sexta-feira, 26 de maio de 2017

Damião, a Toupeira Furacão (Anna Llenas)

O Damião é uma toupeira com energia para dar e vender - tanta que, às vezes, os professores e os colegas não sabem bem como lidar com ele e acabam por o deixar de parte. De tantas coisas que dizem sobre ele, o Damião já não sabe muito bem o que pensar e isso entristece-o. A energia, essa, é algo que não consegue controlar. Ou será que não é bem assim? A verdade é que o Damião só precisa de um empurrãozinho para descobrir a melhor forma de aplicar a sua inesgotável energia. E, quando isso acontecer, tudo pode ficar diferente.
Muito simples, cheio de cor, com uma história cativante e uma mensagem muito positiva, este é um livro cheio de qualidades e um bom ponto de partida para ensinar a diferença aos mais novos. Diferença que pode assumir muitas formas, mas que, quando se é criança, se vê até nas mais pequenas coisas. A história do Damião, com toda a sua energia transbordante, é apenas um exemplo disso: uma figura cheia de entusiasmo, mas que, em vez de o aplicar em algo que o apaixone, se vê isolado pelos rótulos que lhe atribuem. E, no fundo, é esta a mensagem que torna memorável este pequeno grande livro: diferenças à parte, cada ser é maravilhoso tal como é. 
Mas, se é a mensagem que faz com que este livro fique na memória, também em tudo o resto há muito de bom para descobrir. Na história, que é muito simples, mas muito cativante na forma como acompanha o irrequieto Damião. Na escrita, que, cingindo-se ao essencial, deixa que os acontecimentos falem por si. E na imagem, que se ajusta perfeitamente à história, unindo-se-lhe num equilíbrio muito, muito cativante. 
Todas estas facetas se conjugam num equilíbrio delicado, em que todos os aspectos são igualmente importantes e em que tudo converge para dar à história - e à sua mensagem - a mais forte expressão possível. E, se é esse o objectivo, então a missão cumpre-se em pleno, pois as ideias não podiam ser mais claras e a forma como ganham vida na história dificilmente poderia cativar mais. O que me leva a um ponto que nunca deixa de ser importante referir: como já devem ter reparado, não faço propriamente parte do público a que este livro se destina, mas isso não me impediu de apreciar plenamente a sua leitura.
Bonito, envolvente e muito bem construído, trata-se, portanto, de um livro pensado para os mais novos, mas capaz de cativar leitores de todas as idades. E, com a sua história terna e a mensagem memorável, fica uma certeza depois desta breve leitura: vale muito a pena conhecer o Damião.

Título: Damião, a Toupeira Furacão
Autora: Anna Llenas
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Porto Editora

Henry Page não esperava apaixonar-se. Considera-se um romântico, mas nunca viveu aquele momento em que o tempo para, a barriga se enche de borboletas e a música começa a tocar, sabe-se lá onde. Pelo menos, até ao momento.
Então, conhece Grace Town, a esquiva nova colega de escola, que se veste com roupa de rapaz demasiado grande, apoia-se numa bengala, parece tomar banho poucas vezes e esconde segredos desconcertantes. Não é bem a rapariga de sonho que Henry esperava, mas quando os dois são escolhidos para coordenar o jornal da escola, a química acontece. Depois de tantos anos a salvo do amor, Henry está prestes a descobrir como a vida pode seguir um caminho tortuoso e como, por vezes, os desvios são a parte mais interessante desse mesmo caminho.
Uma estreia brilhante que equilibra humor e corações partidos, lembrando-nos de como o primeiro amor pode ser agridoce.

Krystal Sutherland nasceu em Townsville, Austrália, um lugar que não conhece o inverno. Já adulta, passou por Sydney onde coordenou a revista da universidade que frequentava; por Amesterdão, onde trabalhou como correspondente de um jornal; e Hong Kong. Krystal estagiou na Bloomsbury Publishing e foi nomeada para o Queensland Young Writers Award. Não tem animais de estimação, nem filhos, mas adora dar nomes a objectos inanimados: por exemplo, teve uma bicicleta holandesa chamada Kim Kardashian e um dinossauro pequeno e insuflável chamado Herbert. A química dos nossos corações é o seu primeiro romance.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

E Ficou a Terra (Carla Ramalho)

Filha do senhor da terra, Verónica conhece aquele que virá a ser o seu homem num bar e, em menos de nada, dá por si casada, fruto de terem sido apanhados em flagrante no mais delicado dos momentos. A união, ainda assim, não desagrada a nenhum deles e a relação parece fluir com naturalidade. Mas o marido de Verónica guarda grandes segredos e os tempos que se vivem são de revolução. E as escolhas, os actos e os planos traçados na noite terão duras consequências para a vida que ela sempre conheceu.
Narrada pela voz dos protagonistas e centrada essencialmente nos acontecimentos e percepções de ambos, este é um livro que surpreende, em primeiro lugar, pelo registo que adopta, pois, sendo, no fundo, a história de um casal, o romance é, talvez, o mais secundário de todos os elementos que a constituem. Sim, há o encontro, a descoberta, o casamento e a vida depois dele. Mas tudo parece convergir para a revolução em curso, para os planos e para as mudanças e a nova ordem que se instala. E assim, apesar da proximidade das personagens, o enredo acaba por se distanciar um pouco da faceta emocional - realçando antes as diferenças entre os dois mundos em colisão.
Trata-se de um livro relativamente breve e, apesar disso, com um ritmo relativamente pausado. Isto porque, tanto como as experiências e pensamentos dos protagonistas, importa o contexto mais vasto em que estes se movem. As visões diferentes de Verónica e do marido, a forma como entendem a revolução em curso, as ideias que têm a contrapor às dos latifundiários... tudo isto leva o seu tempo a ponderar e, assim sendo, o ritmo da leitura acaba por ser um pouco mais lento. Mas não menos envolvente, já que de tudo isto se retira muito de interessante, não só no que diz respeito ao contexto histórico, mas principalmente na forma como estas percepções moldam a evolução dos próprios protagonistas.
O que me leva ao fim da história, que culmina no que parece ser um ponto de viragem, mas que deixa em aberto várias possibilidades. Deixando alguma curiosidade insatisfeita, mas também a sensação de ser o ponto certo para encerrar a narrativa. De Verónica e do marido, ficam alguns segredos por revelar - não só ao leitor, mas principalmente um ao outro. Mas fica, principalmente, a ideia de um futuro novo, o que, tendo em conta o clima de mudança em que toda a história parece assentar, dificilmente podia ser mais adequado.
A impressão que fica é, em suma, a de uma história simples e cativante, com um olhar bastante preciso sobre as mudanças trazidas pela revolução e uma forma bastante interessante de salientar o choque de mentalidades em tempos de mudança total. Uma boa leitura, portanto. Gostei.

Título: E Ficou a Terra
Autora: Carla Ramalho
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Desaparecida (Elizabeth Adler)

Atingida por uma garrafa de champanhe, uma mulher ruiva cai de um iate e desaparece nas águas do Egeu, no que parece ser um crime sem testemunhas. Mas não, pois, em terra, um pintor assiste à queda e tenta salvá-la. Não a consegue encontrar, é certo, mas Marco está bem ciente do que viu e não está disposto a desistir de tentar ajudá-la da maneira que puder. Principalmente quando as pistas parecem vir ao seu encontro, na forma de um misterioso multimilionário que quer que Marco pinte o seu retrato. Marco vê-se assim dividido entre a sua busca pela verdade e um trabalho que lhe pode trazer grandes vantagens. E, à medida que as ligações começam a tornar-se evidentes, também as suspeitas crescem no seu pensamento.
Com um crime como ponto de partida e vários perigos à espreita a cada momento, este é um livro que cativa, em primeiro lugar, pelo potencial da história. Primeiro, é claro, pelas circunstâncias de Angie, a rapariga que cai ao mar, e a partir daí, pela forma como planos, buscas e revelações se entrelaçam de uma forma nem sempre expectável. Além disso, dadas as circunstâncias de Angie e os planos de Ahmet há uma constante sensação de algo perigoso prestes a acontecer, o que mantém sempre acesa a curiosidade em saber o que se segue.
Também nas personagens há bastantes pontos de interesse. Angie, vulnerável, mas com uma capacidade de persistir bastante forte, o que torna todos os seus momentos bastante intensos. Ahmet e Mehitabel, em aparência completamente opostos, mas com um fundo comum e uma natureza igualmente capaz de os tornar odiosos e intrigantes. E depois Marco, Martha e Lucy, divididos entre os projectos das suas vidas e o mistério em que entraram sem saber bem como. Todos protagonizam bons momentos. Todos despertam curiosidade. E, nos momentos certos, todos têm um impacto no rumo da narrativa.
Nem sempre é fácil acompanhar o rumo da história, já que a linha temporal dos acontecimentos nem sempre é clara. Além disso, a posição das personagens perante as várias partes do mistério acaba por ser, por vezes, um pouco contraditória, perdendo-se nas suas diferentes componentes - o trabalho para Ahmet, a rapariga desaparecida, os avanços e recuos nos planos e viagens das personagens. Ora, isto torna o enredo um pouco disperso e confuso, o que, não lhe retirando por completo a envolvência, o torna um pouco mais difícil de seguir.
A ideia que fica é, portanto, a de uma história um pouco confusa, mas que, apesar do ritmo ligeiramente errático, consegue cativar pelo lado misterioso da história e das personagens. E isso basta para fazer deste Desaparecida uma leitura agradável e cativante. 

Título: Desaparecida
Autora: Elizabeth Adler
Origem: Recebido para crítica

Passatempo A História Secreta de Twin Peaks

A propósito da estreia da série Twin Peaks, o blogue As Leituras do Corvo, em parceria com a Suma de Letras, tem para oferecer um exemplar do livro A História Secreta de Twin Peaks, de Mark Frost. Para participar basta responder à seguinte questão:

1. Em que dia estreia a nova temporada de Twin Peaks?

Regras do Passatempo:
- O passatempo decorrerá até às 23:59 do dia 31 de Maio. Respostas posteriores não serão consideradas.
- Para participar deverão enviar as respostas para carianmoonlight@gmail.com, juntamente com os dados pessoais (nome e morada);
- O vencedor será sorteado aleatoriamente entre as participações válidas;
- Os vencedores serão contactados por e-mail e o resultado será anunciado no blogue;
- O blogue não se responsabiliza pelo possível extravio do livro nos correios;
- Só se aceitarão participações de residentes em Portugal e apenas uma por participante e residência.

terça-feira, 23 de maio de 2017

O Rio das Pérolas (Isabel Valadão)

Abandonada à porta de uma igreja numa noite de tempestade, a vida de Mei Lin podia ter acabado logo nos seus primeiros dias. Mas quis a sorte que fosse encontrada e que o padre da paróquia a tomasse como protegida. E assim, Mei Lin, ou Maria, vive uma infância normal num colégio de freiras - até ao dia em que, abalada pelo plano que a madre superiora tem para si, decide fugir. Começa assim um longo e penoso trajecto pelos recantos mais negros de Macau: primeiro, numa casa de ópio, depois na prostituição. E, quando finalmente parece encontrar uma vida estável, o passado insiste em vir atrás de si. Manuel ama-a - mas a família dele não parece muito disposta a aceitá-la. E, mesmo que o faça, Mei Lin estabeleceu ligações perigosas. Ligações essas que podem muito bem assombrar-lhe a vida familiar.
Um dos aspectos mais cativantes neste livro e também o que torna a história tão fácil de imaginar é a forma como a autora descreve a vida e o modo de estar das gentes de Macau, não só nas rotinas quotidianas, mas também no que diz respeito à mentalidade. E isso é interessante não só pelo retrato bastante completo que traça do cenário, mas também pela evolução que é possível sentir ao longo do tempo - as mudanças políticas e os pontos de viragem históricos podem ter uma presença discreta na narrativa, mas não deixam de ser relevantes. Além disso, este desenvolvimento do contexto permite entender melhor as circunstâncias das diferentes personagens - e, em particular, as de Mei Lin.
Também muito interessante é que, apesar de bastante completo na caracterização do cenário, o ritmo da narrativa nunca se torna demasiado lento e muito menos maçador. Talvez porque há sempre algo de relevante a acontecer na vida das várias personagens, ou talvez pela forma gradual como os elementos descritivos vão sendo apresentados, o texto flui com toda a naturalidade, proporcionando uma leitura sempre cativante e em que nunca se esbate a curiosidade de saber o que se segue. Claro que para isso contribui também a fluidez da escrita, bem como as personagens em si, que, muito diferentes, mas todas muito misteriosas, mantêm sempre acesa a curiosidade.
E, ainda que Mei Lin seja o centro da narrativa, há muito mais na história para além dela. Sim, é certo que é ela a protagonizar alguns dos momentos mais impressionantes e todas as relações parecem convergir para ela, mas há também muito a descobrir nos que a rodeiam, seja no mistério da origem de Luísa ou nas movimentações das Tríades e da sua enigmática líder. E a forma como tudo se conjuga, numa história repleta de revelações - e também de mistérios que se prolongam para lá do enredo - torna tudo mais intrigante e mais intenso. Mesmo no que é deixado por dizer, já que, apesar da grande pergunta que fica sem resposta, a conclusão parece dar-se precisamente no ponto certo.
Cativante, surpreendente e equilibrado, este é, pois, um livro que surpreende em muitos aspectos, desde a força das personagens à fluidez com que o cenário se funde na narração das suas histórias. E é esse equilíbrio delicado, com a aura de mistério que sempre o parece envolver, que torna toda a leitura memorável - e faz com que este livro seja tão bom. 

Título: O Rio das Pérolas
Autora: Isabel Valadão
Origem: Recebido para crítica

domingo, 21 de maio de 2017

Desaparecidos (Caroline Eriksson)

Greta saiu com o marido e a filha para um passeio no lago e, enquanto ela ficava no barco, Alex e Smilla foram explorar a ilha. Mas o tempo passou e eles não voltaram. Agora, sozinha no barco, Greta sabe que tem de os procurar, ainda que um pressentimento lhe diga que eles não vão voltar tão cedo. Procura por toda a ilha, volta a casa para ver se estão lá, mas não encontra ninguém. A única solução é ir à polícia e comunicar o desaparecimento, mas, quando o faz, a resposta que obtém é surpreendente: Greta não é casada nem tem filhos. O que tem são muitos segredos e um passado capaz de lhe toldar o pensamento. E a verdade, essa, pode trazer consequências terríveis.
Narrado essencialmente pela voz da protagonista e com um enredo onde nada (nem ninguém) é o que parece, este é um livro que tem como ponto forte a capacidade de manipular a percepção do leitor. Greta está muito longe de ser uma narradora fiável e a forma como conta a sua história, mudando-a segundo as percepções que tem a cada momento, faz com que tudo na narrativa seja uma grande incógnita, desde quem são realmente os desaparecidos ao verdadeiro papel de Greta em toda a situação. Ora, isto confere ao enredo uma muito intrigante aura de mistério, que cresce em intensidade à medida que a verdadeira complexidade do estado mental de Greta se vai revelando e que, de suspeita em suspeita e de possibilidade em possibilidade, prende desde muito cedo e não larga até ao fim. 
Se o grande ponto forte é o percurso, o ponto fraco é provavelmente a conclusão, já que, tendo em conta a teia traçada pelos pensamentos e percepções de Greta, a fase final acaba por ser um pouco abrupta. E, ainda que a resolução faça sentido e que o que fica em aberto aponte para as possibilidades certas, fica a sensação de que mais haveria a explorar sobre a tal componente psicológica que tão impressionante foi ao longo do caminho - até porque, para além de Greta, há algumas figuras secundárias bastante relevantes para o enredo, e das quais teria sido interessante saber mais.
Há, ainda assim, outro aspecto que importa destacar: a construção das personagens. Ainda que o que fica por dizer deixe a impressão de que haveria ainda mais a desenvolver (principalmente no que a Alex diz respeito), há algo de impressionante na forma como a autora tece a teia das relações entre os vários intervenientes, realçando-lhes as vulnerabilidades que tornam tolerável o inadmissível. Há na história de Greta e de Alex uma grande e relevante questão a ponderar sobre as relações de poder e as consequências da submissão. E é essa faceta do enredo o que realmente marca nesta história.
Intenso, intrigante e misterioso, trata-se, pois, de um livro que cativa desde muito cedo. E que, apesar de um final que sabe a pouco, consegue, com as suas muitas revelações, ficar na memória de uma forma inesperada. Basta isso para fazer desta história uma leitura interessante. Basta isso para que a leitura valha a pena. 

Título: Desaparecidos
Autora: Caroline Eriksson
Origem: Recebido para crítica

sábado, 20 de maio de 2017

O Escultor (Carina Rosa)

Mariana e Alice partilham a mesma casa. E, apesar de dificilmente poderem ser mais diferentes, une-as uma amizade sólida e capaz de sobreviver até à mais tensa das discussões. Mariana é uma galerista de sucesso e vive a vida da forma mais recta e responsável que consegue imaginar. Alice, por seu lado, tem um espírito indomável e a única coisa que a assusta são os compromissos. Mas o modo de vida de ambas está prestes a ser abalado. Tudo começa com uma série de bilhetes anónimos do que parece ser um admirador obcecado por Mariana. Mas as coisas revelam-se bem mais sérias a partir do dia em que Alice desaparece misteriosamente. É óbvio que as coisas estão relacionadas e, se Mariana quer a amiga de volta, precisa da ajuda de quem sabe. O que não espera é que o seu único aliado - um inspector tão soturno e altivo como ela própria - lhe mexa tão profundamente com as emoções.
Parte policial, parte romance, este é um livro que tem como grande ponto forte o equilíbrio entre o mistério e a emoção. O mistério, de múltiplas formas: os bilhetes misteriosos, os crimes do passado, o que fez do Escultor aquilo que é. E a emoção nos altos e baixos da amizade, depois no medo e nas reacções face ao perigo e ainda no romance que começa a despontar. E é curioso que estas duas partes se complementam lindamente, criando momentos de grande tensão, mas também de uma leveza refrescante. Tudo nos momentos certos.
Outro grande ponto forte diz respeito às personagens que, por vezes contraditórias, conseguem despertar emoções bastante fortes. Curiosamente é o vilão que se destaca, pois a construção daquilo que o move - e do que faz, convém não esquecer essa parte - é algo de muito perturbador. Mas também Mariana, Alice, André e mais uma ou outra figura secundária pelo caminho têm as suas qualidades. E, principalmente, defeitos, pois se há algo que desde muito cedo se torna óbvio é que não há personagens perfeitas neste livro: são humanas e isso significa que podem ser fortes, mas que também têm as suas vulnerabilidades.
Perde-se talvez um bocadinho do impacto, em termos de mistério, pelo facto de ser bastante fácil adivinhar a identidade do Escultor - até porque há um acontecimento importante que aponta muito claramente para a resposta. Ainda assim, e apesar de essa parte ser um bocadinho previsível, não deixa de ser interessante ver de que forma evoluem os acontecimentos, seja pelas dúvidas que continuam na cabeça dos protagonistas, seja porque, mesmo conhecida a identidade, continua a ser preciso lidar com a situação. E assim, perde-se um pouco do mistério, mas não se perde nada da intensidade. E depois há o fim, que, ao estender-se para lá da resolução do mistério, deixa antever um pouco do que vem depois da experiência difícil dos protagonistas, acrescentando um laivo de esperança a um percurso com vários momentos sombrios.
Tudo somado, fica a imagem de um livro intenso e envolvente, com várias personagens fortes e um enredo que, mesmo nem sempre surpreendendo, nunca deixa de cativar. Uma boa história, portanto, e uma boa leitura.

Título: O Escultor
Autora: Carina Rosa
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Batalha entre Sistemas - O Começo de uma Era (J. A. Alves)

Tudo começou com a descoberta de um portal na zona mais escura do universo. Aí, o ambicioso líder do sistema cloudeano julgou poder encontrar demónios para submeter à sua vontade - para se ver ele mesmo subjugado. Agora, Cloud transformou-se num império dominado pela vontade do Sem Corpo, a entidade demoníaca que tomou posse do líder cloudeano e se fez imperador. E a ambição de Sisterool é ilimitada. Não descansará enquanto não alcançar todo o poder que deseja e sabe que a chave para o fazer está no sistema vizinho, governado por uma casta que, praticante de uma arte esquecida, domina um poder perto do inimaginável. Encarnado tem de cair para que Sisterool possa alcançar o que ambiciona. Mas o monge rei e os fiéis da Disciplina sabem da escuridão que se aproxima...
Extenso, complexo, e com um mundo tão vasto como o potencial das personagens que o povoam, este é um livro cheio de possibilidades - e com um problema que é difícil de ignorar. E é precisamente por aí que começo, uma vez que, independentemente dos pontos fortes que tem, este é um factor presente ao longo de todo o enredo. Refiro-me à escrita, que, bastante errática, com muitas gralhas e bastante estranha na construção das frases, confere a toda a narrativa um ritmo bastante entrecortado, problema que facilmente se resolveria com um bom trabalho de revisão. E é uma pena, porque, independentemente dos erros evidentes e de tudo o que parece estranho na forma de contar a história, há um mundo cheio de potencial neste livro e um enredo que, mesmo com tudo isto, não deixa de despertar curiosidade.
O que me leva às qualidades. E há-as, no mundo, nas personagens e no desenrolar dos acontecimentos. No mundo, porque há um potencial vastíssimo na construção dos vários sistemas e na teia de relações que entre eles se estabelecem, bem como nos vários regimes, sistemas de crenças e entidades mais ou menos sobrenaturais que intervêm no enredo. Nas personagens, porque, ao percorrer um longo período de tempo, o autor permite conhecê-las a fundo, vê-las crescer, conhecer-se as vulnerabilidades e o potencial que escondem dentro de si. E no enredo, porque há muito de interessante a acontecer, várias revelações surpreendentes e todo um conjunto de momentos marcantes e intensos ao longo do caminho.
Há também um curioso equilíbrio entre a evolução narrada neste livro e as possibilidades que ficam ainda por explorar. É como se este primeiro livro fosse uma fase de uma história mais vasta, com um enredo central que alcança a sua devida conclusão, mas em que há também um grande futuro pela frente. Não fica, por isso, aquela sensação de curiosidade insatisfeita, mas antes a impressão de ter acompanhado o decorrer de uma era - à qual se seguirá inevitavelmente algo de novo.
E assim, a impressão que fica é a de um livro muito interessante, que, infelizmente, perde parte da envolvência pela forma como está escrito. Ainda assim, fica o potencial da história e a força das personagens a despertar curiosidade para o que se poderá seguir a esta estreia que, muito longe de ser perfeita, acaba, ainda assim, por ficar na memória.

Título: Batalha entre Sistemas - O Começo de uma Era
Autor: J. A. Alves
Origem: Recebido para crítica

Vencedor do passatempo Amor às Claras

E chegou ao fim outro passatempo. Agora, é tempo de anunciar quem vai receber um exemplar do livro Amor às Claras.

E o vencedor é...

10. André Silva (Paredes)

Parabéns e boas leituras!

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Os Livros do Rei (David Machado e Gonçalo Viana)

A terra tremeu, a cidade desmoronou e, após a morte do pai, eis que um rei muito jovem sobe ao trono. Agora, é preciso reconstruir o reino e a melhor inspiração a que o novo rei pode recorrer é a dos muitos livros que leu. Assim, com toda a imaginação do mundo ao seu dispor, dá ordens à medida dos seus sonhos para uma cidade como a antiga, mas melhor. Mas, ainda que os sonhos não tenham limites, é preciso conciliar o ideal com o possível, de modo a fazer do sonho realidade.
Muito breve, muito simples... e, contudo, estranhamente delicioso... este é o tipo de livro infantil que tanto faz as delícias de crianças como de adultos? Porquê? A resposta é também muito simples. A história, simples, mas muito criativa, é todo um convite à imaginação das crianças. E a mensagem - a tal que equilibra sonho e realidade - é também uma boa lembrança para os adultos de que nem tudo é possível, mas isso não é desculpa para deixar de sonhar.
Sendo um livro pequeno e escrito numa linguagem bastante acessível (mas não, note-se, demasiado simplista) pode ser também um belo incentivo à descoberta da leitura desde muito cedo. Aliás, além de ser uma leitura cativante, o incentivo à leitura vai um pouco mais longe, pois é a relação do novo rei com o que descobriu nos livros que move o percurso de toda a história. E que melhor forma para salientar a imensidão de mundos que se esconde já ao virar da página? Nem é preciso dizer muito sobre o assunto - basta a ideia de uma reconstrução melhor segundo os livros. Reconstrução que assenta tanto na imaginação, como na percepção de que também há um lado nas histórias que é simplesmente imaginário e irrealizável - e que não há mal nenhum nisso.
E depois há o aspecto visual, sempre relevante neste género de livros e que, neste caso em concreto, parece ajustar-se na perfeição à história que tem para contar. Cheias de cor e adaptando-se perfeitamente à história, mas indo um pouco mais além ao conferir-lhe um aspecto inesperado e original, as ilustrações são o complemento perfeito a uma história que é, por si só, uma doçura. 
Tudo somado, fica a ideia de uma história simples, mas criativa, direccionada a um público mais jovem, mas igualmente capaz de encantar quem há muito deixou a infância para trás. Breve, mas cheia de beleza em cada pequeno pormenor, uma bela história sobre o valor da imaginação. Recomendo.

Título: Os Livros do Rei
Autores: David Machado e Gonçalo Viana
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Convite


terça-feira, 16 de maio de 2017

Primeiro as Senhoras (Mário Zambujal)

Consta que Edgar esteve nove dias sequestrado, enquanto os raptores pediam um resgate ao seu possível futuro sogro. Ou, pelo menos, é essa a versão oficial dos factos e a história que ele está ali para contar ao inspector da Polícia Judiciária que, num silêncio terminante, ouve as suas declarações. Ora, Edgar é um tipo simpático, com muitas histórias bizarras para contar e uns quantos casos de saias no passado. Mas rapto? Porquê? Há qualquer coisa que não parece bater muito certo. E, à medida que conta a sua história ao inspector, há pistas que começam a insinuar-se por entre as caricatas desventuras do seu passado. E o mistério do rapto... (alegado rapto, digamos)... pode muito bem ter uma resolução inesperada.
Menos de cento e cinquenta páginas, uma história bastante breve e tão simples como o relato do protagonista que dela faz... e, porém, cheia de surpresas do início ao fim. Poder-se-ia descrever assim, desta forma muito breve, este Primeiro as Senhoras, história de um "bom malandro" em circunstâncias difíceis e de todas as desventuras que o levaram ao ponto onde está. E é precisamente este ponto o primeiro a despertar a atenção. Partindo do depoimento da vítima de um alegado rapto, a história desperta, em poucas frases, uma curiosidade irresistível. Porque é que Edgar foi raptado? Por quem? Como é que voltou? E, se basta isto para querer saber o que acontece a seguir, a forma como este enredo se vai desenrolando (com novas versões, reminiscências passadas e outras peripécias mais ou menos relacionadas com os acontecimentos) cria um conjunto mais abrangente de aventuras (e desventuras) em que tudo é cativante. Ah, e divertido. Muito divertido.
Também cativante e divertida (sim, estas palavras poderiam muito bem definir todo o  livro) é a forma como o protagonista narra as suas aventuras. Dirigindo-se ao inspector enquanto declarante, parece adoptar a postura de alguém com muitas histórias para contar, como se, contando-as, pudesse lançar uma nova perspectiva sobre a sua situação e, ao mesmo tempo, estabelecer algum tipo de estranha amizade. Ora, isto torna-se particularmente curioso porque não há, efectivamente, uma única palavra do inspector, o que deixa ao  leitor o papel de imaginar as reacções do outro lado. E, sendo Edgar o protagonista de tantas e tão curiosas peripécias, é fácil imaginar a posição do inspector perante tudo aquilo. E o que lhe poderá estar a passar pela cabeça.
Mas voltando ao mistério... bem, chegados a certo ponto da história, há respostas que não são difíceis de adivinhar. Mas o curioso é que nada se perde com isso, em termos de envolvência do enredo. Primeiro, porque a forma como Edgar faz as suas revelações deixa sempre pequenas perguntas e possibilidades em aberto, o que mantém acesa a vontade de saber mais. E segundo, porque essas respostas são tão inesperadas e invulgares que, mesmo quando tudo se torna claro, fica a inevitável surpresa no ar, como que em jeito de resposta a toda a situação: mas como é que é possível?
Cativante e divertido, portanto. Como disse, são palavras que podem muito bem definir todo este livro, que é também, apesar da sua brevidade, uma aventura fascinante e cheia de surpresas. Breve, simples, mas simplesmente delicioso, um livro que não posso deixar de recomendar. 

Título: Primeiro as Senhoras
Autor: Mário Zambujal
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Presença

A RAPARIGA MAIS SORTUDA DO MUNDO
Jessica Knoll
Colecção: Grandes Narrativas n.º 662
Tema: Ficção e Literatura
Título Original: Luckiest Girl Alive
Tradução: Maria João Ferro
ISBN: 978-972-23-6026-5 
Páginas: 384

A vida perfeita de Ani é uma perfeita mentira... Ani FaNelli tem tudo: um emprego glamoroso, um invejável guarda-roupa, um noivo perfeito e muito rico. Mas Ani tem um segredo inquietante. Por trás desta fachada de sucesso, um doloroso acontecimento persegue-a desde a adolescência, quando ainda frequentava a prestigiada escola de Bradley, Pensilvânia: uma traumática humilhação pública com implicações que, se forem reveladas, poderão arruinar para sempre a vida que ela, com muito custo, teve de reinventar. Romper o silêncio sobre o passado irá desmoronar a sua vida ou libertá-la de vez?
Um thriller psicológico mordaz, intenso e cheio de mistérios que agarra os leitores até à última página e que explora temas como a identidade, a violência sexual, o amor e o que significa ser mulher. Uma leitura imperdível que não deixará ninguém indiferente.

Jessica Knoll foi editora da Cosmopolitan e chefe de redacção da revista Self. Cresceu nos subúrbios de Filadélfia e estudou na Shipley School, em Bryn Mawr, Pensilvânia, e nos Hobart e William Smith Colleges, em Geneva, estado de Nova Iorque. A Rapariga Mais Sortuda do Mundo é o seu primeiro romance, que obteve desde logo retumbante sucesso, tendo sido nomeado para o Prémio Edgar na categoria de Melhor Romance de Estreia e para o International Dublin Literary Award. Tem direitos de tradução licenciados para 35 países. A Lionsgate adquiriu os direitos para a adaptação cinematográfica. Vive com o marido na cidade de Nova Iorque. 

Para mais informações consulte o site da Editorial Presença aqui.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Grandes Discursos da História (Henrique Monteiro)

Da antiguidade até aos nossos tempos, e ao longo de muitos séculos de história, muitas foram as palavras que marcaram o rumo de uma era. Apelos à paz, à resistência, ao sacrifício, à igualdade. Cada um à sua maneira e no contexto do seu tempo, todos os discursos marcaram, de alguma forma, a época em que foram proferidos. E talvez o mundo não fosse o mesmo sem estas palavras. O que é certo é que, proferidas há poucos anos ou num passado distante, continuam a conter na sua essência uma mensagem relevante e intemporal.
Sendo tão vasta em grandes figuras (e em grandes palavras) a história universal, seria inevitável que fosse feita uma selecção - caso contrário, este livro seria muito maior. E, justificada, tanto quanto possível, pelo autor, esta escolha é um dos primeiros aspectos a destacar nesta leitura, pois, sendo relevantes algumas das questões que o próprio autor levanta (como, por exemplo, o grande domínio de figuras do ocidente), fica, ainda assim, a sensação de uma escolha equilibrada, no sentido em que percorre muitos dos momentos cruciais da história. Haveria outros discursos a merecer um lugar neste livro? É bem provável. Ainda assim, a imagem que fica do todo é a de um conjunto suficientemente completo.
Outro aspecto a destacar é a organização do livro, partindo dos mais antigos aos mais recentes e acrescentando-lhes uma breve nota biográfica e explicativa que permite enquadrar o discurso no contexto em que ele foi proferido. São notas muito breves e, dizendo respeito a grandes figuras históricas, é inevitável a sensação de que mais haveria a dizer - sobre o autor do discurso e sobre a história do seu tempo. Ainda assim, não é esse o objectivo e o que é dito basta para uma melhor compreensão dos discursos - eles, sim, a essência deste livro.
Quanto aos discursos em si, não há muito a dizer, pois as palavras valem-se a si mesmas. Realçar apenas uma imagem que fica depois de os ler a todos - a de que há questões que transcendem tempos e mentalidades e que, de tão fundamentais, mantêm toda a relevância por mais séculos que passem. Há pontos em comum em vários destes discursos - liberdade, paz, igualdade, coragem - e é também desses pontos que se faz a história e o futuro. Daí a pertinência destas palavras - porque as questões do passado são, no fundo, as mesmas do presente.
Tudo somado, a impressão que fica é, pois, a de um bom livro para conhecer a história através da voz das suas principais figuras. E a de uma leitura muito interessante para reflectir sobre em que bases assenta o mundo. 

Título: Grandes Discursos da História
Autor: Henrique Monteiro
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Nascente

Quando chegou a casa da família Watt, Gizelle não era mais que uma cachorrinha. Apesar de ter sido prenda de impulso de uma mãe com problemas de drogas e alcoolismo, haveria de se tornar a melhor amiga de uma vida.
Quando saiu de casa dos pais aos 19 anos para ir para a universidade, Lauren levou Gizelle consigo. Três anos volvidos, decidiu recomeçar a sua vida mudando-se para o centro de Manhattan e levou Gizelle, agora com 72,5 kg, consigo. Enquanto lidava com namorados, empregos, a doença da mãe, a distância da família, e todas as dificuldades de uma vida nova na grande cidade, Lauren teve sempre Gizelle ao seu lado.
E, assim, quando chegou a hora de acompanhar Gizelle na despedida deste mundo, após ter sido diagnosticada com um feroz cancro nos ossos, Lauren não faltou à sua fiel companheira, criando um plano para que esta pudesse viver num mês, a felicidade de uma vida inteira.
Esta é uma história única e uma homenagem aos animais que nos inspiram a viver melhor e a desfrutar dos pequenos prazeres da vida. Até Sempre, Gizelle é uma lição sobre abraçar a aventura, amarmos incondicionalmente e tornarmo-nos nas pessoas que queremos ser. Os direitos para adaptação ao cinema já foram comprados.

Lauren Fern Watt cresceu nos subúrbios de Nashville, Tennessee, viveu em Nova Iorque, estabeleceu-se em Los Angeles, mas considera-se uma cidadã do mundo. Adora viajar, viver aventuras e fazer listas. Corre maratonas, pratica snowboard, joga golfe, dança, tenta tirar boas fotografias e é péssima a usar o Twitter. A Gizelle era o amor da sua vida. Continua a adorar animais, nomeadamente a sua nova cadela adoptada, a Bette.

domingo, 14 de maio de 2017

The Watcher (Ross Armstrong)

Lily Gullick e o marido, Aiden, vivem num novo apartamento, parte de um projecto que tem estado a expulsar muitas pessoas das suas velhas casas. As pessoas dos prédios velhos não estão contentes com isso, mas não parece haver nada a fazer – as suas casas não tardarão a ser demolidas. Lily não se importa muito com isso, na verdade. Está ocupada a observar os vizinhos. Mas tem curiosidade, contudo, no que diz respeito à mulher que fala sobre o assunto nos jornais. E quando, após lhe ter feito uma visita nocturna, a mulher é encontrada morta, Lily começa a desconfiar. E a sua vigilância atenta aos vizinhos transforma-se numa obsessão – e na fonte de muitos sarilhos futuros.
Contada do ponto de vista de Lily no que parece ser uma série de diários dirigidos a alguém que lhe é próximo, esta é uma história que intriga desde o início e nunca deixa de surpreender até ao fim. Primeiro, há a estranhamente cativante relação com Aiden e os estranhos hábitos de Lily de observar os vizinhos como se de aves se tratasse. Depois, há a investigação de Lily sobre a mulher morta. E, daqui em diante, novas revelações surgem a cada novo capítulo, projectando os eventos anteriores a uma nova luz e também levantando questões sobre a veracidade da história que Lily conta. A soma de tudo isto é uma história cheia de surpresas, da primeira à última página.
Também muito intrigante é a forma como as suspeitas de Lily influenciam a percepção do leitor do que está a acontecer. As características que atribui a cada personagem tornam-nas mais ou menos suspeitas, ainda que não haja muitas a encaixar no estereótipo da boa pessoa. Excepto… uma, talvez. E isto é uma parte tão importante na fase inicial do enredo que quando a (primeira) grande revelação surge e tudo é questionado, tudo ganha uma nova perspectiva e é Lily quem ocupa o centro de todas as questões.
Há muitos elementos inesperados neste livro – bem, além do crime que é preciso resolver. O passado de Lily, Aiden, a pessoa misteriosa a quem ela escreve e também a forma como vê os potenciais suspeitos e cúmplices. E, da teia intrincada que une todas estas coisas, resulta uma leitura muito intensa e cativante. Lily pode nem sempre ser o tipo de personagem com quem se simpatiza – e, sim, às vezes parece confiar com demasiada facilidade – mas as circunstâncias em que parece meter-se sozinha nunca deixam de surpreender. E isto, conjugado com as medidas certas de tensão, mistério e perigo, resulta numa história bastante memorável.
É isto, portanto, que define este livro: uma leitura intensa, intrigante e, no global, memorável, cheia de mistérios e cheia de surpresas do início ao fim. Muito bom.

Título: The Watcher
Autor: Ross Armstrong
Origem: Ganho num passatempo

sábado, 13 de maio de 2017

Outono (Ali Smith)

Daniel tem mais de cem anos e dorme numa cama de hospital à espera do fim. Elisabeth tem o futuro à sua frente, mas, num país abalado pelo resultado do referendo, sabe que esse futuro é incerto. E, porém, têm mais em comum do que parece. Têm as memórias partilhadas do tempo em que Daniel se tornou o vizinho do lado de Elisabeth e lhe revelou todos os mistérios da memória. A descoberta das histórias, da arte e da verdade que contém, do mundo visto pelos olhos da vida que passou e do tempo que resta. Outono, o outono da vida, paira sobre todos - sobre Daniel, mas também sobre Elisabeth. E, enquanto o fim se aproxima, como um sono tranquilo, as memórias vêm à tona, mais uma vez.
Não é propriamente fácil descrever este livro. Sem linha temporal definida, mas antes oscilando entre momentos e memórias, percorre o tempo como um entrelaçado de pontos onde se prende aquilo que é preciso recordar. A história constrói-se de episódios, de recordações, de sonhos, de tal modo que a realidade nem sempre é clara, tão reais parecem os sonhos que no meio dela se entrelaçam. E, contudo, a leitura é incrivelmente fácil, pois o tempo - no sentido de quando acontece aquele evento particular - não é assim tão importante. Importa a vida e o retrato que emerge de todos estes muitos pontos. E esse, a autora constrói-o com uma mestria impressionante.
A alma deste livro está na escrita. As personagens são fascinantes, tal como o é o contexto delicado em que se movem e as visões que transmitem sobre a vida e o que a compõe. Mas é a voz que a autora confere a tudo isto que torna tudo tão memorável. A descrição do Brexit em duas páginas, a longa e bizarra interacção de um encontro com a burocracia, o estranho afecto que nasce do simples acto de contar histórias... Há todo um conjunto de momentos que têm em si muito de marcante e a autora dá-lhes precisamente o tom certo. E é isto que faz com que o que, à primeira vista, poderia ser um conjunto de simples episódios na vida de algumas personagens se torna num todo mais vasto, mais completo, mais equilibrado.
Mas voltando às personagens: também em Daniel e Elisabeth, e na relação entre ambos, há algo de fascinante a acontecer. Figuras de tempos diferentes, têm, ainda assim, muito mais em comum do que à primeira vista seria de esperar. Os sonhos, as aspirações, as percepções da verdade. Têm também um afecto invulgar e estranhamente cativante, que os leva a moldar-se e a aprenderem um com o outro, a partilhar e a descobrir novas possibilidades. É isso também que os torna tão marcantes e tão interessante a forma como tudo termina: sem respostas definitivas, mas com tudo o que realmente importa.
Sempre envolvente e maravilhosamente escrito, trata-se, pois, de um livro memorável, em que o mundo e as memórias ganham vida através dos olhos de duas personagens tão complexas nos seus meandros interiores como cativantes desde a primeira impressão. Marcante, belo e fascinante, um livro que não posso deixar de recomendar. 

Título: Outono
Autora: Ali Smith
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 12 de maio de 2017

A Mulher do Plantador de Chá (Dinah Jefferies)

Recém-casada e movida pelos melhores dos sentimentos, Gwendolyn Hooper aceita deixar o seu país para se juntar ao marido do outro lado do mundo. Leva consigo sonhos de harmonia e o amor que a levou a tomar uma decisão tão drástica. Mas, ao chegar a Ceilão, descobre que nada é como esperava. A plantação de chá, além de exigir a Laurence todos os esforços, parece governar-se por regras dúbias e funcionários ressentidos. Laurence parece-lhe cada vez mais ausente e a irmã dele, demasiado apegada para o seu próprio bem, revela-se a cada dia mais instável. E tudo aponta para um segredo bem escondido no passado do marido - segredo esse que Gwen só começa a entender quando se vê ela própria na necessidade de esconder o seu. A harmonia inicial deu lugar à intriga e ao medo. E, quando a verdade vier ao de cima, será possível ignorar as consequências?
Uma das primeiras qualidades a chamar a atenção neste livro (que é todo ele cheio de qualidades) é a forma como a autora conjuga um contexto histórico delicado com o percurso pessoal das suas personagens, levantando questões pertinentes sobre o contexto em que vivem ao mesmo tempo que desenvolve um enredo que, ainda que influenciado por esse mesmo contexto, contém em si algo de intemporal. O contexto é relevante, sem dúvida, até porque há segredos relacionados com ele. Ainda assim, é fácil compreender as personagens, apesar da distância temporal, e isso torna tudo muito mais fascinante.
Outra grande qualidade é a capacidade de gerar emoção, não apenas nos momentos mais dramáticos, mas também nas pequenas coisas que, aos poucos, vão contribuindo para revelar a verdadeira complexidade do enredo. Há mais que um segredo a desvendar, muitas intenções escondidas a entender, figuras que estão longe de ser o que parecem. E cada nova revelação desvenda novas possibilidades, despertando assim novas dúvidas no espírito das personagens, novas formas de reagir, o que faz com que cada momento acabe por marcar de modo diferente. 
Claro que para isto contribui também a construção das personagens e, em particular, a capacidade que a autora lhes confere de despertar sentimentos fortes. Gwen, em particular, no seu abandono de tudo o que conhecia para começar uma nova vida do outro lado do mundo, cativa, desde logo, pela vulnerabilidade, o que cria desde muito cedo uma certa solidariedade para com as suas circunstâncias. E, à medida que os acontecimentos se sucedem e novas revelações têm lugar, essa empatia transforma-se em algo de mais vasto, que tanto permite reconhecer o impacto das decisões erradas como as razões que as poderão ter motivado.
E há ainda a escrita, envolvente, evocativa, transmitindo na perfeição a beleza dos cenários, a intensidade das emoções, o contraste entre modos de vida e os dilemas interiores das personagens. É uma voz que se ajusta na perfeição ao enredo, que lhe dá vida, que o torna marcante e memorável. E é ela, no fim de tudo, que une todas as muitas componentes deste livro onde tudo parece fascinar.
Dificilmente se poderia pedir mais a este livro. Intenso, emotivo, intrigante. Complexo, quer no contexto, quer nas personagens, quer ainda na intriga em cujos fios estas parecem mover-se. E tão surpreendente nas revelações dramáticas como nas pequenas coisas. Que mais dizer desta pequena maravilha? Que vale muito a pena. Mesmo, mesmo muito. Maravilhoso. 

Título: A Mulher do Plantador de Chá
Autora: Dinah Jefferies
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidades Topseller

Siglufjördur é uma pacata terra de pescadores, perdida no norte da Islândia, onde todos se conhecem e nem é preciso trancar as portas. Ari Thór Arason, um jovem polícia em início de carreira, é obrigado a deixar a sua vida em Reiquiavique e a mudar‑se para essa terra inóspita, onde nada parece acontecer.
Inesperadamente, dois eventos que não parecem ter qualquer ligação entre si perturbam a paz da vila. Uma jovem é encontrada semidespida na neve, ferida e inconsciente, e um velho e acarinhado escritor sofre uma queda mortal. Estes acontecimentos abrem caminho a uma investigação liderada por Ari.
As incessantes tempestades de neve, e a brutal avalanche posterior, acabam por isolar a vila e a investigação torna‑se cada vez mais complexa, arrepiante e… pessoal. O polícia acaba traído por aqueles em quem confiou e, sobretudo, angustiado com o perigoso assassino que continua à solta. Quando o passado da vila é finalmente desenterrado, nada fica como antes nas vidas de Ari e dos habitantes de Siglufjördur.

«Toda a minha vida era medida em Verões. Como se não começasse efectivamente a viver enquanto não chegasse Junho, até estar naquela praia, naquela casa.»
Tudo o que é bom e mágico acontece durante o verão, e é a sonhar com o verão que Belly, de 16 anos, passa os seus dias. Para ela, os Invernos são insuportáveis e sinónimo de estar longe de Jeremiah e de Conrad, os rapazes que Belly conhece desde a sua primeira estadia na casa de praia. Eles são os seus quase-irmãos, os seus inseparáveis parceiros de aventuras.
Até que chega aquele verão — maravilhoso e ao mesmo tempo terrível — em que tudo muda. Estas poderão ser as últimas férias que passam todos juntos na casa de praia. Chegou o momento de perpetuar memórias, confessar paixões escondidas e, acima de tudo, é hora de, finalmente, Belly começar a obedecer ao seu coração.
Um romance com sabor a mar e a liberdade, sobre crescer e apaixonar-se, deixando-nos a desejar por mais.

O que te resta quando o homem dos teus sonhos te magoa?
Lily tem 25 anos. Acaba de se mudar para Boston, pronta para começar um nova vida e encontrar finalmente a felicidade. No terraço de um edifício, onde se refugia para pensar, conhece o homem dos seus sonhos: Ryle. Um neurocirurgião. Bonito. Inteligente. Perfeito. Todas as peças começam a encaixar-se.
Mas Ryle tem um segredo. Um passado que não conta a ninguém, nem mesmo a Lily. Existe dentro dele um turbilhão que faz Lily recordar-se do seu pai e das coisas que este fazia à sua mãe, mascaradas de amor, e sucedidas por pedidos de desculpa.
Será Lily capaz de perceber os sinais antes que seja demasiado tarde? Terá força para interromper o ciclo?

Qual será o preço da fama?
A luta de uma mãe que tudo fará para que não corrompam os seus filhos.
Pois todos desejam a fama. Poucos conhecem as suas vítimas.
Abandonada pelo marido, Faye vive momentos de desespero enquanto tenta criar os três filhos, sozinha e sem nenhuma fonte de rendimento. Até que, um dia, a sorte lhe bate à porta. A filha Molly, de 4 anos, torna--se um sucesso na Internet e é-lhe feita uma proposta milionária para entrar numa série de televisão. Inocentemente, Faye aceita a bênção caída do céu.
A série é um sucesso e, de repente, Faye e a família são atiradas para a ribalta, sob o escrutínio de milhões de espectadores. E agora que a filha mais nova é uma estrela da televisão, Faye é obrigada a enfrentar o preço da fama. Para lá dos sorrisos enganadores de Hollywood, esconde-se todo um manto de interesses, vícios e assédio sexual que deixaria qualquer mãe atemorizada. E, para horror de Faye, os seus filhos pertencem agora a esse mundo.
Seguindo o seu instinto, ela tenta proteger a família das atenções negativas, mas os seus esforços caem por terra quando o marido regressa, exigindo o dinheiro que acha que é seu por direito.
À medida que os problemas surgem, Faye pergunta-se:​ ​terá ela tomado as decisões certas para salvar a sua família?

Lady Lucy Upton é conhecida pela sua beleza exótica, mas também pela língua afiada que afasta qualquer pretendente. Apesar do mau feitio, ela é a pessoa ideal para ajudar a tímida Cassandra a desencorajar a corte do Duque de Claringdon, que está à procura de esposa.
Com palavras ousadas e desafios impróprios de uma senhora, Lucy torna-se a sombra de Cassandra, falando no lugar dela na altura de repelir o duque. Contudo, o duque é mais obstinado do que elas imaginavam, deixando Lucy surpreendida por encontrar alguém capaz de responder às suas provocações.
O que Lucy não sabe é que o duque não desistirá de Cassandra. Ele é um homem de honra. E a verdade é que, antes de regressar da guerra, o seu amigo Julian, às portas da morte, o fizera prometer que casaria com a jovem. Apesar de não a amar, Cassandra seria a esposa perfeita? se Lucy não metesse constantemente o nariz onde não é chamada! O pior é que agora o duque não consegue ficar indiferente à atrevida mulher! Como cão e gato, os dois iniciam uma perigosa batalha de temperamentos.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Conheces Sancho? (Maria Helena Ventura)

Tornou-se rei muito jovem e isso, aliado à situação instável deixada pelo pai e aos conflitos de interesses dos nobres da sua cúria, fez com que cedo fosse questionado. E, porém, brando e tolerante, Sancho não deixaria de tentar governar com justiça. A história (contada pelos seus inimigos) guardá-lo-ia como um "rei inútil". O caminho, esse, seria bem diferente. E, traído por muitos, abandonado por quase todos, mas decidido a lutar até ao fim, o verdadeiro carácter de Sancho perduraria para além da morte no coração dos seus poucos fiéis. D. Sancho II, rei de Portugal. Esta é a sua história.
Partindo de um fim iminente e recuando depois ao passado para contar a história, este é um livro que cativa, em primeiro lugar, pela sensação de mistério e tragédia que cedo transmite a quem o começa a ler. Tragédia anunciada, claro, para quem conhece a história de Portugal, mas não menos marcante pelo desfecho já conhecido. E é, aliás, este impacto emocional, esta capacidade de despertar emoções no seio de uma tão densa teia de intrigas, que desde muito cedo cativa e não deixa de marcar até ao fim.
Centrado numa figura histórica e estando esta também no centro de um contexto difícil, quase tudo é complexo neste cenário. Desde as intrigas da cúria aos planos e conspirações tecidos na distância, passando pelos combates e determinações reais, as mudanças no âmbito das relações e ainda a tensão que parece unir todos os elementos, tudo parece suster-se num equilíbrio muito precário. E a forma como a autora retrata este equilíbrio, abordando com a mesma precisão as intrigas de corte, as grandes batalhas e os pequenos momentos privados, confere a tudo um impacto mais forte, dando mais vida até ao mais simples dos momentos.
Mas há ainda um outro aspecto particularmente marcante: a forma como, com tantas personagens, tantas forças em conflito, tantas idas e vindas através do tempo, a autora consegue abordar tudo isto e mais sem nunca perder de vista a construção de um grupo de personagens humanas e complexas. Sancho é a figura central, claro, e é ele, naturalmente, quem se destaca: falível, vulnerável, e contudo forte quando é preciso, cuidadosamente encaminhado para a tragédia, mas ainda assim decidido a persistir. É uma visão nova da personagem e um claro contraste com o retrato traçado pelos seus inimigos. E essa nova visão, mais forte, mais humana, mas empática, dá a todo o enredo uma nova alma - pois, mesmo sabendo de antemão como tudo acaba, é fácil sentir com o protagonista.
Complexo, mas sempre marcante e com um equilíbrio quase perfeito entre as várias facetas que o constituem, trata-se, pois, de um livro que cativa desde muito cedo e em que tudo converge para o tornar memorável. Reforçando desde muito cedo a ideia que fica bem depois de terminada esta leitura: vale muito a pena conhecer Sancho. 

Autora: Maria Helena Ventura
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 9 de maio de 2017

A Prova dos Anjos (Ptolemy Tompkins e Tyler Beddoes)

Enquanto polícia experiente, Tyler Beddoes teve de lidar com muitos casos difíceis e marcantes - mas nenhum tão surpreendente como o resgate da bebé Lily, que, após um acidente de viação em que a mãe teve morte imediata, ficou durante horas presa num carro em pleno rio. O caso em si tinha contornos milagrosos, mas o mais impressionante, pelo menos para os intervenientes na operação de salvamento, foi a voz que ouviram vinda do interior do carro - onde a única ocupante viva era precisamente Lily. E é este o ponto de partida para este livro em que, através de várias histórias e múltiplas referências, Ptolemy Tompkins traça uma ideia bastante ampla do conhecimento (e da crença) dos anjos no mundo real. 
Começando pelo ponto mais complexo deste livro: falar numa prova da existência dos anjos sugere à partida a promessa de factos incontestáveis. Ou não? O facto é que o autor parece ter um conhecimento bastante claro de que usar a palavra prova em contexto de espiritualidade não é assim tão fácil de justificar e que os cépticos dificilmente mudarão de ideias ante os factos que apresenta. Mas o mais interessante neste livro é que, mais do que afirmar convicções inabaláveis (ainda que elas estejam lá também), o autor traça um percurso de conhecimento que abarca crenças religiosas, mitologias, histórias e relatos de figuras vindas de vários contextos e, sim, também a sua convicção pessoal. E o resultado é um livro capaz de cativar tanto crentes como não crentes, já que, mesmo para um simples curioso, as teorias que apresenta têm muito de interessante.
Depois, há o outro lado do livro: a história de Tyler Beddoes. História essa que não se cinge ao salvamento que serviu de ponto de partida para este livro, mas que relata também outros casos particulares e, acima de tudo, traça um retrato muito interessante do seu percurso enquanto polícia. E esse bastaria para cativar, independentemente da presença (ou crença) nos anjos ao longo da sua vida, pois há muito de pertinente nas suas experiências, tenham estas a ver com os seus casos mais sinistros ou com a simples percepção de como o mundo está a mudar.
E é interessante a forma como estas duas facetas do livro se conjugam, alternando entre a perspectiva pessoal de quem viveu as coisas e as várias perspectivas e explicações possíveis. Perspectivas que nunca seguem pelo caminho fácil, mas que tentam apresentar todas as possibilidades, agradáveis e desagradáveis, de modo a transmitir uma visão mais ampla e mais completa do que é a presença dos anjos (ou a fé nessa presença) ao longo dos tempos.
A impressão que fica é, portanto, a de um livro interessante e agradável de ler, tanto para crentes como para não crentes. Prova a existência dos anjos? Bem, num sentido científico, pelo menos, não se pode dizer que o faça. Ainda assim, apresenta vários argumentos interessantes e várias histórias marcantes sobre o tema. E isso basta para que a leitura valha a pena. 

Título: A Prova dos Anjos
Autores: Ptolemy Tompkins e Tyler Beddoes
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Blaze e os Amigos (Nickelodeon)

Blaze e as Monster Machines. Conhecem a série de desenhos animados? Pois bem, este livro, à semelhança dos livros da Patrulha Pata, de que também já falei por cá, parte do mesmo grupo de amigos da série para apresentar aos seguidores dos desenhos animados novas aventuras das suas personagens preferidas. E o que este primeiro livro faz é precisamente apresentar as personagens, centrando-se essencialmente num muito sintético resumo das suas características. 
Ora, não sendo eu nem criança nem conhecedora da série, escusado será dizer que não me encontro no público-alvo destes livros. E é talvez este facto que faz com que reconheça a utilidade deste primeiro livro que, não tendo propriamente uma história, permite ficar a conhecer as suas personagens principais. Para quem nunca viu a série, é fácil ficar a conhecer os protagonistas - e ao conhecê-los, surge uma certa curiosidade em saber mais - seja pelos desenhos animados, seja por outros livros. 
E tudo o que desperte curiosidade é bom, certo? Principalmente quando, através de um livro muito, muito simples, mas com imagens bonitas, um texto acessível e um ponto de partida muito claro para o que é, obviamente um mundo mais amplo, se incentiva à leitura e à descoberta de novas histórias. E, assim sendo, fica, desde muito cedo, a ideia de que este livro pode funcionar como um primeiro incentivo à leitura para os mais novos, seja porque já conhecem as personagens da televisão, seja porque, mesmo não conhecendo, a forma como o livro as apresenta é bastante cativante.
Ficam perguntas? É claro que ficam perguntas, principalmente porque este livro é basicamente uma apresentação. Mas é precisamente isso que faz com que, como primeiro livro, resulte bastante bem: não conhecendo, deixa vontade de saber mais. Conhecendo de antemão, fica a curiosidade em saber o que se segue.
É um livro curto, muito simples e que parece funcionar simplesmente como ponto de partida. Mas, bastante bonito, visualmente apelativo e fazendo parte de um universo bastante maior, parece ser também uma boa forma de despertar os mais novos para o interesse para a leitura. E esse é sempre um bom objectivo a ter em vista.

Título: Blaze e os Amigos
Autor: Nickelodeon
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Nove Príncipes de Âmbar (Roger Zelazny)

Quando acorda numa cama de um hospital após um longo período de inconsciência, Corwin não se lembra de nada. Não sabe quem é, não sabe como foi ali parar... mas sabe que algo não bate certo na sua situação. Os poucos laivos de memória que lhe vão surgindo levam-no a forçar a saída do hospital e, seguindo as poucas pistas que conseguiu obter, a procurar refúgio na casa da sua irmã. Mas esse refúgio é pouco seguro - e Corwin sabe que não pode admitir a sua vulnerabilidade. Principalmente, quando começa a perceber quem é: príncipe de Âmbar, o único mundo verdadeiro, e mais que legítimo pretendente a um trono muito disputado. Precisa de voltar a Âmbar e afirmar a sua pretensão ao trono. Mas antes, precisa de recuperar as memórias que lhe fugiram. E, para isso, tem de aceitar aliados em que dificilmente poderá confiar.
Primeiro volume de uma muito longa série, este é um livro que cativa, em primeiro lugar, pelo vasto potencial que se esconde em cada momento. Desde que Corwin acorda no mundo normal e ao longo do seu vasto e estranho percurso, há em tudo o que rodeia todo um mar de possibilidades. Âmbar, mundo real, e as Sombras, em toda a sua vastidão, abrem toda uma série de caminhos possíveis. E quanto aos príncipes e aos seus... conflitos de interesses... bem, também aí as possibilidades são imensas. E, com a traição a espreitar ao virar de cada esquina, também no evoluir das relações tudo é possível.
O que me leva a outro aspecto muito interessante: a caracterização das personagens. Dadas as capacidades superiores dos príncipes de Âmbar, há também neles uma certa frieza que parece defini-los. E, contudo, talvez fruto da sua história específica, Corwin é... um pouco diferente. Ora, isto contribui em muito para o tornar mais cativante. E, além disso, há certos acontecimentos no enredo que fazem com que estas suas diferenças lhe conquistem uma maior empatia. Não deixa de ser um príncipe de Âmbar - matreiro e calculista - mas é também algo mais. E isso desperta muita curiosidade para o que lhe poderá suceder a seguir.
Com tanto potencial em bruto e tanto a explorar, quer no mundo, quer nas personagens, é inevitável a sensação de que certos aspectos na história acabam por se desenrolar de forma um pouco apressada. Há grandes batalhas, descobertas surpreendentes, mistérios passados a condicionar decisões presentes e toda uma teia de relações complexas. E é por isso que, em certos pontos, fica a ideia de que o impacto desses momentos seria maior se a narrativa não se cingisse tanto aos simples factos. Ainda assim, e tendo em conta quais são efectivamente esses factos, bem como a voz de Corwin a narrar a história, há neste primeiro livro mais que o suficiente para cativar do início ao fim. E também para despertar uma grande vontade de ler os próximos livros.
Tudo somado, a impressão que fica é a de um primeiro vislumbre de um mundo vasto e complexo. E também a do início de uma longa e tortuosa aventura, cheia de possibilidades insinuadas e de grandes momentos já narrados. Um início muito promissor, portanto, para uma série que, a julgar por este primeiro livro, vale certamente a pena descobrir.

Autor: Roger Zelazny
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 2 de maio de 2017

A Tentação de Sermos Felizes (Lorenzo Marone)

Com quase oitenta anos, dois filhos adultos e uma vida cheia de erros e arrependimentos, Cesare Annunziata decidiu deixar de se preocupar com os outros. Não que alguma vez tenha sido muito altruísta, mas, ao olhar para os erros cometidos no passado, Cesare decidiu viver o melhor possível o tempo que lhe resta. E para ele, isso significa sossego: uma vida tranquila na casa onde vive sozinho, com a companhia ocasional do amigo do andar debaixo, as visitas a uma prostituta com quem se relaciona bastante tempo e as esporádicas interacções com a velha vizinha e os seus muitos gatos. Mas tudo muda quando uma suspeita se lhe insinua no pensamento: a nova vizinha é maltratada pelo marido. E, por muito que queira olhar para o lado, Cesare dá por si incapaz de ignorar o que se passa. Vê-se, portanto, diante de um dilema: como pode ajudar Emma sem perder a tranquilidade que tão empenhadamente cultiva? E quantos segredos não há nessa falsa tranquilidade?
Partindo de um protagonista que parece querer a todo o custo alimentar a imagem do velho rabugento - ao mesmo tempo que se distancia o mais possível da temida palavra velhice, este é um livro que cativa, em primeiro lugar, pela forma como molda primeiras impressões não muito positivas, para revelar uma realidade muito mais vasta e complexa. E o exemplo perfeito disso é o próprio Cesare. Primeiro, apresenta os seus defeitos, não só enunciando-os, mas demonstrando-os em actos. E, depois, aos poucos, vai revelando um belo conjunto de qualidades que, não, não apagam o impacto das falhas, mas que mostram o lado humano do auto-proclamado embusteiro. E isto estende-se também às outras personagens, pois a primeira impressão que Cesare transmite delas não é propriamente a mais positiva, mas o que acontece depois vem desmentir essa impressão.
Ora, estando Cesare no extremo oposto da imagem do velhinho simpático, não é de esperar, à partida, uma história fofa e ternurenta. Não, quando o protagonista vê a vida de uma forma tão cínica, são os erros, os tropeções, as dificuldades - a crueldade geral da vida, enfim - o que sobressai. E contudo... também há espaço para a ternura e para a descoberta dos afectos. E é esta descoberta, feita no meio de uma história que, a espaços, consegue ser muito cruel, que acaba por tornar tão forte o impacto dos momentos mais emotivos.
No fundo, a mudança do protagonista acaba por não se dever apenas à necessidade de ajudar a vizinha, expandindo-se também para as outras pessoas que o rodeiam. E, de problema em problema, Cesare dá por si a resolver muitas coisas - à sua maneira. Quanto ao resto... bem, nem tudo na vida tem solução e é por isso que a forma como o livro termina, por mais dura e inesperada que possa ser, é precisamente a que mais sentido faz.
História de coisas simples e emoções complexas, viagem a uma velhice ainda feita de força de vontade e ao mundo de um protagonista que se torna melhor ao sair do fundo dos seus silêncios, este é, portanto, um livro que surpreende em todos os aspectos. E que, com uma mensagem positiva mesmo nos momentos de maior cinismo, acaba por ser também um bom ponto de partida para reflectir sobre o significado da vida. Muito bom. 

Autor: Lorenzo Marone
Origem: Recebido para crítica

Passatempo Amor às Claras

O blogue As Leituras do Corvo, em parceria com a O Castor de Papel, tem para oferecer um exemplar do livro Amor às Claras, de Laura Kaye. Para participar basta responder à seguinte questão:

1. Amor às Claras é a sequela de um outro livro. Como se chama esse livro?

Convidamo-los também a visitar e seguir a página de Facebook bem como o blogue e o site da editora. 

Regras do Passatempo:
- O passatempo decorrerá até às 23:59 do dia 17 de Maio. Respostas posteriores não serão consideradas.
- Para participar deverão enviar as respostas para carianmoonlight@gmail.com, juntamente com os dados pessoais (nome e morada);
- O vencedor será sorteado aleatoriamente entre as participações válidas;
- Os vencedores serão contactados por e-mail e o resultado será anunciado no blogue;
- O blogue não se responsabiliza pelo possível extravio do livro nos correios;
- Só se aceitarão participações de residentes em Portugal e apenas uma por participante e residência.

Vencedor do passatempo O Livro dos Chacras

Chegou ao fim mais um passatempo e, como sempre, é tempo de anunciar quem vai receber em casa um exemplar de O Livro dos Chacras.

E o vencedor é...

23. Mariana Pena (Aveiro)

Parabéns e boas leituras!

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Kit de Construção de Dinossauros - T. Rex (Susie Brooks e Jonathan Woodward)

Dinossauros. Criaturas de um passado distante e fonte de fascínio para muitas crianças. Inspiração para brinquedos, filmes, desenhos animados... e, claro, livros. Livros como este, que, além de apresentar uma exposição simples e didáctica sobre o que se sabe dos dinossauros - e, em particular, sobre o T. Rex - permite ainda construir um desses dinossauros. Divertido? Sem dúvida.
Não há propriamente muito a dizer sobre um livro como este, em que, provavelmente, o aspecto mais interessante para o público a que se destina é a construção do dinossauro em si. Ainda assim, há alguns aspectos que importa realçar, além, é claro, do interesse do modelo propriamente dito. E o primeiro é precisamente o aspecto visual. Cheio de cor e de imagens cativantes, desperta curiosidade para o conteúdo ao primeiro olhar, o que, aliado a um tema que desperta interesse em muitas crianças, pode contribuir em muito para despertar a vontade de ler. Além disso, as muitas imagens dos dinossauros permitem uma melhor compreensão do conteúdo, já que representam os seus aspectos essenciais.
O outro aspecto fulcral é a exposição do dito conteúdo, de forma simples e organizada, tendo em vista o público jovem a que de facto se destina. Sendo um livro para os mais novos, não se perde em pormenores desnecessários, reforçando antes as informações essenciais - e também as mais interessantes. Assim, torna-se mais divertido aprender e mais fácil reter toda a informação.
Bem, mas também importa falar no modelo, não é? E nesse aspecto destaca-se a simplicidade da construção, que torna o desafio divertido, mas não demasiado complexo mesmo para uma criança bastante pequena. Além disso, esta conjugação dos dois aspectos - o livro e o modelo - faz com que tudo se torne mais interessante, pois consegue representar na perfeição o tão famoso conceito de "aprender brincando".
A impressão que fica é, pois, a de um livro interessante e divertido, com o qual é possível aprender de forma cativante e também construir algo de novo. Uma ideia criativa e um belo desafio para os mais novos.

Título: Kit de Construção de Dinossauros - T. Rex
Autores: Susie Brooks e Jonathan Woodward
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade O Castor de Papel

Assombrado por uma tragédia na infância e pela perda da família, ele nunca pensou a vir encontrar o amor que partilha agora com Makenna. Mas quanto mais se enamora, mais receia o caos que certamente ocorrerá se também a perder. Quando o encontro com a família dela não corre bem, Caden coloca a si mesmo a questão de Makenna merecer alguém melhor, mais forte e pura e simplesmente mais…normal.


Continuação do livro: