quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Viver Sem Ti (Jojo Moyes)

Ter conhecido Will Traynor mudou-lhe a vida. Louisa já não é a mesma mulher que pouco conhecia do mundo e sem grandes aspirações na vida. Mas também não é o que esperava ser. Os meses que passaram desde o desaparecimento de Will deixaram-na num limbo entre a pessoa que era antes e aquela em que se devia tornar. E, quando um acidente a leva de volta a casa dos pais, Lou começa a aperceber-se de que o que fez da sua vida está muito longe do que Will teria desejado. Precisa de mudar. Precisa de viver. E, quando um fantasma do passado de Will lhe bate à porta, Louisa percebe que não tem mesmo alternativa. Tem de fazer alguma coisa. 
Tendo em conta a forma como terminou a história de Viver Depois de Ti e o facto de este livro ser uma sequela, há inevitavelmente algumas dúvidas no pensamento ao partir para esta leitura. Até que ponto faz sentido continuar a história depois daquele final? E será possível construir uma história igualmente cativante quando uma das melhores personagens não está lá? A resposta está bem presente neste Viver Sem Ti: sim, faz sentido. E sim, é possível. E funciona, por várias razões.
Um dos aspectos mais positivos deste livro é que, apesar da inevitável falta de Will, há, ainda assim, uma memória bem presente, não só no aparecimento de uma nova personagem, mas principalmente na forma como as várias personagens que o conheceram lidam com a sua ausência. Claro que o impacto é mais evidente na história de Louisa, até porque continua a ser ela a narradora e, por isso, as suas emoções e pensamentos surgem com maior nitidez. Mas também na família de Will, bem como na da própria Louisa, se nota uma certa influência, que, além de reforçar a ideia central deste segundo livro - a necessidade de seguir em frente - , cria também uma ponte entre as duas histórias.
Também particularmente interessante é a forma como a autora desenvolve as personagens, realçando tanto as suas características essenciais como o potencial para evoluir. Mais uma vez, é em Louisa que isto mais se nota, mas também em Lily e, ainda que de forma mais discreta, em muitos outros intervenientes nesta história. Todo o percurso de Louisa é uma evolução, aliás. Mas se, no primeiro livro, era a descoberta de uma vida com menos medo, agora é a da vida depois da perda. Evolução que significa superação e também mudança. 
E depois há aqueles traços que parecem ser característicos dos livros desta autora: a escrita cativante, as personagens interessantes, uma história que vive tanto dos momentos leves e divertidos como das situações mais comoventes e em que as ideias - e a mensagem - passam mais através dos actos que das palavras. Tudo isto num equilíbrio quase perfeito, em que tudo surge na medida certa, sendo assim tão facilmente capaz de arrancar lágrimas como gargalhadas.
A ideia que fica é, portanto, a de uma sequela surpreendentemente bem conseguida para uma história que parecia não precisar de uma. A história de uma vida depois da perda, e para além dela, em que todos os momentos contam e há sempre uma surpresa à espera ao virar da esquina. Vale muito a pena reencontrar estas personagens, portanto. E segui-las nesta nova fase da aventura.

Título: Viver Sem Ti
Autora: Jojo Moyes
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Guerra e Paz

Há bichos selvagens aos saltos na história da literatura. Do cão de Ulisses à baleia de Jonas, os nossos livros fundadores cercam-nos de animais. Neste Livro Amarelo, Mark Twain e Rudyard Kipling fazem de uma rã saltadora e de um heróico mangusto, os protagonistas de dois contos exemplares. Dois contos que estão longe de ser contos gémeos. O de Mark Twain é marcado por uma viva ironia. O de Kipling, por um amável moralismo. Mas são ambos contos próximos da oralidade: Mark Twain escreve de ouvido; Rudyard Kipling escreve para o ouvido. Dois hinos à leitura numa edição bilingue.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Resultado do passatempo A Espia

Chegámos ao fim do passatempo e é hora de anunciar quem vai receber em casa um exemplar do novo romance de Paulo Coelho, A Espia. 

E o vencedor é...

21. Aurora Augusto (Palmela)

Parabéns e boas leituras!

terça-feira, 27 de setembro de 2016

A Sombra de um Passado (Carina Rosa)

Após anos de rebeldia e de uma falsa liberdade, Clara construiu finalmente uma vida estável e feliz ao lado de Santiago. Casou, teve uma filha e estão agora a construir a casa com que ela sempre sonhou. Mas tudo fica em perigo quando o grande fantasma do seu passado volta a surgir. Em tempos, Hugo salvou-a das mãos de um pai agressivo, mas o preço a pagar foi demasiado caro. Agora, passados dez anos, Hugo saiu da prisão e está disposto a tudo para recuperar Clara, que vê como o seu troféu e sua por direito. Esconder o passado e ignorá-lo deixa então de ser uma opção para Clara. Mas como contar ao homem do seu presente que o seu amor do passado não está esquecido?
Centrado na dualidade entre os dois tipos de amor da vida de Clara e, desta forma, na relação da protagonista com os dois homens da sua vida, este é um livro que se divide essencialmente em duas facetas: por um lado, a do perigo potencial, com a forma de lidar com a obsessão e perseguição de Hugo a destacar-se neste aspecto, e por outro o impacto emocional das memórias, com uma Clara dividida entre um amor que parece mais sólido, mas menos intenso, e a memória de uma aparente liberdade que deixou sentimentos profundos. Tudo isto cria um equilíbrio intrigante, pois fica sempre a vontade de saber mais: o que aconteceu, primeiro, depois o que se seguirá, que escolhas fará Clara e de que forma essas escolhas virão a influenciar o futuro.
Outro aspecto curioso nesta história é que, apesar da divisão clara entre o amor dedicado e o amor doentio, as linhas que separam Hugo de Santiago não são assim tão óbvias, principalmente no que ao coração de Clara diz respeito. A vida calma e feliz do presente nem sempre parece chegar para afastar o apelo do passado e a forma como a autora desenvolve isto faz com que a história se torne imprevisível. Talvez nem sempre, talvez não na grande conclusão. Mas nas escolhas que, ao longo do caminho, vão conduzindo as personagens ao desenlace final.
Contraditórias por natureza e capazes de uma surpreendente volatilidade de sentimentos, nem sempre é fácil sentir empatia para com estas personagens. A divisão de Clara entre os dois homens da sua vida leva-a, por vezes, a escolhas difíceis de compreender e o mesmo acontece com algumas das atitudes de vários outros intervenientes, o que cria uma certa distância relativamente à situação emocional das personagens. Ainda assim, a fluidez da escrita, a intensidade dos momentos mais marcantes e a envolvência geral do enredo compensam em grande parte este ocasional distanciamento emotivo. E, assim sendo, a leitura nunca deixa de cativar. 
A impressão que fica é, pois, a de uma boa história, em que personagens complexas e humanas vivem uma história que é tanto de amor e de obsessão como de escolhas e das suas consequências. Intrigante, de leitura agradável e com vários momentos intensos, uma boa leitura. 

Autora: Carina Rosa
Origem: Recebido para crítica

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Corações da Escuridão (Laura Kaye)

Depois de um dia terrível no trabalho, Makenna James vê-se finalmente perante um pequeno laivo de sorte quando um perfeito desconhecido lhe segura a porta do elevador para que ela tenha tempo de o alcançar. Não chega a vê-lo, apenas a tatuagem que lhe cobre a mão, mas esse pequeno gesto basta para lhe animar ligeiramente o dia. Mas, de repente, e já fechada no elevador com o seu Bom Samaritano, eis que as luzes se apagam... e tudo muda. Caden Grayson, o seu tão prestável estranho, tem um problema com espaços fechados e escuridão, e não há sinais de a luz voltar nem de o elevador voltar a mexer-se. Para combater o pânico, Caden dá por si a falar com Makenna. E, ao longo da conversa, ambos começam a descobrir que têm muito em comum. Incluindo química...
Relativamente breve e centrado quase exclusivamente na interacção entre os dois protagonistas, este é um livro que vive, em grande parte, da história do que acontece no interior do elevador. E o que acontece lá dentro define-se essencialmente em três fases - estranheza, simpatia e sensualidade. Em pouco mais de cento e cinquenta páginas, a autora faz os seus protagonistas percorrer este curto - mas tão atribulado - percurso, fazendo-os passar de perfeitos desconhecidos a uma interacção tão simples e natural que acaba por cativar muito facilmente.
Claro que o cerne da história é o romance entre os protagonistas, um romance que cresce a partir do constrangimento, passando por uma conversa tão intrigante quanto divertida e passando depois para uma atracção mais física, mas em que os sentimentos parecem também querer insinuar-se. É, pois, este percurso a base da história e o elemento dominante ao longo de todo o enredo. Mas acontece que há uma outra faceta para a história, nomeadamente no que diz respeito aos medos de Caden, mas também à vida pessoal de Makenna, e é neste aspecto que fica a sensação de que mais haveria a dizer. O essencial está lá, é verdade, e, no que toca ao romance e ao aspecto sensual, as coisas parecem evoluir ao ritmo certo. Seria interessante, ainda assim, saber mais sobre as personagens para além do que se tornam um para o outro.
Ainda um outro aspecto que importa referir sobre este livro é a escrita. Sendo uma história em que abundam os momentos mais sensuais, principalmente na segunda metade do livro, torna-se particularmente interessante a forma como a autora desenvolve esta faceta, escrevendo cada momento com as medidas certas de erotismo e de emoção e, assim, realçando tanto o aspecto físico da relação entre os protagonistas como a crescente proximidade emocional.
A impressão que fica é, pois, a de uma leitura breve e bastante simples, mas com uma história cativante, personagens interessantes e um romance que flui de forma natural. Uma boa história, portanto, e uma autora que vale a pena descobrir.

Título: Corações na Escuridão
Autora: Laura Kaye
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

O Meu Nome é Lucy Barton (Elizabeth Strout)

Algumas complicações inexplicáveis na sequência de uma cirurgia que devia ter sido simples levam Lucy Barton a passar nove semanas numa cama de hospital. Aí, com saudades das filhas e a sentir-se vulnerável, Lucy acorda uma manhã para uma surpresa: a presença da mãe, que há muito não via, aos pés da sua cama. Durante cinco dias, mãe e filha trocam mexericos e impressões sobre os outros, evitando, tanto quanto possível, falar das suas própria vidas. E Lucy recorda as suas raízes, o que a fez afastar-se da terra que a viu crescer. E as marcas que, antes e depois do tempo passado no hospital, seriam uma presença constante no seu caminho.
Narrado na primeira pessoa e alternando entre diferentes pontos na linha temporal da narrativa, este é um livro que tem como principal peculiaridade a forma como tem tanto de relevante no que é dito como no que é apenas insinuado ou simplesmente deixado por dizer. A vida de Lucy, principalmente na sua relação com os pais e os irmãos, mas, até certo ponto, também no que respeita ao seu próprio casamento, é-nos contada sob a forma do que parecem ser fragmentos de memória, deixando como que nas entrelinhas uma parte da história que apenas se vislumbra ou imagina. E isto desperta sentimentos contraditórios: por um lado, espera-se uma confirmação dos factos que são insinuados; por outro, na forma como a protagonista evita certas memórias e assuntos, sente-se o impacto emocional que estes têm nela. 
Ora, isto cria um estranho contraste. Da infância de Lucy, onde pobreza e maus-tratos se misturam, emergem sentimentos ambíguos, que se reflectem também na forma como ela e a mãe interagem no hospital. E ambíguos porque amor e ódio parecem cruzar-se num fio muito ténue, onde os ressentimentos e um amor inabalável parecem, ainda e sempre, coexistir.
O resultado é um equilíbrio delicado, sustentando também pela forma como a narrativa é construída. Ao percorrer os pensamentos e memórias de Lucy, deixando, por vezes, a definição de uma linha narrativa precisa para segundo plano, a autora aproxima-se mais da tal ambiguidade de sentimentos que parece caracterizar a situação da protagonista. E os capítulos curtos, quase que resumidos ao mais simples do essencial, reforçam essa impressão. Importa aquilo que ficou na memória. O resto é secundário.
Fica, sim, uma curiosidade insatisfeita, uma vontade de saber mais sobre a parte da vida que Lucy guardou para si. Mas também isto tem uma certa razão de ser: na vida, nunca temos todas as respostas e há partes que são deixadas algures num sítio de onde dificilmente voltam a emergir. E assim, o percurso mental e emocional de Lucy acaba por fazer todo o sentido. Tal como a sua história - incluindo a parte que fica por contar. 
Breve e aparentemente simples, mas com uma delicada teia de contrastes a sustentar as memórias da protagonista, este é, portanto, um livro que facilmente cativa. Deixa, no fim, uma certa vontade de saber mais, é verdade. Mas é também por isso que faz pensar. 

Título: O Meu Nome É Lucy Barton
Autora: Elizabeth Strout
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Picada Mortal (Rex Stout)

Quando recebe a visita de Maria Maffei, cujo irmão se encontra desaparecido, Nero Wolfe não julga ter pela frente um caso capaz de lhe despertar grande interesse. Mas isso não tarda a mudar, quando, numa investigação feita por descargo de consciência, o seu ajudante, Archie Goodwin, descobre que o desaparecido recortou do jornal uma notícia sobre a morte de um eminente professor universitário. E quando Carlo Maffei aparece morto e novas pistas vêm à superfície, a relação entre as duas mortes começa a tornar-se evidente - pelo menos para alguém com as afinadas capacidades de raciocínio de Nero Wolfe. As provas não são muitas e, por isso, é preciso agir com todo o cuidado. Mas, pouco a pouco, Archie e Wolfe começam a aproximar-se da verdade. E a retaliação do assassino não se faz esperar.
Primeiro volume de uma extensa série dedicada aos casos investigados por Nero Wolfe e o seu fiel ajudante, este é um livro que cativa, acima de tudo, pela peculiaridade. Peculiaridade do enredo, desde logo, mas acima de tudo das personagens. E há, desde logo, um aspecto curioso. É que este pode ser o primeiro caso a ser narrado, mas há outros, anteriores, que vão sendo referidos ao longo do enredo, e que permitem entrar na história - e na relação entre os protagonistas - de uma forma mais fluída e natural. Ora, isto é mais do que o suficiente para despertar curiosidade e, à medida que vamos conhecendo melhor as excentricidades de Wolfe (e não só, diga-se), toda a narrativa ganha uma nova intensidade, pois facilmente as personagens se tornam familiares.
Outro aspecto que importa referir é que este é o tipo de policial que vive mais da racionalidade do que do perigo. Sim, há momentos arriscados, mas o essencial da história são os passos dados pelas personagens em direcção à resolução do mistério, partindo quase que de palpites e suposições aparentemente pouco plausíveis, para depois seguir até às derradeiras revelações.
O que me leva ao ponto fulcral deste livro: a revelação da identidade do culpado. Ora, tendo em conta o rumo da história, não se pode dizer que seja particularmente difícil identificar o assassino. Mas se é verdade que , neste aspecto, a história se torna um pouco previsível, também o é que, se a resposta parece fácil, já os métodos para lá chegar são deliciosamente intrincados. E acaba por ser precisamente esse o ponto forte desta história: a forma como tudo aponta para a resposta, mas, ainda assim, são muitos os pontos de interesse ao longo do caminho que leva até lá. 
Da soma de tudo isto, fica a ideia de uma leitura intrigante, surpreendente na construção (ainda que não muito na revelação do mistério) e em que os protagonistas se revelam, em toda a sua excentricidade, como duas figuras fascinantes e que vale a pena acompanhar. Vale, pois, a pena ler este Picada Mortal e ficar a conhecer Nero Wolfe e Archie Goodwin.

Título: Picada Mortal
Autor: Rex Stout
Origem: Recebido para crítica