quinta-feira, 20 de julho de 2017

Divulgação: Novidade Coolbooks

O que é o verdadeiro amor?
Para Eduardo, de 17 anos, é a mãe e o irmão mais velho, Simão. Este, porém, tem um segredo que o empurra para a bebida e Eduardo receia que o seu irmão se suicide, tal como o pai de ambos o fizera, dez anos antes.
Júlia acredita que passou ao lado de um grande amor. Em busca da verdade que mudará a sua vida, regressa à vila de Apúlia para reconstruir um passado de que não se consegue recordar. O caminho desta mulher perturbada está prestes a cruzar-se com o de Eduardo, trazendo à tona segredos, paixões agressivas e remorsos intemporais, com consequências devastadoras sobre a vida da outrora pacata vila piscatória. Uma alegoria moderna de um clássico, onde os humanos se destroem sem precisarem de intervenção divina.

Nascida e criada em Braga, Andreia Ferreira orgulha-se muito do seu sotaque.
Escreve nos cafés, roubando histórias ao mundo de cada um para se inspirar.
Licenciou-se em Línguas e Literaturas Europeias, tem duas pós-graduações e agora está a frequentar a licenciatura em Direito. É casada e tem um filho.
É autora da trilogia Soberba e administra o blogue “d311nh4” desde 2010.
Desde os 11 anos, abre o correio na expectativa de ter à sua espera uma carta para Hogwarts.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Imperador dos Espinhos (Mark Lawrence)

Agora rei de sete territórios e ciente de que algo de negro - mais negro do que ele, até - o persegue, o Rei Jorg Ancrath está decidido a conquistar finalmente no Congresso o lugar que sempre foi o seu objectivo máximo: o de imperador. Mas o caminho é perigoso, não só pelos vários inimigos que fez ao longo da vida, e alguns dos quais parecem querer voltar a manifestar-se, mas principalmente por uma entidade mais antiga que, de olhos postos nele há anos, se prepara agora para a derradeira investida. O Rei Morto parece pronto a dominar o império e, caso o faça, há forças mais antigas prontas a pôr, de uma vez por todas, fim ao mundo como todos o conhecem. E Jorg, com a sua astúcia ilimitada, parece ser o único capaz de lhe fazer frente. Mesmo que isso implique mergulhar ainda mais fundo nas trevas do passado e encontrar-se como realmente é para enfrentar o inimigo.
Deixem-se ser o mais directa possível: não sei por onde começar a falar sobre este livro. Não sei, porque, depois de dois volumes intensos e muito, muito marcantes, este Imperador dos Espinhos elevou tudo a um nível ainda mais alto e acho que devo ter deixado uma parte do coração pelo caminho, tantos foram os momentos devastadores que ao longo da estrada encontrei. Por isso, permitam-me antes de mais este excesso de entusiasmo para vos dizer isto: leiam esta trilogia. Leiam, leiam, leiam. Não a vão esquecer tão cedo.
Mas vamos por partes. O que tem este derradeiro volume que o torna tão impossivelmente marcante? Bem, para começar, tem tudo o que os anteriores já tinham em abundância: uma escrita brilhante, um mundo complexo e cheio de surpresas, personagens carismáticas e tão fascinantes como o contexto conturbado em que parecem mover-se. E isto bastou para tornar muito, muito bons os livros anteriores. Mas aqui... Ah. Aqui, quando tudo se encaminha para o fim, tudo se intensifica. As revelações são poderosíssimas, as verdades difíceis tornam-se ainda mais impiedosas, o caminho rumo ao trono torna-se ainda mais tenebroso... E o fim... O fim é brilhantemente devastador.
Mas permitam-me ainda um momento para falar das maravilhas dessa tão sombria e fascinante figura que é Jorg Ancrath. No início, era um jovem marcado pelo passado, forjado nas lições dos espinhos numa matéria absolutamente impiedosa. E agora, se olharmos para ele a partir do fim, vemos toda uma jornada de crescimento, tão intensa, tão forte, tão cruel, que fez dele algo mais do que o príncipe capaz de tudo para vencer. O Jorg do Congresso é um homem mais completo que o que começou esta jornada. E, ainda que talvez ele mesmo se recusasse a admiti-lo, é também um homem melhor. E isto - esta transformação, esta renovação sem perda de identidade - é talvez o mais brilhante do muito (mesmo muito) que de brilhante este livro tem.
Apaixonante, então. É uma boa palavra para definir esta viagem através de um mundo de homens e lugares arruinados. Uma viagem que tanto consegue despertar sorrisos com os seus laivos de humor negro como desfazer um coração em pó nos momentos mais devastadores. E que culmina num final tão absurdamente doloroso, mas tão incrivelmente perfeito, que mundo e personagens gravam-se a fogo na memória. E por lá ficarão durante muito tempo.
Descreva-se, pois, tudo numa só palavra. E repita-se as vezes que forem necessárias. Porque, no fundo, basta dizer isto para caracterizar este livro: brilhante, brilhante, brilhante. 

Título: Imperador dos Espinhos
Autor: Mark Lawrence
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 18 de julho de 2017

The Call (Peadar O'Guilin)

Quando chegam à adolescência, todos os jovens da Irlanda sabem que têm pela frente a mais perigosa experiência das suas vidas, pois, quando menos esperarem, serão Chamados. Durante três minutos e quatro segundos, desaparecerão na Terra Cinzenta, onde o tempo passa a um ritmo diferente e os Sídhe não desistirão de os caçar até lhes deitarem as mãos. E, caso isso aconteça, sabem que o que regressará ao mundo serão restos destroçados. O objectivo dos Sídhe é simples: reduzir a nada o povo que os encarcerou na Terra Cinzenta - e recuperar o que perderam. Mas a Nação deve sobreviver e, por isso, nos colégios de sobrevivência, todos os jovens são meticulosamente treinados para o momento do Chamado. A taxa de sobrevivência tem até vindo a aumentar - mas os Sídhe não desistiram. E há algo de estranho nos últimos regressos - como que um plano escondido prestes a acontecer. Os Sídhe não desistem. E, por isso, sobreviver nunca foi tão importante.
Um dos primeiros aspectos a chamar a atenção neste livro - e o seu principal ponto forte até aos últimos capítulos - é a forma como o autor equilibra um registo leve e bastante sucinto com um enredo que é, em tudo, bastante sombrio. Desde a crueldade dos Sídhe àquilo de que alunos e instrutores são capazes enquanto se preparam para o Chamado, há muito de brutal nos caminhos desta história. E, porém, tudo é narrado com uma leveza surpreendente, que, apesar de, a espaços, dar a sensação de que mais haveria a dizer (principalmente no que toca à caracterização das personagens) acaba também por reforçar a intensidade dos acontecimentos.
No fundo, o cerne desta história é uma corrida contra o tempo... dentro de uma outra (e mais vasta) corrida contra o tempo. Os três minutos do Chamado - e a aparente eternidade a que correspondem - põem as personagens a correr pelas suas vidas. Mas o plano secreto dos Sídhe, esse, pode pôr em causa toda a população. E, à medida que as ligações entre os dois pontos se tornam mais claras, sucedem-se as surpresas e as reviravoltas, num enredo que é, todo ele, um grande crescendo de intensidade.
Ah, mas a história não acaba aqui e, sendo assim, é apenas natural que fiquem perguntas em aberto. Ainda assim, e apesar de ficar algo por dizer sobre as personagens e aquilo que as move, a impressão que fica é a de que a história acaba precisamente num ponto certo: o fim de uma batalha que parece poder ser o princípio de uma nova guerra. E este culminar ambíguo, mas não demasiado, deixa muita, muita curiosidade em saber o que se poderá seguir.
Intenso e sombrio, mas de uma leveza surpreendente, trata-se, portanto, de um bom ponto de partida para uma história que parece ter ainda muito mais potencial para desvendar. Cativante, surpreendente e com um cenário muito, muito intrigante, um início de série deveras promissor.

Título: The Call
Autor: Peadar O'Guilin
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Inteligência Emocional 2.0 (Travis Bradberry e Jean Greaves)

Num mundo em que o stress parece ser cada vez mais uma constante e os ritmos da vida são cada vez mais acelerados, nem sempre é fácil lidar com as emoções. E, contudo, a capacidade de as entender em gerir, no próprio e nos outros, parece ser uma parte essencial do sucesso pessoal e profissional de uma pessoa. É essa, pelo menos, a ideia sobre a qual assenta o conceito de inteligência emocional e também o tema deste livro, que, através de um conjunto de estratégias aparentemente simples - e evidentemente úteis - pretende orientar o leitor sobre as formas de aumentar o seu Quociente Emocional. E, se é esse o objectivo - explicar e orientar no sentido de uma melhor aplicação da inteligência emocional - então, ao que tudo indica, missão cumprida.
Apesar de se centrar mais nas estratégias de melhoramento do que nos conceitos e teorias propriamente ditos, é bastante fácil assimilar as bases deste livro, tenham-se ou não conhecimentos prévios acerca do que é - e de como funciona - a inteligência emocional. E este é também um dos principais pontos fortes deste livro, pois é muito fácil assimilar o essencial dos conceitos, sem nunca perder de vista o objectivo de melhoria que parece ser a sua base. E, claro, a informação essencial está lá, não só na introdução sucinta e esclarecedora, mas também no desenvolvimento das várias estratégias que vão sendo sugeridas ao leitor. No fim, fica-se com uma ideia bastante mais clara e com alguns conselhos muito pertinentes a seguir.
Também bastante relevante é a estrutura do livro que, apesar de organizado segundo um método específico, é também de fácil consulta caso se procure, por exemplo, uma das competências específicas da inteligência emocional, ou caso se pretenda regressar, numa segunda ou terceira leitura, ao ponto que mais precisa de melhoramento. É fácil regressar a algo que se pretende relembrar, reencontrar uma ideia que se deseje rever ou, se se estiver a seguir o método como um todo, encontrar, após o trabalho numa primeira competência, o ponto que se pretende explorar a seguir. 
O que me leva ao método e às muitas estratégias que o constituem. Claro que, neste tipo de livro, é sempre inevitável uma certa sensação - pelo menos num primeiro contacto - de que, em teoria, é tudo muito interessante, mas que, na prática, nunca será assim tão simples. Mas a verdade é que isso está implícito em todo o texto: não será simples. E, independentemente dos pontos de vista discordantes ou de se querer ou não seguir o método na globalidade, há em todas estas estratégias algo de relevante a considerar. E isso pode ser algo tão simples como um aviso (aparentemente óbvio) para prestar mais atenção às emoções. Tão simples que nunca pensámos realmente nisso, talvez.
Acessível, esclarecedor e de leitura agradável, trata-se, portanto, de um bom livro para descobrir como funciona, afinal, a inteligência emocional e de que formas aplicar este conhecimento no sentido de uma vida melhor e mais equilibrada. Muito interessante.

Título: Inteligência Emocional 2.0
Autores: Travis Bradberry e Jean Greaves
Origem: Recebido para crítica

sábado, 15 de julho de 2017

Café Amargo (Simonetta Agnello Hornby)

Maria é filha de um advogado que, por ser socialista, foi perdendo todos os clientes, apesar da sua competência. E, por isso, sabe que as dificuldades financeiras são um obstáculo considerável ao seu futuro, seja como professora, o seu sonho de sempre, seja como esposa e mãe. Mas um visitante inesperado muda o rumo da sua vida. Pietro Sala é um homem do mundo, culto, com boas ligações, e apaixonou-se por Maria à primeira vista, ao ponto de estar disposto a casar sem dote. E, apesar de todas as reticências, suas e da família, Maria sabe que essa é a melhor solução para os problemas de todos. Aceita - e descobre no marido um homem de encantos secretos, mas também de vícios e vulnerabilidades. E, num país em mudança e em que o papel da mulher na sociedade parece ainda muito limitado, Maria dará por si com o futuro nas mãos... e uma ligação do passado à espera de desabrochar em pleno.
Acompanhando grande parte da vida da protagonista, mas com um enredo que é muito mais vasto do que a sua história pessoal, este é um livro que tem como primeiro de vários pontos fortes o equilíbrio entre o percurso pessoal das personagens e o muito relevante contexto histórico em que se movem. As questões políticas, as mudanças de pensamento e de regras sociais, a guerra e as suas consequências na vida das pessoas são apenas alguns dos aspectos bem presentes ao longo desta história. E isto é um ponto forte precisamente porque, ao desenvolver estes temas ao ritmo da vida das personagens, torna-se mais fácil assimilar o ambiente da época e aprender algo ao mesmo tempo que se acompanha a história principal.
E a história principal é a de Maria. Maria, mulher do seu tempo, mas com uma força que não permite resignações. Maria forte, capaz de fazer frente ao mundo quando assim tem de ser, mas vulnerável quando todas as pressões se voltam contra ela. Maria humana, complexa, falível, fascinante, que aprende tanto com a vida como aqueles que a acompanham. E a sua história é mais que a de um casamento aceite por necessidade. É a história do seu crescimento, da sua evolução ao ritmo do mundo. De sentimentos que, vindos da infância, se transmutaram em algo maior, ao mesmo tempo que o mundo, também ele, mudava. E, claro, de descobertas de todo o tipo - venham elas das crueldades da vida ou dos labirintos do coração.
Tudo isto cativa e até as mais pequenas coisas despertam a curiosidade em saber o que se seguirá. E a forma como a autora constrói a história, equilibrando as medidas certas de tensão, de mistério, romance outros afectos e ainda de esperança, mesmo no seio do desespero, faz com que tudo pareça adquirir o registo certo, o de uma história que cresce e se expande de forma gradual, num ritmo que vai crescendo em intensidade e que culmina num final particularmente marcante.
Vale a pena? Mas claro que vale a pena. Desde o carisma das personagens ao equilíbrio entre os segredos guardados e as grandes revelações, passando ainda pelo contexto delicado que dá a todo este percurso ainda uma nova dimensão, não há nada neste livro que não tenha algo de cativante para oferecer. E, nos momentos de ternura e nos de medo, nos de encanto e nos de desespero - nas pequenas coisas, como nas grandes mudanças de um tempo conturbado - há muito nesta história para guardar na recordação. Vale a pena, sim. Muito, muito mesmo. 

Título: Café Amargo
Autora: Simonetta Agnello Hornby
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 14 de julho de 2017

A Fúria da Tempestuosa (ZAG)

A nova apresentadora da meteorologia do canal Kidz+ já foi escolhida, mas a derrotada não está lá muito disposta a conformar-se com a derrota. E a raiva e a tristeza que sente fazem de Aurora um alvo fácil para o Falcão-Traça, que decide dar-lhe algum poder em troca dos seus inimigos: os Miraculous. Aurora torna-se então na Tempestuosa e o tempo que a rodeia está prestes a ficar bem mais frio. E só a Ladybug e o Gato Noir a podem travar... antes que seja tarde.
Um dos primeiros aspectos interessantes neste livro é que, mesmo para quem não conhece a série de desenhos animados protagonizada por estas mesmas personagens, é fácil entrar no mundo da Ladybug e do Gato Noir. E isto aplica-se tanto a leitores mais novos como a quem já passou dessa idade há algum tempo. Há algo de cativante nas vidas duplas dos protagonistas, na forma como assumem os seus papéis de super-heróis sem que a vida normal desapareça de cena. E, assim, fica desde logo uma boa impressão desta história, que, para fiéis acompanhantes da série ou para quem acaba de descobrir estas curiosas personagens, nunca deixa de ser uma leitura agradável e interessante.
Claro que o aspecto visual também contribui, e muito, para isso. Há muito de fascinante e de apelativo na forma como heróis, vilões e até mesmo as figuras de passagens são retratadas. E isso desperta curiosidade, caso não se conheçam as personagens, para as ficar a conhecer um pouco melhor. Claro que quem vê a série já lhes reconhece os traços. Mas, para os fãs, provavelmente será sempre agradável ter novas aventuras das personagens que têm vindo a acompanhar. E reconhecê-las num formato diferente é também algo de cativante. 
Quanto à história propriamente dita, é bastante simples, mas cheia de acção e magia, o que - se bem me recordo dos tempos em que pertencia ao público-alvo destes livros - é precisamente o que se pretende. Vilões e heróis bem definidos, a eterna luta do bem contra o mal... Ah, mas claro, nem tudo é previsível. E, sendo certo que é fácil adivinhar quem ganha a batalha, há outras pequenas coisas inesperadas a acrescentar um toque de surpresa - e de humor - a este muito cativante enredo.
A imagem que fica é, pois, a de um livro leve, apelativo e com um enredo tão interessante como os seus protagonistas, capaz de cativar tanto os mais novos como leitores mais adultos. Simples, intrigante e divertido... uma boa leitura. 

Título: A Fúria da Tempestuosa
Autores: ZAG
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Guerra e Paz

Gervásio Lobato fez furor há mais de um século. Jornalista e romancista, o seu humor e comicidade passaram de mãos em mãos, de geração em geração. Lisboa em Camisa foi, desde a publicação em 1882, o seu mais estrondoso êxito, com inúmeras edições. E quem conhece Gervásio Lobato? Outrora um dos grandes nomes do humor português, hoje é um autor esquecido, recordado apenas por uma rua com o seu nome, em Campo de Ourique.
Lobato capta pequenos quadros da vida quotidiana lisboeta e esmiúça comportamentos, ridiculariza-os e leva-os a um extremo em que o riso é inevitável. Tudo se passa em finais do século XIX, mas a paródia é actual: assistimos à sede de protagonismo, à mania da superioridade, a um certo cerimonialismo ou à falta dele.
As peripécias da família Antunes, dos seus sogros Martim (sem s), da família Torres, do conselheiro com as filhas casadoiras, e do Dr. Formigal, entre outras personagens muito caricatas.
O tema é Lisboa, uma Lisboa que o autor despe ou surpreende em camisa. Um romance que lido hoje é a actualidade apanhada em flagrante delito.

Gervásio Lobato. Nasceu a 23 de Maio de 1850, em Lisboa, e morreu a 26 de Maio de 1895, na mesma cidade. Fundou, aos 15 anos, o jornal literário A Voz Académica. Um homem votado ao jornalismo, sobretudo ao género folhetinesco, colaborou em inúmeros jornais, nomeadamente: Gazeta de Portugal, Gazeta Literária, Recreio, Jornal da Noite, Diário Ilustrado, Progresso, Correio da Noite, Século, Diário de Notícias. É no Diário da Manhã, para o qual entrou a pedido de Pinheiros Chagas, que ganha notoriedade como folhetinista. Aqui, num suplemento intitulado Vida de Lisboa, publica A Comédia de Lisboa, com o pseudónimo de Gilberto. Foi também um grande homem do teatro, como dramaturgo e comediógrafo. Dotado de uma graça inesgotável, fez rir o público que acorria com frequência ao Teatro do Ginásio, e tem sido comparado a Rafael Bordalo Pinheiro no que toca ao seu talento de caricaturista. Foi agraciado pelo rei com o oficialato da Ordem de Santiago.

Divulgação: Novidade Presença

DOMINA
L. S. Hilton
Colecção: Grandes Narrativas no 668
Tema: Ficção e Literatura
Título Original: Domina 
Tradução: Maria João Ferro
Data de lançamento: 19/07/2017
ISBN: 978-972-23-6062-3 
Páginas: 336

Ela pensava que os seus problemas tinham chegado ao fim. Mas estão apenas a começar... 
Judith Rashleigh conseguiu. Tem uma vida de luxo por entre o esplendor da cidade de Veneza, e começa agora a sentir-se confortável na sua nova pele. Mas um dia é traída pelo passado. Alguém que sabe o que Judith fez quer acertar contas com ela. Vítima de chantagem, ela terá agora de descobrir o paradeiro de um quadro de valor incalculável - que talvez nem exista de verdade...
Desta vez, Judith não controla a situação. Sentindo-se desorientada e sem saídas, desarmada e fragilizada, tem de enfrentar um inimigo mais poderoso e impiedoso do que ela alguma vez poderia imaginar.
E se não conseguir sair desta situação, Judith poderá morrer.

L.S. Hilton nasceu em Liverpool, Inglaterra. Antes de se mudar para Londres, onde reside actualmente, viveu em Key West, no estado norte-americano da Florida, Nova Iorque, Paris e Milão. Após completar a licenciatura em Estudos Ingleses, na Universidade de Oxford, estudou História da Arte em Paris e Florença. Trabalhou como jornalista, crítica de arte e locutora de rádio. Em 2016, lançou o thriller erótico MAESTRA, o primeiro volume de uma trilogia, que alcançou um retumbante sucesso à escala global, com 1 milhão de exemplares vendidos, e publicado nesta colecção. Os direitos de publicação desta trilogia foram adquiridos por editoras de mais de 40 países, estando em curso uma adaptação ao cinema.

Para mais informações consulte o site da Editorial Presença aqui.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Fábrica de Melancolias Suportáveis (Raquel Gaspar Silva)

Morreram todos antes de ela decidir contar a história. A história de uma mãe emprestada que, sem nunca ter tido filhos, se fez gravar na história de toda a sua família. De irmãos cujos caminhos se separariam sem verdadeiras razões para a crescente distância. De um tempo e de um núcleo de gentes onde o inexplicável prosperava. Porque nem tudo é claro nas memórias - mas a realidade possível é sempre mais nítida. E a história, conta-a ela ao ritmo da recordação. Como que pensando, sentindo, tudo o que ficou para trás.
Pouco mais de cem páginas e a história de uma vida inteira: assim se poderiam definir as bases deste livro, pois descrevê-lo é mais difícil do que parece. Começando na voz da narradora e culminando em tudo o que fica pela simples insinuação, há tanto que fica escondido nas palavras que é difícil traçar uma linha geral da narrativa sem dela revelar demasiado. Mas, curiosamente, há também algo de estranhamente eficaz nesta brevidade certeira, pois, mais que a curiosidade insatisfeita (que, fica, é certo, face a certos momentos), fica a impressão de uma vida que é sempre maior do que recordamos.
O que me leva ao que é, para mim, o aspecto mais memorável deste livro: a escrita. Não é fácil dizer tanto em tão pouco espaço, e dizê-lo com as palavras certas torna-se ainda mais difícil. Mas há, no tom deste livro, poético, nostálgico, como que introspectivo, uma ponderação que parece fazer com que tudo ecoe precisamente da forma certa. Não, nem tudo é contado. Sim, ficam perguntas sem resposta. Mas a impressão de mistério que fica deste registo onde, em tudo o que é dito, parece haver muito mais apenas insinuado, acaba por compensar em muito a tal sensação de curiosidade insatisfeita.
É que este mistério estende-se também às personagens, pois nenhuma delas se revela como sendo fácil de compreender. Carlota, especialmente, é ela mesma uma fonte de mistério, pois raramente "contou alguma coisa sem omissões." E o mundo - e as pessoas que a rodeiam - são igualmente enigmáticos. Assim, faz todo o sentido que fique muito por dizer - independentemente de toda a vontade de ficar a saber mais. E essa vontade de querer ler mais e conhecer melhor acaba por passar para segundo plano face ao equilíbrio que tudo parece alcançar.
Breve, mas misterioso e surpreendentemente complexo. Ambíguo nas respostas, tal como a vida das personagens que o povoam. Mas estranhamente fascinante na beleza das palavras e no enigma que estas tecem em torno da vida. É este o retrato que fica desta Fábrica de Melancolias Suportáveis, lugar que vale a pena conhecer.

Título: Fábrica de Melancolias Suportáveis
Autora: Raquel Gaspar Silva
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 11 de julho de 2017

A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa (Marco Neves)

Quantas vezes já não ouvimos dizer que as pessoas de uma certa região não falam português "como deve ser"? Ou referir um regionalismo qualquer como um atentado à língua de Camões? Mas, se pensarmos bem, será que o português de Camões e o português dos dias de hoje eram exactamente iguais? E se recuarmos mais no tempo? As diferenças serão decerto cada vez maiores. Pois bem. Recuemos no tempo. E, acompanhando a antiga e ilustre família dos Contreiras, imaginemos as origens da língua muito para lá do primeiro documento escrito. Talvez cheguemos ao fim com uma visão diferente...
Todos sabemos que há uma magia especial no acto de contar histórias - seja para entreter, para perpetuar a memória de um acontecimento ou para ensinar de forma mais clara alguma coisa. Pois bem, é precisamente este último o caso deste livro, que, a partir de uns quantos episódios imaginados, consegue traçar, de forma bastante precisa, o que terá sido a linha geral da evolução da língua portuguesa. Havia outras maneiras de explicar? Provavelmente. Mas não consigo pensar em nenhuma mais divertida e cativante do que esta. E este é o primeiro dos vários pontos fortes deste livro: a capacidade de transmitir conhecimento de uma forma cativante e de fácil compreensão.
Depois, claro, há as histórias em si, que, além de servirem o objectivo de contar essa outra história mais vasta - a tal história secreta da língua portuguesa - são, em si mesmas, muito interessantes. É particularmente agradável imaginar esta grande família de Contreiras a perdurar ao longo dos séculos, crescendo e desenvolvendo-se ao ritmo da própria língua. E são muitos os episódios cativantes nestas histórias, desde o romano que aprende a falar celta a uma conversa entre grandes escritores sobre as maravilhas do progresso.
E há ainda uma outra história (além da da língua) a unir todas as histórias: a de Sara, inventora de todos os episódios contados no livro e ela própria defensora de uma língua que precisa tanto de normas como de liberdade. É nesta história que todos os elos se fundem, havendo ainda espaço para um pequeno momento de suspense. E isto, aliado ao tema comum que une tudo o resto, faz deste livro uma unidade coesa: história feita de histórias que são também uma lição.
Não é um romance, mas lê-se como se fosse. Tem muito para ensinar, mas o tom é tudo menos professoral. E, ainda que as histórias que contém não sejam propriamente momentos da história real, há, ainda assim, uma realidade muito clara neste livro: a língua é algo de vivo, que nasce, cresce e evolui. É esta a lição subjacente a todas estas histórias e a forma como é passada é memorável. E divertida, não esqueçamos. Muito, muito divertida.

Título: A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa
Autor: Marco Neves
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 10 de julho de 2017

O Fim de Onde Partimos (Megan Hunter)

As cheias começam a invadir a cidade no momento em que ela dá a luz o seu filho e, a partir daí, nada poderá voltar a ser igual. É preciso fugir da água, encontrar um refúgio e, para o fazer, só conta consigo, com o marido e com a - estranhamente reconfortante - companhia do pequeno Z. À sua volta, o mundo fez-se caos e o tempo passa. Se a normalidade volta, ninguém sabe. Mas, entre outros que fogem, amigos de um momento ou no completo isolamento do seu núcleo pessoal, ela, R e Z continuam a ser uma família. E a vida, essa, terá de continuar.
Breve na forma e cingindo-se ao essencial no conteúdo, este não é propriamente um livro fácil de descrever. Primeiro, porque, na sua brevidade, concentra-se tanto nas linhas essenciais, que é quase difícil contar algo da história sem dizer demasiado. Mas principalmente porque, da forma como é construído, surge uma ideia estranha e intrigante: a de que tem tanta importância o que é contado como aquilo que fica por dizer.
E o curioso é que parece ser mesmo esse o objectivo, pois, do que é contado, é possível retirar um percurso, uma narrativa que explica o caminho da protagonista e as impressões do que se passa à sua volta. Mas o resto? Os sentimentos e motivações, o que move aqueles com quem se cruza, as possíveis explicações para o que está a acontecer... tudo isso é deixado em aberto, num livro onde as perguntas são muito mais que as respostas e o que fica, efectivamente, é um caminho através do caos.
Mas talvez seja precisamente por isso que resulta: porque, no caos, há sempre algo que fica sem resposta. E, assim, apesar da curiosidade insatisfeita, há algo na forma como a história flui que parece dizer que o ritmo é, afinal, o mais adequado. Que a confusão é também a da protagonista. E que o que fica por contar é secundário face à relevância fulcral do que é, afinal, o núcleo desta história: a força do amor familiar, mesmo perante o abismo.
E, claro, há a escrita, que adquire ainda maior relevância se considerarmos a estrutura deste livro. Pois, numa narrativa onde cada frase contém um todo mais vasto, é preciso que as frases digam tudo em muito pouco. E é exactamente isso que acontece aqui. Cada frase é um marco memorável, seja ela um pensamento errante da protagonista ou a simples descrição de um facto.
Bastante breve, mas com uma estranha complexidade que se estende para lá das palavras, trata-se, portanto, de um livro invulgar, em que a aparente solidez do mundo se torna caos e a volubilidade do afecto se torna firmeza. É esta curiosa impressão que fica na memória depois de terminada a leitura. Esta e o muito que essa mesma ideia faz pensar. 

Título: O Fim de Onde Partimos
Autora: Megan Hunter
Origem: Recebido para crítica

domingo, 9 de julho de 2017

Troll (D.B. Thorne)

Fortune nunca foi um homem de família. Obcecado pelo trabalho, nunca se interessou muito pelos problemas da filha. Mas agora Sophie está desaparecida. E, com um historial de comportamentos erráticos e um passado problemático, ninguém anda realmente à procura dela e todos pensam que se suicidou. Todos, excepto Fortune. Ciente de que não pode compensar o passado, mas recusando-se, por uma vez, a ignorar o que se passa, Fortune decide seguir as pistas que todos parecem ignorar. E, quando começa a aproximar-se, as respostas tornam-se assustadoras. Sophie tinha um troll online a fazer-lhe ameaças… e mais do que isso. E, ao tentar descobrir o que aconteceu à filha, Fortune está agora prestes a entrar num jogo muito perigoso.
Uma das primeiras características a evidenciar-se nesse livro – e um dos seus elementos mais surpreendentes – é o facto de nenhuma das personagens principais parecer ser propriamente uma “boa pessoa”. Fortune nunca quis saber realmente da família. Sophie tem um passado conturbado. Marsh, o inspector da polícia, não está assim tão interessado em investigar o caso. E, bem, o troll é bastante maléfico. Mas o mais interessante em tudo isto é que, apesar de nenhum deles ser do género que desperta empatia, há uma evolução ao longo do caminho e todos se revelam como sendo mais complexos do que, à partida, seria de esperar.
Esta é apenas uma das muitas surpresas neste livro. E a maneira como o autor constrói a história faz surgir uma narrativa que nunca deixa de intrigar. Primeiro, o desaparecimento de Sophie. Depois, os passos que Fortune dá para a encontrar. E, quando as respostas começam a surgir, novas e mais complexas perguntas surgem. O passado de Fortune, o presente de Sophie e o mistério da identidade do troll têm mais em comum do que se esperaria. E cada revelação, cada reviravolta, dá lugar a novos e cada vez mais impressionantes momentos de tensão e de emoção – criando um caminho muito, muito intenso rumo a um final que é absolutamente de génio.
E há também outro lado nesta história. A corrida de Fortune contra o tempo é também uma corrida contra si mesmo e tudo o que fez nos últimos anos da sua vida. A história torna-se mais do que um mistério: é também um caminho de vingança, de penitência e compreensão das próprias falhas… e, de algum modo, um caminho para uma possível redenção. Isto confere à história um toque muito emotivo – e torna-a muito mais memorável. Principalmente devido à intensidade do final, sim, mas também por tudo aquilo que levou as personagens àquele ponto.
Intenso, intrigante e inesperadamente complexo, trata-se, pois, de um livro que surpreende o leitor de muitas formas diferentes. Uma história de mistério, sim, mas também de vingança e redenção. E, assim, um livro que é muito, muito mais do que apenas a história de um desaparecimento. Muito impressionante. 

Título: Troll
Autor: D.B. Thorne
Origem: Recebido para crítica

sábado, 8 de julho de 2017

Divulgação: Novidade Marcador

Habitado por heróis e vilões maiores do que a vida, e carregado de questões sobre o bem e o mal, este livro é a obra-prima de Ayn Rand: uma revolução filosófica contada em formato de thriller de acção.
Quem é John Galt? Quando ele diz que irá parar o motor do mundo, significa que é um destruidor ou um libertador? Por que não combate os seus inimigos em vez daqueles que mais precisam de si? E porque é a sua maior batalha contra a mulher que ama? 
O leitor saberá todas as respostas quando descobrir os intrigantes eventos que causam a desordem nas vidas das mulheres e homens inesquecíveis deste livro. Irá saber porque um magnífico génio se transforma num playboy inútil, porque um grande industrial trabalha a favor do seu próprio colapso, porque um compositor abandona a carreira justamente na noite do seu grande triunfo, porque uma mulher bonita que faz uma viagem de comboio transcontinental se apaixona pelo homem que jurara matar.
A revolta de Atlas é um clássico moderno e o trabalho mais extensivo da autora sobre o Objectivismo — a sua filosofia inovadora e revolucionária —, que oferece ao leitor o espectáculo da grandeza humana, aqui representada com toda a poesia e o poder de uma das maiores artistas do século XX. Uma leitura emocionante; um livro capaz de nos mudar.

Ayn Rand (1905-82), nasceu com o nome de Alisa Rosenbaum, em São Petersburgo, na Rússia, e emigrou com a sua família, para os EUA, em 1926, nunca mais regressando à sua pátria mãe. O seu romance The Fountainhead, publicado em 1943, tornou-se de imediato um bestseller. Escrevendo também para cinema, Rand mudou-se para Nova Iorque, em 1951, e publicou A revolta de Atlas seis anos mais tarde. Os seus romances consagraram o que se chama hoje Objectivismo, a filosofia que defende o capitalismo e a prevalência do indivíduo.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

O Espião do Vaticano (Luther Blissett)

1517. Tudo começa quando Martinho Lutero afixa as suas teses na catedral de Wittenberg. Então, ainda são poucos os que sabem que se aproximam grandes mudanças no seio de quem define a fé dos homens. E é também esse o tempo em que se começam a escolher partidos. De um lado, um jovem estudante que se deixa absorver pela causa dos oprimidos e miseráveis, defendendo, como os seus novos mestres, uma fé livre do jugo dos poderosos. Do outro, a figura nas sombras, o misterioso Q, espião de um poder maior no Vaticano e capaz de tudo para cumprir as tarefas de que é incumbido. No fundo, seguem ambos o mesmo percurso, ainda que de lados opostos das barricadas. Mas, quando tantos enfrentam a morte em nome das ideias ou do poder de outrem, todos os resultados são derrotas... e o derradeiro ajuste de contas terá de ser entre os que se movem na sombra.
Extenso e complexo, tanto no contexto em que decorre como nas personagens que o povoam, este não é um livro fácil de descrever. Não é um livro fácil, aliás, ponto final. Porquê? Porque são tantos os pormenores, é tão longo o caminho e são tantas as figuras e as intrigas em torno das histórias do protagonista que tudo exige tempo e concentração para assimilar. A começar, é claro, pelo próprio protagonista, ele que, com muitos nomes e um papel tão importante, assume-se como figura central de um enredo apesar de ser uma figura secundária no contexto histórico em que se move. 
É também fascinante, este protagonista. Chamemos-lhe Gert. Fascinante pela complexidade, mas, acima de tudo, pela forma como, partindo de uma posição de alguma distância, acaba por se entranhar na memória de quem acompanha as suas aventuras, mais marcante a cada nova batalha travada. E, sim, esta distância inicial torna o ritmo da narrativa mais pausado, exigindo algum tempo, principalmente na fase inicial, para entrar no ambiente em que Gert se move. Mas, aos poucos, é como se tudo se intensificasse e há momentos nesta história que são simplesmente devastadores.
Mas há mais para além de Gert. Também os que o rodeiam são fascinantes, seja pela estranheza das suas bizarrias, seja, num sentido mais amplo, pelo papel que desempenham nos rumos da história. E na própria história há muito de fascinante: a complexidade das intrigas e do contexto histórico, os momentos delicados em que, muitas vezes as personagens se encontram, o próprio final, que pode não ser o mais desejado, mas é, sem dúvida alguma, o mais adequado. Tudo converge num equilíbrio quase perfeito e, ao fim de seiscentas páginas de leitura, a impressão que fica é a de algo simplesmente memorável. E assim, o que começa por ser uma narrativa pausada termina a um ritmo quase compulsivo.
Brilhante na construção de uma narrativa em que as complexidades do contexto histórico se aliam a uma teia de intrigas igualmente complexa, trata-se, portanto, de um livro que acaba por surpreender em todos os aspectos. Desde o fascínio que as personagens exercem aos grandes - e dolorosos - momentos, no fim, tudo se torna memorável. E, quando tudo se conjuga com tanta mestria, o resultado não pode ser senão algo de muito, muito bom. 

Autor: Luther Blissett
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 6 de julho de 2017

O Tempo das Catedrais - Reminiscências sobre uma Trindade Perfeita

Passou muito tempo desde que os li - a todos - e me apaixonei por um mundo de construtores de catedrais... e vidas que iam muito para além disso. Os pormenores, esses, fugiram com o tempo, mas ficou sempre aquela sensação de espanto ante a leitura, a maravilha de olhar para o passado, ou um passado possível, com todo o fascínio de quem entra num novo mundo. E eis que, este ano, dois dos braços desta minha trindade perfeita - a minha trindade das catedrais - vêm publicados novos volumes. E surge-me o pretexto ideal para relembrar a magia que me tocou ao ler estes livros: Os Pilares da Terra, A Árvore do Céu e A Catedral do Mar.


Comecei com A Árvore do Céu e apaixonei-me às primeiras páginas. Porquê? Harry Talvace, a personagem perfeita, a figura que tantas emoções fortes desperta no primeiro volume desta magnífica trilogia. Pelo caminho, há grandes mudanças, novas personagens a ganhar o protagonismo... surpresas capazes de abalar as fundações da alma. E, no fim, uma saudade que permanece... mesmo passados tantos anos desde a leitura.


Foi também este livro que me levou até aos outros, pois a premissa "construtores de catedrais" nunca mais deixou de me fascinar. E em Os Pilares da Terra encontrei aquilo que procurava: personagens fortes, uma história marcante, todo o fascínio que nunca mais deixei de sentir. Sim, neste caso já há uma sequela antes do livro que está para chegar. E não, ainda não a li. Mas isso... ah, isso é apenas uma questão de tempo.


E quanto a A Catedral do Mar? Bem, a mesma coisa. Comecei-o pela premissa e fiquei por todos os motivos de fascínio que nele encontrei. E, escusado será dizer, saber que há um livro novo à minha espera (apesar da imensa pilha de outros livros que tenho para ler) é algo que me faz muito feliz. Porque não há nada como voltar a um lugar - e a um tempo, neste caso - em que fomos felizes.

Conhecem a sensação? De uma história que, apesar de ser "apenas" ficção, deixou uma marca tão profunda que continua presente, mesmo apesar do passar dos anos? Bem, eu tenho-a com estes livros e é algo de mágico. Por isso, esqueça-se o tempo (ou a falta dele). Se há sequelas à minha espera, eu quero saber o que acontece a seguir. E voltar a perder-me nestas páginas tão mágicas... e tão fascinantes. 

Como Ser um Explorador do Mundo (Keri Smith)

Explorar. Investigar. Criar. São estas as bases essenciais deste livro criativo inesperado. A ideia é ver o mundo com outros olhos, reparar e aproveitar o inesperado e, a partir das pequenas descobertas ou de uma simples mudança de perspectiva, recolher informações potencialmente úteis e construir coisas novas. E não, este não é um livro de teorias, mas todo ele um desafio a fazer coisas. Coisas que possivelmente nunca nos passariam pela cabeça.
Uma das primeiras coisas a chamar a atenção neste género de livros, e em particular nos de Keri Smith, é o aspecto visual. Criativo, inesperado, com um toque de cor que torna tudo ainda um pouco mais apelativo, desperta, desde logo, curiosidade para as actividades que, ao longo das páginas, nos vão ser propostas. E, na sua peculiaridade, insinua também já a peculiaridade que virá a caracterizar os próprios desafios.
Também muito interessante é que o próprio livro surge como matéria de criação, ainda que não de forma tão óbvia como, por exemplo, em Destrói Este Diário. Há páginas para preencher, espaços para tomar notas ou fazer desenhos ou até para guardar coisas. E isto permite fazer do livro um objecto único e intransmissível - o que não deixa de ser, também, uma ideia particularmente cativante.
Quanto às várias possibilidades de exploração, o que sobressai é, claro, a tal peculiaridade. E, nalguns casos, é difícil evitar a sensação de que tentar fazer aquilo pode provocar um ou outro momento potencialmente embaraçoso. Mas, sentimentos ambíguos à parte, não deixa de surgir também uma ideia interessante sobre isto: fazer o inesperado sem medo do que os outros pensam não será também um bom ponto de partida para viver de uma forma mais livre e criativa?
A impressão que fica é, acima de tudo, a de um desafio. Um desafio a olhar para as coisas de forma diferente e, a partir dessa nova perspectiva, construir ainda mais coisas novas. A ideia, portanto, dificilmente poderia ser mais cativante. Quanto à concretização... bem, fica à criatividade de cada um.

Título: Como Ser um Explorador do Mundo
Autora: Keri Smith
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 5 de julho de 2017

O Preço da Fama (Suzanne Redfearn)

Mãe de três filhos e abandonada para o marido, Faye sabe que mal se consegue manter à tona entre tantas dificuldades e que a única opção que lhe resta é voltar para casa da mãe. Mas é aí que a sorte está prestes a bater-lhe à porta. Um momento divertido protagonizado pela filha mais nova em plena rua faz de Molly um sucesso na internet. E, a esse sucesso, não tarda a seguir-se um anúncio e depois um papel numa série. Mas a vida em Hollywood está longe de ser um conto de fadas. As exigências do trabalho roubam tempo à vida familiar. E, à medida que a fama de Molly cresce, também os problemas não tardam a manifestar-se - e de muitas formas. Faye começa a entender que a fama também tem um lado negro. E que, para salvar os filhos do mundo em que os meteu, terá de pôr de parte os seus escrúpulos.
Centrado na figura de Faye enquanto mãe e na sua luta pelo bem-estar da sua família, este é um livro do qual se espera, à partida, uma boa medida de emoção. E é precisamente isso que proporciona. Primeiro, com as dificuldades que levam Faye à mudança, depois com a forma como estas se transformam num aparente conto de fadas, depois ainda com a revelação do lado mais complexo e sombrio deste novo mundo. Ao longo de todo este caminho há muitos momentos intensos, emoções fortes e revelações inesperadas. E, numa história em que as intenções podem ser sempre melhores, mas em que a realidade é sempre bem mais complicada, o impacto destes momentos não pode deixar de ser memorável.
Um outro aspecto interessante - ainda que, a espaços, desperte sentimentos ambíguos - tem a ver com a construção das personagens. Não há, em toda esta história, uma única personagem perfeita - tal como não as há na vida real. Mas, mais do que isso, a posição das personagens, o que parecem defender, varia consoante a situação em que se encontram, revelando facetas aparentemente contraditórias, mas também a sua falibilidade humana. Claro que isto é especialmente evidente na própria Faye, cujo percurso a molda numa pessoa diferente. Mas ninguém de entre os que a rodeiam - amigos, adversários, aliados - é apenas alguém que defende uma linha estrita. A posição que tomam varia consoante as circunstâncias. E isso torna-os mais complexos, mesmo nos momentos em que conseguem ser um bocadinho irritantes.
E depois, claro, há as grandes questões subjacentes a toda esta história: o lado sombrio da fama, que tanto pode vir dos fãs obcecados, como da perseguição da comunicação social ou dos próprios segredos e rivalidades entre os vários elementos do meio. Há em tudo isto um lado que nem sempre é tão claro como deveria ser e, sendo, neste caso, a famosa uma criança, todas estas questões ganham uma nova dimensão, levantando questões muito pertinentes sobre qual é, afinal, o tal preço da fama que dá título a este livro.
Emotivo, complexo e relevante: são estes, portanto, os principais traços deste livro que, olhando do interior para as dificuldades de uma vida de celebridade, consegue despertar emoções fortes ao mesmo tempo que realça ambas as facetas - o sonho encantado e as sombras da realidade - do mundo da fama. Cativante e intenso, uma boa leitura. 

Título: O Preço da Fama
Autora: Suzanne Redfearn
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 4 de julho de 2017

José Matias /Bartleby (Eça de Queiroz / Herman Melville)

Da recusa e das suas consequências: é este, talvez, o cerne deste livro e o ponto para onde os dois contos, à partida tão distintos, parecem convergir. Recusa do sentimento ou recusa da acção. Recusa, independentemente do seu objecto específico, do que se consideraria ser a conduta normal. É este o ponto central que une os dois contos deste Livro Amarelo. Mas não é o único.
Sendo esta uma colecção que tem como premissa as relações possíveis entre obras aparentemente muito diferentes, é claro que é precisamente por este aspecto que tenho de começar a falar neste livro. É fácil identificar o principal ponto em comum - a recusa dos dois protagonistas. Mas há um outro aspecto a sobressair desta leitura: é que, escritos por autores diferentes, com estilos diferentes e vindos de contextos diferentes, ambos os contos - e ambos os protagonistas - parecem juntar-se num conjunto harmonioso. O estilo de escrita, de alguém que testemunha o sucedido com o protagonista e tenta tirar do que sabe alguma réstia de compreensão, é comum aos dois contos. Também comum é a estranheza que os protagonistas despertam ao contrariar o que parece ser a norma. E, assim, sem nunca perderem a sua identidade própria, as duas histórias no mesmo livro parecem dar forma um todo que é maior do que a soma das partes - sendo que para isso contribuem também os muito interessantes textos que acompanham os contos.
Mas, passando especificamente a cada conto. José Matias, de Eça de Queiroz, fala da história de um amor espiritual e de um homem que, a tudo renunciando em nome desse amor, acaba por causar a sua própria destruição. Aqui, a recusa é, acima de tudo, sentimental, ainda que as consequências se manifestem de uma forma muito prática. E é precisamente isso que torna o conto tão marcante, pois, ante um narrador filósofo, que tudo parece querer racionalizar, os actos acabam por falar mais alto que as palavras, fazendo da renúncia de José Matias algo de absolutamente memorável.
Quanto ao Bartleby de Herman Melville, a situação parece ser bastante mais estranha, pois o protagonista é um homem que primeiro aceita um emprego para, depois, e de forma gradual, se firmar numa recusa do mais educada que pode haver - firmada na frase "preferia não o fazer" - mas que dificilmente poderia ser mais terminante. Há em tudo isto uma boa dose de estranheza, pois o próprio narrador não entende as motivações do protagonista. Mas há também muita matéria para reflexão: por um lado, na inesperada força de uma resistência passiva; por outro, no potencial subversivo que, inconscientemente, parece mover a recusa de Bartleby. 
E, consideradas estas duas histórias, bem como os textos que as acompanham, fica ainda mais em que pensar, pois as recusas dos protagonistas ganham outra dimensão vistas desta perspectiva mais ampla - com todas as consequências associadas. Fica, além disso, uma estranha e cativante proximidade relativamente às personagens, o que não deixa de ser também uma surpresa, pois, apesar de serem ambos figuras tão peculiares, é difícil ignorar a surpreendente simpatia que as suas situações despertam.
A impressão que fica é, por isto, por tudo isto, a de um livro cheio de qualidades, não só pelas histórias que lhe servem de base, mas pela forma como tudo se harmoniza num equilíbrio maior. Cativante, surpreendente e memorável em todos os aspectos, um belíssimo acréscimo aos Livros Amarelos.

Título: José Matias / Bartleby
Autores: Eça de Queiroz / Herman Melville
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 3 de julho de 2017

O Caçador (Mason Cross)

Uma emboscada oportuna, da qual ele parece não ser o alvo, faz com que Caleb Wardell, conhecido como o Sniper de Chicago, fuja de uma carrinha de transporte de prisioneiros poucos dias antes da data da sua execução. E, inesperadamente devolvido à liberdade, Wardell só pensa em fazer o que melhor sabe: matar. É preciso que a alguém o trave antes que a contagem de mortos comece, uma vez mais, a subir. E, para isso, o FBI recorre, ainda que com alguma relutância, a Carter Blake, um indivíduo misterioso cuja profissão é encontrar pessoas que não querem ser encontradas. Integrado na equipa criada para dar caça a Wardell, Blake procura pistas no passado e no rasto que Wardell começa a construir, tentando adivinhar qual será a próxima jogada. Mas, à medida que se aproxima da sua presa, a caça ao homem começa a revelar-se como algo bem mais complexo. Há uma conspiração nas sombras - e Wardell, por mais mortífero que seja, é apenas um peão.
Com um enredo que decorre em poucos dias e um ritmo que, por ser a história de uma caça ao homem, não pode deixar de ser de acção constante, este é um livro que prende desde muito cedo e não larga mais até ao fim. E por várias razões, a primeira das quais é, desde logo, a forma como está escrito. Com capítulos curtos, centrados no essencial, e um conjunto de pontos de vista que permitem uma visão abrangente do que está a acontecer, é fácil entrar no ritmo deste livro, sentir o peso da corrida contra o tempo e acompanhar os raciocínios - e perplexidades - das várias personagens a cada nova revelação. O resultado é uma história intensa, sempre intrigante e cheia de surpresas.
É também o início de uma série, o que significa, inevitavelmente, perguntas sem resposta. Não sobre o caso Wardell, entenda-se. Este tem princípio, meio e fim (e que belo fim), o que significa que não fica nada de essencial em aberto para o que virá a seguir. Já quanto a Carter Blake, a história é bem diferente. Blake é um mistério - sendo, aliás, isso que o torna tão intrigante. E há várias pequenas pistas sobre um passado ainda por explorar, sobre uma história que o moldou na figura discreta e esquiva que surge para resolver um problema que está a criar dificuldades às mais altas autoridades. É aqui que fica a tal curiosidade insatisfeita. Blake é intrigante, Blake tem um potencial vastíssimo. Mas, no fim deste primeiro livro, ainda se sabe muito pouco sobre Blake. Claro que há uma contrapartida nestas respostas que ficam por dar: mais vontade fica de ler os livros seguintes.
Voltando ao caso - e às personagens centrais - deste livro. Claro que a acção é o elemento dominante, mas há ainda um outro aspecto que sobressai: a capacidade do autor de, ao entrar na mente das várias personagens, construir uma intriga que é, não só mais complexa do que parecia, mas também pontuada por picos de inesperada emoção. A história pessoal da Agente Banner, os motivos aparentemente inexplicáveis dos que se movem nas sombras e as inevitáveis consequências de cada escolha acrescentam às decisões e às descobertas um impacto que a simples exposição da acção não lhes poderia dar. E, assim, a história ganha mais vida e mais intensidade - reforçando o impacto das respostas que são dadas... e o potencial das que ficam ainda por dar.
Intenso, intrigante e cheio de revelações, trata-se, portanto, de um livro que cativa desde o início e nunca deixa de surpreender. Não, não dá todas as respostas e há muito potencial que fica em aberto para os próximos livros.  Mas, com um protagonista como Carter Blake, é inevitável a impressão de que o melhor ainda está para vir... 

Título: O Caçador
Autor: Mason Cross
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Vogais

Primeiro governada por reis, Roma tornar-se-ia uma república. Mas no fim, após conquistar o mundo, a república desmoronou-se. Roma afogou-se em sangue. As guerras civis foram tão terríveis, que o povo romano acolheu de bom grado o governo de um autocrata que lhes poderia dar a paz. «Augusto», o seu novo senhor, intitulava-se «O Divino Favorito».
O fantástico esplendor da dinastia fundada por Augusto nunca esmoreceu. Nenhuma outra família se compara em fascínio com a sua galeria de personagens: Tibério, o grande general que acabou os seus dias como um recluso amargurado, célebre pelas suas perversões; Calígula, o mestre da crueldade e humilhação; Agripina, a mãe de Nero, cujas manobras levaram o filho ao poder, e que acabaria por morrer por ordem dele; Nero, que pontapeou a mulher grávida até à morte, que se casou com um eunuco, e que ergueu um palácio de prazer no centro dos escombros de uma Roma destruída pelo fogo.

Tom Holland é autor de Rubicão, O Triunfo e a Tragédia da República Romana (ed. Aletheia, 2008), que ganhou o prémio Hessell-Tiltman for History e fez parte da shortlist do prémio Samuel Johnson. Persian Fire, a sua história das guerras Greco-Pérsicas, ganhou o Prémio Anglo-Hellenic League’s Runciman em 2006.
Já adaptou obras de Homero, Heródoto, Tucídides e Virgílio para a BBC. Em 2007, foi o vencedor do prémio Classical Association, atribuído ao «indivíduo que mais fez pela promoção do estudo da língua, literatura e civilização das antigas Grécia e Roma». É apresentador do programa Making History na BBC Radio 4.