quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Private: Paris (James Patterson e Mark Sullivan)

Jack Morgan está de visita a Paris para ver como correm as coisas com a sua empresa. Longe está ele de imaginar que se verá envolvido numa série de situações delicadas. Primeiro, um dos seus principais clientes liga-lhe a pedir que encontre a neta, da qual pouco sabe há bastante tempo, mas que acaba de lhe ligar a dizer que está metida em sarilhos. E depois o que começa por ser um conjunto de misteriosos graffiti ganha um novo significado quando as grandes figuras de França começam a aparecer mortas de uma forma altamente simbólica. Todos os recursos da Private Paris serão necessários para desvendar o mistério, pois a tensão que se vive na cidade é imensa e basta a mais ínfima faísca para pegar fogo a tudo.
Já é característico desta série que o enredo se divida entre vários casos. Mas é provavelmente neste livro que as várias partes se conjugam de forma mais coesa. O caso de Kim Kopchinski pode ter muito pouco a ver com os misteriosos actos do grupo AB-16, mas ambos os casos parecem entrelaçar-se com fluidez no ritmo a que a narrativa avança. Além disso, a situação de Jack enquanto estrangeiro no país torna a sua intervenção em ambos os casos mais delicada, o que faz com que tudo progrida com uma muito maior subtileza.
Claro que, apesar da situação delicada de Kim, grande parte do impacto da história vem do caso AB-16. E é daqui que emerge outro dos grandes pontos fortes deste livro. É que, sem perder de vista o habitual ritmo intenso e de acção constante, os autores traçam um cenário complexo e que levanta várias perguntas relevantes. Os processos de radicalização, a forma como o preconceito pode ser usado em proveito próprio, até mesmo a forma como, a partir de uma série de suspeitas bem urdidas, se pode construir uma teoria completamente oposta à realidade dos factos, tudo isto está bem presente ao longo do enredo e a naturalidade com que tudo se desenrola só realça mais o impacto destas questões.
E depois, claro, há Jack e a forma como, a partir do seu carisma (e das suas discretas, mas perceptíveis vulnerabilidades), se gera uma série de simpatias e de aversões mais ou menos óbvias, que tanto proporcionam momentos de grande intensidade como de um muito agradável humor. Também isto torna a leitura mais cativante, pois vem criar picos de surpresa num livro onde a acção é praticamente incessante, acrescentando ao enredo uma faceta mais leve que, tendo em conta o cenário global, acaba por funcionar particularmente bem.
Trata-se, pois, muito provavelmente de um dos melhores livros desta série, um livro para devorar de uma assentada - e, depois, para ficar ansiosamente à espera da próxima aventura de Jack Morgan e da sua Private. Intenso, viciante e muito equilibrado na conjugação das suas múltiplas facetas. Muito bom, portanto.

Título: Private: Paris
Autores: James Patterson e Mark Sullivan
Origem: Aquisição pessoal

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Os 22 Mistérios da História (Geòrgia Costa)

Do Triângulo das Bermudas às Pirâmides de Gizé, passando, é claro, pelos avistamentos de discos voadores e pelas múltiplas previsões do fim do mundo, a História mundial está cheia de mistérios. E, sendo certo que alguns já foram desmistificados, outros continuam à espera de uma explicação convincente. Já ouviram falar destas histórias? Então de certeza que vão gostar de as relembrar. E quanto às que não ouviram... bem, há umas quantas surpresas à espera.
Pensado para um público jovem, mas muito interessante para leitores de todas as idades, este é um livro que cativa, acima de tudo, pela forma como consegue construir, para cada um dos tópicos, uma exposição simples e intrigante, realçando não só os aspectos mais misteriosos (e as inevitáveis teorias da conspiração), mas também as explicações que foram sendo obtidas ao longo do tempo. O resultado é uma percepção mais ampla, ainda que assente em explicações sucintas, tanto dos mitos, como da realidade subjacente.
Se o registo simples e cativante, associado, naturalmente, ao tema, bastam para despertar a curiosidade, há ainda um outro aspecto apelativo a salientar: o visual. Profusamente ilustrado e de uma forma que torna tudo mais perceptível, este é um livro em que um folhear superficial basta para chamar a atenção. E depois, quando se começa a ler, este apelo reflecte-se no texto, que, com a sua simplicidade, desperta curiosidade e vontade de saber mais.
Claro que, sendo as explicações tão breves, fica sempre um pouco insatisfeita a tal vontade de aprofundar mais o conhecimento. Mas a verdade é que não é esse o objectivo do livro. O que fica é uma visão geral do que se sabe sobre esses grandes mistérios - visão que, considerada como um todo, realça também a vastidão de coisas que não têm ainda explicação. Para o resto, haverá outras possibilidades a explorar. 
E assim a soma das partes é um livro leve e cativante em que para cada grande mistério surge uma explicação sucinta, mas também muito intrigante. Uma boa leitura para descobrir as estranhezas do mundo - para os mais novos e não só. 

Título: Os 22 Mistérios da História
Autora: Geòrgia Costa
Origem: Recebido para crítica

domingo, 10 de dezembro de 2017

Nenhuma Verdade se Escreve no Singular (Cláudia Cruz Santos)

Amália sempre se considerou uma mulher forte e essa convicção nunca deixou de se manifestar também na forma como aborda a sua profissão. Pelo seu tribunal, passam casos desesperados, situações que se descontrolaram, vidas inevitavelmente perdidas, de uma forma ou de outra. Mas, às certezas cada vez menores da sua vida profissional, juntam-se também as mudanças na vida pessoal. O homem que amava partiu sem grandes explicações. E Marta, a criança que decidiu acolher, pode necessitar da sua ajuda, mas aquilo por que mais anseia é voltar ao mundo que conhece e ao avô que, apesar de todos os problemas, é a sua âncora. Cada vez mais só nas complexidades da vida, Amália começa a questionar as suas certezas. Mas a verdade nunca é única nem absoluta. E cada resposta que julga encontrar traz apenas novas perguntas ao seu pensamento.
De ritmo relativamente pausado e com um enredo que se propaga em múltiplas direcções, este não é propriamente um livro de leitura compulsiva, já que tudo, desde as complexidades sentimentais ao entrelaçar dos factos mais difíceis, exige um certo tempo para absorver. Mas o mais interessante nesta leitura é que este registo mais lento, centrado em grande medida na introspecção, apesar de divagar para as vidas de diferentes personagens, nada retira ao impacto da história em si. Muito pelo contrário, aliás, pois a visão cada vez mais complexa que Amália tem da sua vida torna-se também cada vez mais verdadeira. A vida é complexa, afinal. Isso é inegável.
Também particularmente impressionante é que, embora grande parte da história seja vista do ponto de vista de Amália, há todo um cenário mais vasto a considerar. Dos casos que Amália julga no tribunal, bem como da história de Marta, de Madalena e da própria relação falhada de Amália, emergem questões muitíssimo pertinentes, como a importância da família biológica, a possível falibilidade do sistema jurídico ou a forma como o que se julga ser o melhor e o que realmente o é nem sempre são a mesma coisa. E esta complexidade surge não só da percepção de Amália, mas também dos comportamentos das personagens que a rodeiam. Marta, em particular, é um poço de complexidade: vulnerável, encantadora, mas obstinada nas suas vontades e capaz de atacar onde mais dói. Uma criança, mas com uma maturidade assustadora. Frágil, em certos aspectos, mas mais que capaz de se defender. 
E, claro, o fluxo da escrita parece ajustar-se perfeitamente a esta jornada de percepção. Pausada, introspectiva, divagando entre as diferentes facetas da narrativa, mas sem perder de vista a perspectiva global, dá a voz certa a cada figura e a cada momento, realçando, em cada situação, o que realmente importa. No fim, é certo que não há resposta para tudo - como na vida também as não há. Mas faz sentido a forma como tudo termina, num ponto de viragem que é apenas insinuado, mas que abre portas a toda uma nova fase da vida.
Nenhuma verdade se escreve no singular. É bem verdade esta afirmação. E é também esta a imagem que fica deste livro: a de uma caminhada por duras veredas em que a única verdade universal parece ser a da infinita complexidade do ser humano. Marcante, pertinente e com muito material em que pensar, um livro memorável em todos os aspectos. E que recomendo, naturalmente. 

Título: Nenhuma Verdade se Escreve no Singular
Autora: Cláudia Cruz Santos
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

A Vida Louca dos Reis e Rainhas de Portugal (Orlando Leite, Raquel Oliveira e Sónia Trigueirão)

Das visitas a conventos com fins pouco religiosos às guerras sucessórias com razões mais ou menos plausíveis, passando pelos muitos casos de alcova, traições e tentativas de traição e extensas ou reduzidas descendências mais ou menos legítimas, a história de Portugal está cheia de casos peculiares. E, sendo embora uma história de séculos, há factores que parecem repetir-se num ciclo infinito: as dificuldades económicas, a vida amorosa não muito dada à monogamia e, principalmente, a rede de influências das diferentes classes em torno da mente e das acções dos soberanos. De todos os reis e rainhas há uma história para contar - e, de forma muito simples e sucinta, é isso mesmo que este livro faz.
Muito longe de ser um livro exaustivo nos aspectos da História que aborda, este é, ainda assim, um bom livro para quem quer saber um pouco mais sobre os aspectos mais pessoais da vida dos monarcas portugueses, pois, centrado nas histórias de amores e desamores, casamentos de conveniência e grandes paixões extra-conjugais, é sobre as facetas menos... regulares... de cada monarca que este livro mais se debruça. Ainda assim, não entra em grandes pormenores, centrando-se antes num traçado em linhas gerais do percurso de cada protagonista, incluindo os elementos mais importantes e também as peculiaridades.
Ora, reduzir um reinado a poucas páginas deixa inevitavelmente muito por contar e, assim sendo, este não será propriamente o livro certo para quem estiver à procura de pormenores. Para ficar a conhecer - ou relembrar - o básico, porém, esta será, sem dúvida, uma boa leitura, não só porque a informação fundamental está lá, mas também porque os aspectos invulgares tornam tudo mais cativante, despertando também a vontade de saber mais.
A impressão que fica é, portanto, a de uma forma simples e intrigante de descobrir um pouco da história dos vários monarcas portugueses - e, através deles, da evolução do reino ao longo dos tempos. Uma leitura simples e sintética, mas com muita informação interessante. E, por isso, um belo ponto de partida para o desvendar de uma história que, como se sabe, é sempre muito mais vasta. 

Título: A Vida Louca dos Reis e Rainhas de Portugal
Autores: Orlando Leite, Raquel Oliveira e Sónia Trigueirão
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

O Corpo Humano para Montar

O conceito de aprender brincando é algo que nunca passa de moda - talvez porque torna a aprendizagem muito mais divertida. E que melhor maneira de começar a aprender os elementos básicos do corpo humano senão com um livro colorido que não só explica as bases de forma simples como permite construir um modelo onde tudo isso se pode ver? Bem, é esta experiência que este pequeno livro proporciona. E o resultado é bastante interessante.
Claro que se olharmos para um livro destes enquanto adultos, tudo parece muito, muito simples, talvez até demasiado. Mas, se nos lembrarmos de como foi aprender as primeiras coisas sobre o corpo humano, já não é bem assim, pois não? Além disso, não é que este livro pretenda servir como transmissor de uma grande dose de conhecimento. O que ensina são as coisas simples, o princípio de um conhecimento que mais tarde se expandirá. E, para os mais pequenos, que começam agora a aprender as coisas, então este modelo simples e interactivo é uma muito boa forma de aprender os primeiros aspectos - e de despertar a curiosidade de saber mais.
Claro que, sendo um livro para os mais novos, a acessibilidade é essencial, não só no conteúdo, como na construção do modelo em si. E esse é outro ponto positivo. Além do visual apelativo que chama a atenção e facilita a memorização do conhecimento, também o modelo é muito fácil de montar, proporcionando assim uma experiência didáctica e divertida aos potenciais jovens leitores deste livro. 
É, de facto, muito simples e principalmente um ponto de partida. Será, por isso, acima de tudo, um livro para aqueles que começam a aprender, pois para um conhecimento mais pormenorizado haverá decerto livros mais adequados. Mas, para os mais pequeninos? Bem, é uma bela forma de começar a descobrir o corpo humano. E é assim que se começa a querer saber mais. 

Título: O Corpo Humano para Montar
Autor: Vários
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Bougainvillea (Antonio Orlando Nomeriano)

Joell deixou à mãe um jardim esplendoroso e depois desapareceu. Mas Gille não se conforma com a ausência do filho e, por isso, decide contratar um detective para que descubra o que realmente aconteceu. A verdade, sabe, está escondida algures no passado. Mas um passado que escondeu grandes segredos e abalou a mais forte das amizades não pode senão trazer consequências terríveis. E, quando descoberta, a verdade poderá ser difícil de aceitar...
Muito breve, apesar de abranger um período relativamente vasto, este é um livro que deixa sentimentos ambíguos. Por um lado, o potencial da história é evidente e a revelação final tem tudo para ser um momento de grande impacto. Por outro, a narrativa demasiado sucinta em contraponto com algumas longas - e não muito necessárias - explicações, principalmente no que diz respeito à jardinagem, torna o ritmo do enredo um pouco errático. Além disso, também a escrita um pouco confusa, com divagações pelo passado, contribui para essa sensação geral.
O que se destaca, então? Bem, acima de tudo, o potencial de uma história que podia ter sido muito mais vasta, já que, quer o mistério em si, quer a sua surpreendente resolução, quer ainda as relações passadas entre as várias personagens têm muito de interessante e que poderia ter sido muito mais desenvolvido. Há bons momentos? Há, com certeza. E é precisamente por isso que fica o tal sentimento de que haveria muito mais para contar.
Mas é principalmente a escrita que deixa esta sensação de ambiguidade, a oscilação entre momentos em que tudo acontece demasiado depressa, onde actos e explicações parecem ficar sem grandes consequências, enquanto noutros momentos a explicação se alonga em aspectos de menor importância. Além disso, parece haver também alguma irregularidade na estrutura do texto, já que nalguns dos diálogos não se percebe muito bem quem está a falar. Tudo isto acaba por contribuir para a sensação de confusão geral e de que, com um pouco mais de coesão, a intensidade da história - que tem, de facto, muito potencial - poderia ter sido muito mais amplificada.
Tudo somado, a impressão que fica é a de um livro breve e agradável quanto baste, mas que poderia ter sido muito mais. No seu grande mistério e nos muitos segredos que a ele conduziram há todo o potencial de uma grande história. Pena que tenha acabado por ficar tão curta.

Título: Bougainvillea
Autor: Antonio Orlando Nomeriano
Origem: Recebido para crítica

domingo, 3 de dezembro de 2017

Como Parar o Tempo (Matt Haig)

Tom Hazard tem o aspecto de um homem de quarenta anos - mas, na verdade, a sua idade conta-se em séculos. E, no decurso da sua longa vida, amou, perdeu, sofreu injustiças, teve vontade de morrer... e sobreviveu. Pelo caminho, conheceu alguns famosos do passado, foi recrutado (até porque não tinha escolha) para uma misteriosa sociedade e nunca mais voltou a permitir-se sentir por ninguém. Mas agora Tom sabe que não pode continuar assim e sente que precisa de voltar ao lugar onde tudo começou. De novo em Londres, como professor de história, Tom revisita as memórias de um passado demasiado longo, ao mesmo tempo que um sentimento indesejado - mas não desagradável - começa a nascer. Mas quem entra na sociedade não volta a sair com vida. E o seu estranho mentor está atento ao comportamento de Tom. 
Impressionante desde as primeiras frases e até ao fim, este é um livro em que todos os aspectos são fascinantes, mas em que, inevitavelmente, o primeiro a sobressair é a escrita. Matt Haig formula pensamentos com uma mestria tal que, de início, é inevitável a vontade de começar a tomar notas das citações. (E depois já são tantas as citações notáveis que o mais provável seria tomar nota do livro inteiro.) Há tanta beleza nas palavras, tanta naturalidade na forma como tudo flui e, principalmente, uma sensação tão forte de que tudo se exprime da forma ideal, que é irresistível o apelo de esquecer o mundo, parar o tempo e mergulhar na leitura sem interrupções.
E a escrita é apenas o início, pois personagens e enredo são também igualmente marcantes. O enredo, porque há na história de Tom ao longo dos séculos - e principalmente no presente - todo um percurso de aventuras e de perigos e perdas e descobertas e cada momento é intenso e cativante. As personagens, porque ninguém é perfeito, mas todos são perfeitamente construídos. E Tom... Bem, Tom é um protagonista fascinante, profundamente humano na sua diferença, capaz de sentimentos imensos e de ainda maiores vulnerabilidades, consciente e crédulo consoante os fluxos da vida.
O que me leva ao que é, para mim, o verdadeiro pináculo desta leitura: a emoção. Durante a sua longa vida, Tom lidou com todo o tipo de situações e pessoas e esse percurso está, naturalmente, pejado de emoções intensas. Mas a forma como estas emoções se manifestam, tanto em pensamentos certeiros como em momentos pura e simplesmente devastadores, nunca deixa de surpreender e de marcar. E mais. Há em todo este longo percurso tantas raízes de empatia que compreender Tom faz-nos sentir também um pouco compreendidos. E isso... bem, isso é uma magia especial.
Que mais se pode pedir a um livro? Por toda a beleza das palavras, bem como pela emoção e proximidade que história e personagens despertam e pela sempre fascinante aventura da longa vida de Tom Hazard, a verdade é que, no fim, fica-se de coração cheio. Magia - é isso que se encontra nas páginas de uma boa leitura. E este livro é, de facto, pura magia. Maravilhoso. 

Título: Como Parar o Tempo
Autor: Matt Haig
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Consciência (Charlie S. Dias)

Desde pequenos que Derick, a irmã e a amiga River são amigos inseparáveis. Mas uma separação forçada leva-os a novos pensamentos e à descoberta de novas relações. Os irmãos parecem fechar-se em si mesmos, enquanto River encontra no mundo digital o refúgio de que precisa. E quando o tempo passa  e o reencontro finalmente surge, nenhum deles é já o mesmo e uma nova amizade - que aspira a ser algo mais - intromete-se na tranquilidade do trio. O afecto torna-se amor não correspondido, e esse transforma-se em mágoa. E, no momento em que a vida se torna demasiado pesada, só uma estranha peregrinação poderá lançar sobre a vida uma nova luz.
Relativamente breve, e porém abrangendo um vasto período de tempo, uma das primeiras impressões que este livro desperta é a de que facilmente se poderia ter expandido para uma história muito maior. As relações entre os protagonistas, a forma como lidam com a separação, a própria viagem de Derick na fase mais avançada do enredo... tudo isto poderia ter sido muito mais elaborado. Assim sendo, é inevitável uma certa sensação de curiosidade insatisfeita. Mas há também uma contrapartida. É que, pese embora o que fica por contar, o essencial está lá - e esse é mais do que suficiente para cativar. 
Sendo que grande parte da história se centra na relação entre os três amigos, bem como na descoberta de novas relações, pode dizer-se que esta é, acima de tudo, uma jornada de crescimento. E é neste aspecto que surge o lado mais interessante deste pequeno livro: o facto de, apesar da brevidade, ser perfeitamente possível reconhecer os pontos essenciais deste percurso. Os factores que abalam uma amizade, a descoberta de relações mais profundas, a chegada à vida adulta e a sensação de não se estar preparado... tudo isto surge, de certo modo, ao longo da história. E, simpatize-se ou não com a posição das personagens, é fácil reconhecer pontos em comum com a realidade. 
Se o aspecto emocional é fácil de assimilar, já ao nível dos acontecimentos nem sempre é fácil acompanhar o passo das personagens. Talvez também devido à brevidade, há aspectos que parecem ser um pouco confusos, sobretudo na fase inicial. Após a entrada em cena de Consciência, contudo, a história parece fluir com mais naturalidade e, em consequência, o ritmo torna-se bastante mais envolvente.
No fim, a impressão que fica é a de uma viagem por vezes atribulada, mas sempre cativante e com uma visão muito interessante da jornada em direcção à idade adulta. Haveria mais para contar? Certamente. Mas o essencial está lá... e isso basta. Gostei. 

Título: Consciência
Autor: Charlie S. Dias
Origem: Recebido para crítica