quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Deus Também Tinha Animais (Nuno Sobral)

Vinte e quatro de Setembro de mil novecentos e oitenta e quatro. No escritório de um solicitador na Avenida da República, há uma tragédia prestes a acontecer. Tudo porque, sem o conhecimento do dito solicitador, a irmã deste e alguns seus conhecidos decidiram investir as provisões dos clientes nas promessas da Banqueira do Povo. E tudo correu bem... até ao dia em que deixou de correr. Agora, grandes mudanças se avizinham. Desesperado, o doutor Alves dos Anjos acaba, na tentativa de se defender, por causar a morte de quem menos queria. A irmã e secretária, essa, tem outros planos para o futuro. E dessa primeira tragédia nascem outros ganhos... e outras perdas. Porque tudo é um ciclo de ambições e de enganos.
Um dos aspectos mais curiosos deste livro é que, apesar de se poder apontar a tal questão do solicitador como elemento agregador de toda esta história, não há propriamente um protagonista ou uma linha central nesta história, mas antes um conjunto de peripécias que, no seu conjunto, foram a crónica de toda uma (má?) vizinhança. E, sendo certo que esta multiplicidade de histórias e de personagens faz com que fiquem algumas perguntas sem resposta, também o é que todos os elos desta cadeia têm algo de fascinante.
Talvez por isso, é nas diferentes perspectivas com que as várias partes da história são contadas que reside o grande ponto forte deste livro, já que cada narrador acrescenta algo de novo, lança um novo olhar sobre o sucedido, chega inclusive a contradizer o anterior. Há sempre dois (ou mais lados) para a mesma história e a existência de diferentes versões dos factos torna mais realistas os aspectos mais caricatos, pois cada um vê o sucedido da forma que mais lhe convém. Como tantas vezes acontece na vida real.
Isto leva-me, inevitavelmente, aos acontecimentos propriamente ditos. É que, sim, há tragédias, há perdas, há grandes prejuízos na vida destas personagens. Mas o que há mais é bizarria. E esta bizarria, seja nos comportamentos inesperados, seja na forma como a própria estruturação dos planos de algumas personagens ganha forma, tem muito de inesperadamente divertido. E acaba por ser também isso a cativar para esta leitura.
A soma de todas estas partes não podia ser outra coisa que não um livro peculiar. Mas, intrigante em toda a sua estranheza, inesperadamente divertido e com uma escrita que parece ajustar-se na perfeição à história (ou histórias) que tem para narrar, é também um livro que acaba por ficar na memória. Por tudo o que tem de diferente e também por tudo o que tem de bom. Gostei. 

Título: Deus Também Tinha Animais
Autor: Nuno Sobral
Origem: Recebido para crítica

domingo, 4 de dezembro de 2016

As Raparigas (Emma Cline)

Tudo começa quando Evie vê as raparigas. Tão soltas, tão diferentes, tão despreocupadas. A curiosidade é imediata e as limitações do seu próprio mundo adolescente só ajudam à atracção. Depois, o seu caminho volta a cruzar-se com o de Suzanne - e a atracção torna-se fascínio. Evie vê-se atraída para o rancho, onde uma estranha comunidade parece ter-se formado em torno de Russell, o seu estranho e carismático líder. Aí, tudo é novo e as regras são poucas. Quase tudo é permitido. Mas, quando as aspirações do líder são contrariadas, as consequências podem ser imprevisíveis. E Evie, ainda e sempre fascinada por Suzanne, não vê - ou escolhe ignorar - os sinais de alerta.
Não é propriamente fácil encontrar palavras para descrever este livro sem revelar demasiado. Há um crime no cerne do enredo, mas a história não é a do crime, mas da vida antes e depois desse ponto de viragem. Há um grupo, uma espécie de seita, mas a protagonista ocupa um papel como que no limiar entre o seu núcleo e o mundo exterior. E, assim sendo, tudo se constrói num equilíbrio delicado, em que a história que a protagonista conta surge, por vezes, como testemunho e, noutras, como fruto da sua imaginação.
Ora, isto confere à história um ritmo algo peculiar. A narradora, uma Evie adulta, vive um presente enquanto recorda o passado - e é possível ver as marcas desse passado no presente. Mas a história central é precisamente a do passado e a forma como Evie a conta, entre introspecções e visões de si mesma no que poderia ter sido, faz com que algumas partes do enredo pareçam ser contadas de forma algo vaga. Não é que fique algo de essencial por dizer, mas antes a impressão que fica de que os grandes acontecimentos são deixados para bastante tarde, surgindo como que na senda de uma viagem interior que - para Evie, pelo menos - é mais importante do que o crime em si.
O resultado é a sensação de que, ainda que a história de Evie seja completa, haveria mais a dizer sobre a comunidade e os seus outros elementos. Pequenas coisas que, não sendo essenciais ao enredo, poderiam, talvez acrescentar-lhe uma perspectiva mais ampla. Ainda assim, sendo a história narrada na primeira pessoa por alguém que chegou a meio e que estava ausente em alguns dos acontecimentos mais relevantes, não deixam de fazer sentido essas perguntas sem resposta. Pois talvez a própria Evie nunca as tenha descoberto.
Não é propriamente uma leitura compulsiva. Tanto o estilo de escrita como o tom do próprio enredo conferem à narrativa um ritmo relativamente pausado. Mas é interessante, ainda assim, notar como, aos poucos, o fluxo dos pensamentos de Evie se vão tornando mais próximo, conferindo à história que conta uma maior intensidade. E assim, da estranheza inicial surge uma envolvência crescente - que culmina na impressão final de uma boa história... e de um livro que vale a pena descobrir.

Título: As Raparigas
Autora: Emma Cline
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Masha e o Urso: O Dia da Compota (O. Kuzovkov)

Desde que deixou de ser um artista de circo, o Urso passou a levar uma vida mais tranquila. Pelo menos, até ao dia em que a Masha entrou na sua vida! Agora, uma das suas ocupações preferidas é fazer compota, mas também aí a irrequieta Masha não está disposta a dar-lhe descanso. Quer brincar, seja com a fruta que o Urso apanhou, seja com os frascos da compota... enfim, com o que estiver mais à mão. Mas, quando a traquinice causa estragos, é inevitável que o Urso fique zangado... e a pequena Masha vai ter de arranjar uma maneira de o compensar. 
Masha e o Urso... duas personagens curiosas e cativantes. Tão cativantes que, ainda que, depois de lidas umas quantas das suas aventuras, não haja, na verdade, muito de novo a acrescentar, continua a ser um prazer voltar a uma destas histórias. Simples, divertidas, com ilustrações muito bonitas e uma história sempre cheia de peripécias, são sempre uma pequena delícia estas pequenas e atribuladas aventuras. 
São também histórias bastante breves e, por isso, é difícil falar da história sem contar demasiado. Desta vez, é a compota o centro dos acontecimentos e basta dizer que o resultado é bastante... doce. O resto é a viagem do costume: um regresso simpático e agradável a uma visão mais inocente do mundo, em que todos os que podem ajudam e a traquinice também serve para aprender uma ou outra lição. E, claro, importa sempre mencionar o facto de ser um livro bonito, em que as imagens dão mais vida o texto, complementando-o e tornando a leitura mais apelativa.
Mais uma vez, e sem surpresas, a impressão que fica deste livro é a de uma história divertida para os mais novos - e de um agradável regresso à infância para quem, como eu, já a deixou para trás há algum tempo. Uma boa história, portanto, e uma boa leitura.

Título: Masha e o Urso - O Dia da Compota
Autor: O. Kuzovkov
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Sangue Infernal (James Rollins e Rebecca Cantrell)

Algo se passa no mundo. Os strigoi, criaturas poderosas, mas habituadas a mover-se nas sombras, tornaram-se mais fortes, mais ousados, e os ataques sucedem-se. Não parece haver uma explicação evidente para isso, mas há pessoas a morrer às mãos dele - inclusive sanguinistas. E o tempo aproxima-se de realizar o que falta da profecia, mas por onde deve o trio começar? Erin procura respostas em lugares proibidos. Jordan e Rhun regressam a campos de batalha do passado. Mas a resposta vem de uma fonte inesperada. E, lançados uma vez mais numa demanda, o Homem Guerreiro, a Mulher Sábia e o Cavaleiro de Cristo precisam de impedir que Lúcifer seja libertado. Ou o reinado do homem chegará ao fim.
Último volume da trilogia e sequência quase directa dos acontecimentos do livro anterior, este é um livro que surpreende, em primeiro lugar, pela mudança de ritmo. Continua a haver acção em abundância, perigos a enfrentar e inimigos poderosos a combater, o que significa que há sempre algo de interessante a acontecer na narrativa, mas há também um maior desenvolvimento em termos de explicações e contexto, talvez pelo papel de destaque de Erin. Isto torna o enredo um pouco mais pausado, até porque há novas pistas a assimilar. Mas é interessante reparar que este fluxo mais lento nada retira à envolvência da história.
E não posso falar desta história sem referir as personagens, também elas em constante evolução e revelando novas facetas que as tornam mais complexas e fascinantes. Mais uma vez, o maior impacto vem de Rhun Korza, cada vez mais intrigante na sua natureza atormentada, mas também num novo lado de si que vem à tona com a presença de um certo (e muito relevante) felino que surge pela primeira vez neste livro. Mas também Erin e Jordan crescem, à sua maneira, bem como, inesperadamente, Bathory, protagonista de uma das maiores mudanças desta história. 
Quanto ao enredo, tem basicamente as características (se bem que nem sempre o rumo) que seria de esperar de uma conclusão para este tipo de história: intenso, cheio de acção, com muitas reviravoltas. Tem também algumas perguntas sem resposta, sendo que, no caso concreto de Bernard, fica alguma curiosidade insatisfeita quanto ao seu futuro e o que lhe deveria acontecer. Ainda assim, no que diz respeito à linha central da narrativa, tudo se resolve da forma mais adequada: com muitos enigmas, sacrifícios e descobertas, como compete a uma decisão capaz de salvar - ou destruir - o mundo.
A impressão que fica é, por isso, a de um livro que, inesperado em muitos aspectos, mas coerente com os acontecimentos anteriores, encerra da melhor maneira uma grande e fascinante aventura. Intenso, intrigante, surpreendente, um final à altura das expectativas. Muito bom. 

Título: Sangue Infernal
Autores: James Rollins e Rebecca Cantrell
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Ratos & Gatos (Gleidston César)

Palavras de afectos, de pensamentos, olhando o mundo segundo o eu. Um eu que sente, que sofre e que ama segundo a sua posição perante os outros, mas que se expande também a um olhar mais vasto, questionando os preconceitos e limitações da sociedade. Um eu vincado, bem definido, que é a própria identidade, pessoal e intransmissível, do sujeito poético - mas que contém em si algo de universal. É isto, este eu que se dá a conhecer nos poemas deste livro - e o resultado é um equilíbrio bastante interessante entre coesão e diversidade.
Um dos aspectos mais interessantes neste conjunto de poemas é a forma como, apesar de cada poema ser um todo em si mesmo, parece ser, ao mesmo tempo, parte de uma unidade maior. É quase como se acompanhasse o percurso evolutivo de um mesmo indivíduo, realçando as suas percepções, convicções e sentimentos. Ora, isto é interessante porque é possível ler só alguns poemas sem ficar com a sensação de alguma coisa em falta, ou ler o livro de uma ponta à outra, ficando com a tal sensação de uma totalidade mais vasta.
Também particularmente cativante é o equilíbrio entre o pessoal e o universal, num conjunto em que todos os poemas parecem pertencer a uma mesma e única voz, mas em que alguns deles falam de amor, outros de amizade, outros das injustiças sociais e da discriminação. Por vezes, o sujeito poético olha para si mesmo. Outras, olha para o mundo. E também isto contribui para realçar o contraste entre o individual e a totalidade, salientando a diversidade de elementos e de temáticas - ainda que projectadas numa mesma visão.
Até na própria estrutura se nota um certo equilíbrio entre coesão e diversidade, moldando temas comuns em diferentes formas e dando-lhes assim um ritmo diferente. Poemas curtos, poemas longos, versos curtos e versos longos, rima ou ausência de... Há um pouco de tudo neste livro e se é verdade que alguns dos poemas marcam mais do que outros (consoante o gosto de quem os lê, também) não há nenhum neste livro que não deixe na memória uma impressão. E nalguns casos, essa impressão é realmente muito positiva. 
A impressão que fica é, portanto, a de um livro coeso e equilibrado, em que o particular e universal coexistem em boa harmonia. Cativante, de leitura agradável e com várias passagens realmente marcantes, uma boa descoberta... e uma boa leitura.

Título: Ratos & Gatos
Autor: Gleidston César
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Sangue Inocente (James Rollins e Rebecca Cantrell)

O Evangelho de Sangue foi encontrado. Mas o que parecia ser o derradeiro objectivo é afinal apenas o início de uma demanda maior. Agora, Rhun Korza está desaparecido. Há dúvidas sobre a identidade da Mulher Sábia. Cadáveres começam a surgir na cidade de Roma e, inesperadamente, Erin Granger, que parece ter sido afastada de todo o mistério, é atacada por um blasphemare. É preciso que a trindade da profecia volte a reunir-se e retome a sua missão, indo em busca do Primeiro Anjo. Mas os problemas nessa demanda não são poucos, pois, além de não haver certezas sobre a identidade do Primeiro Anjo, há nas sombras um inimigo poderoso - à espera de desencadear o fim dos tempos.
Dando continuidade aos acontecimentos do volume anterior, e expandindo-os numa intriga cada vez mais complexa de traições e mistérios, uma das primeiras coisas a sobressair neste livro é a notável evolução em termos de impacto. Talvez por as personagens já serem familiares, mas também pela maior intensidade dos picos emocionais ao longo do enredo, este é um livro que junta à envolvência do mistério e a tensão de um perigo constante um cada vez mais impacto emocional no que diz respeito ao que acontece às personagens. E é isso que faz com que, depois de um início promissor com O Evangelho do Sangue, este segundo volume supere todas as expectativas.
Parte do que confere à história esta nova intensidade é a conjugação de novas e antigas personagens, bem como de novos elementos com pistas e mistérios já revelados. À existência dos sanguinistas e seus preceitos junta-se agora uma visão bastante mais ampla de quem são os seus inimigos e do que os move. Mas, mais do que isso, no seio da própria Ordem dos Sanguinistas há motivações diversas e interesses em colisão. Ora, isto faz com que a tal teia de intrigas se torne cada vez mais complexa e fascinante, abrindo caminho a muitas surpresas, grandes revoluções e algumas pistas sobre o que ainda fica por dizer.
Mas, mais uma vez, é importante falar sobre as personagens e os seus dilemas interiores. Nem sempre é fácil gostar de todas elas, havendo em Bernard e Jordan algumas questões de empatia a ter em conta. Mas, quanto a Bernard, a impressão que fica é a de que mais haverá para contar. E quanto a Jordan, chega-se a um ponto em que é preciso aceitar a personagem tal como ela é - tão forte e corajosa como falível nas suas emoções humanas. Por outro lado, ao cada vez mais fascinante Rhun Korza, cuja natureza atormentada ganha clareza a cada nova recordação, juntam-se outras personagens igualmente complexas e marcantes, como a misteriosa Elizabeth, o inocente Tommy e o indecifrável Judas. À sua maneira, todas estas personagens deixam a sua marca. E, num livro em que a acção é uma constante, criam momentos tão surpreendentemente emotivos que dão toda uma nova vida à narrativa. 
Da soma de tudo isto, surge um resultado claro: um segundo volume que eleva e transcende as premissas do primeiro, tornando a história mais intensa, as personagens mais marcantes e o futuro... ainda mais promissor. São, pois, as melhores as expectativas para a conclusão desta trilogia. Que, neste livro, atinge um novo máximo. Muito bom. 

Título: Sangue Inocente
Autores: James Rollins e Rebecca Cantrell
Origem: Recebido para crítica

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

O Livro das Coisas Boas (Marta Spínola)

O tempo passa. As coisas acontecem. As memórias ficam. E a verdade é que, por vezes, a tendência é para que sejam as coisas más as que ficam na memória durante muito, muito tempo. Então porque não guardar as coisas boas, escrevê-las, desenhá-las, fotografá-las para que fiquem para a posteridade? É esse o objectivo deste livro, tendo em conta que coisas boas não têm de ser apenas as grandes aventuras ou o dia mais feliz das nossas vidas, mas também as pequenas coisas: o filme que nos fez sorrir, o livro que nos comoveu, aquele elogio simpático que nos fez corar. Também isso importa. E também isso vale a pena guardar.
Uma das coisas mais interessantes destes livros criativos é, desde logo, o conceito de um livro que não só desafia o leitor a olhar para dentro de si mesmo, mas também a criar. E, se é verdade que, para quem é picuinhas com os livros (como eu) a ideia de profanar um objecto tão lindo com a minha letra pavorosa pode ser um tanto ou quanto... aterradora... também o é que basta passar algumas páginas para que venham à cabeça essas tais memórias que merecem se guardadas. Portanto, não, ainda não preenchi o livro. Mas bastou um primeiro olhar para despertar a recordação das tais coisas boas.
Outro aspecto que chama logo a atenção é o factor visual, em que as imagens se ajustam na perfeição às várias categorias enumeradas no livro, contribuindo também para alimentar a inspiração. E assim, além de um livro diferente, trata-se também de um livro bonito, o que acrescenta ainda um pouco mais à magia do conceito.
E depois há os pequenos textos a apresentar cada categoria. Sim, é provável que o mais importante seja o que quem o preenche tem para recordar. Mas há, naquelas curtas palavrinhas, uma certa insinuação de liberdade, quase como que uma compreensão sem reservas, que, além de inspirar, incentiva, pois realça o carácter pessoal e intransmissível das memórias. E assim, retira-lhe todos os julgamentos.
A soma de tudo isto é, pois, um desafio à criatividade - e, acima de tudo, à memória. Memória das coisas que nos fazem sonhar, das que nos fazem sorrir, das que nos fazem felizes. E é isso que tanto cativa para este Livro das Coisas Boas - um livro bonito, divertido, desafiante e que podemos tornar nosso. Para folhear, para ler... e, sim, para preencher. Recomendo. 

Título: O Livro das Coisas Boas
Autor: Marta Spínola
Origem: Recebido para crítica