impossíveis da sua imaginação. Tudo parece ser possível – criar, destruir, matar e até devolver à vida. Mas a verdade que Clement tenta esconder é avassaladora. Bernadette, o amor da sua vida, não corresponde aos seus sentimentos. E, sabendo isto, só as suas salas podem mantê-lo estável.
Alternando entre perspectivas, locais e situações – a grande maioria fruto da imaginação de Clement – esta não é propriamente uma narrativa linear. A verdade é esquiva e, ao longo das muitas salas mentais da mente de Donald Clement, o que é real e o que apenas existe no seu pensamento não se distinguem verdadeiramente. Por isso, leva algum tempo a assimilar este estilo de narrativa e, no fim, ficam mais perguntas que respostas sobre o que realmente se passa na vida de Clement.
É, contudo, estranhamente fascinante este mundo de estranhas possibilidades, em que tudo parece ser possível, mas em que a mente do protagonista gira apenas em torno da sua Bernadette. Às vezes, é encantador. Outras, dá lugar a episódios mais assustadores. E muito do que acontece pode não ser real, mas a forma como Clement parece viver esses momentos confere-lhes uma estranha e fascinante intensidade. Assim, o entendimento vem devagar, mas, no entretanto, a viagem é muito intrigante e percorre os mais estranhos cenários mentais.
Além disso, apesar de haver algumas descrições bastante longas – o que é natural, dado o peculiar cenário deste livro – os capítulos relativamente curtos e a fluidez da escrita dão à narrativa uma sensação de naturalidade. Tudo parece fluir ao ritmo certo, parecendo progredir em direção a muito maiores revelações. E quando esses momentos mais intensos acontecem… bem, então tudo muda, porque, quando uma barreira cai, algo tem de tomar o seu lugar.
Estranho e complexo, mas estranhamente cativante, tudo se resume a uma história intrigante e peculiar. Uma história em que está tudo na cabeça – o que não torna nada disso menos real. Um livro interessante, portanto, e uma boa leitura.

Título: Infinite Rooms
Autor: David John Griffin
Origem: Recebido para crítica

sábado, 7 de abril de 2018

Gente Séria (Hugo Mezena)

As regras da convivência são, na verdade, muito simples: respeitar as leis de Deus e ser sério. Só que a verdade é que isso nunca é assim tão simples. Em Benomilde, todos os olhos vêem e todos julgam - e o medo é a única verdade absoluta. Que o diga a criança que faz uma lista de pecados para não se esquecer de nenhum. O velho que assiste aos julgamentos na televisão como se, a qualquer momento, a sentença se pudesse virar para ele. Ou o novo padre, que, acabado de chegar, inspira dúvidas devido ao seu vestuário e sociabilidade. É que não basta ser sério: é preciso parecer. E quem define, afinal, as regras dessa seriedade?
Oscilando entre as histórias de diferentes personagens em diferentes momentos da linha temporal, mas visto essencialmente da perspectiva de uma criança em crescimento, este é um livro que surpreende, em primeiro lugar, pelo equilíbrio entre a complexidade do cenário que apresenta e a simplicidade com que tudo isso é narrado. Talvez por o narrador ser uma criança, ou talvez pela eficiência com que as diferentes facetas da vida em Benomilde são resumidas ao mais marcante e essencial, a verdade é que cada momento - mais simples ou mais elaborado - deixa uma marca. Além disso, ao alternar os diferentes percursos, cria-se também uma ligeira aura de mistério, que, aliada à brevidade, torna a leitura estranhamente viciante.
Há ainda um outro aspecto particularmente memorável. A história pode ser ficção, e uma ficção feita de muitas pequenas histórias, mas não deixa de se aproximar em muito de uma realidade não muito distante. A ideia do que é uma pessoa "séria" - temente a Deus, com um comportamento respeitável, o controlo da sua casa (ou a devida obediência, dependendo da posição no seio familiar) e incapaz de qualquer tipo de transgressão - não é algo que se tenha esbatido por completo. E este retrato de um meio rural em que são tão rápidas as acções como os julgamentos facilmente se pode transpor para a realidade, despertando assim várias questões pertinentes na mente do leitor.
E claro, importa ainda referir a escrita e, acima de tudo, a facilidade com que o autor constrói uma perspectiva marcante ao narrar os acontecimentos do ponto de vista da que será, provavelmente, uma das personagens mais inocentes de toda a narrativa. A visão um tanto estreita, mas tão cheia de possibilidades que os outros não vêem, de uma criança que conhece apenas as regras e os medos incutidos através da sua educação faz com que tudo ganhe uma perspectiva mais definida, mais clara. O certo e o errado - que nunca são opostos lineares - ganham uma nitidez diferente ao serem expostos por este olhar. E esta inocência traz também fluidez, naturalidade - mesmo quando o que está a acontecer é tudo menos natural.
Retrato de uma sociedade de aparências e, acima de tudo, de um pensamento que nem sempre está tão longe quanto se julga, trata-se, portanto, de uma história de crescimento e, ao mesmo tempo, de descoberta de que a vida nunca é tão simples quanto as regras sociais a querem fazer parecer. História de gente "séria" - e do que é isso de se ser sério - num relato memorável e impressionante, que se lê com a máxima leveza, mas que se entranha no pensamento muito depois de terminada a leitura. Recomendo.

Título: Gente Séria
Autor: Hugo Mezena
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 6 de abril de 2018

O Ano da Dançarina (Carla M. Soares)

1918. Dispensado devido aos ferimentos sofridos, Nicolau Lopes Moreira regressa da Frente, mas os demónios do que ali viveu voltam consigo. De regresso a casa, sabe que houve quem passasse por bem pior e que tem a sorte de ter uma família disposta a tudo para o ajudar, mas as sequelas ficarão para sempre e ele também sabe disso. Quando se alistou, fê-lo para ultrapassar um desgosto amoroso, mas, agora que está de volta, a Rosalina que em tempos o encantou surge-lhe agora de uma outra forma. E quando, apesar das marcas que carrega, o estado do país e a epidemia que o assola lhe exigem que esteja à altura da profissão que escolheu, Nicolau não hesita em dedicar-lhe todos os seus esforços. O país sofre. Todos sofrem. E Nicolau sofre também pela sua sensação de impotência. Mas, de cada vez que vislumbra a salvação possível, algo mais surge para o perturbar...
Vasto, complexo, repleto de elementos históricos e com um núcleo de personagens tão marcante quanto as suas circunstâncias, este é um livro em que há tanto para descobrir, tanto para assimilar, que é difícil começar a destacar alguma das suas facetas. É que qualidades não lhe faltam e há um impacto que se insinua aos poucos, que vai nascendo à medida que as personagens se dão a conhecer e que depois culmina num tão grande golpe emocional que é difícil, ao virar da última página, deixar partir esta história e estas personagens.
A escrita é belíssima. Claro que, sendo um livro em que o contexto histórico tem um papel tão importante, é inevitável o ritmo um pouco mais pausado das explicações necessárias. Mas é tão marcante a história, tão impressionante o percurso das personagens, tão bela a descoberta da superação para lá das trevas, que tudo se torna natural. Além do mais, todo o contexto é relevante. Não há informação desnecessária. E este equilíbrio entre o cenário global e o caminho pessoal das personagens é algo de simplesmente fascinante.
Mas, a ter de destacar um ponto forte num livro que os tem em tão grande abundância, seria sem dúvida a construção das personagens. No seio dos Lopes Moreira há gente carismática, gente boémia, gente atormentada e vulnerável, inocentes, contestatários, hesitantes e determinados. Há um mundo inteiro numa família só e em cada um dos seus elementos há algo que vale a pena admirar. E Nicolau... bem, Nicolau é a personagem perfeita. Assombrado pelo passado, mas decidido a tudo fazer no combate à epidemia - mesmo quando tudo lhe parece inútil. Apaixonado, mas vulnerável às sombras que nunca se afastam verdadeiramente. E há algo de maravilhoso na forma como a autora descreve esta vulnerabilidade, uma empatia tão grande que se torna quase impossível não entender o protagonista e reconhecer os fantasmas que o assombram.
E há ainda um outro ponto marcante, pois, se o contexto histórico é complexo e as personagens também o são, é inevitável que nunca haja escolhas fáceis nem finais perfeitamente limpos. No caminho dos Lopes Moreira há paixão e descoberta e superação, mas há também perda e mágoa e um sofrimento inevitável. Há vida - com luz e sombra. E são também estes sobressaltos e estes momentos cruéis que tornam a história tão real, pois nenhuma vida é verdadeiramente cor-de-rosa, e muito menos quando o mundo à volta está em tumulto.
No fim, fica uma marca poderosa, a de um percurso árduo e cheio de sombras, mas também de esperança e de possibilidades. Uma viagem tão vasta e complexa como a vida e em que cada momento, cada personagem e cada frase têm algo de único e de memorável para mostrar. Vale, pois, a pena conhecer esta brilhante família e este romance maravilhoso. Vale muito, muito, mesmo muito a pena. 

Autora: Carla M. Soares
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Espelho Mágico (Linda Chapman)

Maia leva uma vida normal, dividida entre a escola e as brincadeiras com as amigas, mas tem um segredo especial: ela acredita em magia. E, embora não o saiba ainda, o facto de a acreditar torna-a mágica. Do Mundo Estrela, foram enviados oito animais para encontrarem os seus Amigos Estrela e ensiná-los a usar a sua magia para o bem, e Maia e as amigas estão entre as escolhidas. Mas não se trata apenas de uma aprendizagem. Anda a alguém a usar Magia Negra no mundo e os Amigos Estrela precisam de travar os seus efeitos... Até porque estes parecem estar em acção mais perto do que as amigas julgam. 
Pensado para um público jovem, mas com o tipo de magia que cativa leitores de todas as idades, este é um livro que, na sua simplicidade, contém todos os elementos essenciais para uma boa aventura. Magia, uma luta entre o bem e o mal, amizade, coragem, animais que falam e momentos de perigo e de superação. Claro que, para uma mente adulta, a fronteira entre o bem e o mal nunca é tão nítida como nesta história. Mas não deixa de cativar a oportunidade de voltar a um ponto de vista em que tudo era mais simples. Há o bem e há o mal - e a necessidade de fazer o que está certo. E este último ponto permanece, pois fazer o que está certo (mesmo que seja o caminho mais difícil) é sempre a melhor opção.
Apesar de ser simples na perspectiva que as personagens têm das coisas, não deixa de ser uma história cheia de pequenas surpresas para descobrir. O Mundo Estrela, com os seus animais mágicos e a forma como interferem no mundo, traz à história uma série de elementos fascinantes. Além disso, as ilustrações realçam esta magia, tornando as coisas mais claras e reforçando a impressão de ternura que fica da relação entre as amigas e os seus Animais Estrela. O resultado é um livro em que as páginas passam a voar, tal é a facilidade de entrar no enredo e a vontade de saber o que acontece a seguir.
E depois há ainda um outro aspecto interessante. Bem e mal podem estar claramente definidos, mas as relações entre personagens já não são assim tão lineares. Quando se está a crescer, as amizades surgem e esbatem-se rapidamente - com a excepção dos raros casos que estão como que destinados a ficar para sempre. E isto reflecte-se no percurso da história: as diferenças entre Ionie e Maia e a relação de Clio com Beth realçam bem algumas das especificidades do que são essas amizades - abrindo assim espaço a um certo reconhecimento.
Da soma das partes resulta uma leitura cativante e divertida para os mais novos... e não só. Uma história de aventuras e de amizade em que a magia está em todo o lado e, com a ajuda dos amigos, tudo é possível. Gostei.

Título: Espelho Mágico
Autora: Linda Chapman
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Encontrei-te nas Páginas de um Livro (Xavier Bosch)

Gina perdeu a mãe quando tinha oito anos e por isso sente que nunca a conheceu verdadeiramente. Mas as respostas estão mais perto do que imagina - e são muito mais fascinantes do que seria de esperar. Durante quatro dias, Paulina Homs viveu a história de amor da sua vida... e depois voltou para a vida estável que tinha à sua espera. Mas a marca perdurou em gestos e cartas. E, quando parte em busca de respostas, Gina descobre que o amor é capaz de muito mais do que julgava...
Oscilando entre diferentes momentos no tempo e, inevitavelmente, diferentes perspectivas, este é um livro que parte de um ritmo algo pausado, parte de uma estranhamente intrigante mistura de descrição de introspecção, para depois se entranhar aos poucos na mente do leitor. Primeiro surge Gina e só depois a história de amor do passado. E esta viagem de Gina ao passado da mãe transpõe-se para o leitor, despertando a mesma sensação de descoberta e as mesmas surpresas. O resultado é que o que começa por ser apenas intrigante vai crescendo em intensidade para culminar num final belo e emotivo.
No cerne da narrativa está a relação de Paulina e Jean-Pierre, mas a história não se limita aos dois. No futuro, há Gina e as suas relações, Biel, Mark. No passado, há Anouk. E todas estas histórias aparentemente secundárias acrescentam algo mais ao enredo. Fica, por isso, uma certa curiosidade insatisfeita quando alguns destes elementos passam para um discreto segundo plano com o desvendar das respostas principais. Ainda assim, faz também algum sentido que assim seja, como que evocando um amor que tudo ofusca.
Há ainda um outro aspecto que importa destacar neste livro. A alma da história pode ser o amor de Paulina e Jean-Pierre, mas há uma paixão partilhada em que todos os bibliófilos facilmente se reconhecerão. Ao longo da história, Paulina e Jean-Pierre visitam algumas das mais belas livrarias do mundo e a forma como estas são descritas... bem, também é uma forma de amor, não é? E se forem, como eu, apaixonados pelos livros, fazer esta viagem em específico através das páginas de um livro é algo de simplesmente mágico.
Diz Jean-Pierre algures no livro que "temos as palavras que merecemos". E neste livro são muitas as palavras memoráveis. As cartas de Jean-Pierre, a forma como o autor descreve os momentos mais introspectivos das personagens, a visão que têm do mundo e do amor e... bem, dos livros... em tudo isto há momentos de uma beleza fascinante, frases que falam directamente ao coração. E isto é mais do que suficiente para compensar o tal ritmo pausado do início e até mesmo as perguntas que ficam sem resposta.
Há uma estranha magia que acontece quando abrimos um livro e lá dentro encontramos um bocadinho de nós. Para os apaixonados dos livros e das livrarias, é, sem dúvida alguma, o que acontece aqui. Cativante, emotivo e com vários momentos belíssimos, uma história marcante. E um livro em cujas páginas há muito de bom para encontrar...

Autor: Xavier Bosch
Origem: Recebido para crítica

Para mais informações sobre o livro Encontrei-te nas Páginas de um Livro, clique aqui.

Divulgação: Novidade Bertrand

Hattie Hoffman passou toda a vida desempenhando diversos papéis: boa aluna, boa filha, boa namorada. Mas Hattie quer mais, algo maior, enfim, algo que se revela extremamente perigoso. Quando é encontrada brutalmente apunhalada até a morte, a tragédia desfaz a comunidade da pequena cidade.
Numa história surpreendente, cheia de segredos e reviravoltas, seguimos a reconstituição de um ano na vida de uma jovem perigosamente bela e ambiciosa, durante a qual os segredos mais sombrios de uma pequena cidade vêm ao de cima... e ela fica cada vez mais perto da morte.

Mindy Mejia trabalha na área financeira e é autora de ficção. Os seus romances são contemporâneos, construídos à volta de uma acção e intriga fortes.

Divulgação: Novidades Topseller

Sobreviventes.
Nessa e Anto foram dos poucos jovens que conseguiram sair vivos da Terra Cinzenta. Agora, longe da crueldade dos Sídhe, sonham com um futuro feliz a dois.
Caça aos traidores.
Mas um inesperado ataque à escola dá início a uma caça às bruxas. As autoridades não acreditam ser possível sobreviver ao Chamamento e, alegando que os sobreviventes fizeram um pacto com o inimigo, rotulam-nos de traidores. Como punição, Nessa é reenviada para a Terra Cinzenta naquela que parece ser uma viagem sem retorno.
A hora da verdade.
Entretanto, os bárbaros Sídhe dão início a um ataque mortal, com um exército de horror nunca antes visto. Numa autêntica luta contra o tempo, Anto e os últimos alunos da sua escola enfrentam um inimigo sedento de sangue, procurando uma forma de defender o país e de salvar a vida de todos.

Peadar O’Guilin é um autor irlandês. A sua cidade natal, Donegan, bem como toda a área envolvente, foi uma importante inspiração para o livro The Call.
Habituado desde pequeno a falar não só inglês como também irlandês, a ligação do autor ao folclore e às tradições da Irlanda influencia aquilo que representa nos seus livros.
Vive em Dublin e já escreveu vários romances, contos e peças de teatro, assim como uma série de banda desenhada.

No que diz respeito ao amor, Kate é uma mulher sortuda ao lado de Jonathan. Na sua carreira, porém, as coisas podiam estar melhores! Depois de ter deixado tudo para seguir Direito, parece que lhe restam apenas o desemprego e um monte de dívidas.
Desesperada por trabalho, Kate conhece o espantoso (e sexy!) Adam, que se revela muito interessado em ajudá-la. Mas as intenções dele não são de todo inocentes. Acontece que Adam é um quebra-contratos, um homem que gosta de seduzir apenas mulheres com contrato assinado. E Kate é mais uma presa no seu jogo de conquistas.
Embora saiba que corre o risco de ser seduzida, o coração de Kate já tem dono. Por isso, quando Adam lhe oferece um emprego na sua empresa, ela aproveita a oportunidade. Finalmente o futuro começa a sorrir-lhe!… Um sorriso que dura cinco segundos… até Jonathan lhe revelar que não quer renovar contrato.
Com os sonhos destruídos, Kate entra em colapso. E o quebra--contratos? Bem, agora que está solteira, Adam parece ter perdido o interesse, mas, por algum motivo, também não consegue ficar longe dela…
Será que a solução é ficarem amigos?

Erin Lyon é uma autora norte-americana. Licenciou-se em Inglês e trabalhou em televisão durante dez anos até ter decidido enveredar por Direito.
Agora é também advogada e culpa a sua família e amigos por não a terem desviado da advocacia (excepto o seu irmão, que sempre achou a situação descabida).
Erin Lyon vive na região do norte da Califórnia com o seu marido e filha, numa casa cheia de animais resgatados.