terça-feira, 15 de agosto de 2017

A Mulher Desaparecida (Sara Blædel)

Agora que o passado de Louise finalmente ficou para trás, ela e Eik parecem estar a construir uma relação mais sólida. Mas tudo muda no dia em que, se dar qualquer explicação, Eik desaparece subitamente. Pouco depois, descobrem que foi detido em Inglaterra enquanto tentava invadir a casa onde uma mulher foi assassinada. Tudo começa a fazer sentido quando descobrem que a morta é Sofie Parker, a namorada que Eik deu como desaparecida dezoito anos antes. Mas saber quem ela é não desvenda quem a matou. E, se o comportamento de Eik é, no mínimo, suspeito, então cabe a Louise descobrir a verdade.
Centrado essencialmente num caso com ligações ao passado, mas não se cingindo a elas, este é um livro que surpreende, em primeiro lugar, por ser possivelmente o mais leve dos três. E isto é inesperado, em primeiro lugar, pelas circunstâncias misteriosas do passado, já que o desaparecimento de Sofie deixou marcas poderosas em Eik, mas também pelo tema complexo que emerge das pistas que vão sendo descobertas. Ainda que seja o caso o cerne da narrativa, há grandes ligações à vida pessoal das personagens e, assim sendo, surpreende, até certo ponto, a forma como estes laços vão ficando para segundo plano.
Ora, isto deixa alguns sentimentos ambíguos, pois, se as descobertas iniciais abalam a relação de Louise e Eik, a forma rápida como tudo se resolve deixa uma certa curiosidade insatisfeita. Teria sido interessante ver um pouco mais da forma como Louise lida com as questões privadas, até porque a situação com Eik não é o único problema pessoal que Louise tem nas mãos. Ainda assim, tendo em conta a evolução do caso, faz algum sentido que estes aspectos tenham ficado um pouco para trás.
O que me leva ao grande ponto forte deste livro: as motivações do caso. Há na história de Sofie Parker, no passado e nas acções a que este passado a motivou, uma teia interessantíssima de questões pertinentes, não só quanto à viabilidade das suas escolhas como no que diz respeito às questões éticas subjacentes. E a forma como a autora aborda o tema, tendo o cuidado de realçar, ao longo do caso, pontos de vista divergentes, faz com que tudo pareça bastante mais realista - ainda que fiquem algumas perguntas sem resposta.
E depois há a escrita, claro, e a forma como a autora consegue entrelaçar pequenos fragmentos do passado com o enredo do presente, de modo a apresentar uma perspectiva mais clara das motivações de Sofie. Estão nesses pequenos momentos alguns dos episódios mais marcantes de todo o enredo e vê-los de uma perspectiva diferente torna o impacto da história um pouco maior.
Tudo somado, fica a imagem de uma narrativa inesperadamente leve e centrada principalmente no caso a investigar, mas em que a complexidade do tema e os vislumbres de uma vida pessoal para lá do mistério tornam tudo mais intenso e intrigante. Mais uma boa leitura, portanto, numa série que vale a pena descobrir.

Título: A Mulher Desaparecida
Autora: Sara Blædel
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

A Serpente do Essex (Sarah Perry)

Cora Seaborne acaba de perder o marido e o que sente em nada corresponde ao que as convenções ditam que devia sentir. Pela primeira vez, sente-se livre de viver como julga melhor e de explorar a sua paixão pelo passado. Quando ouve pela primeira vez a história da serpente do Essex, um monstro que, aparentemente, deambula pelo estuário do Blackwater, Cora sabe que tem de investigar, pois julga ter ali a sua oportunidade de encontrar um fóssil vivo e conquistar o seu lugar na história. O que não sabe é que o que a espera em Aldwinter é algo de diferente. Aí, encontrará a mais invulgar das amizades na figura do reverendo William Ransome. E esse afecto abrirá caminho a todas as respostas - e a mudanças que nenhum deles sabe explicar.
Ainda que Cora Seaborne pareça ser o ponto para que todas as linhas do enredo convergem, uma das primeiras coisas a chamar a atenção neste livro é que, mais que uma única protagonista, há um conjunto de personagens igualmente relevantes que, no seu conjunto, dão forma a uma narrativa complexa e sempre intrigante. Até a própria serpente do Essex pode ser vista como uma personagem, tal é a forma como influencia o comportamento de todos os que conhecem a história. E isto, este núcleo de figuras centrais cujas relações e interdependências dão forma a um percurso cheio de estranhas descobertas, faz parte do que torna todo este enredo tão fascinante.
Claro que, tendo isto em vista, a narrativa flui a um ritmo relativamente pausado, não só pela necessidade de acompanhar várias personagens, mas também devido ao próprio ritmo do mistério. A influência das coisas e das pessoas é algo que se manifesta gradualmente e conhecer as personagens e o que as move é crucial para a compreensão desta influência. Mas, há algo mais nessa relativa lentidão, algo que parece reforçar a percepção do ambiente. É que a vida em Aldwinter, em oposição, por exemplo, às experiências de algumas das personagens em Londres, é também ela de relativa tranquilidade - excepto no que toca à serpente, claro. E, assim sendo, este ritmo brando da passagem do tempo acaba por fazer todo o sentido, pois é esse o ritmo a que as personagens se movem.
Mas há ainda um outro aspecto que sobressai e a forma como a autora constrói a narrativa realça bem esta característica. Mais do que a história de uma misteriosa serpente, este livro fala, acima de tudo, de pessoas. Pessoas que amam e odeiam, que alimentam esperanças e sofrem com os seus medos, que crêem ou questionam e que, perante os mistérios da vida, se assumem também como os seus próprios mistérios. E assim, ninguém se revela por completo a não ser na complexa interacção com os outros. Interacção essa que é a verdadeira magia num enredo todo ele cheio de mistérios.
Da soma de tudo isto, resulta um livro pausado, mas sempre cativante, em que os verdadeiros mistérios não vêm de uma serpente monstruosa, mas das almas que o medo e a esperança parecem moldar a cada nova descoberta. Complexo, marcante e com uma escrita belíssima, um livro memorável de uma autora a seguir.

Título: A Serpente do Essex
Autora: Sarah Perry
Origem: Recebido para crítica

domingo, 13 de agosto de 2017

A Espada do Destino (Andrzej Sapkowski)

Enquanto bruxo, Geralt de Rivia é tido como um simples caçador de monstros, menos que humano e desprovido de sentimentos. Mas a verdade nunca é assim tão simples e Geralt é movido por um código que que impõe grandes limites morais aos monstros que está disposto a perseguir. E, a cada aventura, a morte segue-o, passo a passo, mas Geralt recusa-se a olhar para trás. Percorrendo o mundo sem destino, enquanto o seu destino o aguarda...
Tal como já acontecia no livro anterior, esta não é propriamente a narrativa de uma aventura com princípio, meio e fim, mas um conjunto de histórias em que a intervenção de Geralt, ou o seu próprio percurso pessoal, mudam o rumo das coisas. E, também à semelhança do livro anterior, mas agora de forma mais evidente, cada uma destas histórias parece querer abrir caminho para o que virá a ser uma história maior - a da predestinação de Geralt, que não acredita na predestinação. Ora, o que torna interessante este conjunto é precisamente isso: a sensação do muito potencial que ainda está para vir, conjugada com um conjunto de aventuras que são também muito cativantes. Como que uma janela para conhecer melhor personagens que têm um grande papel pela frente.
E, falando em personagens, claro que quem mais fascina em tudo isto continua a ser Geralt, com a sua natureza de bruxo - e o que dela os outros pensam - a contrapor-se ao que as acções realmente demonstram e a uma verdade que é maior do que a crença de quem observa. Geralt é um mistério, um enigma por natureza - e, porém, há tanto nos seus actos de espantosamente humano (no melhor sentido da palavra) que é difícil não querer saber que mais coisas o esperam no seu longo caminho. 
O que me leva às histórias e à forma como, apesar de continuar presente a impressão de que a maior parte deste mundo permanece por revelar, cada um destes episódios permite ficar a conhecer melhor as personagens, os traços distintivos dos diferentes seres e também o mundo e o contexto em que se movem. Além, é claro, de proporcionarem belos momentos de leitura, com os seus momentos intensos, divertidos ou até comoventes. 
Ah, e há pequenas coisas... Na forma como a história está escrita, na visão que algumas personagens têm das outras e na própria percepção que Geralt tem de si mesmo estão presentes pequenas grandes questões que, transpostas para a realidade, dão muito material para reflexão. Porque é que os bruxos, por serem bruxos, não têm sentimentos? Porque é que todos os ananicos são iguais? E será mesmo assim, ou o preconceito está na mente de quem os observa? Há muitas questões relevantes escondidas neste mundo de fantasia, e é também isso que torna a leitura marcante.
Tudo somado, a impressão que fica é, mais uma vez, a de uma introdução a uma história que promete ser muito mais vasta. Mas também a de um conjunto de aventuras cativantes, com um protagonista forte e memorável e um mundo tão cheio de potencial como as personagens que nele se movem. Vale a pena conhecer Geralt de Rivia. Vale mesmo muito a pena. 

Autor: Andrzej Sapkowski
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Don't Close Your Eyes (Holly Seddon)

Robin e Sarah são gémeas, mas não podiam ser mais diferentes. Quando eram pequenas, Sarah era a boa menina e Robin a rebelde. Agora, Sarah fez algo terrível e não sabe para onde se virar. E Robin vive isolada em sua casa, a dormir debaixo da cama e com medo de sair à rua. Em comum, têm um passado que lhes perturbou os sonhos, afastou-as de várias maneiras… e moldou-as nas mulheres que agora são. E agora, precisam de ultrapassar isso, se têm alguma esperança de resolver a confusão em que as suas vidas se tornaram.
Narrado a partir de vários pontos de vista e oscilando entre o passado e o presente, este é um livro que tem na aura de mistério a sua maior força. Primeiro, porque todas as verdades, presentes e passadas, são reveladas gradualmente e, assim, o impacto de cada uma dessas verdades muda a percepção de tudo o que se segue. E também porque altera a perspetiva de quem são as protagonistas e do quanto cresceram.
Também intrigante é o facto não haver nenhum grande crime ou investigação na narrativa. A história concentra-se na vida das protagonistas – e, sim, principalmente nas coisas más que as mudaram – mas os grandes segredos, as revelações mais importantes, não vêm de nenhum crime sinistro, mas mais do impacto do passado sobre o presente. E isto é uma boa surpresa, porque a força da história vem de como as personagens são – e, assim, as muitas revelações ao longo do caminho convergem numa evolução diferente.
Há muitos fios (principalmente do passado das gémeas) a convergir nesta história, sendo esta talvez a razão do seu início pausado. Porém, à medida que elas se dão a conhecer, o ritmo intensifica-se e as últimas páginas são simplesmente viciantes. Vale a pena o avanço lento pelas primeiras pistas para descobrir as verdades por detrás das vidas conturbadas de Sarah e Robin. E, ainda que algumas das personagens não sejam propriamente fáceis de entender (e outras sejam simplesmente odiosas), elas servem um propósito na forma como moldam a vida das gémeas – e, assim, contribuem também para o forte impacto da surpreendente conclusão.
Intrigante, intenso e cheio de surpresas, trata-se, portanto, de um livro que leva o seu tempo a alcançar o passado. Mas, com uma boa história, personagens fortes, mas falíveis, e uma intensidade que cresce até ao fim, é também um livro que não desilude. Uma boa leitura, em suma.

Título: Don’t Close Your Eyes
Autora: Holly Seddon
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Marta (PJ Vulter)

Há vinte anos, uma onda levou a vida de Marta... mas o seu fantasma ficou. Agora, espera-se da sua irmã mais nova, Teresa, que seja tudo o que Marta não foi, e essa expectativa faz com que todos os olhares da vila estejam presos nela. Vivem-se tempos conturbados, pois a mudança que afectou outros países começa a querer fazer-se sentir também em Portugal, mas a mão do regime é pesada para aqueles que o ousam desafiar. Ainda assim, Teresa aspira a algo diferente da prisão do casamento arranjado que a espera em Peixelim, e, com a ajuda dos primos, espera alcançar o sonho de uma vida livre noutro lugar. Mas há grandes segredos no passado da sua família e os únicos que podem realmente ajudá-la têm também problemas seus a resolver...
História de segredos familiares em tempos de "moral e bons costumes", um dos primeiros aspectos a cativar neste livro é Marta. Marta, que apesar de dar nome ao livro, não é propriamente a sua protagonista, mas antes o nome do passado que influencia todas as personagens mais relevantes. E isto é interessante por duas razões: primeiro, pela forma como a história de Marta influencia todo o percurso das restantes personagens. E, segundo, pela forma como essa mesma história é contada, prolongando o mistério até às últimas páginas e insinuando possibilidades que só mesmo no fim serão confirmadas ou desmentidas.
Claro que também há uma contrapartida: é que a história de Marta é tão interessante como a de Teresa e dos seus aliados. E, ao ser contada numa retrospectiva relativamente breve, deixa uma certa impressão de que mais haveria para dizer. Seria interessante conhecer as emoções e apreensões de Marta da mesma forma que as de Teresa são desenvolvidas, o que acaba por deixar alguma curiosidade insatisfeita. Ainda assim, o essencial da história está lá e, quanto à influência que esta exerce nos restantes... bem, dificilmente poderia ser maior.
Há ainda um outro aspecto que se destaca: a forma como o que parece ser apenas um caso familiar, ainda que de contornos invulgarmente complexos, se entrelaça, com o desenrolar dos acontecimentos, nas acções subversivas e de resistência ao regime em que várias personagens parecem estar envolvidas. Ora, isto é interessante, desde logo, porque acrescenta um lado mais duro à imagem inicial de uma adesão severa às normais sociais. Mas também tem outro efeito curioso: é que há personagens que, vistas à luz dos seus comportamentos, despertam tudo menos empatia - mas que, nos momentos complicados, acabam por revelar uma nova faceta. Faceta essa que não os absolve, mas que, de certa forma, realça a sua humanidade, mostrando-os como algo mais do que simples vilões.
Tudo somado, fica a impressão de um livro relativamente breve, mas muito cativante na sua teia de mistérios. Intrigante, surpreendente e bastante emotivo, podia ser talvez um bocadinho mais longo, mas não deixa por isso de ser uma boa leitura. 

Título: Marta
Autor: PJ Vulter
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Amor às Claras (Laura Kaye)

Desde que se conheceram no elevador que a proximidade entre Caden e Makenna não parou de crescer. Mas os fantasmas do passado continuam a pesar sobre os ombros de Caden e, quando o encontro com a família de Makenna traz consigo um antigo namorado dela, Caden sente as suas inseguranças reforçadas. No fundo, sabe que os traumas nunca desapareceram realmente e a existência de um outro homem, resolvido e bem-sucedido, no passado de Makenna, leva-o a perguntar-se se ela não merecerá mais. E com esta pergunta vêm outras - e uma espiral cada vez mais sombria de pensamentos negativos, que Caden terá de ultrapassar se não quiser perder o melhor que alguma vez lhe aconteceu. 
Relativamente breve e, à semelhança do livro anterior, centrado fundamentalmente no percurso emocional dos protagonistas, este é um livro que surpreende, em primeiro lugar, pela notável evolução em termos de desenvolvimento das personagens. É verdade que já havia muita emoção e empatia em Corações na Escuridão, mas é aqui que a verdadeira alma das personagens se revela, num percurso emocionalmente atribulado e cheio de momentos marcantes. Pois, se a relação entre Caden e Makenna continua a ser o cerne do enredo, neste segundo volume é possível ver muito mais do que eles são enquanto entidades individuais - e, particularmente no caso de Caden, essa identidade é muito mais complexa do que à primeira vista seria de esperar. 
A própria premissa deste segundo livro é, em si, muito cativante, pois, se o fim de Corações na Escuridão poderia facilmente funcionar como um final positivo, este expandir da história torna tudo muito mais realista. Caden tem um passado que deixou marcas e isso é algo com que ambos precisam de lidar. E a forma como a autora traça esse caminho permite uma visão mais natural de toda a história, dificuldades e obstáculos incluídos.
E, claro, tudo isto gera emoções fortes, seja perante uma decisão errada, um duro caminho rumo à redenção ou pura e simplesmente um momento de afecto que atenua todas as tribulações. Há momentos na história que são simplesmente memoráveis, e isso aplica-se tanto aos grandes pontos de viragem como aos pequenos instantes de paz ou de inesperada descoberta. No fundo, há muito nesta história que comove - e é isso precisamente que a faz gravar-se na memória.
Cativante, emotivo e enternecedor em todos os momentos certos, trata-se, portanto, de um livro que nada perde com a relativa brevidade. Com uma escrita envolvente, personagens marcantes e uma belíssima história de superação pessoal, supera amplamente todas as expectativas. Muito bom. 

Título: Amor às Claras
Autora: Laura Kaye
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Domina (L. S. Hilton)

Judith Rashleigh julga ter deixado o passado para trás. Sob um nome falso, construiu uma nova identidade enquanto galerista e está a viver a vida que sempre esperou conseguir conquistar em Veneza. Mas o passado não parece querer ficar para trás e as pontas soltas que Judith deixou põem-na de novo em risco. Alguém sabe o que ela fez e quer acertar contas com ela. E o que começa com alguns objectos mudados de posição não tarda a transformar-se numa teia de intriga e morte com graves consequências para todos os envolvidos.
Se uma das primeiras coisas a cativar em Maestra tinha sido a forma como a autora partira de um enredo erótico e sedutor, para depois fazer surgir uma narrativa bem mais sombria, o que acontece neste segundo volume é um elevar deste estranho equilíbrio a um novo nível de intriga e perigo. Claro que, tendo em conta os acontecimentos anteriores, não era propriamente de esperar que Judith se safasse assim tão facilmente, mas o que, em Maestra, era uma teia tecida ao ritmo da necessidade, ganha em Domina novos níveis de planeamento. E o resultado é uma história talvez um pouco mais pausada, mas mais complexa a nível de planos e de intrigas - e, claro, sem nunca perder de vista o equilíbrio entre mistério e sensualidade em que toda a história parece assentar.
Há também uma outra evolução curiosa em comparação com o livro anterior. Antes, Judith transformou-se de rapariga inocente em mulher sem escrúpulos, perdendo, pelo caminho, as suas facetas mais empáticas. Curiosamente, agora parece acontecer o contrário, pois, apesar de não ter limites no que toca a defender a sua posição, Judith começa a revelar partes de vulnerabilidade, que, apesar de todos os crimes e intrigas, permitem uma visão mais compreensiva do que a faz andar. Além disso, tendo em conta a forma como tudo termina neste segundo volume, esta estranha e crescente empatia contribui em muito para a imensa vontade que fica de saber o mais cedo possível o que acontecerá a Judith a seguir.
Mas voltando aos acontecimentos e ao tal equilíbrio entre sensualidade e mistério. Neste ponto da narrativa, não é propriamente surpreendente a capacidade de Judith de fazer seja o que for para defender a vida e o que nela julga mais importante. Mas, e mesmo sabendo disso, nunca deixam de surpreender os novos planos e acções que vai concebendo a partir de circunstâncias particularmente delicadas. E, sendo a história contada pela voz de Judith, este desenrolar de planos e subsequentes concretizações, abre caminho a um percurso cheio de surpresas e de momentos cada vez mais intensos - que culmina num final particularmente forte.
Ora, num mundo em que todos se movem principalmente segundo os seus próprios interesses, a verdade é que nenhuma das personagens é propriamente aquilo a que se poderia chamar uma "boa pessoa", o que faz com que a empatia leve algum tempo a construir. Ainda assim, o impacto dos grandes momentos e a inesperada evolução de Judith compensam amplamente esta distância inicial, deixando as melhores expectativas para o que poderá ser a conclusão desta história.
A impressão que fica é, pois, a de um segundo volume que, longe de ser apenas um livro de transição, traça uma muito interessante evolução para a sua protagonista e os meandros sombrios em que se move. Intenso, intrigante e cheio de surpresas, cativa desde muito cedo - e deixa muita, muita curiosidade em saber o que virá a seguir.

Título: Domina
Autora: L. S. Hilton
Origem: Recebido para crítica

Para mais informações sobre o livro Domina, clique aqui.

domingo, 6 de agosto de 2017

Florença Renascentista por Cinco Florins ao Dia (Charles FitzRoy)

Ano da graça de 1490. Sob a considerável influência de Lourenço, o Magnífico, Florença é uma cidade próspera e radiante, que transborda de obras de arte, de cultura, de edifícios monumentais... e que se sustenta numa teia de interesses e ambições capazes de mover o mundo. Ao visitante, aconselha-se cautela nos assuntos que aborda e no que ousa dizer sobre determinadas personagens e políticas do meio. Mas, desde que o faça, poderá desfrutar de uma cidade incomparável - principalmente se munido das muito úteis indicações deste guia.
Um dos primeiros aspectos a cativar neste livro - como, aliás, em toda a colecção - é a ideia de um guia turístico para um passado já distante. Claro que há coisas, principalmente no que toca a monumentos e obras de arte, que permanecem na actualidade, mas a ideia de vislumbrar, além do que ficou da Florença renascentista, o modo de vida e os hábitos dessa época, torna a premissa deste livro particularmente irresistível. 
De uma tão boa premissa, espera-se uma concretização à altura. E é exactamente isso que este livro oferece. Dividido entre diferentes aspectos - arte, religião, política, locais a visitar... - permite ficar com uma imagem bastante clara da Florença do ano de 1490 (com umas poucas e muito breves incursões ao futuro próximo) e da forma como se vivia nesse tempo. Além disso, à escrita precisa e acessível, que transporta o leitor para o tempo e para o local que descreve, junta-se um vasto conjunto de imagens que complementam o texto, contribuindo também para que tudo fique ainda mais claro e interessante.
Claro que, sendo uma época de prosperidade e de grandes vultos, surgem, ao longo do percurso, vários nomes que ficaram para a história, e é talvez, neste aspecto, que fica uma certa curiosidade insatisfeita. Só sobre Lourenço de Médicis haveria certamente mais a dizer, e são muitas mais as figuras relevantes. Mas, claro, não são eles o tema central deste livro e, por isso, faz sentido que o que deles é contado seja apenas o que um visitante atento precisaria de saber para se mover com segurança pela cidade. O resto, caberia a esse mesmo visitante descobrir - por sua conta e risco.
Tudo somado, fica a impressão de um guia original, que permite ao leitor a muito agradável sensação de ser um turista no passado, ao mesmo tempo que aprende mais sobre as figuras e obras essenciais desse tempo e lugar. Muito interessante e cativante, uma boa leitura.

Título: Florença Renascentista por Cinco Florins ao Dia
Autor: Charles FitzRoy
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Magarias (Amadú Dafé)

Magarias leva consigo os seus espíritos, que o seguiram quando um acto de desonra o obrigou a deixar para trás a sua terra e a deambular pelo mundo. Espíritos que o abandonarão também, na sequência de novas escolhas que o tornarão salvador de um povo cujos demónios ele mesmo ocultou e soberano dessa mesma gente posteriormente resgatada. Aí voltará a encontrar Sidjánia, testemunha do dia em que ele secou um rio, suma beldade e grande contadora de histórias. E, das histórias de ambos, nascerão novos feitos heróicos e acasos - ditados por espíritos secretos - capazes de dar forma a novas desonras...
Não é propriamente fácil falar deste livro, pelo menos no que ao enredo diz respeito, pois, se os protagonistas facilmente se identificam, já a linha das suas histórias e da forma como os seus percursos se entrelaçam é tudo menos linear. Ao longo do livro, há avanços e recuos temporais, acontecimentos cuja única explicação possível é o sobrenatural e mistérios e relações que permitem várias interpretações. E, assim, a primeira impressão é de perplexidade, de uma estranheza que se prolonga ao longo de todo o livro e que, ainda que assente num ritmo muito próprio, deixa, ainda assim, mistérios por desvendar.
Trata-se de um livro surpreendentemente complexo, principalmente tendo em conta as suas pouco mais de cento e trinta páginas. E o mais curioso é que, apesar de toda esta estranheza e de todas as peculiaridades inerentes a história, personagens e contexto geral, também o ritmo da narrativa acaba por se tornar estranhamente cativante. Parecendo fluir ao ritmo da memória - ou da inspiração de um contador de histórias - o enredo avança e recua entre tempos, lugares e pensamentos. Mas há algo de fascinante neste desvelar de memórias e, principalmente, nos momentos inesperadamente marcantes que, aos poucos, emergem da estranheza dos costumes. E é isso, principalmente, que fica na memória: a de um mundo inevitavelmente estranho, mas onde os sentimentos essenciais acabam por ser os mesmos.
Não é propriamente uma leitura compulsiva, pois os muitos pormenores invulgares, bem como as mudanças que parecem percorrer a vida das personagens, exigem tempo e concentração para serem assimiladas. Ainda assim, a leitura nunca deixa de cativar, em parte pela aura de mistério que resulta de toda a estranheza envolvente, mas principalmente porque, à medida que as personagens se tornam familiares, aumenta a curiosidade em saber mais.
Breve, mas estranhamente fascinante e de inesperada complexidade, trata-se, portanto, de um livro surpreendente, em que os enigmas das personagens parecem moldar o caminho de um mundo igualmente misterioso. Intrigante e invulgar, uma boa surpresa. 

Título: Magarias
Autor: Amadú Dafé
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

As Aventuras de Pinóquio (Carlo Collodi)

Tudo começa quando o velho Geppetto decide fazer um boneco capaz de dançar e de dar piruetas com o qual possa ganhar a vida. E começa porque o pedaço de madeira que usa para o esculpir é bastante... especial. Mal acaba de esculpir o boneco e logo este sai de casa a correr e a fazer traquinices. Mas Geppetto ama o boneco como a um filho e, por isso, não basta a primeira tropelia para o demover dos seus afectos. Só que Pinóquio não é apenas um boneco irrequieto - é também mandrião, pouco aplicado e facilmente se deixa influenciar pelas más companhias. E, por isso, apesar do seu bom coração, os sarilhos sucedem-se... e Pinóquio dá por si, uma e outra vez, arrependido... mas pronto a cair numa nova tentação.
Não é necessário, à partida, dizer muito sobre esta história - e, principalmente, sobre este curioso protagonista - para o fazer lembrar a leitores de todas as idades. Todos conhecemos o Pinóquio, numa ou noutra versão. Mas, se olharmos para a versão da história com que crescemos... bem, talvez não seja bem a original, pois não? É esta a primeira ideia a sobressair desta leitura - a de que, com o passar do tempo e as múltiplas versões, a história de Pinóquio foi sendo moldada e reajustada, ao ponto de certas partes da história não serem assim tão fáceis de reconhecer.
Mas, seja qual for a versão da história que conhecemos, é fácil identificar os traços característicos do pequeno Pinóquio: a traquinice, a tendência para se deixar levar por maus caminhos, a teimosia. Ah, claro, e o nariz que cresce com as mentiras. E descobrir a história na base das mil e uma adaptações permite também uma nova perspectiva da história. O Pinóquio de Collodi pode ter, no fundo, bom coração, mas também consegue ser bastante cruel e as consequências das suas escolhas são também, por vezes, bastante duras. Talvez por isso, a lição subjacente às suas aventuras saia muito mais vincada desta versão original do que de qualquer das versões mais leves da história.
E, bem, as lições de moral são mais que evidentes. Mas a história é muito mais do que isso. É um conjunto de aventuras empolgantes e caricatas, em que muitos dos acontecimentos podem - aos olhos de um leitor adulto - parecer altamente improváveis, mas não deixam por isso de ser deliciosamente cativantes. E, num livro onde tudo parece igualmente estranho e maravilhoso, as aventuras de Pinóquio, conseguem, na sua inocência e rebeldia, acordar sorrisos e gargalhadas, comover nos momentos certos e, enfim, fazer lembrar tempos mais inocentes, sem perder de vista que tudo na vida tem consequências.
Tudo somado, a impressão que fica desta leitura é a de um regresso a uma história conhecida - que é também uma revelação, pois há partes da história que não são assim tão familiares. E esta mistura entre o novo e o semelhante, aliada ao simples facto de se ter nas mãos uma boa história, torna ainda mais cativante esta tão divertida aventura. Improvável, mas estranhamente delicioso, um óptimo livro para leitores de todas as idades.

Título: As Aventuras de Pinóquio
Autor: Carlo Collodi
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Amarga como Vinagre (Anne Tyler)

Kate Battista sabe que não está a viver a vida que imaginava, mas, sem se dar conta, deu por si a tomar conta da casa para o pai e a irmã mais nova. E, como se não bastasse, agora o pai tem planos para ela. É que o projecto de investigação do doutor Battista, que se prolonga há anos, parece estar no limiar de uma grande descoberta. Ou então de um grande impasse, pois Pyotr, o seu assistente, está em vias de ser deportado e a única forma de resolver o problema é que Kate aceite casar com ele. Confrontada com o que lhe parece ser a humilhação final, Kate não se sente propriamente disposta a ceder à vontade dos dois homens. Mas, quando a persistência cansa e as vulnerabilidades se tornam óbvias, Kate começa a pensar seriamente na hipótese. Afinal, é só temporário. Ou não?
Apesar de ser uma recriação contemporânea de A Fera Amansada, de William Shakespeare, esta é uma história com vida própria - ou seja, que se acompanha facilmente sem ter de pensar nas relações associadas à peça que lhe serviu de inspiração. E, com tempos e contextos tão diferentes, é preciso considerá-la enquanto tal, já que a ideia de um pai que tenta forçar um casamento para a sua filha é agora vista de forma diferente. 
É, aliás, este mesmo ponto que começa por gerar sentimentos ambíguos, já que, entre o pai distraído que só se lembra da filha para a casar com o assistente, o dito assistente, cujas dificuldades linguísticas parecem esconder uma intenção de dominar e a posição de Kate, de uma recusa pouco segura, é, por vezes, difícil compreender a posição das personagens. Assim, o que cativa no início é mais o caricato da situação, já que as personagens não despertam assim tanta empatia. 
Mas, claro, com o avanço da narrativa, algumas destas percepções mudam. Continuam os episódios constrangedores, os comportamentos difíceis por parte de algumas personagens. Mas, à medida que as vulnerabilidades ocultas começam a revelar-se, que as cedências de parte a parte começam a insinuar-se no enredo, as personagens começam a tornar-se mais cativantes - ainda que nunca chegue a ser fácil compreendê-las. E ainda que a brevidade deixe a sensação de que mais haveria a dizer sobre elas, no fim, fica a recordação de bastantes sorrisos ao longo da leitura - e isso é uma das melhores coisas que um livro pode proporcionar.
Quanto ao enredo em si... bem, divertida seria uma boa palavra para definir esta sequência de episódios caricatos que oscilam entre as discussões ferozes, as trapalhadas mais ou menos acidentais e os pequenos grandes momentos de afecto que fazem com que tudo ganhe uma nova perspectiva. Tudo isto num registo sempre envolvente e em que é, às vezes, nas pequenas coisas que surgem os laivos de maior impacto.
Leve, cativante e muito agradável de se ler, trata-se, portanto, de um livro em que, da estranheza das personagens e da peculiaridade das suas circunstâncias, surge um olhar inesperadamente doce sobre as relações familiares - e como o afecto pode manifestar-se das mais variadas formas. Gostei. 

Título: Amarga como Vinagre
Autora: Anne Tyler
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 31 de julho de 2017

A Mulher do Camarote 10 (Ruth Ware)

Recentemente assaltada no seu apartamento, Laura Blacklock está bastante fragilizada, mas sabe que não pode deixar passar o que pode muito bem ser a grande oportunidade da sua carreira. A sua chefe está doente e, por isso, Lo foi convidada a ocupar o seu lugar na viagem inaugural de um cruzeiro de luxo. O que ela não sabe é que essa viagem lhe vai mudar a vida - e não da forma que imagina. Pois, quando, durante a noite, ouve o som de um corpo a ser deitado borda fora, Lo lembra-se do medo que sentiu durante o assalto e sabe que não pode simplesmente largar o assunto. Mesmo quando todos lhe dizem que não desapareceu ninguém e as pistas que tem são muito escassas...
Um pouco à semelhança do que acontece em Numa Floresta Muito Escura, uma das primeiras coisas a despertar curiosidade para este livro é a forma como a autora constrói para a sua protagonista um estado mental capaz de suscitar dúvidas. Dúvidas que se estendem não só às personagens que a rodeiam, mas ao próprio leitor, já que as circunstâncias de Laura, e a forma como são narradas, faz, por vezes, questionar a fiabilidade da sua história. E, claro, a explicação nunca é tão simples como o facto de a protagonista ter enlouquecido. Há sempre realmente algum mistério, ainda que nunca seja o que a protagonista imaginou inicialmente. E no caso de Lo, e da situação em que voluntariamente se envolveu, nunca nada é o que parece: nem os aliados, nem os inimigos, nem a própria vítima, o que faz com que cada revelação tenha mais impacto.
Claro que toda esta aura de mistério tem o efeito inevitável de querer saber mais: se houve ou não houve um corpo deitado borda fora; se sim, quem foi o responsável e quem são os possíveis cúmplices; quem é a misteriosa rapariga do camarote 10; e será que as teorias de Lo fazem, afinal, algum sentido? Há sempre uma pergunta em aberto e, quando a resposta surge, além de nunca ser a que se esperava, surge também uma nova pergunta na sequência da revelação. O resultado é uma leitura intensa, viciante e cheia de surpresas, do início ao fim.
Mas há ainda um outro aspecto a sobressair nesta história. Ainda que o enredo se centre, naturalmente, no que se passa a bordo do Aurora, há mais na história do que o mistério a responder. Por um lado, há a história pessoal de Lo, com o trauma do assalto e as relações passadas a moldar a sua forma de agir. E por outro, há o facto de a história se expandir para lá da simples revelação do culpado: as coisas não acabam por se saber quem matou... principalmente se essa pessoa puder voltar a matar. E, mais ainda que a surpresa de conhecer a identidade dos responsáveis, é a luta final pela sobrevivência que confere à fase final do enredo um ritmo simplesmente viciante.
Somadas todas as partes, fica a imagem de um livro empolgante, intenso, com personagens fortes e um enredo cheio de surpresas. Uma viagem misteriosa e fascinante que prende desde a primeira à última página. Recomendo. 

Título: A Mulher do Camarote 10
Autora: Ruth Ware
Origem: Recebido para crítica

Vencedor do passatempo Maresia e Fortuna

E terminou mais um passatempo. Agora, como sempre, é tempo de anunciar quem vai receber um exemplar do livro Maresia e Fortuna.

E o vencedor é...

22. Dália Antunes (Algueirão)

Parabéns e boas leituras!

sábado, 29 de julho de 2017

A Baleia que Engoliu um Espanhol (Marco Neves)

Acaba de começar o novo ano e ainda se ouve o barulho das comemorações quando Duarte recebe a chamada de um amigo do seu avô. O motivo da chamada é um misterioso envelope que o avô lhe deixou, a ser entregue apenas no ano de 2017. E, com tanta curiosidade como o portador da estranha mensagem, Duarte não hesita em deixar tudo para trás e rumar ao Baleal, onde o aguarda o misterioso envelope, com uma chave e um mapa no seu interior. Ora, chave e mapa são apenas a primeira pista para o que consta ser a localização de um tesouro que motivou muitas histórias. E é nessas histórias que estão as pistas para a verdade do estranho tesouro: histórias de amores proibidos, de nazis em fuga, de piratas e romanos e de uma baleia que engoliu um espanhol - que afinal era castelhano e não se sabe bem se foi ou não engolido.
Basta uma olhadela à sinopse deste livro para perceber que há muitas e estranhas histórias no seu interior. E, porém, o livro não chega às duzentas páginas. Estranho? Talvez um bocadinho e, por isso, talvez se espere encontrar histórias contadas à pressa, talvez com muitos aspectos deixados por explorar. Será? Não. Não é. E este é um dos grandes pontos fortes deste (relativamente) pequeno livro: é que, apesar da brevidade, tudo tem precisamente a medida certa. Não, não ficamos a conhecer a fundo a vida e os dilemas interiores das personagens, mas também não é propriamente esse o objectivo. É de uma aventura que se trata, afinal. Ah, e que aventura...
Continuando nos pontos fortes e nas muitas histórias que se entrelaçam nesta aventura, há um aspecto curioso que importa destacar. Num dos vários enredos construídos em torno do misterioso tesouro, um dos protagonistas é um monge que, qual Sherazade, utiliza as suas histórias para prender a atenção da sua amada, deixando sempre uma ponta para contar no dia seguinte. E, curiosamente, o autor faz várias vezes o mesmo neste livro, saltando entre os vários enredos para expandir a história do tesouro, ao mesmo tempo que deixa o leitor suspenso do que poderá ter acontecido àquela personagem em específico. Claro que a curiosidade é irresistível e as páginas vão passando quase sem se dar por elas, pois é preciso saber logo o que se segue. E assim a história flui ao ritmo do vício de se saber mais.
Mas ainda há mais a dizer. É que, além da forma de contar as histórias, também as próprias histórias têm muito de intrigante... e de peculiar... e, acima de tudo, de divertido! E, vistas como um todo, ao ritmo do percurso de Duarte na sua busca pelo tesouro, ganham ainda uma maior dimensão, pois criam uma teia de memórias que é, além de uma aventura muito intensa, uma viagem ao mundo da nostalgia. Quem não gostava de ouvir histórias em pequeno, afinal? Histórias como estas - tesouros, piratas, reis e as suas batalhas... - e outras que este livro acaba por fazer lembrar.
Ah, e quanto à história do tesouro? Bem, essa não posso contar, não é? Mas importa dizer isto: numa aventura onde tudo é, de alguma forma, surpreendente, também o final não podia deixar de o ser. E, mais do que isso, é também a conclusão mais adequada para esta história toda ela feita de histórias dentro de mais histórias.
Leve, breve, intenso e muito divertido: é este, portanto, o retrato que fica deste livro. Uma aventura que salta de história em história para nos lembrar que o maior dos tesouros nem sempre é aquele que mais brilha. Muito bom.

Título: A Baleia que Engoliu um Espanhol
Autor: Marco Neves
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 28 de julho de 2017

O Prodígio (Emma Donoghue)

Treinada por Florence Nightingale num tempo em que as boas práticas da enfermagem estavam muito longe de estar bem definidas, Lib Wright conquistou a reputação de enfermeira competente. É essa reputação, aliás, que faz com que lhe seja oferecido um trabalho no chamado centro morto da Irlanda. Mas basta-lhe chegar ao destino para perceber que o serviço a prestar não é nada do que Lib imaginava. Ao longo dos quinze dias seguintes, deverá, alternando turnos com uma freira, vigiar a pequena Anna, que afirma viver há quatro meses sem qualquer alimento. Todos ali parecem julgá-la um milagre, mas, céptica perante o que lhe é contado, Lib tem uma opinião bem diferente. Só pode tratar-se de uma fraude. E, decidida a desvendar a verdade, Lib observa a criança com olhos de águia, tomando notas da sua condição e assimilando o seu estranho fervor religioso - ao mesmo tempo que a dolorosa verdade começa a afirmar-se por si mesma: Anna começa a definhar. Mas, se assim é, o que aconteceu durante os outros quatro meses? O que se passa, afinal?
Centrado no que parece ser um facto prodigioso e dividido entre graus de crença e cepticismo, este é um livro em que, inevitavelmente, as complexidades da fé são um elemento crucial. À fé profunda e quase fanática dos O'Donnell opõe-se a visão muito mais prática de Lib. Mas a distância entre a fé e a descrença não é algo assim tão simples como escolher entre um pólo ou outro e entre Anna, a máxima crente, e Lib, a perfeita céptica, há vários graus de afirmação ou negação da fé. E este é, sem dúvida alguma, um dos pontos mais marcantes deste livro, já que o elevadíssimo fervor religioso de Anna, que, de início, parece ser a base de todas as coisas, acaba por revelar outras perspectivas - fazendo sobressair as diferenças entre uma fé ponderada e o fervor excessivo de uma interpretação literal dos ditames religiosos.
E este é apenas um dos vários temas complexos presentes nesta história. Há também o papel da mulher na sociedade da época, retratado na forma como Lib, enfermeira, é muitas vezes vista como inferior aos homens que a contrataram, bem como nas estranhas posições de algumas personagens face a certas revelações sombrias. E há ainda a pobreza geral em que todos os da região parecem viver e que os torna vulneráveis a influências externas, nem todas bem intencionadas. Tudo isto cria um ambiente complexo, delicado, cheio de questões pertinentes, e a mestria com que a autora entrelaça todos estes aspectos é algo de simplesmente fascinante.
O que me leva ao que é talvez o grande ponto forte num livro todo ele cheio de forças: o tom da narrativa. Escrita num registo bastante directo, em que grande parte do impacto das coisas é enfatizado pela acção ou pela descoberta, a história adquire um ritmo inesperadamente intenso e fá-lo desde muito cedo. Primeiro, o mistério do que se poderá passar com Anna prende a atenção. Depois, as sucessivas descobertas e possibilidades alimentam a necessidade de descobrir o que realmente se passa. E, a partir daqui, o impacto de cada revelação, não só na percepção dos factos, mas principalmente a nível emocional, faz com que tudo se torne memorável, desde a determinação de Lib em descobrir o método do que só pode ser uma fraude à tentativa desesperada de salvar alguém que parece não querer ser salvo.
E, claro, tudo culmina num final ainda mais intenso e impressionante, não só pelo impacto dos acontecimentos em si, mas também porque, ao longo do percurso, todas as personagens foram despertando algum tipo de emoção. E, no fim, ficam na memória as dificuldades do caminho, mas também a força de quem o percorreu, rumo a uma conclusão intensa, dura... e inesperadamente adequada.
Complexo, mas inesperadamente viciante e tão marcante nos grandes momentos como nas pequenas coisas, pode-se muito bem dizer que se trata de um prodígio em todos os aspectos, da escrita aos temas que aborda, passando pela construção de um conjunto de personagens tão marcante como a história que têm de percorrer. Um livro que prende desde as primeiras linhas e que não deixa de fascinar até ao fim. Maravilhoso.

Título: O Prodígio
Autora: Emma Donoghue
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 27 de julho de 2017

O Poder da Lady Wifi (ZAG)

Alya cometeu um erro. Na sua ânsia de descobrir a identidade da Ladybug, meteu-se em problemas na escola e agora foi suspensa injustamente durante uma semana. E claro que isso a deixa revoltada. O problema é que essa revolta a torna vulnerável à influência do Falcão-Traça, que, em troca de um favor, a transforma em Lady Wifi. Mais uma vez, a Ladybug e o Gato Noir têm de a travar antes que seja demasiado tarde - até porque um dos planos da Lady Wifi é desvendar a identidade da Ladybug. E parece não querer parar enquanto não conseguir o que quer. Ou, claro, a não ser que fique sem sinal.
Centrado numa aventura independente, ainda que com personagens que transcendem este livro (e, claro, protagonistas também de uma série de desenhos animados), este é um livro que, à semelhança do que acontece com A Fúria da Tempestuosa, cativa, em primeiro lugar, por ser igualmente acessível e cativante independentemente de se conhecerem ou não as outras histórias. Sim, há provavelmente muito mais a saber sobre as personagens além do que é contado neste livro, mas o essencial está lá e é muito fácil captar as relações - amizades, rivalidades, paixonetas - que existem entre as várias personagens. E assim, é fácil entrar nesse mundo, conheça-se já muito, pouco ou nada.
Além disso, o aspecto visual é também muito apelativo, cheio de cor e capaz de acrescentar mais contexto e complexidade aos diálogos, o que, tendo em conta que se trata de uma história cheia de acção, não deixa de ser particularmente relevante. Cada personagem tem traços e poderes muito distintos e isto sobressai também a nível da imagem. E, claro, acção significa movimento e é precisamente a parte visual que melhor transmite esse movimento.
Quanto à história em si, destacam-se dois aspectos. Primeiro, o facto de ser simples e de fácil compreensão para os mais novos, mas suficientemente intrigante para prender a atenção de um leitor mais adulto. E, segundo, a forma como, apesar da relativa previsibilidade do final, não deixa ainda assim de cativar em todos os momentos, proporcionando uma leitura leve e agradável.
Leve, cativante e divertido: assim se pode, pois, descrever esta nova aventura, que, com as suas personagens intrigantes e os seus pequenos mistérios, proporciona uma boa leitura independentemente da idade de quem o lê. Muito interessante.

Título: O Poder da Lady Wifi
Autores: ZAG
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 26 de julho de 2017

O Porto das Almas (Lars Kepler)

Na sequência de uma missão que correu mal no Kosovo, Jasmin ficou entre a vida e a morte e, quando regressou, trouxe consigo marcas difíceis de superar. Ou, pelo menos, foi isso que todos pensaram quando começou a falar numa cidade portuária no além, onde o crime organizado parecia sobrepor-se a uma burocracia complexa. Mas talvez Jasmin não estivesse assim tão louca como todos julgaram, pois, quando um acidente de viação a faz regressar àquele estranho local, o que podia ter sido um sonho perturbado transforma-se numa certeza. Só que Jasmin não estava sozinha nesse acidente e o seu filho, razão da sua vida, corre também perigo. É que, naquele local controlado por poderes ocultos, até a capacidade de voltar à vida pode ser comprada. E, por isso, Jasmin precisa de regressar ao mundo dos mortos para salvar o filho.
Completamente diferente da série protagonizada por Joona Linna, e contudo igualmente cativante, este é um livro em que o primeiro aspecto a sobressair é a estranheza. Estranheza primeiro porque, numa fase inicial, tudo parece progredir muito depressa, o que realça, de certo modo, o choque do contacto de Jasmin com aquele mundo para além da vida. E depois porque, à medida que os pormenores vão surgindo, a verdadeira complexidade desse mundo começa a revelar-se e a intriga começa a ganhar intensidade, num crescendo cada vez mais intrigante e surpreendente que culmina num final cheio de acção.
E estranha seria uma boa palavra para descrever a cidade portuária, com todos os seus mistérios e burocracias inesperadas. Não é propriamente a primeira imagem a vir a cabeça quando se pensa na vida depois da morte e, porém, há neste sistema invulgar e interessante um estranho e muito agradável fascínio. Fascínio, que, associado às circunstâncias peculiares dos que os habitam, abre caminho à tal escalada de intensidade que, a cada nova revelação, parece subir um novo degrau.
Mas, se o cenário é em si mesmo bastante impressionante, com a sua aura sombria e inesperadas complexidades, as personagens não lhe ficam muito atrás. Postas perante circunstâncias difíceis de igualar, reagem de forma inesperada, por vezes, contraditória, mas sempre forte. E, ao fazê-lo, revelam todas as suas forças e também umas quantas vulnerabilidades. Tal como o além não é propriamente o esperado, também as pessoas não são só o que parecem. E isto aplica-se tanto aos aliados improváveis de Jasmin no outro mundo como a algumas das personagens com que interage no mundo "real" - bem como, é claro, à própria Jasmin. O que constrói uma teia de sentimentos ambíguos que faz com que cada assumir de posição acabe por surgir também como uma nova surpresa.
E depois há a escrita, claro. Capítulos curtos, centrados, em grande medida, na acção, mas com descrições eficazes e muito fáceis de visualizar dão a esta leitura um ritmo sempre envolvente, que se destaca nos momentos de maior intensidade, mas que não deixa de cativar em momento algum. Além disso, e apesar de toda a intensidade da acção, há também espaço para uma ou outra pequena reflexão que, sem quebrar o ritmo do livro, conseguem tornar mais próxima do leitor a posição das personagens. Posição que, note-se, nem sempre é fácil de compreender - mas que, no fim, acaba sempre por fazer algum sentido.
Estranha, portanto - e estranhamente fascinante. Assim se poderia descrever esta aventura pelo mundo dos mortos. Sempre envolvente, com personagens fortes e uma história que prende do início ao fim, um bom livro, em suma. 

Autor: Lars Kepler
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 25 de julho de 2017

A Rapariga no Gelo (Robert Bryndza)

Quando o corpo de uma mulher é descoberto debaixo de uma camada de gelo, com evidentes sinais de violência, todos os meios policiais são mobilizados. Principalmente porque Andrea Douglas-Brown, filha de uma figura social de relevo, está desaparecida há algum tempo e tudo indica que possa ser ela a mulher debaixo do gelo. Para chefiar a investigação, Erika Foster é chamada a regressar de um longo retiro - consequência de erros passados - e a retomar o seu papel enquanto inspectora-chefe. Mas Erika não prima pelas sensibilidades políticas e, quando todos esperam que ela aja com todo o tacto perante os poderosos, Erika decide enfrentar os problemas da investigação de frente. Há uma rapariga morta e é preciso descobrir o assassino. Mas Erika ainda não sabe que o caso é mais complexo do que imagina - e que pisar os calos aos poderosos tem sempre consequências.
Centrado essencialmente num caso com princípio, meio e fim, mas com um núcleo de personagens cujas histórias irão para além deste primeiro livro da série, um dos primeiros aspectos a sobressair nesta leitura é o equilíbrio entre o caso central e os pequenos aspectos que definem o passado e as relações entre personagens. Claro que isto é particularmente evidente no que toca à detective Erika Foster, cujo passado é a razão das suas circunstâncias e, como tal, começa aqui a ser desvendado de uma forma muito intrigante. Além disso, este passado acaba por desempenhar um papel importante na evolução da investigação, já que move várias das decisões tomadas. O resultado é um equilíbrio bastante intrigante entre o caso principal, aquilo que já é dito sobre a história prévia de Erika (e não só) e as possibilidades que parecem insinuar-se sobre os volumes seguintes da série.
É claro que grande parte da narrativa gira em torno do caso e também este tem muito de cativante. Desde as tentativas de influenciar a investigação por parte dos poderosos (e as motivações por detrás destas tentativas) à sequência de passos, erros e novas pistas que definem o rumo da investigação, há sempre algo de interessante a acontecer e a forma como o autor conta a sua história, em capítulos curtos e em que a informação vai surgindo à medida que é necessária, realça a intensidade dos acontecimentos. Além disso, as reviravoltas no enredo levam a novos momentos de tensão e de perigo, criando um crescendo de intensidade que culmina num final particularmente forte - o que, num livro como este, é crucial para o tornar memorável.
Mas, voltando às personagens. Ainda que o ritmo intenso da investigação faça com que quase tudo se centre no objectivo comum de resolver o caso, há, ainda assim, muito de intrigante nas relações entre personagens. Erika, recém-chegada, desperta sentimentos contraditórios. E a forma como a sua presença influencia aqueles que a rodeiam, criando reacções intensas e, por vezes, também contraditórias, parece começar a construir uma teia de relações que se prolongará para lá deste primeiro livro. Para já, estabeleceram-se lealdades, amizades e rivalidades. E, a partir deste ponto, o que vem a seguir não pode senão despertar muita curiosidade.
Intenso, intrigante e com um núcleo de personagens bastante coeso, trata-se, portanto, de um livro forte que é também um início de série muito promissor. Envolvente do início ao fim, surpreendente em todos os momentos certos e com uma história sempre cativante, uma leitura a não perder para quem gosta de um bom policial. Recomendo.

Título: A Rapariga no Gelo
Autor: Robert Bryndza
Origem: Recebido para crítica

domingo, 23 de julho de 2017

Adágios (José Vieira)

A vida não é um caminho livre de obstáculos. Que o digam as mulheres que protagonizam as histórias deste livro. Mulheres corajosas, num caminho repleto de dificuldades, com uma família que é preciso manter de pé e um coração capaz de abarcar todos os sentimentos. Histórias que, apesar de completas em si mesmas, parecem, ainda assim, formar um todo mais amplo, e que, funcionando quase que como contos independentes, acabam por traçar o romance do meio pequeno e pobre em que se movem. E é por isso como um todo que devem ser consideradas.
Um dos primeiros aspectos a chamar a atenção neste livro é a brevidade. Composto pelas histórias de cinco mulheres, que, apesar de nunca se cruzarem, parecem pertencer a um mesmo cenário e unidade, este é um livro que não ultrapassa as cem páginas. E este é, em certa medida, um ponto que desperta curiosidade, mas talvez, e também até certo ponto, um ponto fraco. Porquê? Porque fica a impressão que qualquer uma destas histórias contém em si o potencial para um enredo mais amplo, mais desenvolvido. 
Mas, e apesar disto, também é verdade que as histórias funcionam bastante bem tal como estão, em parte porque o conjunto das cinco permite a tal visão mais ampla de um contexto que, caso se leia apenas uma das histórias, deixa uma impressão de curiosidade insatisfeita. Além disso, apesar da brevidade, há muito de emocionante e de envolvente nestes enredos, já que o percurso das cinco mulheres que o protagonizam, com todas as suas aspirações à felicidade e todos os desaires que a vida lhes traz, proporciona inúmeros momentos marcantes, tanto nas grandes revelações como nas pequenas coisas.
Para isso contribui também a escrita que, apesar de algumas gralhas que parecem ter escapado à revisão (pouco frequentes, felizmente), nunca deixa de ser cativante e agradável, ajustando-se à história da personagem de quem fala e ao registo das emoções de cada protagonista. Mais uma vez, a brevidade deixa a impressão de que haveria espaço para mais. Ainda assim, no conteúdo e na forma como este é narrado, o essencial está lá.
A impressão que fica é, portanto, a de uma leitura breve e agradável, com histórias cativantes, personagens fortes e um olhar sobre um mundo de pobreza e dificuldades, mas em que a coragem parece ser o mais importante dos valores. Uma boa leitura, em suma. 

Título: Adágios
Autor: José Vieira
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Passatempo Maresia e Fortuna

O blogue As Leituras do Corvo, em parceria com a Coolbooks, tem para oferecer um exemplar do livro Maresia e Fortuna, de Andreia Ferreira. Para participar, basta responder à seguinte questão:

1. Como se chamam os protagonistas deste romance?

Regras do Passatempo:
- O passatempo decorrerá até às 23:59 do dia 30 de Julho. Respostas posteriores não serão consideradas.
- Para participar deverão enviar a resposta para carianmoonlight@gmail.com, juntamente com os dados pessoais (nome e morada);
- O vencedor será sorteado aleatoriamente entre as participações válidas;
- O vencedor será contactado por e-mail e o resultado será anunciado no blogue;
- O blogue não se responsabiliza pelo possível extravio do livro nos correios;
- Só se aceitarão participações de residentes em Portugal e apenas uma por participante e residência.

Monstress - Despertar (Marjorie Liu e Sana Takeda)

Maika Meiolobo precisa de respostas. E, para as obter, está disposta a fazer novamente o que jurou que nunca faria: deixar-se escravizar de modo a entrar no complexo das Cumaea, as poderosas freiras bruxas que parecem deter grande parte do poder do lado humano. Maika é arcânica, mas, apesar da guerra entre o seu povo e os humanos, também os arcânicos parecem ter nela um interesse pouco benevolente. É que o passado fez com que Maika tivesse em si uma força poderosa, capaz de mudar o mundo para melhor ou de o destruir por completo. E, assim, o que começa por ser uma procura por respostas não tarda a deixar Maika na posição de perseguida e sem saber ao certo em quem pode confiar...
Basta olhar para a capa deste livro para descobrir o que será um dos grandes pontos fortes ao longo de todo este volume: a imagem. Escusado será dizer que, num livro de banda desenhada, em que a parte da informação que não é transmitida pelo diálogo depende essencialmente da parte visual, este é um elemento particularmente relevante, mas, neste livro em particular, há algo de mais notável do que isso. É que as imagens em si são, em si mesmas, todo um mundo, já que cenários, personagens e momentos são retratados com uma vitalidade espantosa. E, ao conjugar isto com uma história cheia de pormenores, com um mundo complexo e um conjunto de personagens carismáticas e surpreendentes, o resultado não podia deixar de ser uma leitura fascinante.
E, sim, basta a componente visual - belíssima, diga-se de passagem - para fascinar. Mas o texto complementa-a para dar forma a um todo que é maior que a soma das partes. Todo esse que é, no fundo, um enredo cheio de qualidades, a começar pelas particularidades do mundo, passando, é claro, pelos grandes momentos de conflito e as várias revelações surpreendentes, e culminando numa visão das personagens - enquanto indivíduos e no seio do grupo a que pertencem - que deixa marcas bastante fortes na memória.
Claro que a figura mais marcante é Maika, com todos os mistérios que a rodeiam e o grande poder que contém dentro de si, mas também com os laivos de vulnerabilidade que denunciam a humanidade para lá desse poder. Mas é também muito interessante o facto de, apesar de várias personagens terem papéis bem definidos, e de os escrúpulos morais raramente serem a força que os faz mover, nem tudo ser tão linear, em termos de valores, como parece à partida. E, tendo em conta que este é apenas o primeiro volume e que ficam várias perguntas sem resposta, as muitas surpresas ao longo do caminho, tanto no rumo dos acontecimentos, como na posição de certas personagens face ao que se está a passar, aumentam também a curiosidade em saber o que acontecerá a seguir.
Intenso, empolgante e belíssimo em todos os aspectos, trata-se, portanto, de um primeiro volume que cativa à primeira vista e que não deixa de fascinar até ao último ponto da última página. Complexo, cativante e repleto de potencial, um início maravilhoso para uma história que promete ainda mais. Genial.

Autores: Marjorie Liu e Sana Takeda
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Divulgação: Novidade Coolbooks

O que é o verdadeiro amor?
Para Eduardo, de 17 anos, é a mãe e o irmão mais velho, Simão. Este, porém, tem um segredo que o empurra para a bebida e Eduardo receia que o seu irmão se suicide, tal como o pai de ambos o fizera, dez anos antes.
Júlia acredita que passou ao lado de um grande amor. Em busca da verdade que mudará a sua vida, regressa à vila de Apúlia para reconstruir um passado de que não se consegue recordar. O caminho desta mulher perturbada está prestes a cruzar-se com o de Eduardo, trazendo à tona segredos, paixões agressivas e remorsos intemporais, com consequências devastadoras sobre a vida da outrora pacata vila piscatória. Uma alegoria moderna de um clássico, onde os humanos se destroem sem precisarem de intervenção divina.

Nascida e criada em Braga, Andreia Ferreira orgulha-se muito do seu sotaque.
Escreve nos cafés, roubando histórias ao mundo de cada um para se inspirar.
Licenciou-se em Línguas e Literaturas Europeias, tem duas pós-graduações e agora está a frequentar a licenciatura em Direito. É casada e tem um filho.
É autora da trilogia Soberba e administra o blogue “d311nh4” desde 2010.
Desde os 11 anos, abre o correio na expectativa de ter à sua espera uma carta para Hogwarts.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Imperador dos Espinhos (Mark Lawrence)

Agora rei de sete territórios e ciente de que algo de negro - mais negro do que ele, até - o persegue, o Rei Jorg Ancrath está decidido a conquistar finalmente no Congresso o lugar que sempre foi o seu objectivo máximo: o de imperador. Mas o caminho é perigoso, não só pelos vários inimigos que fez ao longo da vida, e alguns dos quais parecem querer voltar a manifestar-se, mas principalmente por uma entidade mais antiga que, de olhos postos nele há anos, se prepara agora para a derradeira investida. O Rei Morto parece pronto a dominar o império e, caso o faça, há forças mais antigas prontas a pôr, de uma vez por todas, fim ao mundo como todos o conhecem. E Jorg, com a sua astúcia ilimitada, parece ser o único capaz de lhe fazer frente. Mesmo que isso implique mergulhar ainda mais fundo nas trevas do passado e encontrar-se como realmente é para enfrentar o inimigo.
Deixem-se ser o mais directa possível: não sei por onde começar a falar sobre este livro. Não sei, porque, depois de dois volumes intensos e muito, muito marcantes, este Imperador dos Espinhos elevou tudo a um nível ainda mais alto e acho que devo ter deixado uma parte do coração pelo caminho, tantos foram os momentos devastadores que ao longo da estrada encontrei. Por isso, permitam-me antes de mais este excesso de entusiasmo para vos dizer isto: leiam esta trilogia. Leiam, leiam, leiam. Não a vão esquecer tão cedo.
Mas vamos por partes. O que tem este derradeiro volume que o torna tão impossivelmente marcante? Bem, para começar, tem tudo o que os anteriores já tinham em abundância: uma escrita brilhante, um mundo complexo e cheio de surpresas, personagens carismáticas e tão fascinantes como o contexto conturbado em que parecem mover-se. E isto bastou para tornar muito, muito bons os livros anteriores. Mas aqui... Ah. Aqui, quando tudo se encaminha para o fim, tudo se intensifica. As revelações são poderosíssimas, as verdades difíceis tornam-se ainda mais impiedosas, o caminho rumo ao trono torna-se ainda mais tenebroso... E o fim... O fim é brilhantemente devastador.
Mas permitam-me ainda um momento para falar das maravilhas dessa tão sombria e fascinante figura que é Jorg Ancrath. No início, era um jovem marcado pelo passado, forjado nas lições dos espinhos numa matéria absolutamente impiedosa. E agora, se olharmos para ele a partir do fim, vemos toda uma jornada de crescimento, tão intensa, tão forte, tão cruel, que fez dele algo mais do que o príncipe capaz de tudo para vencer. O Jorg do Congresso é um homem mais completo que o que começou esta jornada. E, ainda que talvez ele mesmo se recusasse a admiti-lo, é também um homem melhor. E isto - esta transformação, esta renovação sem perda de identidade - é talvez o mais brilhante do muito (mesmo muito) que de brilhante este livro tem.
Apaixonante, então. É uma boa palavra para definir esta viagem através de um mundo de homens e lugares arruinados. Uma viagem que tanto consegue despertar sorrisos com os seus laivos de humor negro como desfazer um coração em pó nos momentos mais devastadores. E que culmina num final tão absurdamente doloroso, mas tão incrivelmente perfeito, que mundo e personagens gravam-se a fogo na memória. E por lá ficarão durante muito tempo.
Descreva-se, pois, tudo numa só palavra. E repita-se as vezes que forem necessárias. Porque, no fundo, basta dizer isto para caracterizar este livro: brilhante, brilhante, brilhante. 

Título: Imperador dos Espinhos
Autor: Mark Lawrence
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 18 de julho de 2017

The Call (Peadar O'Guilin)

Quando chegam à adolescência, todos os jovens da Irlanda sabem que têm pela frente a mais perigosa experiência das suas vidas, pois, quando menos esperarem, serão Chamados. Durante três minutos e quatro segundos, desaparecerão na Terra Cinzenta, onde o tempo passa a um ritmo diferente e os Sídhe não desistirão de os caçar até lhes deitarem as mãos. E, caso isso aconteça, sabem que o que regressará ao mundo serão restos destroçados. O objectivo dos Sídhe é simples: reduzir a nada o povo que os encarcerou na Terra Cinzenta - e recuperar o que perderam. Mas a Nação deve sobreviver e, por isso, nos colégios de sobrevivência, todos os jovens são meticulosamente treinados para o momento do Chamado. A taxa de sobrevivência tem até vindo a aumentar - mas os Sídhe não desistiram. E há algo de estranho nos últimos regressos - como que um plano escondido prestes a acontecer. Os Sídhe não desistem. E, por isso, sobreviver nunca foi tão importante.
Um dos primeiros aspectos a chamar a atenção neste livro - e o seu principal ponto forte até aos últimos capítulos - é a forma como o autor equilibra um registo leve e bastante sucinto com um enredo que é, em tudo, bastante sombrio. Desde a crueldade dos Sídhe àquilo de que alunos e instrutores são capazes enquanto se preparam para o Chamado, há muito de brutal nos caminhos desta história. E, porém, tudo é narrado com uma leveza surpreendente, que, apesar de, a espaços, dar a sensação de que mais haveria a dizer (principalmente no que toca à caracterização das personagens) acaba também por reforçar a intensidade dos acontecimentos.
No fundo, o cerne desta história é uma corrida contra o tempo... dentro de uma outra (e mais vasta) corrida contra o tempo. Os três minutos do Chamado - e a aparente eternidade a que correspondem - põem as personagens a correr pelas suas vidas. Mas o plano secreto dos Sídhe, esse, pode pôr em causa toda a população. E, à medida que as ligações entre os dois pontos se tornam mais claras, sucedem-se as surpresas e as reviravoltas, num enredo que é, todo ele, um grande crescendo de intensidade.
Ah, mas a história não acaba aqui e, sendo assim, é apenas natural que fiquem perguntas em aberto. Ainda assim, e apesar de ficar algo por dizer sobre as personagens e aquilo que as move, a impressão que fica é a de que a história acaba precisamente num ponto certo: o fim de uma batalha que parece poder ser o princípio de uma nova guerra. E este culminar ambíguo, mas não demasiado, deixa muita, muita curiosidade em saber o que se poderá seguir.
Intenso e sombrio, mas de uma leveza surpreendente, trata-se, portanto, de um bom ponto de partida para uma história que parece ter ainda muito mais potencial para desvendar. Cativante, surpreendente e com um cenário muito, muito intrigante, um início de série deveras promissor.

Título: The Call
Autor: Peadar O'Guilin
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Inteligência Emocional 2.0 (Travis Bradberry e Jean Greaves)

Num mundo em que o stress parece ser cada vez mais uma constante e os ritmos da vida são cada vez mais acelerados, nem sempre é fácil lidar com as emoções. E, contudo, a capacidade de as entender em gerir, no próprio e nos outros, parece ser uma parte essencial do sucesso pessoal e profissional de uma pessoa. É essa, pelo menos, a ideia sobre a qual assenta o conceito de inteligência emocional e também o tema deste livro, que, através de um conjunto de estratégias aparentemente simples - e evidentemente úteis - pretende orientar o leitor sobre as formas de aumentar o seu Quociente Emocional. E, se é esse o objectivo - explicar e orientar no sentido de uma melhor aplicação da inteligência emocional - então, ao que tudo indica, missão cumprida.
Apesar de se centrar mais nas estratégias de melhoramento do que nos conceitos e teorias propriamente ditos, é bastante fácil assimilar as bases deste livro, tenham-se ou não conhecimentos prévios acerca do que é - e de como funciona - a inteligência emocional. E este é também um dos principais pontos fortes deste livro, pois é muito fácil assimilar o essencial dos conceitos, sem nunca perder de vista o objectivo de melhoria que parece ser a sua base. E, claro, a informação essencial está lá, não só na introdução sucinta e esclarecedora, mas também no desenvolvimento das várias estratégias que vão sendo sugeridas ao leitor. No fim, fica-se com uma ideia bastante mais clara e com alguns conselhos muito pertinentes a seguir.
Também bastante relevante é a estrutura do livro que, apesar de organizado segundo um método específico, é também de fácil consulta caso se procure, por exemplo, uma das competências específicas da inteligência emocional, ou caso se pretenda regressar, numa segunda ou terceira leitura, ao ponto que mais precisa de melhoramento. É fácil regressar a algo que se pretende relembrar, reencontrar uma ideia que se deseje rever ou, se se estiver a seguir o método como um todo, encontrar, após o trabalho numa primeira competência, o ponto que se pretende explorar a seguir. 
O que me leva ao método e às muitas estratégias que o constituem. Claro que, neste tipo de livro, é sempre inevitável uma certa sensação - pelo menos num primeiro contacto - de que, em teoria, é tudo muito interessante, mas que, na prática, nunca será assim tão simples. Mas a verdade é que isso está implícito em todo o texto: não será simples. E, independentemente dos pontos de vista discordantes ou de se querer ou não seguir o método na globalidade, há em todas estas estratégias algo de relevante a considerar. E isso pode ser algo tão simples como um aviso (aparentemente óbvio) para prestar mais atenção às emoções. Tão simples que nunca pensámos realmente nisso, talvez.
Acessível, esclarecedor e de leitura agradável, trata-se, portanto, de um bom livro para descobrir como funciona, afinal, a inteligência emocional e de que formas aplicar este conhecimento no sentido de uma vida melhor e mais equilibrada. Muito interessante.

Título: Inteligência Emocional 2.0
Autores: Travis Bradberry e Jean Greaves
Origem: Recebido para crítica

sábado, 15 de julho de 2017

Café Amargo (Simonetta Agnello Hornby)

Maria é filha de um advogado que, por ser socialista, foi perdendo todos os clientes, apesar da sua competência. E, por isso, sabe que as dificuldades financeiras são um obstáculo considerável ao seu futuro, seja como professora, o seu sonho de sempre, seja como esposa e mãe. Mas um visitante inesperado muda o rumo da sua vida. Pietro Sala é um homem do mundo, culto, com boas ligações, e apaixonou-se por Maria à primeira vista, ao ponto de estar disposto a casar sem dote. E, apesar de todas as reticências, suas e da família, Maria sabe que essa é a melhor solução para os problemas de todos. Aceita - e descobre no marido um homem de encantos secretos, mas também de vícios e vulnerabilidades. E, num país em mudança e em que o papel da mulher na sociedade parece ainda muito limitado, Maria dará por si com o futuro nas mãos... e uma ligação do passado à espera de desabrochar em pleno.
Acompanhando grande parte da vida da protagonista, mas com um enredo que é muito mais vasto do que a sua história pessoal, este é um livro que tem como primeiro de vários pontos fortes o equilíbrio entre o percurso pessoal das personagens e o muito relevante contexto histórico em que se movem. As questões políticas, as mudanças de pensamento e de regras sociais, a guerra e as suas consequências na vida das pessoas são apenas alguns dos aspectos bem presentes ao longo desta história. E isto é um ponto forte precisamente porque, ao desenvolver estes temas ao ritmo da vida das personagens, torna-se mais fácil assimilar o ambiente da época e aprender algo ao mesmo tempo que se acompanha a história principal.
E a história principal é a de Maria. Maria, mulher do seu tempo, mas com uma força que não permite resignações. Maria forte, capaz de fazer frente ao mundo quando assim tem de ser, mas vulnerável quando todas as pressões se voltam contra ela. Maria humana, complexa, falível, fascinante, que aprende tanto com a vida como aqueles que a acompanham. E a sua história é mais que a de um casamento aceite por necessidade. É a história do seu crescimento, da sua evolução ao ritmo do mundo. De sentimentos que, vindos da infância, se transmutaram em algo maior, ao mesmo tempo que o mundo, também ele, mudava. E, claro, de descobertas de todo o tipo - venham elas das crueldades da vida ou dos labirintos do coração.
Tudo isto cativa e até as mais pequenas coisas despertam a curiosidade em saber o que se seguirá. E a forma como a autora constrói a história, equilibrando as medidas certas de tensão, de mistério, romance outros afectos e ainda de esperança, mesmo no seio do desespero, faz com que tudo pareça adquirir o registo certo, o de uma história que cresce e se expande de forma gradual, num ritmo que vai crescendo em intensidade e que culmina num final particularmente marcante.
Vale a pena? Mas claro que vale a pena. Desde o carisma das personagens ao equilíbrio entre os segredos guardados e as grandes revelações, passando ainda pelo contexto delicado que dá a todo este percurso ainda uma nova dimensão, não há nada neste livro que não tenha algo de cativante para oferecer. E, nos momentos de ternura e nos de medo, nos de encanto e nos de desespero - nas pequenas coisas, como nas grandes mudanças de um tempo conturbado - há muito nesta história para guardar na recordação. Vale a pena, sim. Muito, muito mesmo. 

Título: Café Amargo
Autora: Simonetta Agnello Hornby
Origem: Recebido para crítica