sábado, 19 de agosto de 2017

Tempo de Dizer Adeus (S.D. Robertson)

William Curtis prometeu à filha que nunca a abandonaria, mas o acidente que lhe tira a vida demasiado cedo fez com que essa promessa se tornasse impossível de cumprir. Agora, Will vê-se morto e perante uma decisão inevitável: passar para o outro lado ou manter-se presente enquanto espírito para acompanhar a filha, como sempre prometeu que faria. O problema é que a decisão não é assim tão simples: não só o tempo que tem para decidir é limitado como as suas tentativas de comunicar com a filha podem influenciar o futuro de forma irreversível. E, invisível aos olhos de todos excepto os da filha, Will pergunta-se de que forma poderá tomar a decisão certa - principalmente quando os segredos da família começam a vir à superfície.
História de morte e de vida para além da morte, este é um livro que tem como principal ponto forte a capacidade de emocionar. Por um lado, o dilema de Will perante a promessa que fez à filha de seis anos, desperta, desde logo, uma certa empatia para com a sua situação. E depois, à medida que novas revelações vão surgindo e a vida familiar dos que ficaram começa a moldar-se às circunstâncias, também as outras personagens - e as dificuldades que têm de atravessar - começam a despertar simpatia e compreensão. 
Isto não quer dizer que todas as personagens sejam igualmente empáticas. Sendo certo que há nesta história várias figuras marcantes, com particular destaque para a pequena Ella, também as há que não chegam a revelar verdadeiramente os seus melhores traços, como é o caso de Hardy. Neste caso, fica inclusive uma certa sensação de curiosidade insatisfeita, pois teria sido interessante ver o que foi que o transformou na figura que é. Ainda assim, há um aspecto que sobressai na construção das personagens, e que contribui em muito para o impacto final. Mais ou menos carismáticas, mais ou menos vulneráveis, há uma coisa que todas as personagens têm em comum: nenhuma delas é perfeita. E isso faz com que seja possível assimilar os progressos da sua jornada, os momentos de colapso e de crescimento, de revolta e de compreensão. Torna-as humanas, portanto. Torna-as reais.
Quanto ao enredo propriamente dito, sobressaem dois aspectos: primeiro, a capacidade de construir uma história sobre a vida após a morte sem se cingir demasiado aos dogmas de um sistema específico de crenças; e depois, o potencial de evolução das personagens ao longo do enredo. Todo o percurso de Will e da família é uma história de perdas e de superação, em graus e contextos diferentes. E, a cada nova descoberta, a cada novo passo rumo à decisão (de Will e não só), há algum tipo de crescimento a acontecer. Will aprende a aceitar o que lhe aconteceu e a ver para lá de si mesmo para fazer a melhor escolha. E esse percurso estende-se também à sua família, que descobre a união para lá da perda e dos segredos.
A impressão que fica é, portanto, a de uma história terna, cativante e inocente quanto baste. Uma história de amor para além da morte e uma lembrança de que, na vida, as coisas mais importantes nem sempre são as que julgamos. Gostei.

Título: Tempo de Dizer Adeus
Autor: S.D. Robertson
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Presença

Neil Gaiman
Colecção: Via Láctea nº 139
Tema: Infantis-Juvenis
Título Original: Norse Mythology
Tradução: Maria João Ferro
ISBN: 978-972-23-6071-5 
Páginas: 248

As lendas nórdicas sempre tiveram uma forte influência no universo de Neil Gaiman. Neste novo livro, o multipremiado autor regressou às suas fontes para criar quinze contos relacionados com a grande saga dos deuses escandinavos, que inspiraram a sua obra-prima Deuses Americanos. Da génese do mundo ao crepúsculo dos deuses e à era dos homens, eles readquirem vida: Odin, o mais poderoso dos deuses, sábio corajoso e astuto; Thor, seu filho, incrivelmente forte mas turbulento; Loki, filho de um gigante e irmão de Odin, ardiloso e manipulador... Orgulhosas, impulsivas e arrebatadoras, estas divindades míticas transmitem-nos a sua apaixonante - e muito humana - história.

Neil Gaiman começou por trabalhar como jornalista freelancer até que em 1987 se tornou conhecido ao criar com Dave McKean a novela gráfica Violent Cases. Devido ao excelente acolhimento da obra, abandonou o jornalismo e em 1988 iniciou a publicação da série Sandman, que o transformou num autor de culto. A sua carreira tem sido extraordinariamente prolífica e a sua arte tem obtido um justo reconhecimento, quer do público quer da crítica, o que lhe valeu diversos prémios prestigiados. Alguns dos seus livros foram adaptados a grande ecrã com grande sucesso, como é o caso de Coraline e a Porta Secreta e Stardust - O Mistério da Estrela Cadente, ambos já publicados pela Presença. Neverwhere - Na Terra do Nada, uma brilhante fantasia urbana, foi inspirada numa minissérie que escreveu para a BBC. Mitologia Nórdica tem direitos de tradução vendidos para cerca de 30 países.

Para mais informações consulte o site da Editorial Presença aqui.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Respire (Rebecca Dennis)

Respirar é algo natural - não precisamos de pensar para o fazer. Mas a forma como respiramos pode ter impacto nas nossas emoções. Quando estamos nervosos, a respiração acelera. Respiramos fundo para nos acalmarmos. Às vezes, suspiramos quando nos sentimos tristes. Mas será que respiramos da forma certa? O que este livro propõe é um olhar sobre a forma como a respiração influencia as emoções e permite ultrapassar marcas passadas e preocupações com o futuro - moldando o agora ao ritmo de uma respiração mais consciente. 
Se tivermos em conta a premissa deste livro, uma das primeiras impressões a surgir é, quase inevitavelmente, de uma certa estranheza. Afinal, respirar é algo que se faz sem pensar nisso - não tem nada de assim tão transcendente. Mas, à medida que se avança na leitura, e as ideias da autora se tornam mais claras, é possível acompanhar o desenvolvimento de um método com bastante potencial. Não, não resolve todos os problemas - nem parece que seja esse o objectivo. Na verdade, nem sequer é um método de passos estritos e definidos, mas antes um conjunto de possibilidades a cada leitor se pode ajustar. E é isso que torna este livro tão interessante, pois não exige nem uma orientação estrita, nem uma fé cega, deixando ao leitor a possibilidade de experimentar e de se ajustar ao que de bom pode retirar das orientações da autora.
Também bastante interessante neste livro é a forma como a autora complementa a exposição das suas ideias com partes da sua história pessoal, histórias de alguns dos seus clientes, citações de outros autores e vários exercícios de respiração. Os exemplos práticos permitem assimilar melhor as possibilidades que a autora apresenta ao expor as suas teorias. As referências a outros autores abrem caminho a quem quiser aprofundar conhecimentos sobre o tema. E a ampla variedade de exercícios permite que cada leitor retire do livro aquilo que mais se lhe adequar.
Claro que não se trata de nenhum método milagroso - mais uma vez, nem parece ser esse o objectivo. E, ao ler as histórias de vários dos clientes da autora, fica uma certa curiosidade em saber mais ao pormenor de que forma é que as sessões influenciaram a forma como as várias pessoas lidaram com os seus diferentes problemas. Ainda assim, a impressão que fica é, no essencial, positiva, já que, pelo menos no que toca à calma, é fácil reconhecer de que modo os exercícios apresentados podem ser úteis.
A imagem que fica é, portanto, a de um livro interessante, com vários exercícios úteis e um conjunto de boas ideias e perspectivas sobre a forma como a respiração exerce influência sobre a saúde e o bem-estar. Gostei. 

Título: Respire
Autora: Rebecca Dennis
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 15 de agosto de 2017

A Mulher Desaparecida (Sara Blædel)

Agora que o passado de Louise finalmente ficou para trás, ela e Eik parecem estar a construir uma relação mais sólida. Mas tudo muda no dia em que, se dar qualquer explicação, Eik desaparece subitamente. Pouco depois, descobrem que foi detido em Inglaterra enquanto tentava invadir a casa onde uma mulher foi assassinada. Tudo começa a fazer sentido quando descobrem que a morta é Sofie Parker, a namorada que Eik deu como desaparecida dezoito anos antes. Mas saber quem ela é não desvenda quem a matou. E, se o comportamento de Eik é, no mínimo, suspeito, então cabe a Louise descobrir a verdade.
Centrado essencialmente num caso com ligações ao passado, mas não se cingindo a elas, este é um livro que surpreende, em primeiro lugar, por ser possivelmente o mais leve dos três. E isto é inesperado, em primeiro lugar, pelas circunstâncias misteriosas do passado, já que o desaparecimento de Sofie deixou marcas poderosas em Eik, mas também pelo tema complexo que emerge das pistas que vão sendo descobertas. Ainda que seja o caso o cerne da narrativa, há grandes ligações à vida pessoal das personagens e, assim sendo, surpreende, até certo ponto, a forma como estes laços vão ficando para segundo plano.
Ora, isto deixa alguns sentimentos ambíguos, pois, se as descobertas iniciais abalam a relação de Louise e Eik, a forma rápida como tudo se resolve deixa uma certa curiosidade insatisfeita. Teria sido interessante ver um pouco mais da forma como Louise lida com as questões privadas, até porque a situação com Eik não é o único problema pessoal que Louise tem nas mãos. Ainda assim, tendo em conta a evolução do caso, faz algum sentido que estes aspectos tenham ficado um pouco para trás.
O que me leva ao grande ponto forte deste livro: as motivações do caso. Há na história de Sofie Parker, no passado e nas acções a que este passado a motivou, uma teia interessantíssima de questões pertinentes, não só quanto à viabilidade das suas escolhas como no que diz respeito às questões éticas subjacentes. E a forma como a autora aborda o tema, tendo o cuidado de realçar, ao longo do caso, pontos de vista divergentes, faz com que tudo pareça bastante mais realista - ainda que fiquem algumas perguntas sem resposta.
E depois há a escrita, claro, e a forma como a autora consegue entrelaçar pequenos fragmentos do passado com o enredo do presente, de modo a apresentar uma perspectiva mais clara das motivações de Sofie. Estão nesses pequenos momentos alguns dos episódios mais marcantes de todo o enredo e vê-los de uma perspectiva diferente torna o impacto da história um pouco maior.
Tudo somado, fica a imagem de uma narrativa inesperadamente leve e centrada principalmente no caso a investigar, mas em que a complexidade do tema e os vislumbres de uma vida pessoal para lá do mistério tornam tudo mais intenso e intrigante. Mais uma boa leitura, portanto, numa série que vale a pena descobrir.

Título: A Mulher Desaparecida
Autora: Sara Blædel
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

A Serpente do Essex (Sarah Perry)

Cora Seaborne acaba de perder o marido e o que sente em nada corresponde ao que as convenções ditam que devia sentir. Pela primeira vez, sente-se livre de viver como julga melhor e de explorar a sua paixão pelo passado. Quando ouve pela primeira vez a história da serpente do Essex, um monstro que, aparentemente, deambula pelo estuário do Blackwater, Cora sabe que tem de investigar, pois julga ter ali a sua oportunidade de encontrar um fóssil vivo e conquistar o seu lugar na história. O que não sabe é que o que a espera em Aldwinter é algo de diferente. Aí, encontrará a mais invulgar das amizades na figura do reverendo William Ransome. E esse afecto abrirá caminho a todas as respostas - e a mudanças que nenhum deles sabe explicar.
Ainda que Cora Seaborne pareça ser o ponto para que todas as linhas do enredo convergem, uma das primeiras coisas a chamar a atenção neste livro é que, mais que uma única protagonista, há um conjunto de personagens igualmente relevantes que, no seu conjunto, dão forma a uma narrativa complexa e sempre intrigante. Até a própria serpente do Essex pode ser vista como uma personagem, tal é a forma como influencia o comportamento de todos os que conhecem a história. E isto, este núcleo de figuras centrais cujas relações e interdependências dão forma a um percurso cheio de estranhas descobertas, faz parte do que torna todo este enredo tão fascinante.
Claro que, tendo isto em vista, a narrativa flui a um ritmo relativamente pausado, não só pela necessidade de acompanhar várias personagens, mas também devido ao próprio ritmo do mistério. A influência das coisas e das pessoas é algo que se manifesta gradualmente e conhecer as personagens e o que as move é crucial para a compreensão desta influência. Mas, há algo mais nessa relativa lentidão, algo que parece reforçar a percepção do ambiente. É que a vida em Aldwinter, em oposição, por exemplo, às experiências de algumas das personagens em Londres, é também ela de relativa tranquilidade - excepto no que toca à serpente, claro. E, assim sendo, este ritmo brando da passagem do tempo acaba por fazer todo o sentido, pois é esse o ritmo a que as personagens se movem.
Mas há ainda um outro aspecto que sobressai e a forma como a autora constrói a narrativa realça bem esta característica. Mais do que a história de uma misteriosa serpente, este livro fala, acima de tudo, de pessoas. Pessoas que amam e odeiam, que alimentam esperanças e sofrem com os seus medos, que crêem ou questionam e que, perante os mistérios da vida, se assumem também como os seus próprios mistérios. E assim, ninguém se revela por completo a não ser na complexa interacção com os outros. Interacção essa que é a verdadeira magia num enredo todo ele cheio de mistérios.
Da soma de tudo isto, resulta um livro pausado, mas sempre cativante, em que os verdadeiros mistérios não vêm de uma serpente monstruosa, mas das almas que o medo e a esperança parecem moldar a cada nova descoberta. Complexo, marcante e com uma escrita belíssima, um livro memorável de uma autora a seguir.

Título: A Serpente do Essex
Autora: Sarah Perry
Origem: Recebido para crítica

domingo, 13 de agosto de 2017

A Espada do Destino (Andrzej Sapkowski)

Enquanto bruxo, Geralt de Rivia é tido como um simples caçador de monstros, menos que humano e desprovido de sentimentos. Mas a verdade nunca é assim tão simples e Geralt é movido por um código que que impõe grandes limites morais aos monstros que está disposto a perseguir. E, a cada aventura, a morte segue-o, passo a passo, mas Geralt recusa-se a olhar para trás. Percorrendo o mundo sem destino, enquanto o seu destino o aguarda...
Tal como já acontecia no livro anterior, esta não é propriamente a narrativa de uma aventura com princípio, meio e fim, mas um conjunto de histórias em que a intervenção de Geralt, ou o seu próprio percurso pessoal, mudam o rumo das coisas. E, também à semelhança do livro anterior, mas agora de forma mais evidente, cada uma destas histórias parece querer abrir caminho para o que virá a ser uma história maior - a da predestinação de Geralt, que não acredita na predestinação. Ora, o que torna interessante este conjunto é precisamente isso: a sensação do muito potencial que ainda está para vir, conjugada com um conjunto de aventuras que são também muito cativantes. Como que uma janela para conhecer melhor personagens que têm um grande papel pela frente.
E, falando em personagens, claro que quem mais fascina em tudo isto continua a ser Geralt, com a sua natureza de bruxo - e o que dela os outros pensam - a contrapor-se ao que as acções realmente demonstram e a uma verdade que é maior do que a crença de quem observa. Geralt é um mistério, um enigma por natureza - e, porém, há tanto nos seus actos de espantosamente humano (no melhor sentido da palavra) que é difícil não querer saber que mais coisas o esperam no seu longo caminho. 
O que me leva às histórias e à forma como, apesar de continuar presente a impressão de que a maior parte deste mundo permanece por revelar, cada um destes episódios permite ficar a conhecer melhor as personagens, os traços distintivos dos diferentes seres e também o mundo e o contexto em que se movem. Além, é claro, de proporcionarem belos momentos de leitura, com os seus momentos intensos, divertidos ou até comoventes. 
Ah, e há pequenas coisas... Na forma como a história está escrita, na visão que algumas personagens têm das outras e na própria percepção que Geralt tem de si mesmo estão presentes pequenas grandes questões que, transpostas para a realidade, dão muito material para reflexão. Porque é que os bruxos, por serem bruxos, não têm sentimentos? Porque é que todos os ananicos são iguais? E será mesmo assim, ou o preconceito está na mente de quem os observa? Há muitas questões relevantes escondidas neste mundo de fantasia, e é também isso que torna a leitura marcante.
Tudo somado, a impressão que fica é, mais uma vez, a de uma introdução a uma história que promete ser muito mais vasta. Mas também a de um conjunto de aventuras cativantes, com um protagonista forte e memorável e um mundo tão cheio de potencial como as personagens que nele se movem. Vale a pena conhecer Geralt de Rivia. Vale mesmo muito a pena. 

Autor: Andrzej Sapkowski
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Don't Close Your Eyes (Holly Seddon)

Robin e Sarah são gémeas, mas não podiam ser mais diferentes. Quando eram pequenas, Sarah era a boa menina e Robin a rebelde. Agora, Sarah fez algo terrível e não sabe para onde se virar. E Robin vive isolada em sua casa, a dormir debaixo da cama e com medo de sair à rua. Em comum, têm um passado que lhes perturbou os sonhos, afastou-as de várias maneiras… e moldou-as nas mulheres que agora são. E agora, precisam de ultrapassar isso, se têm alguma esperança de resolver a confusão em que as suas vidas se tornaram.
Narrado a partir de vários pontos de vista e oscilando entre o passado e o presente, este é um livro que tem na aura de mistério a sua maior força. Primeiro, porque todas as verdades, presentes e passadas, são reveladas gradualmente e, assim, o impacto de cada uma dessas verdades muda a percepção de tudo o que se segue. E também porque altera a perspetiva de quem são as protagonistas e do quanto cresceram.
Também intrigante é o facto não haver nenhum grande crime ou investigação na narrativa. A história concentra-se na vida das protagonistas – e, sim, principalmente nas coisas más que as mudaram – mas os grandes segredos, as revelações mais importantes, não vêm de nenhum crime sinistro, mas mais do impacto do passado sobre o presente. E isto é uma boa surpresa, porque a força da história vem de como as personagens são – e, assim, as muitas revelações ao longo do caminho convergem numa evolução diferente.
Há muitos fios (principalmente do passado das gémeas) a convergir nesta história, sendo esta talvez a razão do seu início pausado. Porém, à medida que elas se dão a conhecer, o ritmo intensifica-se e as últimas páginas são simplesmente viciantes. Vale a pena o avanço lento pelas primeiras pistas para descobrir as verdades por detrás das vidas conturbadas de Sarah e Robin. E, ainda que algumas das personagens não sejam propriamente fáceis de entender (e outras sejam simplesmente odiosas), elas servem um propósito na forma como moldam a vida das gémeas – e, assim, contribuem também para o forte impacto da surpreendente conclusão.
Intrigante, intenso e cheio de surpresas, trata-se, portanto, de um livro que leva o seu tempo a alcançar o passado. Mas, com uma boa história, personagens fortes, mas falíveis, e uma intensidade que cresce até ao fim, é também um livro que não desilude. Uma boa leitura, em suma.

Título: Don’t Close Your Eyes
Autora: Holly Seddon
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Marta (PJ Vulter)

Há vinte anos, uma onda levou a vida de Marta... mas o seu fantasma ficou. Agora, espera-se da sua irmã mais nova, Teresa, que seja tudo o que Marta não foi, e essa expectativa faz com que todos os olhares da vila estejam presos nela. Vivem-se tempos conturbados, pois a mudança que afectou outros países começa a querer fazer-se sentir também em Portugal, mas a mão do regime é pesada para aqueles que o ousam desafiar. Ainda assim, Teresa aspira a algo diferente da prisão do casamento arranjado que a espera em Peixelim, e, com a ajuda dos primos, espera alcançar o sonho de uma vida livre noutro lugar. Mas há grandes segredos no passado da sua família e os únicos que podem realmente ajudá-la têm também problemas seus a resolver...
História de segredos familiares em tempos de "moral e bons costumes", um dos primeiros aspectos a cativar neste livro é Marta. Marta, que apesar de dar nome ao livro, não é propriamente a sua protagonista, mas antes o nome do passado que influencia todas as personagens mais relevantes. E isto é interessante por duas razões: primeiro, pela forma como a história de Marta influencia todo o percurso das restantes personagens. E, segundo, pela forma como essa mesma história é contada, prolongando o mistério até às últimas páginas e insinuando possibilidades que só mesmo no fim serão confirmadas ou desmentidas.
Claro que também há uma contrapartida: é que a história de Marta é tão interessante como a de Teresa e dos seus aliados. E, ao ser contada numa retrospectiva relativamente breve, deixa uma certa impressão de que mais haveria para dizer. Seria interessante conhecer as emoções e apreensões de Marta da mesma forma que as de Teresa são desenvolvidas, o que acaba por deixar alguma curiosidade insatisfeita. Ainda assim, o essencial da história está lá e, quanto à influência que esta exerce nos restantes... bem, dificilmente poderia ser maior.
Há ainda um outro aspecto que se destaca: a forma como o que parece ser apenas um caso familiar, ainda que de contornos invulgarmente complexos, se entrelaça, com o desenrolar dos acontecimentos, nas acções subversivas e de resistência ao regime em que várias personagens parecem estar envolvidas. Ora, isto é interessante, desde logo, porque acrescenta um lado mais duro à imagem inicial de uma adesão severa às normais sociais. Mas também tem outro efeito curioso: é que há personagens que, vistas à luz dos seus comportamentos, despertam tudo menos empatia - mas que, nos momentos complicados, acabam por revelar uma nova faceta. Faceta essa que não os absolve, mas que, de certa forma, realça a sua humanidade, mostrando-os como algo mais do que simples vilões.
Tudo somado, fica a impressão de um livro relativamente breve, mas muito cativante na sua teia de mistérios. Intrigante, surpreendente e bastante emotivo, podia ser talvez um bocadinho mais longo, mas não deixa por isso de ser uma boa leitura. 

Título: Marta
Autor: PJ Vulter
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Amor às Claras (Laura Kaye)

Desde que se conheceram no elevador que a proximidade entre Caden e Makenna não parou de crescer. Mas os fantasmas do passado continuam a pesar sobre os ombros de Caden e, quando o encontro com a família de Makenna traz consigo um antigo namorado dela, Caden sente as suas inseguranças reforçadas. No fundo, sabe que os traumas nunca desapareceram realmente e a existência de um outro homem, resolvido e bem-sucedido, no passado de Makenna, leva-o a perguntar-se se ela não merecerá mais. E com esta pergunta vêm outras - e uma espiral cada vez mais sombria de pensamentos negativos, que Caden terá de ultrapassar se não quiser perder o melhor que alguma vez lhe aconteceu. 
Relativamente breve e, à semelhança do livro anterior, centrado fundamentalmente no percurso emocional dos protagonistas, este é um livro que surpreende, em primeiro lugar, pela notável evolução em termos de desenvolvimento das personagens. É verdade que já havia muita emoção e empatia em Corações na Escuridão, mas é aqui que a verdadeira alma das personagens se revela, num percurso emocionalmente atribulado e cheio de momentos marcantes. Pois, se a relação entre Caden e Makenna continua a ser o cerne do enredo, neste segundo volume é possível ver muito mais do que eles são enquanto entidades individuais - e, particularmente no caso de Caden, essa identidade é muito mais complexa do que à primeira vista seria de esperar. 
A própria premissa deste segundo livro é, em si, muito cativante, pois, se o fim de Corações na Escuridão poderia facilmente funcionar como um final positivo, este expandir da história torna tudo muito mais realista. Caden tem um passado que deixou marcas e isso é algo com que ambos precisam de lidar. E a forma como a autora traça esse caminho permite uma visão mais natural de toda a história, dificuldades e obstáculos incluídos.
E, claro, tudo isto gera emoções fortes, seja perante uma decisão errada, um duro caminho rumo à redenção ou pura e simplesmente um momento de afecto que atenua todas as tribulações. Há momentos na história que são simplesmente memoráveis, e isso aplica-se tanto aos grandes pontos de viragem como aos pequenos instantes de paz ou de inesperada descoberta. No fundo, há muito nesta história que comove - e é isso precisamente que a faz gravar-se na memória.
Cativante, emotivo e enternecedor em todos os momentos certos, trata-se, portanto, de um livro que nada perde com a relativa brevidade. Com uma escrita envolvente, personagens marcantes e uma belíssima história de superação pessoal, supera amplamente todas as expectativas. Muito bom. 

Título: Amor às Claras
Autora: Laura Kaye
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Domina (L. S. Hilton)

Judith Rashleigh julga ter deixado o passado para trás. Sob um nome falso, construiu uma nova identidade enquanto galerista e está a viver a vida que sempre esperou conseguir conquistar em Veneza. Mas o passado não parece querer ficar para trás e as pontas soltas que Judith deixou põem-na de novo em risco. Alguém sabe o que ela fez e quer acertar contas com ela. E o que começa com alguns objectos mudados de posição não tarda a transformar-se numa teia de intriga e morte com graves consequências para todos os envolvidos.
Se uma das primeiras coisas a cativar em Maestra tinha sido a forma como a autora partira de um enredo erótico e sedutor, para depois fazer surgir uma narrativa bem mais sombria, o que acontece neste segundo volume é um elevar deste estranho equilíbrio a um novo nível de intriga e perigo. Claro que, tendo em conta os acontecimentos anteriores, não era propriamente de esperar que Judith se safasse assim tão facilmente, mas o que, em Maestra, era uma teia tecida ao ritmo da necessidade, ganha em Domina novos níveis de planeamento. E o resultado é uma história talvez um pouco mais pausada, mas mais complexa a nível de planos e de intrigas - e, claro, sem nunca perder de vista o equilíbrio entre mistério e sensualidade em que toda a história parece assentar.
Há também uma outra evolução curiosa em comparação com o livro anterior. Antes, Judith transformou-se de rapariga inocente em mulher sem escrúpulos, perdendo, pelo caminho, as suas facetas mais empáticas. Curiosamente, agora parece acontecer o contrário, pois, apesar de não ter limites no que toca a defender a sua posição, Judith começa a revelar partes de vulnerabilidade, que, apesar de todos os crimes e intrigas, permitem uma visão mais compreensiva do que a faz andar. Além disso, tendo em conta a forma como tudo termina neste segundo volume, esta estranha e crescente empatia contribui em muito para a imensa vontade que fica de saber o mais cedo possível o que acontecerá a Judith a seguir.
Mas voltando aos acontecimentos e ao tal equilíbrio entre sensualidade e mistério. Neste ponto da narrativa, não é propriamente surpreendente a capacidade de Judith de fazer seja o que for para defender a vida e o que nela julga mais importante. Mas, e mesmo sabendo disso, nunca deixam de surpreender os novos planos e acções que vai concebendo a partir de circunstâncias particularmente delicadas. E, sendo a história contada pela voz de Judith, este desenrolar de planos e subsequentes concretizações, abre caminho a um percurso cheio de surpresas e de momentos cada vez mais intensos - que culmina num final particularmente forte.
Ora, num mundo em que todos se movem principalmente segundo os seus próprios interesses, a verdade é que nenhuma das personagens é propriamente aquilo a que se poderia chamar uma "boa pessoa", o que faz com que a empatia leve algum tempo a construir. Ainda assim, o impacto dos grandes momentos e a inesperada evolução de Judith compensam amplamente esta distância inicial, deixando as melhores expectativas para o que poderá ser a conclusão desta história.
A impressão que fica é, pois, a de um segundo volume que, longe de ser apenas um livro de transição, traça uma muito interessante evolução para a sua protagonista e os meandros sombrios em que se move. Intenso, intrigante e cheio de surpresas, cativa desde muito cedo - e deixa muita, muita curiosidade em saber o que virá a seguir.

Título: Domina
Autora: L. S. Hilton
Origem: Recebido para crítica

Para mais informações sobre o livro Domina, clique aqui.

domingo, 6 de agosto de 2017

Florença Renascentista por Cinco Florins ao Dia (Charles FitzRoy)

Ano da graça de 1490. Sob a considerável influência de Lourenço, o Magnífico, Florença é uma cidade próspera e radiante, que transborda de obras de arte, de cultura, de edifícios monumentais... e que se sustenta numa teia de interesses e ambições capazes de mover o mundo. Ao visitante, aconselha-se cautela nos assuntos que aborda e no que ousa dizer sobre determinadas personagens e políticas do meio. Mas, desde que o faça, poderá desfrutar de uma cidade incomparável - principalmente se munido das muito úteis indicações deste guia.
Um dos primeiros aspectos a cativar neste livro - como, aliás, em toda a colecção - é a ideia de um guia turístico para um passado já distante. Claro que há coisas, principalmente no que toca a monumentos e obras de arte, que permanecem na actualidade, mas a ideia de vislumbrar, além do que ficou da Florença renascentista, o modo de vida e os hábitos dessa época, torna a premissa deste livro particularmente irresistível. 
De uma tão boa premissa, espera-se uma concretização à altura. E é exactamente isso que este livro oferece. Dividido entre diferentes aspectos - arte, religião, política, locais a visitar... - permite ficar com uma imagem bastante clara da Florença do ano de 1490 (com umas poucas e muito breves incursões ao futuro próximo) e da forma como se vivia nesse tempo. Além disso, à escrita precisa e acessível, que transporta o leitor para o tempo e para o local que descreve, junta-se um vasto conjunto de imagens que complementam o texto, contribuindo também para que tudo fique ainda mais claro e interessante.
Claro que, sendo uma época de prosperidade e de grandes vultos, surgem, ao longo do percurso, vários nomes que ficaram para a história, e é talvez, neste aspecto, que fica uma certa curiosidade insatisfeita. Só sobre Lourenço de Médicis haveria certamente mais a dizer, e são muitas mais as figuras relevantes. Mas, claro, não são eles o tema central deste livro e, por isso, faz sentido que o que deles é contado seja apenas o que um visitante atento precisaria de saber para se mover com segurança pela cidade. O resto, caberia a esse mesmo visitante descobrir - por sua conta e risco.
Tudo somado, fica a impressão de um guia original, que permite ao leitor a muito agradável sensação de ser um turista no passado, ao mesmo tempo que aprende mais sobre as figuras e obras essenciais desse tempo e lugar. Muito interessante e cativante, uma boa leitura.

Título: Florença Renascentista por Cinco Florins ao Dia
Autor: Charles FitzRoy
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Magarias (Amadú Dafé)

Magarias leva consigo os seus espíritos, que o seguiram quando um acto de desonra o obrigou a deixar para trás a sua terra e a deambular pelo mundo. Espíritos que o abandonarão também, na sequência de novas escolhas que o tornarão salvador de um povo cujos demónios ele mesmo ocultou e soberano dessa mesma gente posteriormente resgatada. Aí voltará a encontrar Sidjánia, testemunha do dia em que ele secou um rio, suma beldade e grande contadora de histórias. E, das histórias de ambos, nascerão novos feitos heróicos e acasos - ditados por espíritos secretos - capazes de dar forma a novas desonras...
Não é propriamente fácil falar deste livro, pelo menos no que ao enredo diz respeito, pois, se os protagonistas facilmente se identificam, já a linha das suas histórias e da forma como os seus percursos se entrelaçam é tudo menos linear. Ao longo do livro, há avanços e recuos temporais, acontecimentos cuja única explicação possível é o sobrenatural e mistérios e relações que permitem várias interpretações. E, assim, a primeira impressão é de perplexidade, de uma estranheza que se prolonga ao longo de todo o livro e que, ainda que assente num ritmo muito próprio, deixa, ainda assim, mistérios por desvendar.
Trata-se de um livro surpreendentemente complexo, principalmente tendo em conta as suas pouco mais de cento e trinta páginas. E o mais curioso é que, apesar de toda esta estranheza e de todas as peculiaridades inerentes a história, personagens e contexto geral, também o ritmo da narrativa acaba por se tornar estranhamente cativante. Parecendo fluir ao ritmo da memória - ou da inspiração de um contador de histórias - o enredo avança e recua entre tempos, lugares e pensamentos. Mas há algo de fascinante neste desvelar de memórias e, principalmente, nos momentos inesperadamente marcantes que, aos poucos, emergem da estranheza dos costumes. E é isso, principalmente, que fica na memória: a de um mundo inevitavelmente estranho, mas onde os sentimentos essenciais acabam por ser os mesmos.
Não é propriamente uma leitura compulsiva, pois os muitos pormenores invulgares, bem como as mudanças que parecem percorrer a vida das personagens, exigem tempo e concentração para serem assimiladas. Ainda assim, a leitura nunca deixa de cativar, em parte pela aura de mistério que resulta de toda a estranheza envolvente, mas principalmente porque, à medida que as personagens se tornam familiares, aumenta a curiosidade em saber mais.
Breve, mas estranhamente fascinante e de inesperada complexidade, trata-se, portanto, de um livro surpreendente, em que os enigmas das personagens parecem moldar o caminho de um mundo igualmente misterioso. Intrigante e invulgar, uma boa surpresa. 

Título: Magarias
Autor: Amadú Dafé
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

As Aventuras de Pinóquio (Carlo Collodi)

Tudo começa quando o velho Geppetto decide fazer um boneco capaz de dançar e de dar piruetas com o qual possa ganhar a vida. E começa porque o pedaço de madeira que usa para o esculpir é bastante... especial. Mal acaba de esculpir o boneco e logo este sai de casa a correr e a fazer traquinices. Mas Geppetto ama o boneco como a um filho e, por isso, não basta a primeira tropelia para o demover dos seus afectos. Só que Pinóquio não é apenas um boneco irrequieto - é também mandrião, pouco aplicado e facilmente se deixa influenciar pelas más companhias. E, por isso, apesar do seu bom coração, os sarilhos sucedem-se... e Pinóquio dá por si, uma e outra vez, arrependido... mas pronto a cair numa nova tentação.
Não é necessário, à partida, dizer muito sobre esta história - e, principalmente, sobre este curioso protagonista - para o fazer lembrar a leitores de todas as idades. Todos conhecemos o Pinóquio, numa ou noutra versão. Mas, se olharmos para a versão da história com que crescemos... bem, talvez não seja bem a original, pois não? É esta a primeira ideia a sobressair desta leitura - a de que, com o passar do tempo e as múltiplas versões, a história de Pinóquio foi sendo moldada e reajustada, ao ponto de certas partes da história não serem assim tão fáceis de reconhecer.
Mas, seja qual for a versão da história que conhecemos, é fácil identificar os traços característicos do pequeno Pinóquio: a traquinice, a tendência para se deixar levar por maus caminhos, a teimosia. Ah, claro, e o nariz que cresce com as mentiras. E descobrir a história na base das mil e uma adaptações permite também uma nova perspectiva da história. O Pinóquio de Collodi pode ter, no fundo, bom coração, mas também consegue ser bastante cruel e as consequências das suas escolhas são também, por vezes, bastante duras. Talvez por isso, a lição subjacente às suas aventuras saia muito mais vincada desta versão original do que de qualquer das versões mais leves da história.
E, bem, as lições de moral são mais que evidentes. Mas a história é muito mais do que isso. É um conjunto de aventuras empolgantes e caricatas, em que muitos dos acontecimentos podem - aos olhos de um leitor adulto - parecer altamente improváveis, mas não deixam por isso de ser deliciosamente cativantes. E, num livro onde tudo parece igualmente estranho e maravilhoso, as aventuras de Pinóquio, conseguem, na sua inocência e rebeldia, acordar sorrisos e gargalhadas, comover nos momentos certos e, enfim, fazer lembrar tempos mais inocentes, sem perder de vista que tudo na vida tem consequências.
Tudo somado, a impressão que fica desta leitura é a de um regresso a uma história conhecida - que é também uma revelação, pois há partes da história que não são assim tão familiares. E esta mistura entre o novo e o semelhante, aliada ao simples facto de se ter nas mãos uma boa história, torna ainda mais cativante esta tão divertida aventura. Improvável, mas estranhamente delicioso, um óptimo livro para leitores de todas as idades.

Título: As Aventuras de Pinóquio
Autor: Carlo Collodi
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Amarga como Vinagre (Anne Tyler)

Kate Battista sabe que não está a viver a vida que imaginava, mas, sem se dar conta, deu por si a tomar conta da casa para o pai e a irmã mais nova. E, como se não bastasse, agora o pai tem planos para ela. É que o projecto de investigação do doutor Battista, que se prolonga há anos, parece estar no limiar de uma grande descoberta. Ou então de um grande impasse, pois Pyotr, o seu assistente, está em vias de ser deportado e a única forma de resolver o problema é que Kate aceite casar com ele. Confrontada com o que lhe parece ser a humilhação final, Kate não se sente propriamente disposta a ceder à vontade dos dois homens. Mas, quando a persistência cansa e as vulnerabilidades se tornam óbvias, Kate começa a pensar seriamente na hipótese. Afinal, é só temporário. Ou não?
Apesar de ser uma recriação contemporânea de A Fera Amansada, de William Shakespeare, esta é uma história com vida própria - ou seja, que se acompanha facilmente sem ter de pensar nas relações associadas à peça que lhe serviu de inspiração. E, com tempos e contextos tão diferentes, é preciso considerá-la enquanto tal, já que a ideia de um pai que tenta forçar um casamento para a sua filha é agora vista de forma diferente. 
É, aliás, este mesmo ponto que começa por gerar sentimentos ambíguos, já que, entre o pai distraído que só se lembra da filha para a casar com o assistente, o dito assistente, cujas dificuldades linguísticas parecem esconder uma intenção de dominar e a posição de Kate, de uma recusa pouco segura, é, por vezes, difícil compreender a posição das personagens. Assim, o que cativa no início é mais o caricato da situação, já que as personagens não despertam assim tanta empatia. 
Mas, claro, com o avanço da narrativa, algumas destas percepções mudam. Continuam os episódios constrangedores, os comportamentos difíceis por parte de algumas personagens. Mas, à medida que as vulnerabilidades ocultas começam a revelar-se, que as cedências de parte a parte começam a insinuar-se no enredo, as personagens começam a tornar-se mais cativantes - ainda que nunca chegue a ser fácil compreendê-las. E ainda que a brevidade deixe a sensação de que mais haveria a dizer sobre elas, no fim, fica a recordação de bastantes sorrisos ao longo da leitura - e isso é uma das melhores coisas que um livro pode proporcionar.
Quanto ao enredo em si... bem, divertida seria uma boa palavra para definir esta sequência de episódios caricatos que oscilam entre as discussões ferozes, as trapalhadas mais ou menos acidentais e os pequenos grandes momentos de afecto que fazem com que tudo ganhe uma nova perspectiva. Tudo isto num registo sempre envolvente e em que é, às vezes, nas pequenas coisas que surgem os laivos de maior impacto.
Leve, cativante e muito agradável de se ler, trata-se, portanto, de um livro em que, da estranheza das personagens e da peculiaridade das suas circunstâncias, surge um olhar inesperadamente doce sobre as relações familiares - e como o afecto pode manifestar-se das mais variadas formas. Gostei. 

Título: Amarga como Vinagre
Autora: Anne Tyler
Origem: Recebido para crítica