sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Divulgação: Novidade Bertrand

Chegado à sua quarta escola em seis anos, Osei Kokote, filho de um diplomata, sabe que precisa de um aliado se quiser sobreviver ao primeiro dia de aulas. É uma sorte dar-se tão bem com Dee, a rapariga mais popular da escola. Mas há um colega que não suporta aquela relação: Ian decide destruir a amizade entre o rapaz negro e a menina de ouro. Chegados ao fim do dia, a escola e os seus principais actores (professores e alunos) nunca mais serão os mesmos. A tragédia de Otelo é transportada para o recreio de uma escola suburbana de Washington nos anos 70, onde os miúdos se apaixonam e desapaixonam antes da hora de almoço e praticam um racismo casual que vem de casa e dos professores. Tracy Chevalier cria um fortíssimo drama de amizades despedaçadas pelo ciúme, pelo bullying e pela traição.

Tracy Chevalier é autora de nove romances, incluindo o bestseller internacional Rapariga Com Brinco de Pérola, que vendeu mais de 5 milhões de exemplares e foi adaptado ao cinema. Americana de nascimento, britânica na geografia, vive em Londres com o marido e o filho. Tracy é membro da Royal Society of Literature e pode ser encontrada no site: www.tchevalier.com.

Divulgação: Novidades Topseller

As histórias não podem ser aprisionadas.
Subhi é um rapaz cheio de sonhos. Desde que nasceu, vive com a mãe e a irmã num campo de detenção permanente de refugiados.
Nunca conheceu nada para lá das cercas e das tendas de lona, mas a sua imaginação não tem limites.
Todas as noites, Subhi ouve o longínquo canto das baleias e escuta o que os pássaros vêm sussurrar-lhe ao ouvido. As histórias que ouve, que lê e que conta tornam-se o centro da sua vida.
Até que, um dia, Subhi conhece Jimmie, uma menina que vive do lado de lá da cerca de arame. Ela traz consigo um caderno escrito pela sua mãe, já falecida. Mas Jimmie não conhece as letras e é Subhi que lhe lê as histórias daquele livro tão especial e mágico.
Cada conto dá lugar a uma revelação. Cada revelação dá lugar a novas histórias contadas dos dois lados da cerca. Pelo caminho, uma amizade profunda vai crescendo, trazendo consigo o conforto e a coragem de que Subhi e Jimmie vão precisar até conquistarem, finalmente, a liberdade.

Zana Fraillon nasceu em Melbourne, na Austrália, mas passou a sua infância em São Francisco, nos Estados Unidos.
Já escreveu livros para crianças e jovens de diferentes idades. Quando não está ocupada a ler ou a escrever, adora explorar museus e recantos secretos espalhados pela cidade. Na sua opinião, ambos oferecem aquela mesma emoção que se sente ao abrir um livro: tudo pode acontecer.
A autora regressou recentemente à sua terra natal, onde mora com os três filhos, o marido e dois cães.

No mundo da Nightingale Books serve-se romance e a cura para um coração partido. Este é o sítio onde as melhores histórias não se encontram apenas nas páginas dos livros, mas nas vidas dos que por lá passam.
Depois da morte do pai, Emilia regressa a Peasebrook para gerir a velha livraria da família, Nightingale Books — o sonho de qualquer bibliófilo e um refúgio para os moradores desta pequena vila. Mas agora que está responsável pelo seu futuro, Emilia terá de afastar potenciais compradores, ao mesmo tempo que tenta cumprir o último desejo do pai.
Uma livraria extraordinária com pessoas extraordinárias…
Desde a mulher que a visita há anos, ao recém-divorciado que tenta reaproximar-se do filho, e ainda a tímida chef de cozinha que se apaixona na secção de culinária… há algo de magnético neste sítio. Até Emilia sente as forças da livraria a conspirarem por si quando se cruza com um homem a quem não consegue ficar indiferente. Com todos a depender dela, conseguirá Emilia encontrar um destino feliz para a livraria e os seus leitores?
No mundo da Nightingale Books serve-se romance e a cura para um coração partido. Este é o sítio onde as melhores histórias não se encontram apenas nas páginas dos livros, mas nas vidas dos que por lá passam.

Veronica Henry é filha de militares, o que a levou a mudar várias vezes de cidade e de escola. Formou- -se em Estudos Clássicos, na Universidade de Bristol, e complementou a sua formação com um curso de secretariado bilingue. Após a conclusão, trabalhou como assistente de produção na radionovela britânica The Archers, que lhe deu bases para trabalhar como guionista numa estação de televisão.
Em 2000, publicou o seu primeiro livro e desde então a sua obra cresceu, tendo mais de 15 livros no currículo e muitos artigos publicados na imprensa.

Divulgação: Novidade Porto Editora

«No meio do inverno, aprendi por fim que havia em mim um verão invencível»
Isabel Allende parte da célebre frase de Albert Camus para nos apresentar um conjunto de personagens próprios da América contemporânea que se encontram «no mais profundo inverno das suas vidas»: uma mulher chilena, uma jovem imigrante ilegal guatemalteca e um cauteloso professor universitário.
Os três sobrevivem a uma terrível tempestade de neve que se abate sobre Nova Iorque e acabam por perceber que para lá do inverno há espaço para o amor e para o verão invencível que a vida nos oferece quando menos se espera.
Para lá do inverno é um dos romances mais pessoais da autora: uma obra absolutamente actual que aborda a realidade da migração e a identidade da América de hoje através de personagens que encontram a esperança no amor e nas segundas oportunidades.

Isabel Allende, nascida em 1942, de nacionalidade chilena-americana, viveu no Chile entre 1945 e 1951, quando começou a viajar seguindo o seu padrasto, um diplomata chileno. Iniciou no Chile a sua carreira como jornalista. Após o golpe militar de 1973, refugiou-se na Venezuela, onde residiu treze anos, e aí começou a escrever. Desde
1988 vive na Califórnia.
Em 1982, o seu primeiro romance, A casa dos espíritos, transformou-se num dos títulos míticos da literatura latino-americana. Desde então escreveu vinte e dois livros, que se tornaram êxitos internacionais. A sua obra foi traduzida para trinta e cinco línguas e vendeu mais de sessenta e sete milhões de exemplares. Recebeu mais de cinquenta prémios internacionais e treze doutoramentos honorários. Em 2010 foi galardoada no Chile com o Prémio Nacional de Literatura, e em 2014 recebeu a Medalha da Liberdade, o galardão civil mais importante dos Estados Unidos.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Um dos Nossos (Daniel Magariel)

A guerra acabou, finalmente - e, por guerra, entenda-se o processo de divórcio. Agora, são só eles os três: ele, o pai e o irmão mais velho, rumo a uma vida nova no Novo México, onde poderão finalmente ser livres e recomeçar. Mas recomeçar como, se os fantasmas que os levaram até ali continuam vivos? E como, se o que começa por ser um recomeço promissor não tarda a resvalar para velhos vícios e não tão velhas violências? Não tarda, o que parecia apenas estranho transforma-se numa espiral de autodestruição. E, sozinhos num laço cada vez mais disfuncional, os dois irmãos precisam de se escolher a si mesmos e não à necessidade de ser apenas "um dos nossos."
Não é propriamente fácil falar sobre este livro, pois um dos primeiros aspectos a destacar-se é o facto de marcarem mais as impressões emocionais do que a narração em si. A história é contada pelo mais novo dos dois irmãos e, posto perante uma situação de mudança e de escolha num tempo em que vive ainda toda a inocência (e lealdade por vezes distorcida) da infância, é como se cada momento fosse uma espécie de revolução. E é fascinante como esta impressão - a de uma criança confusa que só quer pertencer - facilmente passa para o leitor. Sem elaborações desnecessárias, sem grandes descrições ou introspecções, o autor dá ao seu protagonista a voz de que precisa para expressar a sua vulnerabilidade.
E é de vulnerabilidade que se trata, de uma fragilidade que se revela a cada novo acesso das trevas que, aos poucos, começam a rodear a vida do protagonista. O que parecia ser uma relação difícil (e bastam os primeiros momentos para perceber que há, de facto, uma guerra a acontecer) não tarda a revelar-se como algo ainda mais negro. E ver esse crescendo de escuridão pelos olhos do mais inocente dos intervenientes... bem, é angustiante. E mais o é ainda pela precisão com que o autor constrói a história - realçando em actos todos os erros, toda a manipulação, toda a violência... todo o abandono. No fim, é impossível não ficar de coração apertado por estes dois irmãos que, num mundo onde ninguém é perfeito, parecem ter de carregar todo o peso da imperfeição aos ombros.
Há ainda um outro aspecto curioso a sobressair desta viagem: é que, em pouco mais de cento e cinquenta páginas, fica-se com a sensação de ter percorrido uma vida inteira! O que não pode senão fazer todo o sentido, até porque, na infância, cada dia pode parecer uma eternidade, e ainda mais nas condições destas personagens. Além disso, esta relativa brevidade tem ainda o efeito de maximizar o impacto de cada momento, fazendo da história uma constante sucessão de revelações perturbadoras que, por mais angustiantes que sejam, não é possível abandonar antes de saber o que acontece depois. E, bem... o que acontece depois - o que é contado e o que não é - é também algo que faz um estranho sentido, deixando em aberto todas as possibilidades.
Intenso, angustiante, perturbador, eis, pois, um livro capaz de despertar um amplo espectro de emoções, e que, na sua relativa simplicidade, consegue conter a complexidade de uma vida inteira, em toda a sua glória e destruição. Memorável em todos os aspectos - e principalmente na voz que conta toda esta história - um livro que não posso deixar de recomendar. 

Título: Um dos Nossos
Autor: Daniel Magariel
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Topseller

Para sobreviver a um assassino, é preciso ter um instinto assassino.
Há dez anos, Quincy Carpenter, uma estudante universitária, foi a única sobrevivente de uma terrível chacina numa cabana onde passava o fim de semana com amigos. A partir desse momento, começou a fazer parte de um grupo ao qual ninguém queria pertencer: as Últimas Vítimas. Desse grupo fazem também parte Lisa Milner, que perdeu nove amigas esfaqueadas na residência universitária onde vivia, e Samantha Boyd, que enfrentou um assassino no hotel onde trabalhava.
As três raparigas foram as únicas sobreviventes de três hediondos massacres e sempre se mantiveram afastadas, procurando superar os seus traumas. Mas, quando Lisa aparece morta na banheira de sua casa, Samantha procura Quincy e força-a a reviver o passado, que até ali permanecera recalcado.
Quincy percebe, então, que se quiser saber o verdadeiro motivo por que Samantha a procurou e, ao mesmo tempo, afastar a polícia e os jornalistas que não a deixam em paz, terá de se lembrar do que aconteceu na cabana, naquela noite traumática.
Mas recuperar a memória pode revelar muito mais do que ela gostaria.

Riley Sager (pseudónimo) é natural da Pensilvânia. Escreve e trabalha em edição e design gráfico.
Vidas Finais: As Sobreviventes é o seu primeiro thriller e foi um verdadeiro êxito, tendo sido publicado em mais de 18 países.
Além de escrever, Riley adora ler, ver filmes e cozinhar.
Actualmente, vive em Princeton, New Jersey

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Os Melhores Contos de Edgar Allan Poe - segunda parte

Continuando na senda das leituras de Poe, e deste livro tão fascinante no aspecto como no conteúdo, volto aos ambientes sombrios deste livro para lhe percorrer os labirintos de mistério e imaginação.

E com sombras começo, pois O Poço e o Pêndulo é precisamente o relato da mais terrível e tenebrosa das sentenças de morte. Descrito com um detalhe avassalador e, precisamente por isso, aterrador na sua exactidão, este é um conto de emoções intensas - e onde o sinistro toma formas inimagináveis.
Segue-se O Mistério de Marie Rogêt, e o regresso do fascinante Auguste Dupin. História da resolução de um crime por via estritamente racional, este é um conto que, bastante extenso e elaboradíssimo na sua análise dos pormenores, consegue ser um pouco cansativo. Mas há na forma como tudo, incluindo o mais pequeno detalhe, encaixa na resolução do mistério um estranho fascínio - e esse contempla amplamente o muito pausado ritmo da narrativa.
Passando do racional ao sinistro, segue-se O Coração Delator, mais breve e consideravelmente mais intenso, mas com a mesma aura de mistério que tanto cativa neste autor. A história é a de um crime longamente planeado e a da mais imprevista forma de revelação. E é essa surpresa final - não de quem é o culpado, mas de como este se revela - que torna o conto tão sombrio e fascinante. 
O Escaravelho de Ouro conta como a descoberta de um simples, embora invulgar, insecto dá origem a uma descoberta muito, muito mais preciosa. Intrigante pela aura de mistério e perplexidade da fase inicial, este conto surpreende, acima de tudo, por partir de um grande desconhecido, para depois aplicar à descoberta um processo dedutivo digno de um  - aqui ausente, mas inevitavelmente trazido à memória - Auguste Dupin.
Segue-se O Gato Preto, história de um temperamento que se torna perverso e de uma também perversa espécie de justiça poética. Sombrio, cruel, sinistro a espaços, mas estranhamente fascinante na sua caminhada progressiva ao que desde muito cedo se sente que será um final revelador, este é um conto que, apesar de não ser particularmente extenso, consegue, ainda assim, transmitir toda a força do cenário - físico e mental - em que decorre.
Montanhas Escabrosas une duas vidas através de uma visão, numa história enigmática e um tanto ambígua, onde parecem ficar algumas explicações por dar, mas em que as perguntas deixadas sem resposta nada tiram ao fascínio do mistério.
O Anjo do Bizarro, por sua vez, explora as relativas probabilidades dos acontecimentos bizarros, na forma de uma sucessão de peculiaridades... premeditadamente induzidas. Caricato na sucessão de acontecimentos, mas principalmente na figura que os faz surgir, um conto inesperadamente leve e cativante - e uma boa surpresa por entre tantas sombras.
Segue-se A Carta Furtada, mais um dos intrigantes casos de Auguste Dupin. Neste caso, a resposta parece fugir até aos métodos de investigação mais sofisticados, mas as capacidades de Dupin nunca desiludem. Intrigante, misterioso e - desta vez - também com um leve toque de vingança pessoal, mais um conto cheio de surpresas.
Depois vem Pequena Discussão com uma Múmia, que traz um antigo egípcio do seu sarcófago para um aceso debate entre os méritos das diferentes épocas históricas a que pertencem múmia e seus interlocutores. Peculiar, mas muitíssimo cativante, surpreende também pela forma como põe em contraste os sucessos alegadamente inovadores e os seus semelhantes do passado. 
O Demónio da Perversidade abre como que num registo de introspecção, ponderando nas razões que levam a fazer o que não se devia - para depois exemplificar com um caso prático em que fazer o devido significa guardar segredos mais negros. Breve e inicialmente pausado, este é um conto que surpreende pela súbita mudança de registo, marcando também pela forma como, tanto na introspecção como na acção, se sente precisamente o mesmo fascínio.
O Sistema do Doutor Alcatrão e do Professor Pena, conto de longo título, narra uma estranha visita a um asilo de loucos, cujo famoso método parece ter sido substituído por algo de consideravelmente mais estranho. Não sendo propriamente imprevisível, este é um conto que se destaca pela bizarria do ambiente, bem como pela relativa inocência com que o narrador parece encarar as circunstâncias em que se meteu. 
Segue-se A Verdade sobre o Caso do Senhor Valdemar, história de uma experiência realizada na iminência da morte e dos seus surpreendentes e tenebrosos resultados. Intrigante e sinistro, também neste conto não é difícil antecipar de que forma as coisas poderão terminar. Ainda assim, esta relativa previsibilidade nada retira à intensidade de um relato onde tudo no seu aspecto sombrio desperta como que uma estranha intensidade.
Também um dos contos mais conhecidos do autor (e também um dos meus favoritos), A Pipa de Amontillado conta a história de uma vingança meticulosa, num registo tão mais sinistro pela aparente leveza que parece mover os gestos do protagonista. Intenso e memorável, um conto que, apesar do ambiente também sombrio, perturba muito mais pelas acções que pelos cenários.
E o último conto é Hop-Frog, também ele uma história de vingança, e esta ainda mais elaborada que a do conto anterior. Além do cenário impressionante e da habitual intriga sombria e fantasticamente construída, sobressai ainda um outro aspecto neste conto: a forma como a vingança de Hop-Frog contém também em si como que um laivo de justiça poética. 

Que faltará dizer sobre este livro? Não muito, até porque a melhor forma de lhe conhecer as qualidades (e são tantas...) é mesmo lendo-o. Mas importa realçar ainda uma vez mais que, ao dar a tão vasto e impressionante conteúdo um aspecto também ele impressionante, este extenso e belíssimo volume torna a viagem ainda mais memorável. E, num cenário tão vasto e sombrio como o dos contos de Poe, até o mais pequeno dos detalhes impressiona. A imagem que fica é, portanto, muito simples: a de uma belíssima forma de conhecer estes contos para quem nunca leu nada de Poe - e a de um livro imperdível para os apreciadores do autor. Magnífico.

Autor: Edgar Allan Poe
Origem: Recebido para crítica

domingo, 15 de outubro de 2017

O Monstro das Cores (Anna Llenas)

O monstro das cores está confuso. Tem as emoções todas emaranhadas e agora não sabe o que está a sentir. Mas, felizmente, também tem uma amiga capaz de ajudar, explicando-lhe as sensações de uma forma ordenada, que lhe permita entender melhor o que sente e porquê. Numa história de cores - e de emoções também com cor - o monstro descobre que aquilo que sente pode nem sempre ser fácil de explicar - mas talvez não seja assim tão difícil de identificar.
Muito simples, muitíssimo breve, e contudo muito relevante, a primeira coisa a cativar neste pequeno livro é o aspecto visual. Trata-se de um livro pop-up, o que significa que há uma pequena surpresa à espera ao virar de cada página e também de um livro muito colorido, o que certamente chamará a atenção dos mais novos para a pequena história contida no seu interior. 
Mas o tema são as emoções e, além de despertar curiosidade, o aspecto ajuda também a entendê-las melhor, pois cada pequeno episódio ilustra de forma simples, mas bastante clara, a emoção a que corresponde. Ora, isto é interessante porque, se às vezes até para os adultos é difícil dizer o que se está a sentir, para uma criança que está a descobrir as emoções, ter um guia simples e divertido como este não pode deixar de ser útil. Além disso, há algo de enternecedor nesta forma tão simples de expressar as coisas. Pois o mundo adulto pode ser muito complicado - mas, às vezes, o essencial vê-se por olhos mais inocentes.
E, ao ser tão breve, é também um livro fácil de ler em voz alta. É essa, aliás, uma das primeiras impressões ao abrir o livro - a ideia de ir explorando as imagens e contando a história - como que possibilitando uma partilha de momentos. Que melhor impacto poderia ter um livro sobre emoções?
Tudo somado, a impressão que fica é a de uma leitura muito, muito simples, mas também muito interessante. Bonito, inocente, divertido e relevante, um bom livro para ler - ou dar a ler - aos mais novos.

Título: O Monstro das Cores
Autora: Anna Llenas
Origem: Recebido para crítica

sábado, 14 de outubro de 2017

Saudação a Walt Whitman / Canto de Mim Mesmo (Álvaro de Campos / Walt Whitman)

É possível que haja algo de inspirado em Whitman nas múltiplas personalidades de Pessoa - até porque as influências que, a dado momento, são negadas, podem num outro instante ser admitidas de outra forma. E, se a influência molda o influenciado, não será também mutável a visão que este tem de quem o influencia? É este talvez um dos aspectos mais curiosos deste livro: pois, lendo Campos, vê-se um Whitman um pouco diferente do que se vê... bem, em Whitman. E, lendo Whitman, vê-se uma influência que talvez não se estenda apenas especificamente a Álvaro de Campos.
Um dos aspectos mais interessantes destes Livros Amarelos, e escusado será dizer que este não é excepção, é a forma como a junção das duas obras põe em evidência relações que, não sendo propriamente óbvias à primeira vista, fazem do livro total uma unidade maior que a soma das suas partes. E isto é particularmente evidente neste livro, já que o poema de Álvaro de Campos tem o autor do Canto de Mim Mesmo como tema central. Será, aliás, esta relação entre as duas obras o aspecto mais memorável do livro, já que, tanto pelos poemas em si, como pelos sucintos e esclarecedores textos que os acompanham, a tal delicada relação de influência sai claramente realçada. 
Mas nem só de interacções vive o livro e é preciso considerar cada uma das obras como uma entidade completa e individual. E aqui surgem sentimentos diferentes. A Saudação a Walt Whitman parece traçar o retrato de um ídolo imaginado, de uma influência parcialmente assumida que se entrelaça na voz peculiar do próprio autor (ou, digamos, desta personalidade específica do autor). Por sua vez, Canto de Mim Mesmo, mais longo, mais conjunto que unidade, é um percurso mais amplo, mais diverso, através das múltiplas facetas do mundo. Facetas essas que conseguem, por vezes, ser descritas até à exaustão, deixando o lado lírico para um notório segundo plano e assim distanciando-se um pouco do impacto das visões descritas. 
O que me leva novamente à influência - e ao sempre delicado equilíbrio entre influências e identidade própria. Álvaro de Campos pode ser influenciado por Whitman, mas é, ainda e sempre, muito diferente. E, embora este seja um poema em que essa influência se evidencia (ou, pelo menos, até certo ponto, pois o Whitman que Campos descreve não é bem o que emerge do Canto de Mim Mesmo), são também muito claros os traços próprios do poeta. E são esses, afinal, os que realçam a diferença entre as duas partes.
O que fica, então, desta leitura? Para começar, duas obras relevantes e fascinantes, à sua maneira, dois retratos de um mundo traçado segundo uma visão particular. E, principalmente, a imprevista coesão que nasce da união de duas obras tão diferentes (e, contudo, tão próximas) formando um livro que deixa uma marca maior do que qualquer das suas partes lida separadamente. Cativante, inesperado e muito, muito interessante, um belo reforço para os Livros Amarelos. 

Título: Saudação a Walt Whitman / Canto de Mim Mesmo
Autores: Álvaro de Campos / Walt Whitman
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Os Melhores Contos de Edgar Allan Poe - primeira parte

Edgar Allan Poe. Senhor de histórias de horror e de poemas igualmente sombrios. Se me conhecem, não será propriamente uma surpresa se eu disser que é um dos meus autores de eleição - ou não tivesse esta minha casa o nome que tem. E esta edição dos melhores contos de Poe é algo de muito especial. Para começar, vejam o livro ao vivo e vão reparar que tem um aspecto fantástico. Aspecto esse que se estende também ao interior, onde as ilustrações dos vários artistas parecem funcionar como o complemento perfeito para as palavras do mestre. O livro é lindo, portanto, e isto basta para o descrever. Mas, como em todos os outros livros, o mais importante é o conteúdo. E, sendo um livro de tão vasto conteúdo, importa considerá-lo conto a conto. Por isso, vamos por partes.

Metzengerstein, o conto que abre este volume, fala de duas famílias rivais e de um misterioso cavalo cuja singularidade desperta obsessões. Enigmático, com tanto de inexplicável como de fascinante e a aura de mau presságio que parece pautar muitos dos contos do autor, abre da melhor forma esta viagem aos meandros do mistério, com um enigma que, deixando tanto em aberto, atinge, ainda assim, o mais perfeito dos finais.
Segue-se Berenice, história de uma obsessão tornada horror. Centrado em grande medida nos pensamentos do protagonista, o mais marcante neste conto é a forma como o ritmo pausado da narrativa, como que ao fluir do pensamento do narrador, dá lugar a uma revelação intensa e inesperada.
Em O Rei Peste, dois marinheiros embriagados fazem uma visita acidental ao Palácio da Peste. Sombrio em todos os seus muitos detalhes e particularidades, e especialmente fascinante no ambiente sinistro - e um tanto ou quanto caricato - que evoca, cativa, acima de tudo, pela forma como faz surgir, a partir de um ambiente tão ominoso, um episódio quase que divertido.
Sombra, um dos contos mais breves, narra um estranho velório e uma ainda mais estranha aparição, no mesmo registo sombrio, descritivo e estranhamente fascinante que é característico do autor. História de uma manifestação sobrenatural, um conto sem explicações, mas cativante pelo acontecimento em si.
Segue-se Silêncio, também um conto breve, onde duas maldições se confrontam: a desolação e o silêncio. Ambíguo na forma como no conteúdo, parece reflectir muito mais do que uma história contada pelo diabo, surgindo antes como uma estranha e elaborada metáfora para os terrores silenciosos... do silêncio.
O Diabo no Campanário fala de um burgo ordeiro e onde os elementos reinantes são relógios e couves. Extensamente descritivo e com um início um pouco confuso, cativa, em primeiro lugar, pela bizarria do cenário, e depois pela rápida passagem da ordem ao caos.
O conto que se segue, A Queda da Casa de Usher, é possivelmente um dos mais conhecidos do autor, e fala de uma casa antiga e dos últimos elementos da família que lhe dá nome. Sombrio, enigmático, com uma aura tão sinistra como os acontecimentos que narra, este é um conto que, pese embora o ritmo pausado e as elaboradíssimas descrições, prende desde a primeira até à última palavra.
William Wilson, história de dois seres iguais, e porém opostos, parece traçar um rumo diferente para a ideia do gémeo maligno. Intrigante e misterioso, como é, aliás, apanágio do autor, parece deixar muito sem resposta... e é, contudo, precisamente esse enigma que torna o conto tão memorável. 
O Homem da Multidão traça como que uma estranha taxonomia da sociedade, para depois apresentar ao observador um mistério insolúvel. Retorcido, intrincado, imprevisível, também este é um conto amplamente descritivo, mas em que o mistério que pende sobre a cabeça do protagonista mantém acesa a intensidade da busca de respostas.
Segue-se Os Crimes na Rue Morgue, também sobejamente conhecido. A história é a de dois crimes misteriosos que deixaram a polícia perplexa, mas não Auguste Dupin, com a sua apuradíssima capacidade analítica. Fascinante pelas peculiaridades do crime, mas, acima de tudo, pelas de Dupin, também este é um conto de ritmo pausado, mas irresistível na complexidade do seu mistério.
Uma Descida no Maelström pondera um tipo diferente do horror - o dos grandes fenómenos da natureza. Provavelmente um dos contos mais descritivos deste livro - e porém também um dos mais intensos - fica na memória pela sensação de desespero crescente que tão bem retrata.
Eleonora fala de amor inocente e trágico e de juramentos que não podem durar. Breve, mas elaboradíssimo, é talvez um conto mais contemplativo do que propriamente misterioso. Ainda assim, a sua visão de vida e morte não deixa de ser estranhamente fascinante.
Segue-se O Retrato Oval, história de um retrato demasiado vívido - e do porquê de ser assim. Relativamente breve, mas bastante impressionante na nitidez dos detalhes, consegue, em poucas páginas, tornar palpável o mistério, para depois o desvendar como um enigma ainda maior.
Outro dos contos mais conhecidos do autor (e um dos meus preferidos) é A Máscara da Morte Rubra, história de um grupo que se isola num mosteiro para fugir a uma doença misteriosa, mas que, num estranho e fascinante baile de máscaras, se vê visitado pelo mais terrível dos estranhos. Impressionante pelo cenário, mas principalmente pela aura de mistério e temor que parece pautar o desenrolar de todo o enredo, este é um conto que fascina em todos os aspectos - e que surpreende do início ao fim.

Como já devem ter reparado, esta opinião já vai longa - e ainda faltam muitos contos de que falar. Por isso, volto em breve, para vos contar o que mais se esconde nos labirintos deste maravilhoso livro. 

Autor: Edgar Allan Poe
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade 4 Estações



terça-feira, 10 de outubro de 2017

Desenha os teus Sonhos (ZAG)

Nathan passa a vida a desenhar, passando para o caderno o que lhe vai na imaginação. O problema é que tem o hábito de o fazer nas aulas e, um belo dia, é apanhado. Como se não bastasse a humilhação de ser descoberto pela professora, deixa cair o caderno para revelar um segredo comprometedor - Nathan tem uma paixoneta pela Marinette. E esta conjugação de embaraços torna-o vulnerável a um inimigo sempre disposto a aproveitar as oportunidades. Nasce um novo inimigo para os Miraculous - e uma nova batalha a travar.
Em tudo semelhante aos volumes anteriores excepto na história, não há muito que se possa dizer sobre este livro que não tenha já sido dito antes - pelo menos não sem contar demasiado sobre os acontecimentos. Mas é interessante notar que, mesmo seguindo precisamente a fórmula dos anteriores e com o mesmo exacto tipo de personagens, a história nunca se torna demasiado repetitiva. Talvez pelo ritmo de acção constante, talvez pelo surgir de novas personagens, talvez ainda por um aspecto visual que nunca deixa de cativar, o que é certo é que este livro - tal como os anteriores - proporciona uma leitura leve e agradável, para os mais novos e não só.
Também interessante - e, mais uma vez, comum aos livros anteriores, mas ainda assim um aspecto que importa referir - é o curioso entrelaçar de momentos de humor, muitas vezes associados ao mistério (bem, mistério para as outras personagens) de quem são a Ladybug e o Gato Noir. Além disso, há muito de divertido nas interacções entre estes dois, o que, associado ao facto de haver sempre algo de emocionante a acontecer, mantém acesa a curiosidade de saber mais.
Há mais aventuras para ler e, assim sendo, continua a haver questões deixadas por encerrar. O inimigo continua tão decidido como sempre a deitar a mão aos Miraculous. E, quanto à Ladybug e ao Gato Noir - bem, continuam a esconder quem são um do outro. Ora, isto tem um efeito interessante, pois, por um lado, cada livro é uma história completa. Por outro, fica sempre aquela vontade de saber o que se segue para estas personagens que já se tornaram tão familiares.
Tudo somado, a impressão que fica é a de um livro simples, divertido e igualmente capaz de cativar leitores mais e menos jovens. Leve, cativante e de leitura agradável, uma boa história para descontrair.

Título: Desenha os teus Sonhos
Autores: ZAG
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Uma Mulher Desnecessária (Rabih Alameddine)

Aaliya Saleh vive sozinha e não quereria que fosse de outra forma. Divorciada, com uma má - ou inexistente - relação com a família e sem amigos, Aaliya encontra nos livros todo o conforto de que precisa. Todos os anos, no dia 1 de Janeiro, começa uma tradução que nunca será publicada. E, agora que o novo ano se aproxima, é tempo de escolher o seu novo projecto. Mas a vida está em constante mudança e, depois de ter sobrevivido a tudo, até à guerra civil, Aaliya dá agora por si a recordar o passado, e o retrato que a memória lhe devolve não é propriamente o mais agradável...
Retrato de uma mulher em luta com o seu próprio envelhecimento, e principalmente com a memória de um passado demasiado longo, este é um livro em que sobressaem, logo à partida duas características: a primeira é a vastidão do mundo literário do protagonista, e a forma como este mundo se transmite ao leitor. A segunda é a capacidade de, num registo pausado e introspectivo, conseguir, ainda assim, manter constante o interesse pela história de Aaliya e pelo mundo que a rodeia. 
É provavelmente da fusão destes dois aspectos que nasce o impacto que este livro acaba por ter: um livro que se lê aos poucos, tantas são as referências que há para assimilar, e que, contudo, nunca deixa de cativar, não só pela complexidade da protagonista como pela própria escrita, que lhe confere uma voz tão peculiar. Mas na alma de tudo estão os livros e é a visão de Aaliya da leitura e da tradução, a forma como toda a narrativa é uma viagem por mil e um mundos literários, que torna a leitura tão memorável. Seja a citação de uma outra, seja um pensamento particularmente certeiro da protagonista - "A literatura dá-me a vida e a vida mata-me." - há em todo este percurso uma estranha e fascinante harmonia, que faz com que, apesar de pausado, este seja um daqueles livros que dá gosto ler.
Mas nem só da escrita e do intrincado entrecruzar de referências surge a complexidade deste livro. Não. Também o cenário é complexo, as muitas memórias são complexas. A própria Aaliya, com o seu percurso e convicções e recordações, é uma personagem elaboradamente complexa. Mas a magia está na forma como todas estas teias intrincadas se conjugam para moldar um sentido mais amplo. A partir do percurso de Aaliya é possível desvendar o muito que tem de admirável. Das suas idiossincrasias, sobressaem as vulnerabilidades. E, do equilíbrio entre todas as suas facetas - e também das daqueles que, ao longo do tempo, cruzam o seu caminho - surge uma personagem complexa e fascinante. Como, aliás, tudo neste livro.
Não é uma leitura compulsiva. Não o poderia ser, com tantos elementos entrelaçados, com tantas pequenas coisas a alimentar o todo maior. Mas o que é, sim, é um livro memorável, maravilhosamente escrito e com uma personagem tão complexa quando a dimensão da sua humanidade. Recomendo.

Autor: Rabih Alameddine
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Revoltada (Evgénia Iaroslavskaia-Markon)

Revolucionária por natureza e capaz de tudo questionar num sistema onde poucas questões eram permitidas, foi no confinamento da solitária e pouco tempo antes da execução que Evgénia Iaroslavskaia-Markon escreveu a sua autobiografia. Um texto que, longe das reminiscências e das nostalgias, vinca antes uma história de luta e um ponto de vista muito firme sobre o sistema soviético. Em breves páginas, Evgénia traçou a sua vida e a do marido, Aleksandr Iaroslavski, num registo intenso, feroz e claro que é todo um retrato do tempo e das mentalidades.
Embora seja a autobiografia de Evgénia o cerne deste livro, importa dizer que nem só deste texto é possível retirar informação pertinente. É do conjunto do todo - incluindo prefácio, anexos e posfácio - que se retira uma visão mais ampla do que terá sido a vida e morte da autora. E é claro que, sendo este, acima de tudo, o registo de um percurso pessoal, há ainda todo um mundo mais vasto que fica por abordar, ainda que os pontos de vista de Evgénia consigam vincar com toda a clareza muitos dos grandes problemas do seu tempo. Mas é Evgénia o cerne. É a sua história a base em que todo este livro assenta. E, sendo certo que fica sempre a vontade de saber mais, tudo o que é essencial está bem presente.
Também há muito material para reflexão neste livro, não só no que diz respeito ao percurso de Evgénia, mas principalmente no que concerne às suas ideias. A busca da revolução entre os criminosos, a ideia de um regime que nunca pode ser revolucionário, pois sê-lo implica a pretensão de um derrube, a visão de um sistema que adulterou as suas próprias ideias... tudo isto emerge das páginas da autobiografia, levantando várias questões pertinentes sobre os limites do poder, o autoritarismo, e as diferenças entre um sistema idealizado e a sua aplicação prática.
Por último, importa destacar a importância do livro enquanto retrato das arbitrariedades possíveis. Curiosamente, esta impressão não surge tanto do relato da própria Evgénia, mas antes do do guarda presente no momento da execução. Ainda assim, este é um elemento bem presente em todo o livro, já que o próprio percurso de Evgénia e de Aleksandr é também demonstrativo dessas mesmas arbitrariedades.
A impressão que fica é, portanto, a de um livro relevante, organizado e bastante esclarecedor, em que o cerne pode estar num percurso único e pessoal, mas a partir do qual se pode vislumbrar muito claramente o cenário mais amplo. Interessante e pertinente, uma boa leitura.

Título: Revoltada
Autora: Evgénia Iaroslavskaia-Markon
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Shimmer & Shine: Um Sonho Tornado Realidade (Nickelodeon)

Leah gosta muito de brincar com a sua casa de bonecas, mas tudo é mais divertido quando se tem companhia. E Leah tem a melhor companhia do mundo: Shimmer e Shine, as suas amigas geniais, estão sempre prontas a conceder-lhe três desejos. Só que os desejos nem sempre correm como previsto e, para resolver o primeiro desejo, pode muito bem ser preciso gastar os outros dois. Ainda assim, há sempre uma forma de resolver o problema - e Leah sabe que terá sempre nas gémeas as suas melhores amigas.
Um pouco à semelhança do que acontece com os livros da Patrulha Pata, também as histórias de Shimmer e Shine parecem assentar, em grande medida, na série de desenhos animados. E, assim, é bem possível que seja para quem segue esta série que os livros se revelam mais interessantes. Mas, e este é o primeiro aspecto a destacar-se, não é preciso conhecer a série para ficar a conhecer as personagens. E basta a história, simples, curta, mas cheia de ternura, para entrar facilmente no mundo destas gémeas geniais.
Claro que é um livro pensado para os mais novos e, assim sendo, faz todo o sentido a brevidade da história. Mas, curiosamente é esta mesma simplicidade que cativa: as peripécias sucedem-se, os mal-entendidos também (ou não fosse esta uma história de génios e de desejos) mas, no fim, prevalece sempre a amizade. E é isto, afinal, o mais importante deste livro: de uma aventura divertida, surge uma mensagem positiva.
E depois há o aspecto visual que, também muito cativante e cheio de cor, não só completa na perfeição o texto da história, como desperta até uma certa curiosidade em descobrir os desenhos animados. Claro que, para quem já os conhece, o reconhecimento das personagens será muito mais imediato. Ainda assim, o livro vale por si mesmo e a história que contém é um todo completo.
Tudo somado, temos uma história breve, simples e positiva, perfeita para cativar os mais novos para os prazeres da leitura. Agradável, divertido e muito, muito bonito, um bom livro para ler - ou sugerir - aos mais pequenos.

Título: Shimmer & Shine: Um Sonho Tornado Realidade
Autor: Nickelodeon
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

O Último Reino (Bernard Cornwell)

Aos dez anos, ao conhecer a guerra pela primeira vez, Uhtred de Bebbanburg perde o pai e é levado pelos dinamarqueses. Primeiro, a intenção seria receber por ele um bom resgate. Porém, Bebbanburg foi usurpado pelo tio de Uhtred e consentir no resgate seria aceitar a sua morte. É então que o dinamarquês que o capturou, Ragnar, o Destemido, escolhe comprá-lo e acolhê-lo na sua vida. Mais que um escravo, Uhtred torna-se filho do conde Ragnar e com ele aprende as artes da guerra. Mas os dinamarqueses não se contentam com a Nortúmbria e, à medida que avançam para a desejada conquista de toda a Inglaterra, intrigas e inimizades começam a ganhar forma. E, tendo diante de si a maior das traições, Uhtred vê-se forçado a virar costas às gentes que o acolheram e a regressar para o lado onde pertence. Ainda que também aí haja ódios e intrigas em abundância.
Parece ser uma característica comum nos livros deste autor - e este não é excepção - o delicado equilíbrio entre um contexto histórico vasta e pormenorizadamente descrito e uma história em que é incrivelmente fácil entrar na pele das personagens, equilíbrio esse que faz com que a vastíssima componente descritiva, que inevitavelmente confere ao livro um ritmo mais pausado, nada retire à envolvência da narrativa e à necessidade de saber sempre mais. Este é um aspecto que se evidencia desde muito cedo - com a extensa caracterização dos poderes da época a contrastar com a imagem inicial de um muito jovem Uhtred a descobrir um mundo muito mais duro do que imagina. E este contraste entre a dureza do mundo e a humanidade das personagens - contraste que se mantém bem vivo ao longo de toda a narrativa - realça o impacto dos grandes momentos, bem como o significado dos pequenos gestos.
Escusado será dizer que Uhtred, protagonista e narrador do livro, é a alma e o cerne de tudo isto. É também de uma complexidade fascinante, e, ao longo de toda a narrativa, é possível acompanhar não só o seu crescimento e compreensão do mundo como vê-lo assumir o papel que o destino lhe atribuiu. Uhtred tem todas as características de um herói - e tem também as vulnerabilidades que o humanizam. É forte, é capaz, tem tudo para ser um líder - mas tem também a arrogância da juventude, as mágoas e as perdas que marcam qualquer ser humano, as dúvidas escondidas sobre uma fachada de confiança. É complexo. É completo. E é provavelmente por isso que é uma personagem tão carismática.
Há ainda um outro ponto que sobressai. Da mesma forma que a história se constrói sobre um equilíbrio entre contexto histórico e percurso individual, também as batalhas de Uhtred se dividem entre as motivadas por razões pessoais e a batalha maior pela sobrevivência do reino. Ambas com a sua devida relevância, ambas devidamente equilibradas e ambas repletas de momentos memoráveis. E, sim, claro que ficam várias questões em aberto - ou não fosse este o início de uma série maior. Mas, curiosamente, até o fim parece estar precisamente no sítio certo - no término de uma batalha que fica devidamente encerrada, mas que pode também ser ponto de viragem para algo mais.
Complexo, cativante e com um equilíbrio quase perfeito entre as múltiplas facetas que constituem a história, eis, pois, um livro em que todos os pormenores são relevantes. Com um contexto interessantíssimo e um enredo repleto de grandes momentos, um início mais que memorável para uma história que promete muito mais. E, assim sendo, um livro altamente recomendável. 

Título: O Último Reino
Autor: Bernard Cornwell
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade 4 Estações



terça-feira, 3 de outubro de 2017

What She Left (Rosie Fiore)

Helen é a esposa perfeita… até ao dia em que desaparece sem deixar rasto, deixando para trás um marido preocupado, as duas filhas dele, que Helen ama como se fossem suas, e o que parecia ser uma vida tranquila e perfeita. Para onde foi? Primeiro, todos temem o pior, mas, pouco tempo depois do seu desaparecimento, a polícia é informada de que este foi voluntário e que ela não quer ser encontrada. Sam, o marido, não sabe o que pensar. E, incapaz de lidar com esses sentimentos e com as duas filhas sozinho, a sua vida começa a afundar. Principalmente porque, de cada vez que parece encaminhar-se para uma recuperação, Sam vê o resto de Helen no de mulheres desconhecidas. E não pode esquecê-la sem saber o porquê.
Uma das muitas surpresas deste livro, e talvez a maior, é que, embora comece com um desaparecimento, não se trata propriamente de um policial. Há um grande mistério em volta de todo o enredo, e isso é parte do que o torna tão cativante, mas a verdade é que a história não tem tanto a ver com uma pessoa em perigo e um caso a resolver, mas mais com uma vida familiar conturbada e o tipo de coisas que levaria uma mulher a deixar para trás a sua família.
Ao contar esta história através de várias perspectivas, a autora realça todas estas questões, prolongando, ao mesmo tempo, o grande enigma que é a razão do desaparecimento de Helen. Além disso, também permite ficar a conhecer melhor cada personagem: a confusão de Miranda, a boa vontade de Lara, a gradual decadência de Sam. E não só isto confere um muito maior impacto a cada revelação, como tem também um efeito mais interessante. Sam começa a história como o marido perfeito, mas esta imagem muda pelo caminho, o que levanta suspeitas e possibilidades. O que ele parece ter de encantador não tarda a revelar-se como algo mais. E então, quando a suspeita surge, eis que aparece uma nova revelação a mudar tudo isso. O que se passa é que tudo pode mudar de uma página para a outra, e esta imprevisibilidade que surge quando começamos a achar que sabemos o que realmente se passa torna este livro estranhamente viciante.
Quanto ao desaparecimento de Helen, há também muitas questões relevantes nesta história. Quando reveladas, as razões da sua fuga, tal como as do corte com a sua vida anterior, fazem surgir uma história muito complexa e um caminho de escolhas difíceis, mas muito ponderadas. E é por isso que faz todo o sentido a forma como tudo termina: deixando algumas perguntas sem resposta… porque há portas abertas e o caminho futuro ainda está por decidir.
História de mistério, mas não de um crime – de um desaparecimento, mas voluntário. No fim, tudo se resume a isto: um romance intenso e intrigante, em que ninguém é exactamente o que parece e tudo tem um motivo, ainda que este nem sempre seja o mais expectável. Muito bom, em suma.

Título: What She Left
Autora: Rosie Fiore
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Guerra e Paz

Um bom jornalista é também um bom contador de histórias. E se Roby Amorim contou com mestria as histórias dos outros, também o fez com a que lhe era mais próxima, até hoje inédita.
Este é o registo de um mundo que terminou com a morte da própria avó. Maria Inácia da Conceição de Faria Machado Pinto Roby de Miranda Pereira da Rocha Tinoco, a personagem central desta narrativa, nasceu quando Portugal se digladiava entre facções ultraconservadoras e progressistas, em plena revolta da Maria da Fonte, e morreu durante a Guerra Civil espanhola.
Como refere António Lobo Antunes, «Roby Amorim consegue transformar uma Mulher na saga de uma família e de um tempo, com um bom gosto e um poder evocativo de alto calibre. [...] quero apenas pedir LEIAM ISTO, uma vez que o engenho do Autor nos retrata também a nós mesmos, nos diversos tempos de que somos feitos.»

José de ROBY AMORIM. (Braga, 1927 – Lisboa, 2013) foi um dos nomes mais respeitados do jornalismo português. Iniciou a sua carreira no Correio do Minho, tendo passado pelo Diário Ilustrado, ABC, O Século (onde chegou a director por nomeação da redacção), Diário de Lisboa e as agências de notícias ANOP e Lusa. Desde sempre focado na temática histórico-cultural portuguesa, recebeu ao longo da carreira dezenas de prémios.
Publicou Elucidário de Conhecimentos Quase Inúteis, Da Mão à Boca – Para uma História da Alimentação em Portugal e ABC dos Sabores Portugueses e Mais Alguns.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

O Senhor Ibrahim e as Flores do Alcorão (Eric-Emmanuel Schmitt)

Moisés está por sua conta. Isolado no seu mundo, o pai trata-o com frieza e não parece ter nada de bom a transmitir-lhe. Mas, em plena adolescência e com vontade de descobrir a vida, Momo encontra as alegrias de que precisa nos lugares mais inesperados: na companhia das prostitutas da Rua do Paraíso, e na improvável amizade que estabelece com o senhor Ibrahim, um merceeiro estranhamente sábio. Tudo começa com alguns pequenos roubos - mas a sabedoria partilhada faz nascer uma grande amizade. E quando o pai de Moisés o abandona em definitivo, o senhor Ibrahim abre-lhe as portas do seu coração - convidando-o a partilhar consigo a maior das aventuras.
História de uma amizade improvável, e também das dores de um crescimento solitário, este é um livro que cativa, acima de tudo, pela simplicidade. É uma história breve, em que tudo se cinge ao essencial e em que os grandes afectos e as grandes perdas surgem com a mesma facilidade. E claro que isto deixa sentimentos ambíguos, pois seria interessante saber mais: sobre a história do pai de Momo, sobre a viagem com o senhor Ibrahim, sobre o próprio senhor Ibrahim antes de se tornar no merceeiro do bairro. Mas a verdade é que o essencial está lá e a inocência com que a história é contada compensa amplamente o que é deixado por dizer.
É de Momo a voz que conta esta história, o que faz com que tudo se torne mais pessoal. Além disso, Momo é uma mente em crescimento, alguém em plena aprendizagem face às suas experiências, e acompanhar este percurso não só em actos, mas também na evolução do pensamento, torna tudo muito mais próximo e cativante. Momo dá-se a conhecer em pleno - bons e maus pensamentos, forças e vulnerabilidades, qualidades e defeitos. E é talvez esta humanidade, associada à inocência de quem ainda tem tanto por aprender, que faz dele uma personagem tão forte.
Há ainda um outro aspecto curioso. Apesar da simplicidade da narrativa, quer em termos de história, quer de escrita, há um evidente cuidado em não simplificar nada em demasia. Isto é particularmente evidente na forma como a família de Momo é caracterizada e nas relações delicadas que entre eles parecem existir: o pai de Momo é um homem frio e aparentemente desinteressado, mas há verdades que apontam que há algo mais subjacente a isso. A mãe surge acompanhada de muitas verdades, mas representa também algo difícil de superar, pelo que a forma como a relação fica entre ambos acaba por fazer bastante sentido. E quanto ao irmão... bem, aí fica uma certa curiosidade insatisfeita, mas também esse mistério - esse porquê - acaba por ter uma razão de ser.
Tudo somado, a impressão que fica é a de uma leitura simples e breve, mas com uma história sempre envolvente e uma muito relevante mensagem de afecto sem barreiras. Cativante, enternecedor e surpreendente, um bom livro.

Autor: Eric-Emmanuel Schmitt
Origem: Recebido para crítica

domingo, 1 de outubro de 2017

A Última Viúva de África (Carlos Vale Ferraz)

Recusados os apoios ao filme que tinham planeado, e para salvar a produtora da falência, Miguel Barros vê-se obrigado a seguir uma estranha inspiração: a notícia de um emigrante rico que deseja sepultar a mãe numa igreja transformada em panteão particular desperta a curiosidade do seu realizador e, sem ideias melhores, Miguel Barros vê-se também arrastado para essa estranha possibilidade. Mas o que o espera em Vilar é uma verdade bastante mais dura: a morta é Alice Oliveira e Miguel Barros tem com ela um passado em comum. Em tempos, quando em África se travavam guerras e se lutava por uma independência diferente, Alice foi Madame X, informadora de governos e de mercenários. E Miguel, que também por lá passou, lembra-se dela e da sua história - do passado que agora, passado tanto tempo, quer finalmente contar...
Tendo como cerne a figura de Alice Oliveira, mas contando a história de uma perspectiva já um pouco distante, uma das primeiras coisas a surpreender neste livro é precisamente a estrutura da narrativa, pois, sendo embora Alice a raiz de todo o enredo, é talvez ela quem menos se dá a conhecer. De certa forma, é Miguel Barros o protagonista, pelo menos no sentido em que é o percurso dele que a narrativa acompanha. E é através das suas memórias que tudo o resto vem a superfície, primeiro nas evasivas, enquanto ele e a sua equipa seguem a pista da notícia, depois no desvelar da verdade quando já mais nada resta para contar. 
Ora, esta forma de contar a história deixa alguns sentimentos ambíguos, já que a perspectiva de Miguel acaba por ser um pouco limitativa: o que viu da guerra e quis contar, bem como a forma sintética como conta algumas das coisas, acabam por deixar uma sensação de distância que nunca se esbate por completo. Ainda assim, faz um certo sentido que assim seja, pois a história de Miguel é a de um passado guardado em silêncio e, visto desta forma, é apenas natural que a derradeira narração das memórias seja tão sucinta quanto possível.
E, ainda que o impacto emocional seja, em parte, atenuado por essa mesma distância, a verdade é que há muito de relevante para descobrir neste livro. Desde a história de Alice à de Jean Scrame, passando pelo que o próprio Miguel viveu em África e, curiosamente, também pelo percurso final da criação do filme, há em todos os elementos algo de pertinente a ponderar, uma certa surpresa ante o percurso pessoal de cada personagem e, principalmente, uma muito certeira visão da forma como a influência molda os caminhos dos homens. No fundo, mais até que a história das personagens, são as verdades desagradáveis que ficam na memória - e, se são incómodas, é porque precisam de ser ditas.
A imagem que fica é, portanto, a de um romance que leva o seu tempo a assimilar, com o seu ritmo pausado e as impressões que parecem marcar aos poucos, mas também um livro interessante e pertinente, em que cada personagem parece representar mais que a sua própria jornada. Uma boa história, em suma. E uma boa leitura. 

Autor: Carlos Vale Ferraz
Origem: Recebido para crítica

sábado, 30 de setembro de 2017

Milarepa (Eric-Emmanuel Schmitt)

Uma mulher misteriosa num café de Paris, diz, com palavras enigmáticas, que Simão viveu mil vidas - e que o ódio do passado o obriga a contar repetidamente a mesma história até que o ciclo se quebre. Pois, em tempos, ele foi Svastika e combateu um iluminado - e foi o seu ódio pelo sobrinho, Milarepa, que o levou a grandes crimes e, depois, à iluminação. Esta é a história cem mil vezes repetida - e a mensagem de um caminho maior que o ódio.
Bastante breve e narrado de forma muito simples, este é um livro em que tudo se resume em poucas palavras. Poucas, mas talvez as suficientes, pois a ideia do caminho de Milarepa - do desejo de vingança ao desprendimento total - está bem patente na sua história, por mais sucintamente que esta seja contada. É certo que esta brevidade deixa sentimentos ambíguos, pois, por um lado, fica a sensação de que muito mais haveria a dizer sobre cada um dos acontecimentos narrados. Mas, por outro, ao cingir-se ao essencial, sobressai a mensagem - e talvez seja precisamente esse o objectivo.
É curioso também como, em apenas setenta páginas, há tantas vidas cruzadas. Tantas, de facto, que ficam umas quantas perguntas sem resposta, a começar pela identidade da mulher misteriosa. Mas a verdade é que todas as figuras servem o seu objectivo: a mulher misteriosa é um despertar para o passado. E, no passado, os caminhos de Svastika e de Milarepa, com todas as escolhas erradas e posteriores arrependimentos, traçam um caminho mais amplo do que apenas o das suas histórias individuais.
No fundo, a história cede protagonismo à mensagem, daí que o registo simples e sucinto faça sentido. Mais que as vivências, conta a aprendizagem e, no que a essa diz respeito, o percurso de Milarepa dificilmente poderia ser mais claro. Fica, é verdade, a curiosidade insatisfeita - a vontade de ver mais de perto, de sentir ao pormenor. Mas o essencial está lá, e é isso o mais importante.
E assim, a impressão que fica é a de uma leitura breve, mas em que as perguntas sem resposta perdem importância face à mensagem subjacente a toda a história. História de conhecimento e iluminação, um conto simples, mas cativante. Uma boa leitura. 

Título: Milarepa
Autor: Eric-Emmanuel Schmitt
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Quincas Borba (Machado de Assis)

Eminente filósofo e figura em todos os aspectos peculiar, Quincas Borba decidiu, nos seus últimos dias, fazer amizade com Rubião, um simples professor. E tão forte foi essa amizade que, chegada a hora da morte, decidiu fazer do amigo seu herdeiro universal. Eis, pois, Rubião convertido em homem rico. Rico, mas não necessariamente mais sensato. A ambição fá-lo mudar-se para o Rio de Janeiro, onde desenvolve novas amizades, contactos e paixões pouco correspondidas. E, pelo caminho, a fortuna vai-se dissipando, pois entre os mais ou menos leais e os puramente oportunistas, Rubião a todos pretende agradar. Alimentam-no o amor e a ambição de reconhecimento - sem saber que a loucura espreita ao virar da esquina...
Para quem tiver lido as Memórias Póstumas de Brás Cubas, o nome de Quincas Borba não será certamente desconhecido, e talvez o título leve a pensar num regresso ao protagonismo dessa tão estranha figura. Não. Pese embora o nome do livro, Quincas Borba (aliás, ambos os Quincas Borba) não são tanto figuras centrais da narrativa, mas antes força motriz de uma história bem diferente. Por um lado, é a fortuna de Quincas Borba homem que leva Rubião ao seu longo - e por vezes penoso - caminho. Por outro, Quincas Borba, canídeo, leal como nenhum outro, mesmo quando vítima de maus tratos, é para Rubião a fonte do que lhe falta em todas as suas outras relações: afecto desinteressado. E assim, sendo ambos presenças relativamente discretas, são, ainda assim, a força na origem de tudo o resto - justificando pois plenamente o destaque que o título lhes dá.
Mas passando à narrativa. A figura central é evidentemente Rubião, e é-o em contraste com os muitos que dele se aproximam. A história é a de um amor não correspondido, a de amizades que se transformam segundo o estatuto e, principalmente, a de um percurso de ascensão e queda moldado por riquezas, ambição e loucura. Acompanhar Rubião desde os últimos dias de Quincas Borba até aos seus próprios últimos dias é vê-lo percorrer uma longa jornada, onde há espaço para actos de todo o tipo: demonstrações de afectos proibidos, actos de heroísmo desinteressado, mal-entendidos alimentados pelas aparências e demonstrações de inexplicável generosidade. E no caminho de Rubião cruzam-se muitos outros, de tal modo que a sua história se torna também na de Sofia, do Palha, de Maria Benedita e de tantos outros que, mais ou menos ao de leve, o conheceram. Histórias que se entrecruzam, mas que divergem também em certos pontos, formando um todo mais amplo, mais complexo - e muito mais interessante pela diversidade de personagens.
E é curioso como, com tantas personagens e um caminho que, por vezes, se revela tão difícil, tudo é narrado com tão grande leveza. Talvez se deva aos muitos traços caricatos das personagens, talvez à simplicidade com que os factos são contados. Ou talvez, ainda, a uma mistura destes dois aspectos, aliada a um equilíbrio bastante eficaz entre os percursos pessoais das diferentes personagens. Certo é que tudo flui com perfeita naturalidade e que os muitos elos tocados pela passagem de Rubião acabam por se juntar numa visão bastante clara: a de que nada dura para sempre e que é na queda que se reconhecem os verdadeiramente leais.
História de uma fortuna feita e dissipada, eis, pois, um livro tão caricato como fascinante, um livro onde a verdade se esconde nos pequenos gestos e em que até o mais pequeno dos episódios tem significado. Cativante, surpreendente e com um leque de personagens fascinante, vale muito a pena conhecer esta história - e seguir até ao fim os passos de Quincas Borba. 

Título: Quincas Borba
Autor: Machado de Assis
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

A Separação (Dinah Jefferies)

No momento em que regressa a uma casa vazia, Lydia apercebe-se imediatamente de que a sua vida nunca mais será a mesma. O marido desapareceu, levando as filhas com ele, e não deixou qualquer sinal do seu destino ou do porquê da partida. Sem saber o que fazer, Lydia procura respostas junto do patrão do marido, mas as que dele obtém só lhe trazem mais confusão e o anúncio de uma tragédia. As pistas são escassas. As certezas ainda menos. E, sozinha num país em guerra, mas incapaz de se render, Lydia sabe que tem de encontrar a ajuda possível e de descobrir as respostas que lhe faltam. Para que possa encontrar as filhas, se ainda for possível.
Um dos aspectos mais marcantes deste livro - muito à semelhança do que acontece em A Mulher do Plantador de Chá - e também um dos seus traços mais cativantes é a forma como a autora consegue enquadrar num cenário em constante mudança - e em tempos de revolução - um enredo que é, acima de tudo, um percurso pessoal. A acção passa-se na Malásia e os tempos em que decorre são de guerra, sendo por isso inevitável que este contexto histórico esteja bem vincado ao longo de toda a narrativa. Mas a história é acima de tudo a de Lydia e da sua família e, assim, os grandes acontecimentos são aqueles que os afectam directamente. O equilíbrio que a autora estabelece entre estas duas facetas da narrativa é algo de delicado e de fascinante - e é também a raiz na base do que torna este livro tão memorável.
Tal como o título indica, esta é, acima de tudo, uma história de separação: a separação de Lydia das suas filhas, principalmente, ainda que não só. E este obstáculo criado por razões desconhecidas é o ponto de partida ideal para uma narrativa cheia de revelações. O ponto de vista de Lydia, o da mãe desesperada, realça o impacto do desconhecido, a necessidade de saber, de encontrar o caminho. A situação das filhas, demasiado jovens para entender por completo o que se passa (ou talvez não) faz sobressair o papel dos inocentes apanhados num conflito que não lhes pertence. E a conjugação destas duas facetas faz nascer um percurso muitas vezes doloroso, comovente nos mais inesperados dos momentos, repleto de afectos e de vulnerabilidades... e sempre, sempre fascinante de acompanhar.
Também a escrita é fonte de fascínio, pois, em todos os momentos, grandes e pequenos, a autora consegue encontrar as palavras certas para maximizar o impacto das circunstâncias. Seja o desespero de Lydia ou a incompreensão das crianças, o medo ante os momentos de perigo ou a tristeza ante o que parece ser uma tragédia consumada, tudo flui com uma mestria tal que todos os sentimentos se expressam em todo o seu genuíno poder. E, assim, é fácil entrar na pele das suas personagens, viver com elas, sentir com elas. E continuar com elas no pensamento, mesmo depois de chegado o fim da história.
Eis, pois, um livro que abre portas para o passado - um passado histórico, que, em tempos de grandes mudanças, acolhe em si uma história intemporal. De afecto, de amor, de perda, de desespero. E de uma esperança contra todas as probabilidades que é talvez a alma de uma narrativa onde tudo, mas mesmo tudo, é fascinante. Emotivo, intenso, misterioso, surpreendente, um livro que marca do início ao fim. E que recomendo a todos, sem reservas. 

Título: A Separação
Autora: Dinah Jefferies
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Os Falsários (Bradford Morrow)

O mundo da falsificação é um meio perigoso, onde muitos segredos se guardam e tudo depende da reputação. Por isso, quando Adam Diehl, reputado coleccionador de livros com algumas relações duvidosas, é encontrado às portas da morte e com as mãos decepadas, é inevitável que todos os envolvidos no meio fiquem em alerta. Um dos seus conhecidos - ainda que não amigo - era Will, namorado da irmã e, em tempos, exposto enquanto falsário. Mas não há provas que o impliquem e, por isso, as atenções da polícia rapidamente se desviam dele. O problema é que nem todos estão dispostos a abandonar a perseguição tão facilmente e, embora tendo jurado deixar o mundo da falsificação para trás, Will sabe que o passado o pode apanhar um dia. E que, para proteger a família que almeja construir, precisa de ser mais esperto que o seu experiente adversário.
Partindo de um crime misterioso e expandindo-se depois para um submundo um tanto peculiar, este é um livro que tem como principal ponto forte a poderosa aura de mistério que parece rodear não só os grandes acontecimentos como as próprias personagens. Claro que a morte de Adam cria, desde logo, uma certa curiosidade em saber quem foi o culpado, como fez para deixar tão poucas pistas e porque cometeu ele o crime. Mas há muito mais do que isso para descobrir nesta história e um dos maiores enigmas de todo o enredo reside no próprio Will. Will, que conta a história, que molda o rumo da narrativa às suas próprias emoções e perspectivas, que consegue despertar uma empatia incrível com os seus laivos de vulnerabilidade. E que se mostra mais complexo a cada nova revelação, fazendo do leitor seu confidente e, assim, preparando-se para o surpreender.
É que não são só os acontecimentos em si que surpreendem, mas a forma como o narrador os vai moldando. A forma como se dá a conhecer através de laivos de sentimento, de decisões difíceis, de uma visão do seu mundo que é, toda ela, uma luta consigo mesmo. E isto tem vários efeitos positivos. Primeiro, o estranho fascínio que a figura do falsário regenerado (mas posto perante a tentação) parece exercer. Depois, a capacidade de moldar o mistério à sua imagem, dando o máximo impacto a cada momento inesperado. E, por fim, a perspectiva de um confronto sem heróis nem vilões, mas em que, com cada parte a defender os seus interesses, grandes segredos terão de vir à superfície.
É esta talvez a principal qualidade deste livro: a forma como o autor consegue fazer de cada personagem muito mais que o que parece à primeira vista, traçando-lhes laivos de inocência onde nenhuma existe, ou apontando culpas óbvias que não o são assim tanto, afinal. Claro que no cerne de tudo isto está Will, com toda a sua absurda mestria em guardar segredos e em construir histórias para os preservar. Mas ninguém é apenas o que parece: nem as amizades são perfeitas, nem os inocentes são assim tão ingénuos, nem os culpados são os que mais parecem querer assumir-se como tal. Tudo é mistério, em suma. E, por isso, tudo surpreende.
E assim, a imagem que fica é a de um livro onde nada nem ninguém é exactamente o que parece ser, e em que cada segredo é apenas a porta de entrada para novos e mais intrigantes mistérios. Enigmático e intrigante, um livro cheio de surpresas. Muito bom. 

Título: Os Falsários
Autor: Bradford Morrow
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Porto Editora

Numa noite, Soledad contrata um gigolô para que a acompanhe a um espectáculo de ópera, um ardil, na verdade, que não é mais do que uma tentativa de provocação a um ex-amante. No entanto, um violento e imprevisível incidente alterará por completo o curso daquela noite e marcará o início, entre ambos, de uma relação vulcânica, inquietante, e talvez perigosa. Ela tem sessenta anos; o gigolô, trinta e dois. Começa o jogo...
A narração desta aventura irá mesclar-se com as histórias dos escritores malditos da exposição que Soledad se encontra a preparar para a Biblioteca Nacional – e ser maldito é «desejarmos ser como os outros mas não conseguirmos, querer que nos amem mas só causarmos medo, talvez riso, não suportarmos a vida e, sobretudo, não nos suportarmos a nós próprios».
Como a própria Soledad, talvez?
Devorar ou ser devorado: A Carne é um romance audaz e surpreendente, o mais livre e pessoal de todos os que Rosa Montero já escreveu, que nos fala do passar dos anos, do medo da morte, da necessidade de amar e da gloriosa tirania do sexo. Tudo através da voz de uma eterna sedutora, apanhada de surpresa pelo seu próprio envelhecimento.

Rosa Montero nasceu em Madrid em 1951 e estudou Jornalismo e Psicologia. Desde 1976 que colabora em exclusivo com o jornal El País, tendo obtido em 1980 o Prémio Nacional de Jornalismo e em 2005 o Prémio Rodríguez Santamaría de Jornalismo. Figura central da literatura espanhola contemporânea, a sua vasta obra de romancista está traduzida nas mais diversas línguas. Com A Louca da Casa recebeu o Prémio Grinzane Cavour de literatura estrangeira e o Prémio Qué Leer para o melhor livro espanhol, distinção que também lhe foi atribuída, em 2006, por História do Rei Transparente.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

The Dark Sea War Chronicles - Fighting the Silent (Bruno Martins Soares)

Após um incidente que marcaria todas as suas escolhas, Byllard Iddo escolheu a vida militar como única forma possível de encontrar alguma paz. Mas agora, com uma guerra prestes a rebentar, e um inimigo mais capaz e mais preparado do que alguma vez poderiam esperado, o papel de Byl está prestes a tornar-se mais relevante do que ele alguma vez poderia prever. Mas o que começou como uma missão razoavelmente calma está prestes a transformar-se em caos: um caos que não se estende apenas às forças em guerra, mas às próprias relações no caminho de Byl. Pois numa guerra ninguém está seguro - e cada decisão pode ser de vida ou morte.
Primeiro (e relativamente breve) volume de uma série que promete ter ainda muito mais para dar, dificilmente se poderia pedir um início mais promissor. Entrando directamente num ritmo de acção alucinante, apresenta um cenário complexo e cheio de peculiaridades - desde as características das naves aos sistemas de combate e não esquecendo, é claro, as diferenças entre as várias forças em colisão - sem nunca perder de vista o ritmo compulsivo a que os acontecimentos se desenrolam. E sendo um primeiro volume - e, claro, o início da guerra - deixa também muitas possibilidades em aberto, o que, além de tornar a leitura compulsiva, deixa uma enorme vontade de descobrir o que acontecerá a seguir - de preferência, o mais cedo possível.
Mas bem, sendo uma história de guerra espacial, uma boa medida de acção era de esperar. O que já não era tão expectável - e que é, talvez, a maior surpresa de todas - é o lado emocional e a forte empatia que se sente para com as personagens. Sendo um livro tão breve, não há espaço para grandes reminiscências e, porém, tudo o que no passado moldou as personagens está lá. Além disso, o caminho de ascensão e perda (em ciclos sucessivos) que parece pautar a jornada de Byl consegue proporcionar momentos de uma intensidade fascinante. Até porque, no caminho das personagens (e não, isto não se aplica só a Byl) há todo um desenrolar de crueldades imprevistas - o que torna tudo muito mais marcante.
E tudo flui com naturalidade, o que, num livro onde tudo é novo, é um traço particularmente pertinente. As naves são estranhas, as forças em conflito são estranhas, as próprias hierarquias são algo de relativamente desconhecido - e, porém, tudo encaixa perfeitamente no ritmo da narrativa. É fácil entrar na história e acompanhar as personagens ao longo de todas as dificuldades. Na verdade, difícil mesmo é sair - principalmente tendo em conta as muitas possibilidades que ficam em aberto para o volume seguinte.
A impressão que fica dificilmente podia ser melhor. Intenso e viciante desde as primeiras às últimas linhas, conjuga um cenário complexo e cheio de particularidades com um enredo de acção constante e protagonizado por um núcleo de personagens fascinantes. A soma das partes é, claro, um início brilhante, que recomendo sem reservas. Genial.

Título: The Dark Sea War Chronicles - Fighting the Silent
Autor: Bruno Martins Soares
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Presença

Adam Haslett
Coleção: Grandes Narrativas no 674
Tema: Ficção e Literatura
Título Original: Imagine me Gone
Tradução: Manuel Alberto Vieira
ISBN: 978-972-23-6090-6 
Páginas: 368

Quando John, noivo de Margaret, é hospitalizado devido a uma depressão profunda, ela vê -se perante um dilema: avançar com os planos de casamento ou suspendê-los? Margaret decide casar. Esta história inesquecível desenrola-se a partir desse ato de amor. No centro da narrativa está o filho mais velho do casal , Michael, um jovem brilhante e apaixonado por música, mas atormentado por ansiedades e comportamentos disfuncionais. Ao longo de quatro décadas, os irmãos mais novos, Celia e Alec, lutam ao lado da mãe para cuidar da existência cada vez mais preocupante e precária de Michael. Alternando os pontos de vista de cada um dos protagonistas, este romance comovente, por vezes espirituoso, dá vida ao amor de uma mãe pelos filhos, à incontornável dedicação dos irmãos, às implicações do sofrimento de um pai no seio familiar. E não esquece uma derradeira questão: até onde podemos ir para salvar quem mais amamos? Combinando uma capacidade magistral de observação com um profundo sentido de humanismo, Adam Haslett revela ser um dos mais vibrantes romancistas americanos da actualidade.

Adam Haslett nasceu em 1970, em Port Chester, estado de Nova Iorque. É autor da colectânea de contos You Are Not a Stranger Here, bestseller do New York Times e finalista do Prémio Pulitzer e do National Book Award. É também autor do romance Union Atlantic, vencedor do Lambda Literary Award. Os seus livros estão traduzidos em dezoito línguas. Tem colaborado em diversas publicações, tais como New Yorker, Esquire, Financial Times e Der Spiegel. Imagina Que Não Estou Aqui foi considerado um dos romances do ano por diversos jornais e revistas como a Time, Wall Street Journal, Huffington Post, Elle, Buzzfeed, e distinguido com o L.A. Times Book Award. Foi finalista de vários prémios: Pulitzer de Ficção, National Book Critics Circle Award , Kirkus Prize, Carnegie Medal, tendo ainda sido nomeado para o National Book Award.

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