quinta-feira, 27 de abril de 2017

Divulgação: Novidade Guerra e Paz

Escrever é a paixão de milhares de pessoas. Todos sonham publicar o que escrevem, seja num livro tradicional ou num blogue moderno. Contudo, poucos perdem tempo a melhorar o que verdadeiramente importa num escritor: a escrita. Este é o livro que ensina a transformar a escrita, a frase, em música.
É do senso comum que a escrita, a boa escrita, deve-se a algum tipo de génio inexplicável, que só poucos possuiriam. Nada mais falso! É verdade que ganhar o Nobel não é algo que esteja à mão de semear, mas escrever melhor não tem que ver com génio, antes com trabalho. E com técnica. Ao alcance de todos.
Em Cem Maneiras de Melhorar a Escrita, Gary Provost desvela os segredos, os truques e as estratégias necessários para escrever um texto enxuto e legível. Sabe o que é uma frase tópica? Como ultrapassar bloqueios criativos? O que distingue um texto enfadonho de um empolgante?
Finalmente em português, cem conselhos fundamentais para futuros escritores, num guia incontornável das artes da escrita. Com exemplos adaptados para português por Marco Neves, autor de A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa.

Gary Provost. (1944-1995) foi um escritor e professor norte-americano. Após ter terminado o secundário, recusou um trabalho respeitável num banco e andou um ano à boleia, percorrendo a América. Depois decidiu ser escritor. Durante dez anos, publicou sete romances e, ao fim dessa década, dedicou-se à não-ficção. Trabalhou como jornalista freelancer, colaborando com vários jornais e revistas.
Em 1980, lançou o seu primeiro livro sobre escrita, Make Every Word Count, que rapidamente se tornou um sucesso de vendas. Nos anos 80 e 90, continuou a publicar livros, fez conferências e deu cursos, em várias cidades dos EUA, ensinando a arte da escrita e partilhando o saber acumulado ao longo a sua carreira de homem de letras. O livro Cem Maneiras de Melhorar a Escrita, publicado em 1985, converteu-se numa lenda, com sucessivas reedições. Finalmente, é agora publicado em Portugal.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Imaculada (Paula Lobato de Faria)

1956. A vida na província é pacata, sossegada. O pensamento dominante rege-se por linhas muito claras e ai de quem ousar contrariá-las. E ninguém sente tanto isso como Cristiana Correia que, sob o olhar atento e controlador da mãe, sabe que nunca poderá transgredir. Noiva do melhor amigo do irmão, Cristiana conformou-se ao destino que lhe escolheram, de modo a evitar confrontos cujas consequências não pode prever. Mas há um destino diferente à sua espera e, quando vai passar férias a casa da melhor amiga, Cristiana cruza-se pela primeira vez com um homem capaz de lhe arrebatar o coração. A paixão é forte, arrebatadora, irresistível. Mas numa sociedade de convenções tão rígidas, poderá Cristiana desafiar todas as regras? E, mesmo que esteja, será isso suficiente quando todo o mundo parece opor-se ao seu amor?
História de amores e de convenções questionadas e, ao mesmo tempo, retrato dos pensamentos e costumes de uma época, poder-se-ia dizer que este romance se forma a partir de duas facetas complementares. Por um lado, os amores possíveis e impossíveis, os sentimentos a surgir num mundo de regras muito estritas. Por outro, essas mesmas regras, a forma como toda uma existência é condicionada pelas convenções, pelos bons costumes, pelo que as pessoas vão dizer. E a forma como a autora entrelaça estes dois fios tão complexos é algo de surpreendente e fascinante: primeiro, porque tudo converge num todo harmonioso. Mas principalmente pela forma como conduz o enredo, partindo do que parece ser uma inocente história de amor para algo mais complexo e intrincado, cheio de traições e intrigas maquiavélicas e onde a inocência só parece ter direito a um lugar: o da vítima a ser sacrificada. 
Ainda que o amor de Cristiana seja a base central de grande parte dos acontecimentos, a narrativa acaba por ser muito mais que uma história de amor. Há a história do irmão de Cristiana, a intriga política, a teia de segredos dos Correia, com todas as consequências que poderá vir a trazer. E tudo isto converge num enredo que começa por parecer bastante simples, mas que, à medida que desvenda a sua verdadeira complexidade, ganha uma maior dimensão - e um novo fascínio. Fascínio que se estende também a forma como a autora constrói as suas personagens, revelando-as primeiro no rosto que mostram ao mundo e depois na sua verdadeira natureza, despertando empatias para depois as destroçar e, num cenário onde tanto é falso e moldado à imagem das aparências, reforçando o poderoso impacto do que são as verdadeiras emoções.
E depois de tudo isto - das intrigas, dos pecados escondidos, das transgressões cometidas em nome da moral e dos bons costumes e das traições justificadas por interesses pessoais - há Nils, talvez a personagem mais constante em toda esta história e, por isso mesmo, uma âncora firme neste mundo tão mutável. Carismático e impressionante, consegue ser a alma da história mesmo quando passa para segundo plano. E, tendo em conta a forma como tudo se conclui, deixando tantas provações para trás, mas também várias questões por resolver, a constância de Nils acaba por ser o que mais fica na memória... numa história em que demasiadas personagens parecem dispostas a esquecer.
Retrato de uma sociedade (demasiado) conservadora e história de um amor contra o mundo, trata-se, em suma, de um livro memorável. Pelo enredo, pelas personagens, pela pertinência com que realça as contradições das mentalidades fechadas. E, acima de tudo, pela voz com que dá forma aos momentos mais negros e às mais intensas emoções, sem nunca seguir pelo caminho fácil... mas deixando um pouco de esperança ali tão perto. Marcante, surpreendente e emotivo, um livro que prende do início ao fim. E que, por isso, não posso deixar de recomendar. 

Título: Imaculada
Autora: Paula Lobato de Faria
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 25 de abril de 2017

O Meu Pai é o Melhor do Mundo

Lembram-se de quando eram crianças e, na escola ou em casa, faziam postais e presentes improvisados para oferecer à família nas datas especiais? Era divertido, não era? Bem, a impressão que este livro deixa é um pouco a dessa ideia elevada a um nível mais amplo, desafiando o seu leitor (ou, melhor dizendo, autor) a criar um álbum de momentos especiais para oferecer ao pai. E o tipo de actividades que propõe é bastante diverso, desde o simples preencher de informações essenciais, ao desfiar de memórias e características marcantes (de pai e filho), passando, claro, pelas fotografias que perpetuaram alguns desses momentos mais especiais. A ideia? Dizer, de uma maneira criativa, porque é que o pai é o melhor do mundo. O resultado? Cheio de possibilidades.
Sendo um livro pensado para ser um presente - e um presente elaborado pelos mais novos - há, desde logo, duas características essenciais: primeiro a simplicidade, desafiando a criança a ser criativa, mas sem pedir impossíveis; e segundo, a originalidade, pois o próprio aspecto visual do livro apela a criar coisas novas. É este aspecto, aliás, o que primeiro chama a atenção. Cheio de cor, tem um aspecto cativante e engraçado mesmo antes de se começar a preencher. E isso basta para despertar a imaginação. O resto fica a cargo do leitor - perdão, do autor.
Mas fica também uma outra impressão: ao folheá-lo, e imaginá-lo preenchido, surge logo como que uma ideia do tipo de emoções que um presente destes poderá despertar. Por um lado, preenchê-lo é evocar memórias felizes, pontos comuns, todo o tipo de coisas boas - o que não deixa de ser uma bela forma de reforçar afectos. Por outro, para quem o recebe, recordar esses mesmos momentos e ver-se pelos olhos de quem o preencheu também não deve ter um efeito muito diferente. 
A ideia que fica é, por isso, a de um livro potenciador de ternura. Bonito, criativo e cheio de possibilidades, representa ao mesmo tempo uma bela actividade para os mais novos e um presente bastante terno para os melhores pais do mundo - os dos respectivos autores, naturalmente. Um belo desafio, portanto, e um presente muito promissor a ter em conta para uma ocasião especial.

Título: O Meu Pai é o Melhor do Mundo
Origem: Recebido para crítica

domingo, 23 de abril de 2017

A Maldição do Vencedor (Marie Rutkoski)

Enquanto filha do general, Kestrel sabe que só tem duas opções: alistar-se no exército, e manter a sua independência sob as ordens do pai, ou casar-se e renunciar-lhe por completo. Mas o destino tem outros planos para ela. Tudo começa quando, quase sem saber porquê, decide comprar um escravo por um preço exorbitante. De nome Arin, parece não se submeter de boa vontade ao seu destino, e contudo cumpre imaculadamente as ordens que lhe são dadas. E se a compra em si basta para fazer de Kestrel tema dos mexericos da sociedade, as coisas tornam-se ainda mais complexas à medida que ela começa a fazer-se acompanhar do seu novo escravo. Kestrel, porém, não consegue evitar o fascínio que sente por Arin - e por um passado que ele parece querer esconder o mais longe possível. Mas Arin tem um segredo. E, quando este se revelar, as consequências serão devastadoras... e o mundo de Kestrel poderá nunca mais ser o mesmo.
De todas as qualidades que este livro tem - e, permitam-me dizê-lo, é um livro cheio de qualidades - a que primeiro chama a atenção e também a que mais fica na memória é a capacidade de despertar emoções fortes. Bastam as circunstâncias em que tudo o começa para despertar uma certa empatia para com as personagens - e para sentir que o que se seguirá nunca, mas nunca será fácil. E, a partir deste ponto, a forma como a autora entretece segredos e revelações, aproximações e rupturas, perigos, conflitos e sacrifícios dá forma a um turbilhão de emoções em que, tanto nos grandes momentos como nas pequenas coisas, há toda uma base de sentimento que é muito difícil não admirar. 
Para isto, contribuem também as personagens. Claro que as mais marcantes são os protagonistas, Kestrel e Arin. Kestrel, reflexo da sua educação de filha de conquistador, e porém capaz de questionar, de ponderar, dividida entre lealdades e convicções do que está certo. E Arin, o mistério em forma humana, filho de um povo escravizado, mistura da matéria de que se fazem os heróis e os mártires e também ele dividido entre o que sente e a lealdade que deve ao povo a que pertence. São ambos intrigantes, ambos complexos. E, juntos, formam uma teia de momentos intensos, de verdades difíceis e de um potencial tão vasto que facilmente se quer conhecê-los, desvendá-los... admirá-los.
Mas há ainda um outro ponto a reforçar este equilíbrio delicado. Sim, a história centra-se em grande parte no que sucede com Arin e Kestrel. Mas, em torno deles, há um sistema com um imenso potencial, cheio de segredos e possibilidades. Sistema em que é fácil reconhecer as influências históricas, mas também uma identidade própria que desde muito cedo se afirma, conjugando assim da melhor maneira o novo e o familiar, numa narrativa em que contexto, personagens e enredo parecem conjugar-se num todo quase perfeito.
Trata-se do início de uma trilogia e, assim sendo, são inevitáveis as perguntas sem resposta, guardadas as explicações para o que virá a seguir. Mas é interessante a forma como a autora encerra este primeiro volume, deixando novos caminhos e novas possibilidades para o futuro das personagens (e uma grande declaração, que é também uma grande pergunta sobre o futuro, como conclusão do livro), mas como que encerrando uma fase da vida das personagens. O que vem a seguir será diferente: parece ser essa a promessa deste final. E também isso contribui em muito para despertar curiosidade acerca do que virá.
Com um leque de personagens fortes, um cenário complexo e um enredo à altura das figuras que o habitam, a impressão que fica deste A Maldição do Vencedor é a de um livro intenso, muito emotivo e cheio de surpresas. Enquanto início de série, dificilmente poderia ser mais promissor. E o resto... o resto define-se numa palavra: apaixonante. 

Título: A Maldição do Vencedor
Autora: Marie Rutkoski
Origem: Aquisição pessoal

sábado, 22 de abril de 2017

Hamsters de Biblioteca (Gonçalo Condeixa e Fernando Évora)

Avulsa é uma cidade invulgar. Em vez de dominada por um castelo ou por uma igreja, tem como edifício central uma biblioteca. Biblioteca essa que é também o cerne de toda a vida no local, severamente conduzida pela figura da Velha Bibliotecária, tão rígida e impressionante que até aos pássaros é capaz de impor silêncio. Mas Avulsa é também uma cidade de contrastes e estranhezas, tanto entre os diversos locais que nela existem como entre os próprios habitantes. Boémios, marinheiros que aspiram a ser heróis, filósofos com aspirações estranhas, uma condessa e uma cunicultora... Cada uma destas personagens tem a sua história e, através dela, uma mensagem a transmitir sobre os bons costumes da sociedade de Avulsa. Mas eis que um dia... a bibliotecária parte! Quem tomará o seu lugar? E ficará tudo na mesma... ou trará a nova bibliotecária novos hábitos para modernizar Avulsa?
Peculiar em todos os aspectos e por isso mesmo fascinante, este é um livro que cativa, em primeiro lugar, pelo aspecto visual. Profusamente ilustrado, apresenta para cada pequena história (ou, melhor dizendo, para cada fragmento da grande História de Avulsa) uma ilustração que não só corresponde ao que é narrado no texto, como lhe confere uma perspectiva mais vasta. E, assim, cria-se entre as duas partes um equilíbrio que cativa desde o primeiro olhar e que só sai reforçado após a leitura das histórias.
Também interessante é a tal dualidade das histórias individuais que moldam um todo maior. Cada um dos pequenos textos é, em si, uma unidade completa. Mas é da conjugação de todos e dos múltiplos passos que conformam que se traça o retrato global da história moderna de Avulsa. E essa história torna-se ainda mais fascinante por se construída a partir de uma sucessão de pequenas. No fim, fica-se com uma imagem de evolução - mas de uma evolução que tem o seu preço sobre a vida dos habitantes de Avulsa. Como na realidade, não é? Tudo tem o seu preço. E essa mensagem, tão clara, tão evidente, torna este tão estranho cenário de Avulsa muito mais realista do que à primeira vista poderia parecer.
E depois há a estranheza, a peculiaridade de tudo isto. Aquele tipo de estranheza que se reconhece à primeira vista, mas que porém se desenvolve com tal naturalidade que tudo parece lógico e simples e claro. Não há neste pequeno livro uma única figura que corresponda estritamente aos padrões da normalidade. Mas é precisamente isso que as torna tão intrigantes. E, quando a história se traça através de tão ilustres personagens, um leve toque de bizarria só torna tudo mais interessante. 
Breve, mas com uma complexidade muito sua. Directo, mas cheio de pequenas surpresas escondidas nos detalhes. Cativante, surpreendente e visualmente muito bonito. Tudo isto se aplica na perfeição a este Hamsters de Biblioteca. História de um estranho lugar e das suas estranhas gentes - num mundo que poderia estar bem distante, mas cuja verdade está aqui tão perto. Recomendo.

Título: Hamsters de Biblioteca
Autores: Gonçalo Condeixa e Fernando Évora
Origem: Recebido para crítica

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Divulgação: Novidade Quinta Essência

As suas vidas eram perfeitas... até se conhecerem um ao outro. Lady Hero Batten, a bela irmã do duque de  Wakefield, pode gabar-se de ter tudo. Até está noiva do cobiçado marquês de Mandeville. Ele pode ser um nadinha enfadonho, e não ter qualquer sentido de humor, mas isso não é nada que a incomode... até ao dia em que conhece o irmão dele... Griffin Remmington, Lorde Reading, está longe de ser perfeito. Leva um estilo de vida debochado e entrega-se a actividades pouco recomendáveis, mas é divertido, e o seu sentido de humor não tem par. No momento em que o conhece – numa posição deveras comprometedora, por sinal  -  Hero percebe que um homem detestável como ele não pode ter lugar na sua vida. Mas a constante batalha de vontades entre os dois não tarda a atear as chamas do desejo....
À medida que se aproxima o dia do casamento de Hero, é preciso colocar tudo na balança. Existirá de facto algum futuro para o casal mais inesperado do mundo?

Elizabeth Hoyt nasceu em Nova Orleães, EUA, onde a família da mãe vive há várias gerações, mas foi criada nos invernos gélidos de St. Paul, no Minnesota. Tem uma licenciatura em Antropologia. Conheceu o marido, arqueólogo, numa escavação num campo de milho, e desde então ambos tentam passar férias que acabem invariavelmente em sítios arqueológicos. A família Hoyt vive no centro do Illinois, com os seus dois filhos, três cães e um jardim que Elizabeth cuida com entusiasmo.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Rapariga em Guerra (Sara Nović)

Ana tem dez anos e uma vida normal para o seu tempo. Até ao dia em que a guerra chega a Zagreb. A partir daí, as limitações começam a tornar-se maiores, o medo uma constante, a dúvida sobre o que poderá acontecer cada vez mais terrível. E, com uma irmã doente, Ana sabe que a família tem de correr riscos - riscos que podem implicar consequências fatais. Sobreviverá, porém. E, dez anos depois, em Nova Iorque, um reencontro com o medo fá-la questionar todo o passado que tão cuidadosamente escondeu. Sabe, então, que tem de regressar a casa, se é que tem uma casa a que voltar. E, em Zagreb, esperam-na todas as memórias e as verdades mais difíceis de aceitar. É que sobreviver é uma coisa. Viver com isso é outra completamente diferente.
Narrado do ponto de vista da protagonista e oscilando entre diferentes pontos no tempo, este é um livro que cria impressões divergentes. Por um lado, a Ana de dez anos traça o retrato da guerra vista por olhos inocentes - até que a inocência deixa de existir. Por outro, a Ana adulta sabe o que viveu, mas questiona a fiabilidade da memória e as escolhas que deixou para trás. E, assim, o mundo ganha perspectivas diferentes - o mundo em que Ana se move, as mudanças globais que a guerra (e o pós-guerra) despertam, a superação (ou não) dos traumas vividos. A ideia que fica é, pois, a de um enredo multifacetado: história de crescimento, memória de guerra, análise pessoal sobre o trauma e a culpa de sobrevivente.
E todas estas facetas se conjugam num equilíbrio delicado, que a autora vai tecendo ao que parece ser o ritmo das memórias da protagonista. O passado e o presente de Ana, diferentes como parecem ser, estão, apesar de tudo, muito próximos, pois não há como fugir das sombras. E a forma como a autora constrói e reforça esta impressão constante - a de uma personagem em busca de respostas e, ao mesmo tempo, em fuga de si mesma - cria uma estranha proximidade, mesmo quando as escolhas e os pensamentos são difíceis de assimilar.
Há também vários aspectos impressionantes na forma como a autora relata a guerra. Grandes momentos, como a situação da barricada, a Casa Segura, a fuga, e também coisas que se transformam em rotina, como a partilha da bicicleta do gerador. Memórias que se insinuam aos poucos ou que surgem quando menos se espera, com toda a dura crueldade que reflectem, e que impressionam pela sua própria natureza e também pelo duro contraste com a estranha normalidade relativa de tudo o resto.
No fim, fica uma grande questão: e os outros? O que lhes aconteceu? É que toda a história de Ana converge para um ponto de viragem, de maior compreensão, e esse ponto acaba por abrir novas perguntas. Perguntas que nem sempre são respondidas e, ainda que isso faça todo o sentido - pois toda a guerra deixa os seus desaparecidos - fica sempre aquela vaga vontade de saber mais. De ver o futuro das personagens que ficaram para trás, e também o da própria Ana para lá daquele ponto de entendimento.
Não é uma leitura fácil, mas impressiona. E, no seu estranho equilíbrio entre o cruel e o rotineiro, com linhas nem sempre claras, mas marcas que se propagam muito para lá do momento, é um livro cuja relevância parece ser inesgotável. Marcante, complexo, impressionante, talvez não deixe todas as respostas. Mas, neste caso, são mesmo as perguntas o que mais importa. 

Título: Rapariga em Guerra
Autora: Sara Nović
Origem: Recebido para crítica