sexta-feira, 23 de junho de 2017

O Pequeno Livro da Astronomia (Máximo Ferreira)

Ponto de orientação, base de conhecimento ou, simplesmente, fonte de fascínio. Tudo isto e mais se aplica ao céu nocturno, com toda a sua vastidão de estrelas e outros corpos celestes. Mas, se simplesmente olhar para o céu e ver as estrelas já é mágico, há, ainda assim, todo um mundo de conhecimento a descobrir. E a pergunta que, desde logo, surge é por onde começar. Este pequeno livro responde a algumas das questões básicas, permitindo ver o céu de uma forma diferente. E, ao mesmo tempo, desperta curiosidade em saber ainda mais.
Bastante breve, mas muito interessante e de fácil compreensão, este não é, nem pretende ser, um guia completo para o estudo da astronomia, mas antes como que um ponto de partida para os interessados no tema. E, sendo assim, aquilo que apresenta são as linhas gerais do estudo do céu e a forma como um qualquer leigo na matéria se pode iniciar neste estudo. Claro que há conceitos que não são aqui definidos ao pormenor - mas a informação essencial encontra-se com uma pesquisa rápida e, para aprofundar aspectos específicos, haverá certamente outros meios. E, assim sendo, a impressão que fica é precisamente a de uma boa base a partir da qual partir à descoberta.
Para a fácil assimilação dos conceitos contribuem também as muitas imagens que acompanham o texto, bem como a carta celeste no final do livro, já que, por mais claro que seja o texto - e é-o, de facto - a visualização não deixa de ser um elemento importante quando o próprio tema se prende com a observação do céu. Além disso, ao dar forma visual aos conceitos no texto, o autor torna ainda mais fácil a compreensão das coisas - sejam elas uma fórmula de medição ou a simples diferença entre duas ampliações.
Não, não é um livro exaustivo - mas, mais uma vez, não pretende sê-lo. O que é, sim, é um bom ponto de partida para quem quer aprender a observar as estrelas com um pouco mais de detalhe e conhecimento. E conhecimento é algo que facilmente se retira deste livro, pelo que, para quem se quer iniciar nesta matéria - ou, simplesmente, tem curiosidade em relação ao tema - a impressão que fica é, portanto, muito simples de descrever: breve, acessível, agradável e esclarecedor. Uma boa leitura, em suma. 

Título: O Pequeno Livro da Astronomia
Autor: Máximo Ferreira
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Os Exportadores Portugueses (Filipe S. Fernandes)

Principalmente com a chegada da crise, começou a ouvir-se falar cada vez mais da exportação como solução para muitos problemas do tecido empresarial. Mas como é que isso funciona realmente? E até que ponto as exportações acrescentam valor - ou abrem novas possibilidades - a empresas já existentes, principalmente se não pertencerem aos grandes grupos? Estas são algumas de várias perguntas importantes a que este pequeno ensaio procura responder.
Se vamos falar em empresas e em volumes de exportação - entre outras particularidades do mundo dos negócios - é inevitável que se espere, à partida, uma boa dose de números e de estatísticas. E, por isso, importa fazer aqui uma nota prévia: este não é um mundo do qual eu tenha grandes conhecimentos. É este ponto, aliás, que me leva ao que é, para mim, o único ponto fraco neste ensaio: para quem não tiver grandes conhecimentos prévios sobre o mundo empresarial, não é fácil entrar neste cenário cheio de termos e de números e de estatísticas, pelo que uma explicação prévia dos conceitos básicos poderia ter sido útil. Ainda assim, basta uma pesquisa breve para esclarecer o essencial. E, a partir daí, mesmo não conhecendo grande coisa do assunto, é possível retirar desta leitura uma muito boa ideia de como funciona o mundo das empresas exportadoras.
Quanto ao ponto forte, e é considerável, tem a ver com a forma como o autor recorre a vários exemplos sobejamente conhecidos para traçar um percurso da evolução das exportações ao longo do tempo. É fácil reconhecer o nome de algumas empresas e, quando não é, a explicação que se segue sobre a actividade que exercem esclarece de imediato o contexto que esse exemplo em particular representa no cenário global. E há exemplos de diversos ramos, o que, associado às inevitáveis estatísticas, permite ficar com uma visão bastante abrangente, ainda que sucinta, do que é, afinal, o mercado exportador.
Ficam perguntas sem resposta? Provavelmente. Mas também não me parece que seja o objectivo deste livro - ou que seja possível, sequer! - resumir em menos de cem páginas um tema tão vasto. O essencial, ainda assim, é facilmente perceptível e, sendo certo que fica a vontade de saber mais, tanto sobre as bases como sobre os exemplos específicos, as linhas fundamentais estão bem presentes e são muito claras.
A ideia que fica é, pois, a de uma leitura acessível, apesar da vastidão de números que inevitavelmente vem associada a um tema como este. Acima de tudo, fica a muito boa impressão de ter terminado a leitura a saber bastante mais sobre o tema do que o que sabia antes de a ter começado. E isso é mais do que suficiente para fazer com que valha a pena.

Título: Os Exportadores Portugueses
Autor: Filipe S. Fernandes
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 20 de junho de 2017

A Sociedade dos Sonhadores Involuntários (José Eduardo Agualusa)

Num fenómeno que ninguém parece conseguir explicar, Daniel Benchimol sonha com pessoas que não conhece, mas que existem ou existiram. Um seu conhecido, Hossi, habitou em tempos os sonhos de todos os que o rodeavam, tendo chegado por isso a ser objecto de uma estranha experiência. Por outro lado, uma máquina fotográfica encontrada na água leva Daniel a Moira, uma artista que encena os seus sonhos. E esta, por sua vez, leva-o a um neurocirurgião que está a desenvolver uma máquina capaz de os filmar. Os sonhos levam-nos a recordar o passado, a questionar o que se passa nos meandros da mente. Mas, se a proximidade dos sonhos chega para criar relações, há algo - outro tipo de sonho - que é capaz de unir todo um povo. E tudo começa com a filha de Daniel e as suas aspirações à liberdade...
Surpreendente seria uma boa palavra para começar a definir este livro, que parte do que parece ser uma paisagem onírica, ainda que com estranhos reflexos no mundo real, para depois se debruçar sobre as grandes questões da realidade em que as personagens se movem. Os sonhos não as levam apenas ao impossível e ao inesperado - levam-nas a lembrar as guerras passadas e as restrições do presente. E quando a história se expande para a história dos jovens revolucionários, então torna-se impossível não ver as semelhanças entre esta narrativa e a história de uma realidade muito próxima.
Ora, isto cria um contraste muito interessante, pois, ao mesmo tempo que a peculiaridade da relação das personagens com o mundo dos seus sonhos confere à narrativa uma muito agradável leveza, a dureza da realidade projecta as verdadeiras dificuldades de um percurso que, neste caso é fictício, mas que se aproxima em muito de um caso bem real. Surge assim como que a impressão de um equilíbrio delicado, numa história em que o improvável e o bem possível andam claramente de mãos dadas. 
Claro que, conhecendo a realidade dos factos, é difícil imaginar a forma como este livro termina a acontecer verdadeiramente. Ainda assim, não deixa de ser uma conclusão adequada para uma história que, oscilando entre o normal e o inexplicável, parece ser toda ela um hino ao valor do sonho e do esforço por o tornar real. Um hino escrito com uma mestria tal que, mesmo quando não é fácil compreender algum gesto ou simpatizar com determinada personagem, há sempre algo que prende nesta história onde tudo (ou quase tudo) parece possível.
Surpreendente, portanto. Assim se poderia definir este livro que é, acima de tudo, um sonho em que a realidade está bem presente. Bem escrito, com uma história cativante e alguns mistérios que, mesmo deixados por explicar, não deixam, ainda assim, de exercer um estranho fascínio, vale bem a pena conhecer esta Sociedade dos Sonhadores Involuntários.

Título: A Sociedade dos Sonhadores Involuntários
Autor: José Eduardo Agualusa
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Divulgação: Novidade Guerra e Paz

Agora que tantos portugueses voltaram a descobrir os encantos da vida no campo, é preciso voltar a ler-se Júlio Dinis. Ainda que a história se centre em Madalena, a morgadinha, uma mulher de carácter forte e virtuoso, o enredo inicia-se com a vinda de Henrique de Souselas, um hipocondríaco de manias citadinas, para casa da tia Doroteia, numa aldeia minhota, por conselho do seu médico. O autor ilustra, assim, uma das suas teses predilectas: o efeito regenerador da vida simples do campo sobre a citadina.
São infinitas as lições de vida que podemos retirar da obra: desde a intriga amorosa, com ciúme à mistura, a honra ferida por injustas calúnias, a crítica social e de costumes. Mas Júlio Dinis glosa também tópicos como o do compadrio, o caciquismo, o recurso à cunha, a corrupção política, o fanatismo religioso.
Venha conhecer as salas de famílias da aldeia; tome um chá na casa do Mosteiro, saboreie uma boa canja na casa de Alvapenha, assista em directo às brigas na casa de Zé P’reira, peça conselho ao tio Vicente sobre a melhor mezinha, tome um copo na venda do Canada e, se é devoto ou tem fé, vá até à igreja, mas deixe-se de fanatismos.
Prometemos um final feliz, como era timbre do autor. Leia-o!

Júlio Dinis. Joaquim Guilherme Gomes Coelho, verdadeiro nome de Júlio Dinis, nasceu no Porto, em 14 de Novembro de 1839. Era filho de um cirurgião, José Joaquim Gomes Coelho, e de Constança Potter, que morreu cedo, deixando-o órfão aos seis anos. Em 1861, termina o curso de Medicina na Escola Médico-Cirúrgica do Porto. Nessa época, já sofria de tuberculose, o que o levou a sair do Porto, começando a escrever. Inicia a actividade literária em 1862, publicando breves narrativas no Jornal do Porto. Torna-se professor de medicina na escola onde se formou em 1865. Morreu em 1871, aos 31 anos, vítima de tuberculose. Publicou quatro romances: As Pupilas do Senhor Reitor (1866), Uma Família Inglesa (1867), A Morgadinha dos Canaviais (1868), e Os Fidalgos da Casa Mourisca (1871).

domingo, 18 de junho de 2017

Filhas da Tempestade (Philippa Gregory)

Enquanto membro da misteriosa Ordem das Trevas, a missão de Luca Vero é procurar sinais do fim dos tempos, obter toda a informação relevante e transmiti-la ao seu enigmático superior. As ordens são sempre claras e invioláveis - mas o caminho nem sempre está livre de obstáculos. Enquanto viaja com os companheiros, toma conhecimento da existência de uma cruzada de crianças que viaja com destino a Jerusalém. E, ao ouvir as palavras do líder desta cruzada, Luca descobre-se também incapaz de ignorar o chamado. Mas a partida triunfal transforma-se em tragédia com a chegada de uma onda gigante que tudo destrói. E, de repente, Luca vê-se na necessidade de, mais uma vez, inquirir sobre o papel das suas companheiras - agora acusadas de terem desencadeado a tempestade...
Centrado acima de tudo em Luca e nos seus companheiros, mas acompanhando vários mistérios e possibilidades, este é um livro que tem a sua maior força na forma como as personagens são desenvolvidas. Luca, destinado a ver o pior do mundo sem vacilar, cativa, por um lado, pela determinação em cumprir o seu papel, mas principalmente pela vulnerabilidade. Isolde e Ishraq pelo contraste que existe entre ambas - a dama que vive segundo as regras e a serva que a todas questiona. Peter é o monge perfeito, estrito e de fé aparentemente inabalável, mas os seus rasgos de humanidade, quando surgem, nunca deixam de surpreender. E Freize... bem, Freize é a alma do lado mais leve desta história, com a sua natureza divertida e ligeiramente provocadora a acrescentar o toque certo de humor quando as coisas se tornam demasiado sérias.
Todas as personagens são interessantes, à sua maneira, mas são as relações que as unem aquilo que mais marca, sendo no rescaldo da grande onda que o melhor delas se revela. E é aqui que entra o factor que desperta sentimentos ambíguos. É que, apesar de acompanhar diversos "casos" - a cruzada, a onda, a chegada do misterioso Radu Bey - a impressão que fica é a de que este livro funciona, em grande parte, como transição para o que se seguirá. Todas as personagens avançaram, de alguma forma, e o que aconteceu é relevante. Mas as grandes perguntas, essas, ficam todas em aberto. Fica, por isso, uma certa curiosidade insatisfeita, mas também muita vontade de saber o que acontece a seguir.
O que me leva a outro ponto que é importante destacar. Ainda que os casos tenham um papel relevante no enredo, é, muitas vezes, nas pequenas pistas que se encontram os sinais mais importantes. E a forma como a autora equilibra estas duas facetas do enredo - fazendo com que aconteçam coisas importantes, mas como que insinuando que o melhor ainda está para vir - cria grandes expectativas para o que poderá vir depois. Não só quanto à busca dos tais sinais do fim dos tempos, mas principalmente quanto aos segredos e às verdadeiras motivações que algumas das personagens parecem teimar em esconder. 
Cativante, repleto de personagens marcantes e com uma história que, apesar das tais perguntas sem resposta, facilmente se torna memorável, a impressão que fica é, portanto, a de um volume de transição numa aventura que promete ser ainda cheia de grandes surpresas. E de um avanço que, mesmo com tudo o que é deixado em aberto, traz para mais perto a natureza das personagens e aquilo que elas têm de mais fascinante. Uma boa história, portanto, e que deixa muito boas expectativas para o que dela falta contar. 

Título: Filhas da Tempestade
Autora: Philippa Gregory
Origem: Aquisição pessoal

sábado, 17 de junho de 2017

A Mala Misteriosa do Senhor Benjamin (Pei-Yu Chang)

O senhor Benjamin é um grande filósofo com ideias extraordinárias. Mas as pessoas que mandam no seu país não gostam de quem tem ideias extraordinárias e, por isso, o senhor Benjamin tem de fugir para não ser preso. É uma situação delicada e as instruções que tem são para não levar nada pesado, de modo a não levantar suspeitas. Mas, na hora da fuga, o senhor Benjamin aparece com uma grande mala, cheia de coisas que diz serem mais importantes do que a sua vida. É bem possível que isso possa comprometer a fuga - mas a mala não pode ficar para trás. O que contém? Ninguém sabe...
Baseado numa história verdadeira e contado de forma muito simples, este é um livro que cativa, acima de tudo, pela forma clara e envolvente como consegue transpor o essencial de um tema vasto e complexo para o registo necessariamente simples de um livro infantil. A história não podia ser mais sucinta - um homem obrigado a fugir pelas suas ideias que leva consigo, ainda assim, o que considera ter de mais importante. E, porém, todos os elementos essenciais estão lá, desde a linha geral de um enredo capaz de despertar curiosidade (e com uma muito intrigante ponta de mistério) às questões pertinentes que, ainda que abordadas com a necessária simplicidade, não deixam nunca de estar presentes.
Também muito relevante é a forma como o texto e a imagem se ajustam no que parece ser um equilíbrio muito eficaz. As ilustrações, aparentemente muito simples, parecem, ainda assim, conseguir evocar, na medida certa, o lado sombrio de um mundo onde se foge por pensar. E o texto, igualando em simplicidade a história propriamente dita, realça as coisas realmente importantes, sem parecer deixar nada de relevante por dizer.
Somadas as partes, fica a impressão de um livro bonito e relevante, em que, de forma muito simples e cativante, mas nunca ignorando as difíceis verdades presentes, se começa a apresentar aos mais novos um lado da história que, por mais desagradável que possa ser, não poderá jamais ser ignorado. Muito interessante.

Título: A Mala Misteriosa do Senhor Benjamin
Autora: Pei-Yu Chang
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 16 de junho de 2017

A Rapariga Mais Sortuda do Mundo (Jessica Knoll)

Ani FaNelli tem tudo o que sempre quis: um bom emprego, um noivo rico e uma vida cheia dos pequenos luxos a que sempre aspirou. Mas também tem um passado sombrio. E, agora que o casamento se aproxima, aproxima-se também a altura de revisitar o passado. Quando era adolescente e frequentava uma prestigiada escola privada, algo aconteceu que a assombraria para sempre, moldando todas as suas decisões. E agora há quem queira contar a sua versão dos factos - aquela que as vozes dos outros sempre fizeram calar. A história do que aconteceu em Bradley será finalmente contada. Mas isso trar-lhe-á paz ou apenas um novo caos?
Um dos aspectos mais curiosos neste livro - e, ao mesmo tempo, uma das suas forças e o principal ponto fraco - é a forma como, sem que nenhuma das personagens seja propriamente do género que desperta empatia, a história consegue, ainda assim, tocar todos os pontos relevantes. Não há ninguém de entre as personagens mais relevantes sobre quem se possa dizer que é "boa pessoa" e, contudo, aquilo que vivem, as experiências e provações por que passam e a forma como o passado se estende para lá do tempo não deixam, ainda assim, de realçar a relevância das questões abordadas. Daí ser uma força e uma fraqueza. Fraqueza, porque, ao não se simpatizar com nenhuma das personagens, fica uma inevitável sensação de distância. Força, porque realça o impacto de acontecimentos que abalam, independentemente de se gostar ou não da pessoa que os vive. 
Ora, não é fácil entender Ani FaNelli, com as suas aspirações sociais e a estranha predilecção pelo ter (ter a imagem perfeita, ter o que de melhor há no mercado, preencher todos os requisitos do que se entende como a vida ideal), mas, à medida que o seu passado é revelado, fica-se com uma opinião um pouco diferente da sua pessoa. Não, não atenua o efeito dos seus traços de personalidade. Mas, até certo ponto, justifica-os. E isto confere ao enredo uma nova intensidade, pois o que parecia ser a história de uma vida perfeita assume-se, gradualmente, como um retrato bastante mais negro de uma vida que não é, afinal, tão simples como aparentava ser.
Aos poucos, tudo começa a ganhar um novo sentido, e, numa história onde não há vidas perfeitas, e muito menos personagens perfeitas, as questões realmente relevantes começam a vir à superfície. E acaba por ser isso, acima de tudo, o que fica na memória: as experiências do passado da protagonista e a forma como lhe marcaram o presente, bem como a influência que isso viria a ter nas suas escolhas e relações com pessoas que não estavam preparadas para lidar com os factos. 
Não, não é fácil gostar das personagens. Mas, numa história como esta, em que há questões tão complexas na raiz do que parecia ser uma vida simples, não deixa de fazer sentido que as marcas do sucedido tenham moldado uma protagonista menos que perfeita. E isto, associado a um enredo surpreendente e a uma escrita que, a pouco e pouco, parece ajustar-se na perfeição à voz da protagonista, acaba por ser mais que o suficiente para fazer deste A Rapariga Mais Sortuda do Mundo uma história muito interessante. E uma boa leitura, claro. 

Autora: Jessica Knoll
Origem: Recebido para crítica

Para mais informações sobre o livro A Rapariga Mais Sortuda do Mundo, clique aqui.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

The Children (Ann Leary)

Charlotte Maynard cresceu em Lakeside, na casa do padrasto, com a mãe e a irmã, e é aí que ainda vive. Mas as coisas mudaram desde que Whit morreu, pois, apesar de ela e Joan ainda viverem na casa, esta pertence agora aos verdadeiros filhos de Whit. Parecem, contudo, dar-se razoavelmente bem… pelo menos até que Spin, um dos filhos de Whit, anuncia que se vai casar com uma misteriosa desconhecida. Laurel entra nas suas vidas como uma mulher de sucesso, tentando ganhar a sua simpatia e entrar na família como amiga. Mas Laurel tem motivações escondidas – e a sua presença parece bastar para despertar os piores sentimentos no seio da família. No fim, muitos segredos virão à luz do dia – e ninguém será exactamente o mesmo quando tudo tiver terminado.
Um dos aspectos mais impressionantes neste livro é o facto de, apesar da relativa brevidade, ser inesperadamente complexo e cheio de mistérios. Charlotte, com as suas dificuldades em sair de casa, o blogue falso e a estranha relação que mantém com o amigo de infância. Sally, com as mudanças de amor e a explicação que mais tarde surge para o seu comportamento. A delicada – e não muito fácil – relação entre os filhos de Whit e as filhas de Joan. Tudo isto e mais faz parte do que torna esta história surpreendentemente elaborada e, porém, sempre intrigante e muito fácil de acompanhar. Desde o início que nos leva a querer saber mais. E, quando o sabemos, as respostas são sempre surpreendentes.
Há também um crescendo de intensidade ao longo de toda a história, que pode, por vezes, ser bastante viciante. Primeiro, pelo que não se sabe e a sensação de que o estranho equilíbrio entre as várias personagens está prestes a mudar. Depois, pelas coisas misteriosas que se estão a passar e as explicações aparentemente impossíveis de obter. E, finalmente, quando as grandes revelações surgem, pelo inesperado de toda a situação. Ninguém neste livro é fácil de entender e, por isso, as suas escolhas e movimentos surgem sempre como uma surpresa. É isso, em parte, que torna a história tão intensa – e também o que faz querer conhecer um pouco melhor estas personagens.
Quanto ao fim… bem, o mínimo que se pode dizer é que é inesperado. Longe de ser a conclusão que a história nos faz desejar, tem, ainda assim, um impacto bastante impressionante. E, apesar de deixar também uma sensação de curiosidade insatisfeita – quanto ao que acontece aos protagonistas e às verdades que ficam por revelar – parece, ainda assim, uma conclusão estranhamente adequada. Não é um final limpo, onde os vilões são castigados e tudo acaba bem para os heróis.  É mais complexo do que isso. Mas faz sentido, e é isso o mais importante.
É tudo muito envolvente, muito intrigante. E, apesar de ficarem algumas perguntas sem resposta, tudo se conjuga numa história que prende desde o início e nunca deixa de surpreender até ao fim. Uma história intensa e complexa e, tudo somado, uma boa leitura.


Título: The Children
Autora: Ann Leary
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 14 de junho de 2017

A Feira e Eu


Se me conhecem - e, se têm paciência para estar aqui a ler isto, é provável que conheçam, de alguma forma - já fazem uma boa ideia da dimensão que tem a minha relação de amor pelos livros. É algo que, como todos os amores, não se explica, sente-se. E dispensa qualquer outra argumentação. E, contudo, apesar da força deste tão estranho amor, se recuar dois anos no tempo, encontro os dias em que não conhecia um dos elementos mais mágicos deste mundo dos livros e da leitura: a Feira do Livro, claro.
Agora, acabada de regressar pela segunda vez, custam a encontrar palavras capazes de explicar o que tem de tão diferente, de tão especial, de tão unicamente mágico, esta descida ao "lugar dos livros", a um espaço tão cheio de histórias e de palavras.
E não, não são só os livros, ainda que esses bastassem para fazer com que tudo valesse a pena. É a partilha da experiência com outros que sentem a mesma paixão, o fascínio de ouvir quem escreve falar sobre o que lhes guia as palavras, o encanto de rever - ou conhecer, finalmente, em pessoa - tantos amigos que, apesar da distância, estiveram sempre presentes ao longo da jornada. É chegar com o peso da timidez e da hesitação - porque será que realmente pertenço aqui? - e partir de coração cheio com as descobertas e o afecto e tantas e tão boas possibilidades.
A Feira... ah, a Feira. Fica-se um bocadinho diferente depois de a conhecer... e, apesar de ainda agora ter acabado para mim (porque ela lá continua por mais uns dias!), já se sentem as saudades e a nostalgia de tantos momentos bons.
Virão outros anos... Virão outras Feiras, decerto. Até lá, ficam as boas memórias e a certeza de regressar a casa sempre um pouco melhor do que saí. (E com muito mais para ler, também.)
Obrigada por me receberem, pessoas encantadoras com quem me cruzei por estes dias. Obrigada pela companhia, pelo carinho, pela partilha. Voltaremos a ver-nos, espero, numa Feira futura.

Ah, mas claro. Fica uma pergunta em aberto, não é? Se trouxe livros novos comigo. Bem, é óbvio, não é verdade? Oh, sim. Claro que sim. Mas quanto a quais foram... bem, isso fica para descobrir à medida que forem sendo lidos. ;)

terça-feira, 13 de junho de 2017

Passatempo O Grito do Corvo

O blogue As Leituras do Corvo, em parceria com a Editorial Presença, tem para oferecer um exemplar do livro O Grito do Corvo, de Sandra Carvalho. Para participar basta responder às seguintes questões:

1. Qual é o nome da galé que os piratas pretendem saquear?
2. Como se chamam os volumes anteriores desta trilogia?
3. A que colecção da Editorial Presença pertencem as Crónicas da Terra e do Mar?


Regras do Passatempo:
- O passatempo decorrerá até às 23:59 do dia 24 de Junho. Respostas posteriores não serão consideradas.
- Para participar deverão enviar as respostas para carianmoonlight@gmail.com, juntamente com os dados pessoais (nome e morada);
- O vencedor será sorteado aleatoriamente entre as participações válidas;
- Os vencedores serão contactados por e-mail e o resultado será anunciado no blogue;
- O blogue não se responsabiliza pelo possível extravio do livro nos correios;
- Só se aceitarão participações de residentes em Portugal e apenas uma por participante e residência.

Para mais informações consulte o site da Editorial Presença aqui.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Rebeldia (Cristina Carvalho)

Nascida e criada numa pensão na província, Leninha nunca soube resignar-se às imposições da vida. E, contudo, o tempo ensinar-lhe-ia que todas as revoltas têm um fim. Da vida na pensão à grande cidade, da liberdade aparente às convenções que nunca poderia aceitar, da solidão em liberdade ao amor que se transforma noutra coisa, Leninha fita o passado e volta a contemplar a sua história. A história de uma existência onde nada é certo, a não ser as consequências.
Não é propriamente fácil descrever este livro, já que quer o enredo, quer as personagens, parecem desenvolver-se ao ritmo do pensamento. Ora é Leninha quem conta a sua história, ora alguém que parece observá-la. O tempo, esse, parece definir-se entre recuos à memória e ilusões de um futuro possível. E as personagens desenham-se pelo olhar da protagonista e este é muitas vezes contraditório.
Confuso? Talvez um bocadinho. Mas o mais interessante é que apesar de toda esta complexidade - complexidade tão vasta para um livro de apenas cento e vinte páginas! - tudo parece fluir com uma estranha naturalidade. E, assim, mesmo quando as motivações das personagens nem sempre são claras, mesmo quando o real e o imaginado se confundem, há algo que sempre cativa na história de Leninha e na visão que esta tem da sua vida. Talvez a rebeldia que, nem sempre consumada, não é só o título do livro, mas também o elemento dominante nos pensamentos da protagonista.
E depois há a escrita, também ela de uma fluidez sempre cativante e cheia de surpresas nas imagens que evoca. Se a protagonista está dividida - entre o que quer e o que tem, entre o fazer e não fazer, entre o passado e o futuro que sonha - essa divisão reflecte-se na voz que a autora lhe confere. Se os pensamentos se lhe confundem, a escrita espelha essa confusão. E, mesmo quando nem tudo é fácil de entender, há uma certa familiaridade na confusão, uma certa perplexidade que faz sentido - porque vem da própria protagonista.
A impressão que fica é, pois, a de um livro estranho, mas estranhamente cativante. Um livro que, mais do que simplesmente uma história com princípio, meio e fim, parece traçar as linhas de duas vidas - a que é e a que poderia ser. E é isso, no fim, que fica na memória. A ideia de uma história que pode não ser fácil de entender, mas que tem, ainda assim, algo de fascinante. E isso basta para que a leitura valha a pena. 

Título: Rebeldia
Autora: Cristina Carvalho
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 6 de junho de 2017

Divulgação: Novidade Presença

Sandra Carvalho
Colecção: Via Láctea n.º 138
Tema: Ficção e Literatura
ISBN: 978-972-23-5980-1 
Páginas: 256

Os piratas do Rouxinol veem-se cada vez mais longe de saquear o ouro da galé castelhana Niña del Mar devido aos estragos causados pela violenta tempestade que se abateu sobre o barinel. A descoberta da identidade de Leonor faz com que Corvo queira regressar de imediato aos Açores, para entregá -la à guarda do pai. Porém, a tripulação discorda e o caos instala-se a bordo. O que Leonor mais deseja é lutar ao lado dos companheiros e recuperar a confiança de Corvo. No entanto, Tomás Rebelo continua a precisar dela para alcançar o propósito funesto que o levou a assenhorear-se de Águas Santas. Conseguirá Leonor chegar incólume à misteriosa ilha das Flores, conhecer o Açor e abraçar a irmã, ou acabará abandonada por Corvo, à mercê dos caprichos do abominável Tomás Rebelo?

Sandra Carvalho é uma das autoras portuguesas mais conceituadas do romance fantástico. A Saga das Pedras Mágicas, que a Presença publicou também na colecção «Via Láctea», e que é constituída pelos títulos A Última Feiticeira, O Guerreiro Lobo, Lágrimas do Sol e da Lua, O Círculo do Medo, Os Três Reinos, A Sacerdotisa dos Penhascos, O Filho do Dragão e Sombras da Noite Branca, conquistou um vasto número de fãs entre os apreciadores do género. Depois de O Olhar do Açor e Filhos do Vento e do Mar, O Grito do Corvo é o último volume das Crónicas da Terra e do Mar.

Para mais informações consulte o site da Editorial Presença aqui.

Divulgação: Novidade 4 Estações

Medo: Um caso de sucesso internacional
O sucesso do medo é fácil de explicar. Não conheço nada que seja mais eficaz. Os governos, as organizações, os líderes há muito que compreenderam isso. O medo é mais forte do que qualquer um dos melhores sentimentos humanos. É disso que nos fala a história contemporânea: de uma civilização assustada, tentando sobreviver entre o medo e o assombro de tudo o resto. Onde medo e ignorância andam, sempre, de mãos dadas. 
Encontraremos os fundamentos históricos para a civilização do medo de forma mais pronunciada e globalizada após a Segunda Guerra Mundial.
É o medo, e não o ódio, que nos torna irracionais. O oposto do amor não é o ódio. É o medo. Por isso, enquanto houver medo, não haverá paz, dignidade, amor, liberdade… nem humanidade.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

A Educação de Eleanor (Gail Honeyman)

Eleanor Oliphant não tem problemas com a solidão. Vive calmamente no seu canto, sem ninguém que a incomode, e está perfeitamente bem assim. Ou... será que não? Sempre se habituou a viver com os seus hábitos e as suas peculiaridades, com a interacção social reduzida ao mínimo indispensável (ou não fossem todos aqueles com quem contacta um pouco bizarros aos seus olhos). Mas tudo muda no dia em que precisa de ajuda com o computador do trabalho e conhece Raymond, que não parece perceber os seus sinais de que deseja estar sozinha. E quando se vêem na necessidade de ajudar um idoso que desmaiou em plena rua, Raymond e Eleanor acabam por conhecer novas pessoas. Eleanor começa a descobrir um outro lado de si mesma. Mas, para superar o passado que tão habilmente escondeu, precisará de pôr de parte todos os planos - e todos os preconceitos.
Há ao longo de todo este livro, e em reflexo da vida da sua protagonista, uma dualidade complexa, assente num equilíbrio delicado. Por um lado, Eleanor, com a sua aversão à vida social e as suas manias peculiares, proporciona vários momentos caricatos e divertidos. Por outro, há um lado negro à espera de emergir, não só no passado que ela carrega consigo (e cujos mistérios ela própria não compreende) como nas consequências que este tem sobre o presente. O contraste dificilmente podia ser maior e a delicadeza com que a autora equilibra estas duas facetas, proporcionando momentos de humor e de emoção, arrancando gargalhadas ou fazendo com que o coração se aperte um bocadinho, é um dos aspectos mais memoráveis nesta leitura.
Isto significa que é no aspecto emocional que este livro é mais marcante. Mas não fica por aí. Há muito de cativante na construção das personagens e na forma como, através dos olhos de Eleanor, a autora as retrata no que têm de mais marcante, realçando-lhe, mais que os traços essenciais, as acções em que esses traços se revelam. E há um pouco de tudo: das mais invulgares aos simplesmente malévolas, passando por todos os tons de cinzento que moldam as várias personalidades. E, numa história em que ninguém é perfeito, cativa a perfeição com que essa falibilidade é construída.
Quanto à história, surpreende, é claro, o percurso de Eleanor e a forma como a mudança tanto pode acontecer com grandes revelações como com pequenos gestos. E surpreende também o facto de, apesar de ficarem algumas perguntas no ar, a forma como tudo se encerra, algures entre a esperança e as óbvias possibilidades, parecer perfeitamente adequada ao que é, afinal, um percurso rumo a uma vida melhor. E a vida continua sempre, não é?
Tudo somado, fica a imagem de uma história de superação e de descoberta, em que todos os caminhos se abrem (mas nunca da forma mais fácil) para uma nova Eleanor Oliphant. E é tão bom acompanhar esta tão invulgar (mas tão cativante) protagonista! Muito bom. 

Autora: Gail Honeyman
Origem: Recebido para crítica

domingo, 4 de junho de 2017

Eu e os Outros (Anna Vivarelli e Pedro Aires Pinto)

Política. À primeira vista, não é o mais interessante dos temas para os mais novos. Mas, se a virmos de outra forma, considerando os muitos factores essenciais que a envolvem - liberdade, democracia, igualdade, diversidade - é impossível negar-lhe a relevância e a necessidade de aprender desde muito cedo. E é essa a premissa deste livro - ensinar aos leitores mais novos as ideias essenciais que movem o mundo, preparando-os para uma vida em liberdade, mas com a responsabilidade que esta implica. 
Relativamente breve e escrito de forma bastante acessível, este é um livro que cativa, em primeiro lugar, pela forma simples e clara como consegue abordar um tema que muitos achariam aborrecido. Recorrendo às ideias de vários filósofos, mas também ao senso comum, apresenta uma visão global e organizada dos conceitos essenciais da vida em sociedade. E fá-lo de uma forma cativante, a começar, desde logo, pelas pequenas ilustrações que abrem cada capítulo, ilustrando-o de uma maneira simples e peculiar, passando depois a um texto muito claro, mas nunca simplista, onde as ideias essenciais são explicadas de uma maneira fácil de entender. 
Para isso, são também importantes os exemplos, que tornam simples conceitos que, às vezes, parecem mais complexos do que realmente são. Mas, mais do que isso, há ainda um outro aspecto que sobressai: a capacidade de percorrer, de forma sucinta, mas bastante esclarecedora, os diferentes aspectos da vida social e política e da evolução que esta sofreu ao longo do tempo. A definição de direitos e liberdades, as vantagens e desafios da tecnologia, os vários tipos de regime e a importância de coisas como a separação de poderes são apenas alguns dos aspectos relevantes abordados neste pequeno livro. Além disso, um olhar ao passado e às mudanças sucedidas ao longo do tempo abrem caminho a uma perspectiva mais ampla - que se completa com um breve olhar às possibilidades futuras.
Simples, acessível e agradável de ler, trata-se, portanto, de uma boa leitura para despertar consciências desde muito cedo. E não apenas nas jovens mentes de que a capa fala. Gostei.

Título: Eu e os Outros
Autores: Anna Vivarelli e Pedro Aires Pinto
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Nimona (Noelle Stevenson)

Lorde Ballister Coração Negro pode ser um supervilão, mas sempre cumpriu algumas regras. Mas isso está prestes a mudar. Tudo começa quando Nimona lhe aparece à frente, oferecendo-se para ser o seu braço direito. E se, de início, Ballister não está muito interessado, tudo muda quando ela lhe revela os seus poderes de transmutadora. Nimona pode muito bem ser a ajuda de que Ballister precisava para expor os verdadeiros desígnios que a Instituição esconde sob uma fachada de heroísmo. Mas, quando todos os planos começam a falhar e a verdadeira dimensão dos poderes de Nimona começa a manifestar, Ballister percebe que o que tem em mãos é um problema muito maior do que esperança. Até porque as atenções da Instituição também caíram sobre o seu novo braço direito...
Não é fácil explicar o que tem este livro que o torna tão deliciosamente fascinante - pelo menos não sem contar demasiado. Há, ainda assim, algumas características que sobressaem e a principal é o equilíbrio de contrastes que parece moldar esta história na perfeição. Contraste entre a simplicidade de uma história que se cinge ao essencial, tanto nas personagens como na história, mas de onde há muito de importante a retirar; entre os conceitos conhecidos de heroísmo e vilania e o verdadeiro papel que estes assumem neste livro; entre a simplicidade de um enredo onde não há grandes reviravoltas, mas onde todos os momentos, do mais divertido ao mais comovente, têm importância. Tudo isto num equilíbrio tão bem conseguido que cada momento desperta precisamente a emoção certa - venha ela no brotar de uma gargalhada ou no coração que fica um bocadinho apertado.
Sendo este um livro de banda desenhada, não é preciso pensar muito para perceber que a imagem é tão importante como o texto. É através das imagens e do diálogo - e nada mais - que se vive o enredo e se conhecem as personagens. E é precisamente aqui que quero chegar. Sem descrições, sem grandes momentos de introspecção por parte dos protagonistas, sem monólogos interiores nem nada que se lhe pareça, é, ainda assim, perfeitamente possível ficar a conhecer as personagens - e sentir com elas. Ballister, Ambrosius e Nimona são uma trindade fascinante - não só pela história que têm, mas por aquilo que representam. E retirar tanto de uma história tão simples é algo de simplesmente memorável.
Há muita magia neste livro. E não, não me refiro só aos estranhos poderes de Nimona. Há magia na forma como a história está construída, como o mais simples dos momentos se pode gravar na memória, na forma como tudo neste livro se conjuga para traçar um percurso memorável sem nunca perder de vista a simplicidade que tanto cativa. No fim, também é isto que fica desta leitura: a beleza das coisas simples, em contraste com a vastidão de possibilidades de a transmitir.
Não há muito mais a dizer sobre este livro - pelo menos sem apagar o impacto dos muitos bons momentos desta história. Por isso, fica apenas o essencial: a imagem de uma leitura memorável, surpreendente e, em muitos aspectos, deliciosa. Recomendo.

Título: Nimona
Autora: Noelle Stevenson
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Rei dos Espinhos (Mark Lawrence)

Aos catorze anos, Jorg Ancrath vingou-se do assassino da mãe e conquistou um trono para si. Agora, passados quatro anos, tem um inimigo às portas e a desvantagem numérica é devastadora. Jorg sabe que nunca poderá vencer uma guerra limpa - mas jogar limpo também nunca esteve na sua natureza. Ele tem um plano. Mas, quando há sombras que movem reis como peças num tabuleiro, esse plano tem de ser bem guardado até ao momento de o pôr em prática. E, para isso, nem ele pode recordá-lo. Travar a batalha que lhe falta poderá aproximá-lo do lugar de Imperador que tanto ambiciona - mas há memórias que se escondem por um bom motivo. E, se recorrer aos segredos que decidiu guardar bem longe, Jorg poderá ganhar terreno - mas tem também muito a perder.
De tudo o que de bom se pode dizer sobre este livro - e há tanto de bom a dizer - a primeira coisa que importa destacar é a escrita. Narrado, em grande parte, pela voz do protagonista, este é o tipo de livro que dá vontade de ter um caderno ao lado para apontar citações. E isto é surpreendente, desde logo, porque Jorg não é, à primeira vista, feito da matéria dos eruditos, mas principalmente porque é possível ver o que se passa nos intrincados meandros da cabeça do protagonista sem nunca se perder de vista a intensidade do ritmo dos acontecimentos.
O que me leva a passar da escrita às personagens. Jorg é fascinante. Já o era no volume anterior, mas a notável evolução que acontece ao longo das páginas deste segundo volume torna-o ainda mais complexo e marcante. E o mesmo se pode dizer de várias das figuras que o rodeiam, com o inevitável destaque para Makin e Katherine, claro, mas também para figuras aparentemente mais discretas, como Gog, Chella e o tão predestinado Príncipe da Flecha. Há em todas estas personagens algo de cativante a descobrir. E vê-las pelos olhos de Jorg... bem, acrescenta-lhes uma dimensão diferente.
Quanto ao enredo, tudo é interessante, desde o intercalar entre os desenvolvimentos do dia da batalha iminente e o passado que levou Jorg àquela posição aos pequenos e grandes momentos que lançam uma nova luz sobre este estranho herói que às vezes mais parece um vilão. E, claro, não esquecendo as grandes reviravoltas dos sempre arriscados planos de Jorg, as muitas revelações sobre a estranha magia que molda o mundo deste livro e as descobertas de um passado que podia muito bem ser um futuro real. Tudo cativa nesta história e mesmo o que é deixado por dizer - guardado, talvez, para o derradeiro volume - apenas contribui para aumentar a expectativa quanto ao que poderá vir a seguir.
Que mais dizer, então, sobre este livro? Que surpreende, que vicia, que fascina tanto pelo que tem de negro como pelos inesperados raios de humanidade. Que vale a pena, da primeira à última página. E que promete ainda mais e melhor para a conclusão de uma trilogia até agora fascinante. Intenso, sombrio e surpreendente, não posso deixar de recomendar este Rei dos Espinhos.

Título: Rei dos Espinhos
Autor: Mark Lawrence
Origem: Recebido para crítica

Vencedor do passatempo A História Secreta de Twin Peaks

E chegámos ao fim de mais um passatempo. Agora, falta saber quem é o sortudo que vai receber um exemplar do livro A História Secreta de Twin Peaks.

E o vencedor é...

35. Rita Lopes (Frazão)

Parabéns e boas leituras!