sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Por um Fio (Rainbow Rowell)

Georgie McCool está numa encruzilhada. Por um lado, o seu sonho de ter a sua própria série está prestes a realizar-se. Por outro, para o concretizar, precisa de renunciar ao Natal em família. E, quando o marido parte para Omaha com as filhas, deixando-a para trás, Georgie percebe que o seu casamento pode muito bem estar por um fio. De volta à casa da mãe para evitar a sua casa vazia, Georgie usa o telefone fixo para ligar ao marido. Mas o Neal que lhe atende o telefone não é o que partiu zangado com as filhas... mas antes o do Natal em que a pediu em casamento. Sem saber como explicar como ou porquê, Georgie dá por si com uma ligação directa ao passado. Mas há alguma coisa que possa fazer para salvar o que resta?
Uma das primeiras coisas a cativar neste livro - como, aliás, noutros da mesma autora - é a leveza da escrita. Tudo é narrado de forma muito simples, com a informação a surgir à medida que é necessária, sob a forma de memórias ou de pensamentos que vão ocorrendo aos próprios protagonistas. Além disso, há um certo sentido de humor que, nos momentos mais dramáticos ou mais caricatos, suaviza a tensão, o que, mesmo quando tudo é estranho, torna a história bem mais envolvente. E esta leveza acaba por se estender à própria história, que, mesmo quando trata de situações mais sérias, acaba por marcar tanto pela intensidade dos momentos emotivos como pelo estranho humor dos momentos mais bizarros.
Mas falemos da história. Tudo se centra essencialmente em dois aspectos: a relação de Neal e Georgie e a ligação entre presente e passado. Dois aspectos que, à medida que o enredo evolui, parecem fundir-se num só, pois a intervenção no passado - por mais estranha que pareça ser de início - acaba por ser fulcral para forma como tudo termina. É certo que ficam alguns pontos em aberto e situações por resolver, o que deixa uma certa curiosidade insatisfeita. Mas acaba também por fazer sentido, pois tudo começa com um ponto de viragem... e há sempre outros problemas a resolver depois.
Quanto às personagens, sobressai a forma como conseguem despertar sentimentos contraditórios sem por isso se tornarem incoerentes. Neal, sério e grave, mas com estranhos e deliciosos momentos de ternura. Georgie, obcecada pelo que quer, mas tão capaz de ver o que está errado como incapaz de perceber o que está mesmo à frente dos olhos. E as respectivas famílias e (no caso de Georgie) amigo, igualmente capazes de arrancar uma gargalhada, de mexer com os nervos de personagens e leitor ou de evocar o maior dos afectos. Ninguém é linear nesta história e, contudo, a leveza nunca se perde.
Da soma de tudo isto, surge uma leitura leve e divertida, mas com a dose certa de emoção. Uma história em que o amor - e tudo o mais que dá forma a uma relação - parece ser o verdadeiro protagonista, mas em que há espaço suficiente para tudo: mistério, humor e emoção. Vale, pois, a pena ler este Por um Fio. E conhecer as peripécias de uma viagem ao passado... diferente. 

Título: Por um Fio
Autora: Rainbow Rowell
Origem: Recebido para crítica

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Um Mundo de Jogos (Àngels Navarro e Jordi Sunyer)

Já todos ouvimos, a determinada altura, a famosa expressão "aprender brincando". Expressão essa que se ajusta perfeitamente a este livro, em que, através de um conjunto de ilustrações e de desafios, é possível puxar pelas capacidades mentais e pôr em prática conhecimentos adquiridos anteriormente - nas aulas de matemática, principalmente, mas não só. E, claro, escusado será dizer que é um livro para os mais novos. Mas que não deixa de ser um belo desafio para todos - novos e menos novos.
Há dois aspectos que importa destacar nesse livro: os jogos propriamente ditos e o aspecto visual. E é por este último que vou começar. É um livro grande (apesar das suas trinta e poucas páginas),  com ilustrações riquíssimas que, além de tornarem o livro mais bonito, têm um papel fundamental a desempenhar na formulação e resposta aos vários desafios. E é também um livro com uma organização peculiar, pois, se os tipos de jogo são relativamente similares nas várias páginas, os diferentes cenários e elementos contidos nas ilustrações, acrescentam-lhe ainda uma nova possibilidade: a de descobrir o mundo através dos jogos. 
Quanto aos desafios propriamente ditos, nota-se um predomínio dos números e da matemática, o que faz o seu sentido, tendo em conta que a utilização da lógica para encontrar respostas parece ser um dos pontos centrais deste conjunto de jogos. Mas há mais: encontrar coisas nas imagens, descobrir diferenças, palavras, símbolos... Há uma grande diversidade em termos de desafios e essa diversidade estende-se também ao grau de dificuldade, já que há respostas que são fáceis de encontrar e outras que nem tanto. 
A impressão que fica é, portanto, a de um livro bonito e divertido, bom para estimular a aprendizagem e o raciocínio... ou para relembrar conhecimentos já um bocadinho enferrujados. Uma boa descoberta para os mais novos e não só.

Título: Um Mundo de Jogos
Autores: Àngels Navarro e Jordi Sunyer
Origem: Recebido para crítica

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

A Liga dos Homens Assustados (Rex Stout)

Em tempos, na sequência de uma brincadeira que correu mal, um grupo de homens ficou para sempre em dívida para com a sua vítima e, em consequência disso, tomaram-na a seu cargo, adoptando entre eles o nome de Liga da Expiação. Mas agora a expiação começou deveras. Dois dos membros da liga morreram em circunstâncias misteriosas e, após as suas mortes, os restantes receberam um aviso em verso, insinuando que a vingança apenas começara. E, quando o terceiro membro desaparece, o medo dos restantes torna-se insuportável. É isso que os leva finalmente a Nero Wolfe, para que desmascare o (óbvio) suspeito e os livre do medo que lhe têm. Mas será o culpado tão óbvio como todos parecem crer? E até que ponto estão as mortes e os avisos realmente relacionados?
Segundo caso de Nero Wolfe e Archie Goodwin, e quase completamente independente do anterior (salvo algumas ténues referências), este é um livro que se lê facilmente sem qualquer conhecimento prévio das personagens. E, contudo, desde muito cedo fica a impressão de que vale a pena ler a série por ordem. É que, conhecidos os protagonistas do anterior Picada Mortal, é agora muito mais fácil reconhecer-lhes os modos e peculiaridades e, deste modo, entra-se mais facilmente no ritmo do enredo.
Mas também a estrutura do caso contribui para este ritmo mais lesto, mais intenso, mais cheio de reviravoltas. Isto porque o aparente culpado é-nos apontado logo nas primeiras páginas e tudo indica que toda a história consistirá em provar a sua culpa. Mas poderia ser assim tão simples? Claro que não. A culpabilidade ou não do principal suspeito pode ser garantida para alguns, mas a forma como o enredo é construído, levantando novas possibilidades sem necessariamente desmentir as primeiras passa de uma certeza óbvia para todo um conjunto de possibilidades. E, assim, ao longo da história, as convicções vão mudando, de tal modo que a verdadeira resposta - afinal, o suspeito óbvio é ou não o culpado? - só surge realmente no final. 
E, claro, depois há as personagens, sempre muito invulgares, mas, precisamente por isso, estranhamente cativantes. Nero Wolfe e Archie Goodwin são um poço de surpresas, naturalmente, em que tudo - desde uma percepção inesperada até ao próprio modo de falar - serve para cativar e surpreender. Mas também as personagens específicas do caso têm as suas peculiaridades - o que aliás contribui em muito para tornar a resolução mais interessante. Se a história é em si mesma surpreendente, os protagonistas dão-lhe uma nova vida com as suas peculiaridades. E a soma de tudo é, claro, um mistério mais denso - com uma resposta mais marcante.
A impressão que fica, portanto, deste livro é a de um mistério muitíssimo bem construído, com personagens tão surpreendentes como o próprio enredo e em que nada nem ninguém tem um papel tão simples como à primeira vista seria de esperar. Intrigante, surpreendente... e muito bom. 

Autor: Rex Stout
Origem: Recebido para crítica

Divulgação: Novidade Porto Editora

Miguel Sanabria, médico oncologista e professor universitário recém-reformado, vê a sua vida ser invadida por uma inquietação que rapidamente se tornará permanente e aflitiva. Entre Beatriz, esposa e fervorosa antichavista, e Antonio, irmão fiel ao radicalismo da revolução bolivariana, Sanabria está, tal como o país, encurralado e esmagado sob o peso de duas formas de vida. Quando de Cuba chega um telemóvel com vídeos surpreendentes dos últimos momentos do Comandante, o que fazer? «Que vida pode caber num telefone?» Hugo Chávez está doente, e arrastou consigo a Venezuela para a doença.
Em paralelo surgem histórias dentro da história, como a de María e Rodrigo, crianças que, na cidade mais perigosa do mundo, Caracas, se conhecem através de um computador e de uma ligação à Internet. Mas a todas é comum a mesma sensação de estranheza, um país que é uma incerteza perpétua, e, numa escrita de perfeito equilíbrio entre a tensão de virar a página e um olhar social clínico, Alberto Barrera Tyszka apresenta em Pátria ou Morte o retrato total da sociedade venezuelana, órfã do seu mito.

Alberto Barrera Tyszka (Caracas, 1960), até agora inédito em Portugal, é autor dos romances También el corazón es un descuido (2001), La enfermedad (Prémio Herralde de Novela 2006) e Rating (2011); dos livros de contos Edición de lujo, Perros e Crímenes; e dos livros de poesia Coyote de ventanas e Tal vez el frío. Em colaboração com a jornalista Cristina Marcano publicou a primeira biografia documentada do ex-presidente da Venezuela, Hugo Chávez sin uniforme. Una historia personal (2005). Licenciou-se pela Faculdade de Letras da Universidade Central da Venezuela, onde leciona a disciplina de Crónicas. Foi guionista de séries de ficção para as televisões da Venezuela, Argentina, Colômbia e México. É colaborador, entre outros, dos jornais El País, Letras Libres, Etiqueta Negra e Gatopardo e colunista do jornal El Nacional. Vive, desde há alguns anos, no México.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Divulgação: Novidade Guerra e Paz

Intriga, amor, violência, ciúme, paixão e tragédia. Que segredos esconde a língua portuguesa?

Tudo isto fez parte da vida de quem falou português ao longo dos séculos, uma língua que começou a ser germinada na voz daqueles que, há quase 2000 anos, na Galécia, falavam um latim popular com sotaque celta. A história surpreendente da nossa língua, contada como um romance.
Embarque na aventura da descoberta das raízes da língua portuguesa na companhia da família Contreiras e, entre factos reais e muita imaginação, conheça a nossa língua pela perspectiva de gente comum e de grandes escritores.
Acompanhe uma celta e um romano aos beijos, um amigo de Afonso Henriques à procura de mouras encantadas, Gil Vicente a perseguir um homem perigoso pelas ruas de Lisboa, uma coleccionadora de livros a fugir numa carroça para Amesterdão, Camões ao murro por causa duma dama da corte e muitas outras aventuras de que é feita esta história da língua portuguesa, recheada de deliciosas surpresas e um toque de humor.

Marco Neves nasceu em Peniche e vive em Lisboa. Tem sete ofícios, todos virados para as línguas: tradutor, revisor, professor, leitor, conversador e autor. Não são sete? Falta este: é também pai, com o ofício de contar histórias. Para lá das profissões, os amigos sempre lhe reconheceram a pancada das línguas.
É professor na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e director do escritório de Lisboa da Eurologos. Escreve regularmente no blogue Certas Palavras e é autor do livro Doze Segredos da Língua Portuguesa.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Oito anos


Oito anos. A sério? Já?... Ainda?

Sim, às vezes parece que ando nisto desde sempre. E às vezes parece que ainda ontem começou. Tempos houve em que a cada dia abria um livro novo e outros em que mal dava para dormir, quanto mais ler. 

E, contudo, o corvo lê...

Leio sempre e é assim que vai continuar a ser. Porque os livros - lidos, escritos, traduzidos - fazem-me feliz de uma maneira difícil de explicar, feita de tantos pequenos nadas que se tornam tudo... De frases que quase parecem escritas de propósito para mim, de personagens que, não existindo, dão a sensação de serem amigos de sempre, de momentos de riso, de lágrimas, de sonhar e de temer com um protagonista que parece falar ao coração... e tanto, tanto mais. Memórias, surpresas, reviravoltas e um mundo inteiro de sonhos ao virar de cada página.

Já passaram oito anos? Ainda só passaram oito anos... e há tanto ainda por ler. 

Por isto, por todas estas boas emoções que os livros me têm trazido... e mais! Pelas pessoas encantadoras que me deram a conhecer, pela descoberta de afinidades comuns, pela partilha de paixões... por uma parte da vida que se tornou tão vincada, tão forte, tão irresistivelmente sólida que quase se torna impossível viver sem... por isso, e por tudo o mais que possa vir, estes oito anos não são o fim, mas apenas um marco.

Porque enquanto ouvir livros para ler - e leitores que me queiram ler - eu cá estarei para vos contar que livros passam por aqui.

Muito obrigada a todos os que por cá passam e sejam sempre bem-vindos. :)

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Para Além dos Montes e Outras Histórias (Carla Mora)

Da vida no campo e do bulício das cidades. Das memórias do passado e dos futuros possíveis. Infância, juventude, envelhecimento. Homens, mulheres, animais, objectos. Tudo isto pode servir de base a uma história e serve, de facto, neste livro. Um livro em que cada conto é mais um fragmento de recordação ou de possibilidade do que propriamente uma longa história, mas em que há sempre algo de interessante para descobrir.
Um dos aspectos mais curiosos deste livro é que, lendo os contos pela ordem em que nos são apresentados, a impressão com que começa não é a mesma com que se termina. Dos primeiros, surge uma impressão quase que autobiográfica, em que cada conto é uma memória de um mesmo narrador. Depois, os protagonistas e narradores vão-se diversificando, as possibilidades vão-se expandindo e a imagem que fica do todo acaba por ser muito mais ampla. Continuam a ser fragmentos, mas já não apenas de memórias - ou, pelo menos, de memórias reais. À memória das pessoas junta-se a memória das coisas e, a partir de tempos, lugares e percepções diferentes, cada história acaba por ser um todo em si mesma - apesar de tudo o que deixa em aberto.
E é o que fica em aberto que deixa sentimentos ambíguos. Não é que as histórias não tenham o seu sentido tal como são, porque têm. Servem o seu propósito - nalguns casos de transmitir uma mensagem, noutros de simplesmente evocar um momento marcante - na sua brevidade. Mas fica sempre a vontade de saber mais, a dúvida sobre o que virá depois, ou o que aconteceu antes. No caso dos contos futuristas (uma surpresa particularmente agradável) a curiosidade insatisfeita quanto à forma como as coisas chegaram até ali. E é isto que deixa a sensação de que várias destas histórias podiam ter sido um pouco mais desenvolvidas, apesar de tudo o que é essencial estar lá.
Importa ainda falar da escrita, já que, apesar da brevidade dos contos, o tom é surpreendentemente pausado. Deve-se isto, em parte, à forte componente descritiva, que se entrelaça nas introspecções que parecem caracterizar a voz dos vários narradores. Ainda assim, há uma agradável fluidez neste recordar de locais e de momentos. E assim, entre a brevidade do texto e a ampla descrição dos ambientes, cria-se um estranho e cativante equilíbrio. Como se, apesar do que fica sem resposta e do foco nos locais que se recordam ou descobrem, tudo acabasse por ter a medida certa. 
Trata-se, portanto, de um livro breve, mas cativante, em que cada história é uma viagem a outro tempo ou a outro lugar e em que poucas páginas bastam para dar vida a cada novo narrador. Interessante, bem escrito e agradável de ler. Gostei.

Título: Para Além dos Montes e Outras Histórias
Autora: Carla Mora
Origem: Recebido para crítica