sexta-feira, 9 de maio de 2014

O Tintureiro Francês (Paulo Larcher)

Decidido a conduzir o país rumo a uma maior industrialização e, consequentemente, a um maior sucesso económico, o Marquês de Pombal tem na Real Fábrica de Panos o seu projecto mais querido. Mas nada parece correr bem e a salvação para todos os fracassos parece difícil de atingir. A solução está, ao que tudo indica, na pessoa de Stéphane Larcher, mestre tintureiro francês que, encontrando-se em circunstâncias delicadas, talvez possa ser persuadido a mudar-se para Portugal. Mas, para o conseguir, será necessária uma expedição arriscada, cujos perigos virão de onde menos se espera. Assim como, de resto, os mais persuasivos de entre os argumentos possíveis.
Um dos elementos que se esperam de um bom romance histórico é um adequado desenvolvimento dos traços que caracterizam a época e as suas figuras centrais. E este é, precisamente, um dos pontos fortes deste livro. O autor demora-se a explicar não só o contexto essencial do tempo em que decorre a narrativa, mas caracteriza também hábitos e trajes, mentalidades e relações. E ainda as bases do sistema de produção de tecidos e uns quantos segredos de tinturaria. Toda esta base informativa resulta num enredo que flui a ritmo pausado, com uma forte componente descritiva. Ainda assim, há muito de interessante nesta informação e, tendo em conta o facto de uma das personagens centrais ser, precisamente, um mestre tintureiro, é também relevante conhecer as bases da sua arte.
Outro ponto que sobressai é a mudança gradual no tom da narrativa, ao longo das três partes que a constituem. Na primeira, mais longa, cruzam-se os planos e objectivos de diferentes personagens, sendo a ambição o que mais sobressai. O tom é, por isso, um pouco distante. Mas, com o evoluir dos acontecimentos, e o maior protagonismo de Stéphane, a história torna-se mais intensa. Para isto contribuem, acima de tudo, dois pontos: os ocasionais momentos emotivos, escritos sem grandes elaborações, mas muito bem conseguidos, ainda assim; e os capítulos narrados na primeira pessoa pelo sobrinho de Stéphane, que vêm acrescentar uma nova perspectiva à linha geral dos acontecimentos.
Importa ainda referir a forma como todos os elementos confluem para um final que, principalmente tendo em conta a distância inicial, acaba por surpreender pela emotividade. Os desencontros e os acontecimentos apenas insinuados, a evolução das próprias personalidades de Stéphane e Teresa, a forma como as vontades individuais se cruzam com interesses maiores... Tudo se conjuga para um final que, não sendo completamente surpreendente, marca, ainda assim, pelo impacto do momento, descrito sem grandes elaborações, mas com um toque de poesia, nas frases finais, que contribui também para o tornar memorável. No fim, quase tudo faz sentido, mesmo que nem todas as perguntas tenham a resposta desejada. E isso é também um ponto forte que importa realçar.
Descritivo e de ritmo pausado, e, por isso, longe de uma leitura compulsiva, o que mais se destaca deste O Tintureiro Francês é, em primeiro lugar, a informação histórica e, depois, a intensidade emotiva que emerge da distância inicial. Com vários momentos marcantes e escrita de forma envolvente, trata-se, pois, de uma boa leitura. Gostei.

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